BURKE, Peter (org.): A Escrita da História. São Paulo: Editora UNESP, 1992, 360pp.

Renato Pignatari Pereira
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Quarto Ano - História/USP
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O livro A Escrita da História, de Peter Burke, publicado originalmente em 1991, discute as mudanças ocorridas na historiografia a partir do surgimento da corrente chamada Nova História. Para isso, vários novos temas da história, entre eles, a história das mulheres, o renascimento da narrativa, a história oral etc., merecem capítulos especiais. Os modos de escrever a História são o ponto central da obra.

O autor, tentando definir a História Nova, observa que a mesma se originou associada à Escola de Annales e que, além de lutar por uma história total, opõe-se totalmente ao paradigma tradicional da historiografia. 


Peter Burke
De acordo com Burke, a Nova História diferencia-se da tradicional em seis pontos: o paradigma tradicional diz respeito somente à história política, a Nova História, como dito anteriormente, preocupa-se com uma história total, onde tudo é histórico; a história tradicional pensa na história como narração dos grandes fatos, a nova preocupa-se em analisar as estruturas; a tradicional olha de cima, a nova, de cima, de baixo e de outros ângulos possíveis; documentos oficiais são os que interessam ao paradigma tradicional, o paradigma da Nova História aceita qualquer espécie de documento; o historiador tradicional explica por meio da vontade do indivíduo histórico, a Nova História preocupa-se com os movimentos sociais, as tendências; e, finalmente, o paradigma tradicional considera a História uma ciência objetiva, o paradigma novo não crê na possibilidade de uma objetividade total.

Peter Burke também observa que a História Nova não é assim tão nova e que já houve tentativas semelhantes anteriormente, também nota que a Nova História apresenta problemas relativos à definição, posto que os historiadores estão avançando em um território não familiar, estão pouquíssimo habituados a relacionar acontecimentos e estruturas, quotidiano e mudança, visão de cima e visão de baixo. Problemas relativos ao uso fontes também são apontados, essas novas fontes precisariam de uma nova crítica, de um novo método de trabalho. Por fim, Burke também percebe problemas de explicação e de síntese, e diz que a explicação estrutural, apesar de aumentar a interdisciplinaridade, muitas vezes não toma conta do fluxo do tempo, o qual é uma das preocupações do historiador, além disso, está cada vez mais difícil conseguir uma síntese, em decorrência da profusão de diferentes objetos.

O último capítulo do livro, A História dos Acontecimentos e o Renascimento da Narrativa, também escrito por Burke, está intimamente ligado à discussão referente aos métodos de explicação histórica propostos pelo paradigma da Nova História. Percebendo o retorno da forma narrativa à historiografia, o autor discute o grau de narratividade na historiografia contemporânea e observa alguns debates existentes ao redor do tema, apontando as principais tendências. Burke volta a falar sobre o debate entre paradigma tradicional e Nova História, partindo em seguida para a discussão iniciada na década de sessenta principalmente estadunidense ligada à narrativa. Destaca as idéias de Kracauer, Hayden White entre outros.
 


BURKE, Peter:
"A escrita da

História"
O autor observa que o recurso à narrativa muitas vezes é essencial para a apreensão do fluir temporal; entretanto, conclui que a narrativa tem de ser outra, não a narrativa tradicional, mas sim uma forma de narrativa que consiga escapar da superficialidade do acontecimentalismo, mas que também escapa da rigidez temporal de um discurso analítico.  Para tanto, é necessário densificar a narrativa, e para isso, Burke apresenta quatro soluções encontradas nas obras de outros historiadores: a micro-narrativa, narração da história de populares no tempo e no espaço, observando a presença das estruturas; utilizar várias vozes afim de captar os conflitos e as permanências; redigir de trás para frente, mostrando o peso do passado; e, finalmente, encontrar o relacionamento dialético entre acontecimento e estrutura. Burke aposta na primeira solução, não por preferência, mas por observar que a mesma já está crescendo. 

A obra de Burke mostra-se sobremaneira interessante para pensarmos os novos caminhos da história e os novos caminhos da produção histórica. Além de apresentar novas tendências discutidas por especialistas, traz uma teoria da apresentação do trabalho histórico, uma teoria que não exclui as teorias de longo alcance, mas que pensa a História de modo literário, sem esquecer das estruturas.