A violência como resposta ao medo do diferente
Gabriel Passetti
passetti@klepsidra.net
Quarto Ano - História/USP
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O tema da violência voltou a ocupar amplo espaço nas mídias brasileira e internacional nos últimos tempos, seja como decorrência do aumento da violência urbana, seja por causa dos atentados terroristas contra os EUA, da campanha israelense contra os palestinos, ou ainda por causa do espantoso crescimento dos partidos de pensamento fascista na Europa, entre outros.

Estes partidos estão resgatando um pensamento que ficou durante décadas relegado a pequenos grupos alijados do poder. O novo fascismo europeu vêm crescendo cada vez mais, e encontra um reflexo positivo no resto do "mundo desenvolvido", em especial nos EUA. Trata-se de uma ideologia de fechamento da comunidade (rica) diante do avanço de imigrantes, sendo que nestas situações o preconceito e a violência são cada vez maiores.

O retorno do pensamento violento acerca do outro, do diferente, está profundamente ligado à ideologia conservadora que impera nestas populações, que se remete a inúmeros acontecimentos no passado para legitimar seu medo e sua violência para com o diferente.
 

O mito do "Povo Eleito" dos
EUA começou a ser construído
com a chegada do navio
"Mayflower" à Costa Leste
Não se faz necessário explicitar a íntima ligação entre a mentalidade dos protestantes dos EUA e a dos europeus. Buscaremos neste ensaio, então, localizar na construção mítica do passado destas populações, os fatores que podem ser considerados importantes para o ressurgimento deste medo e desta violência.

O medo daqueles diferentes à comunidade local descende geralmente da aflição diante de idiomas, costumes e aparências diferentes a partir da chegada de contingentes populacionais geralmente à procura de melhores condições de vida.

O pensamento conservador logo tratou de interpretar estas diferenças como algo perigoso à sociedade local, maioritária, praticamente uma doença que precisava ser exterminada antes de contaminar a todos. Assim, surgiram os preconceitos até hoje difundidos sobre as mais diversas minorias.

Infelizmente a grande maioria das "civilizações" (entenda-se portanto, Estados) de que temos notícia aproveitaram este medo difuso na sociedade para explorar economicamente ou, quando isto era impossível, aniquilar esta presença a partir de violência geralmente agregada à crueldade.

Minorias étnicas, religiosas, ou então deficientes físicos, homossexuais, ou qualquer outra "anormalidade" foram tratadas a ferro-e-fogo, sendo que seus remanescentes trataram de perpetuar uma memória do sofrimento, transmitida oralmente pelas gerações, que chegou até hoje e ainda alimenta um enorme sentimento de ódio mútuo e vingança, cada vez mais alimentados pela violência recíproca.
 
Um momento marcante para a criação do mito do medo do diferente na mentalidade européia cristã é a Idade Média. Vivendo em pequenas comunidades, mas com um sentimento de pertencer a uma totalidade européia-cristã, os medievais assustaram-se com as inúmeras invasões e violências "bárbaras", vikings e muçulmanas, criando então um sentimento negativo quanto aos povos diferentes, que funciona como raiz para muitos movimentos da atualidade.

Naquela época, as invasões vikings causaram muita comoção por seu caráter surpreendente e violento.

Mouro invadindo a Sicília a cavalo. Afresco, séc XIII
Tratou-se logo, então, de traduzir tais ações como reflexo dos diferentes costumes e religião daqueles "bárbaros". Por trás deste termo, escondeu-se um medo pontual da nobreza e do clero, preocupados também com a perda de sua legitimidade, de suas propriedades e riquezas. O preconceito, então, foi estimulado e apropriado por uma parte da sociedade como uma forma de defender seus interesses a partir de um medo generalizado.

A forma de defender-se destes estranhos passou, então, rapidamente pelo questionamento da violência. Sentindo-se agredidos, os europeus optaram por agredir também aqueles diferentes que viviam a gerações junto, mas que também concorriam economicamente.

Conversão forçada de muçulmanas
após a tomada de Granada, 1492.
Entramos, então, em dois pontos cruciais na construção do medo do diferente: as Cruzadas e a Inquisição.

Imagem que ilustrava o manual "Secreta fidelium crucis" para
jovens aspirantes a cruzados, seculo XIII
Ambos os movimentos, profundamente ligados à religião, estão também muito próximos da nossa realidade, mas em caráter invertido.

Naquela época, era a Europa que exportava pessoas para outras regiões, para locais onde havia riqueza e terras. Então, os Reis e o Papado financiaram grandes guerras para invadir tais localidades e assentar sua população que não tinha mais onde trabalhar em suas terras natais.
O sentimento inicial dos muçulmanos invadidos foi de temor ante à "invasão bárbara", mas assim que o impasse de guerra instaurou-se e o convívio cotidiano começou, ambos os lados passaram a se conhecer melhor, a entender suas respectivas diferenças e a se respeitar e conviver juntos.

Atualmente não há dúvida de que as trocas de conhecimento proporcionadas pelo convívio nesta época foram fundamentais para a reintrodução na Europa de diversos autores clássicos e seus estudos, e num futuro não tão remoto, pelo Renascimento de uma forma de pensar. Enquanto isto, os muçulmanos também passaram a conhecer mais daquelas pessoas anteriormente tão temidas, e logo passaram a ampliar seu comércio com tais povos, estreitando os laços de relações.

Mas, não podemos nos esquecer do principal fator que levou aquelas pessoas a guerrearem: religião. A ordem social vigente não permitia mais divisão de terras, trabalhos e tarefas entre tantas pessoas, o que gerou um verdadeiro exército de desocupados pronto a lutar pela sua sobrevivência. Para impedir as guerras internas à Europa, expandir sua Fé e conquistar a Terra Santa, a Igreja manipulou tais pessoas para encaminharem-se às Cruzadas.
 

A tortura era uma prática recorrente na Inquisição 
Enquanto exércitos lutavam no Oriente, uma outra batalha começou a ocorrer em plena Europa: a caça aos hereges pela Igreja, ou seja, a Inquisição. O Tribunal do Santo Ofício expandiu sua área de atuação da Península Itálica até a Ibérica, perseguindo e torturando aqueles que não se adaptavam aos dogmas católicos, e muitas vezes, usando esta desculpa para confiscar seus lucrativos bens e propriedades.
A violência diante do outro, está, portanto, na maioria das vezes vinculada ao resgate (ou construção) de um medo do passado (e em geral já superado), que se transformou em um preconceito e que foi então trabalhado pelos interesses econômicos para a obtenção de lucro.

Pudemos observar o surgimento do medo do diferente na Idade Média, quando já começou a utilização deste para a preservação da ordem vigente e ampliação do poderio econômico. Com o passar do tempo, as noções de "outro" e de "diferente" mudaram, assim como os preconceitos que as cercam, mas os interesses econômicos e o pensamento conservador por trás, continuam.
O Século XIX pode ser considerado como um marco na apropriação de medos e preconceitos pelas classes dominantes para a ampliação de seu poderio político e econômico. Nesta época, a expansão capitalista nas grandes potências e nos Estados recém-criados foi intensa e voraz, caindo rapidamente na violência e na crueldade.

Precisando urgentemente ampliar seus mercados consumidores, o fornecimento de matéria-prima, e buscando alternativas para o investimento de capitais, os governos criaram uma verdadeira corrida atrás das áreas ainda "abandonadas pela civilização", sem levar em conta suas populações locais, costumes e interesses.

Três exemplos clássicos do uso sistemático da violência como forma de expansão do capitalismo no século XIX podemos ver em uma grande potência imperialista (a França), em um país em rápida expansão econômica e territorial (EUA) e em outro, recém-independente e ansioso pela expansão econômica (Argentina).
 
Nos três casos, o governo tratou de - literalmente - limpar o terreno para os interesses da elite, seja ela industrial, comercial e/ou agrária. O trabalho de eliminar os povos autóctones das terras, para que estas fossem introduzidas ao capitalismo em expansão foi realizado sempre com o apoio das Forças Armadas, o que criou "heróis nacionais" em todos os casos.

A historiografia oficial destes países, aquela ensinada na ampla maioria das escolas e retransmitida a partir da mídia, criou imagens de homens empreendedores para os comandantes de tais tropas.

Em 1844, os franceses finalmente "pacificaram" a Argélia. Tal feito ficou a cargo do Marechal Thomas-Robert Bugeaud, futuro Duque d'Isly. Este militar, que foi também deputado e governador geral da Argélia, ficou conhecido pelos massacres promovidos contra os africanos para submetê-los ao poderio francês. Mesmo assim, sua figura é até hoje notória e bem conhecida naquele país.

No caso dos EUA, é ainda mais explícita a relação de heroísmo e combate ao outro. São inúmeros os militares que ganharam título de herói nacional e memoriais por terem vencido os bravios índios. Um deles, bastante lembrado e homenageado, é o General George Armstrong Custer, que foi de grande importância na Guerra Civil Americana e responsável, posteriormente pelo extermínio das tribos Sioux e Cheyenne. Sua dedicação a esta tarefa foi tamanha que ele morreu em serviço (um mártir!), em 1876, ao cair em uma emboscada durante perseguição ao cacique Sioux Búfalo Sentado.

Três anos após a morte do General Custer em campanha, foi a vez da Argentina aplicar sua campanha de eliminação do outro, que ficou conhecida como "Campanhas do Deserto", nome já bastante tendencioso, chamando a ampla região ao sul da Província de Buenos Aires, dominada pelos índios, por Deserto.

Sob o comando do General Roca, cinco tropas que cercavam o território indígena saíram ao mesmo tempo com um único objetivo: eliminar os "bárbaros" daquelas terras (ainda) improdutivas. 

Mar. Thomas-Robert Bugeaud
 


Gen. George A. Custer
 


Presidente e General Roca

Este mesmo General, herói nacional argentino, nome de cidades, bairros, etc, tornou-se na seqüência (1880), Presidente da República. Seu lema, "paz e administração" não escondia as mãos cheias de sangue indígena das tropas do Exército Argentino.
 

Santiago Matamoros
O último exemplar deste tipo de herói é um santo. Santiago Matamoros (sobrenome sugestivo, Mata / moros) foi um dos santos católicos mais importantes durante as Cruzadas, pois criou-se um mito que, de cima de seu cavalo comandava e motivava as tropas. Sua representação clássica na Espanha é a de um santo cavalgando cercado de mouros, e lutando arduamente contra todos eles.

Não tem como afirmar-se, então, que os Estados não utilizaram o preconceito e a mitologia em torno de um ancestral medo diante do outro para legitimar seu poder e ampliar a força econômica de suas elites.

O século XX foi profundamente marcado pelo uso estatal deste tipo de violência, sendo que o mais óbvio e claro foi o empregado pelos regimes nazi-fascistas nas décadas de 20 a 40 na Europa, no Japão e em outros lugares.
Durante este período, os governos de Hitler, Mussolini, etc, assumiram uma postura oficial de eliminação física das "anormalidades" dentro de suas sociedades perfeitas. Se o governo nazista foi o que chegou mais longe em suas atrocidades contra judeus, ciganos, negros, homossexuais, deficientes físicos, loucos, etc, não se pode afirmar que os outros governos de tendência (aberta ou não) fascista deixaram de utilizar táticas explícitas (campos de concentração) ou não (eugenia, por exemplo) para a "limpeza de seu sangue, pátria e povo".

E o que mais assusta hoje é o ressurgimento com enorme força deste tipo de pensamento no mundo. 

Adolf Hitler
Se alguns anos atrás o líder fascista austríaco Haider era uma voz que mais lembrava um anacronismo, a chegada ao poder de Berlusconi na Itália, e as expressivas votações dos partidos nacional-fascistas na França (Jean-Marie Le Pen), Bélgica e Holanda fazem-nos pensar se este renascimento do fascismo é aleatório ou não.

Se grande parte da União Européia vêm defendendo um discurso anti-imigracionista e racista, o mesmo acontece nos EUA. George W. Bush, presidente daquele país vem conseguindo dia-a-dia a aprovação de novas leis que combatem os imigrantes ilegais, os estudantes estrangeiros, as organizações políticas e as liberdades individuais.

Jean-Marie Le Pen, 2º candidato
à presidência francesa mais votado na
eleição deste ano
Estará o mundo voltando ao fascismo? Esta é uma pergunta que não quer calar, mas que também ainda não sabemos responder. As políticas racistas e segregacionistas dos países "desenvolvidos" podem apenas ser um falso sinal que logo passará. A defesa de políticas de "tolerância zero" no Brasil podem ser apenas fogo de palha, mas todos devemos ficar atentos quanto a todo tipo de violência e autoritarismo contra quem quer que seja. Já vimos este filme uma vez e não precisamos revê-lo, seja na Europa, nos EUA, no Japão, no Brasil, na Ásia ou na África.

Líder fascista austríaco Joerg Haider
Os preconceitos e os medos diante do estranho são construções históricas, muito bem trabalhadas por grupos sociais com interesses bem delimitados, que se preciso, estimulam e usam da violência para conseguir seus objetivos. Resta-nos compreender quem ou o que nos dá realmente medo, e porquê.

 


Ariel Sharon e
George W. Bush