"Em Costas Negras"

Olívia Pavani Naveira
Quarto Ano - História/USP
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O livro Em Costas Negras de Manolo Florentino, publicado em 1997, traz uma grande contribuição para a historiografia brasileira. Fruto de uma análise econômica do tráfico de escravos, o livro retoma a recente discussão sobre a necessidade de voltar -se para o continente africano no intuito de entender os processos históricos brasileiros. "Em costas negras" origina-se da tese de doutorado do autor, não sendo o único livro publicado pelo professor de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde podemos destacar o livro feito em parceria com o José Roberto Góes, " A paz das senzalas".

Utilizando-se de diversas fontes documentais, como cartas de alforria, testamentos e até periódicos, o livro possui um corte cronológico delimitado, no qual o autor se propõe a analisar o tráfico de escravos do período que vai de 1790 a 1830. Apesar do corte fechado, o autor não nos permite esquecer que as relações entre Brasil e África perduraram por mais de três séculos e que durante todo este período, o fluxo que o autor chama de "migração compulsória" foi contínuo e abundante, dirigindo-se apenas a uma das "costas negras" ou seja, o Brasil.

Analisando o título do livro, é possível lembrar de uma das citações de Luíz Felipe Alencastro em seu artigo "Vida privada e Ordem do Império" que faz parte da coleção História da Vida privada, no qual, Alencastro comenta o poema em prosa de Gonçalves Dias, escrito em 1846 e que diz "E nessas vilas e aldeias, nos seus cais, praças e chafarizes – vi somente escravos [...] Por isto que o estrangeiro que chega a algum ponto do vasto império (...) julga que um vento inimigo o levou às costas d’África. E conhece por fim que está no Brasil." Manolo não comenta, mas pode ter vindo daí, a inspiração para o título deste ótimo livro.

Notamos em Florentino, uma tendência de análise marxista e de linha econômica, perpassando toda a sua interpretação sobre o tráfico de escravo. Vale destacar, a forma clara e explicativa com a qual o autor cita todas as fontes utilizadas e a sua localização, nos permitindo uma interpretação bem fundamentada de seus métodos, tabelas e gráficos.

Outra parte muito importante do livro, e que permite que se tenha base para dialogar com o texto do autor, são os mapas; que encontram-se anexados às primeiras páginas. Fonte fundamental para as interpretações históricas, a utilização de mapas no permite uma visualização melhor da localização das diversas cidades africanas, além de nos possibilitar um maior entendimento em relação às rotas de comercio. Atualmente, o trabalho com fontes como essa, têm- se tornado essenciais, para suprir a falta de informação que temos a respeito do continente.

Declarando abertamente o que o fez interessar-se pelo tema do livro, "uma antiga e modesta intuição: a de que não eram suficientes as explicações disponíveis sobre a enorme imigração compulsória que por mais de três séculos uniu a África ao Brasil", Manolo trava um diálogo muito instigante com a historiografia brasileira a respeito do tráfico. Segundo ele, não existem na historiografia brasileira, muitos trabalhos sobre o tráfico de escravos no Brasil ; e nas obras clássicas sobre a história brasileira, o assunto acaba sempre aparecendo de forma diluída por entre as análises da sociedade e da economia escravista.

O livro encontra-se dividido em quatro partes principais, entre as quais destaca-se a discussão que o autor fez sobre a historiografia a cerca do tráfico de almas para o Brasil. Nos principais modelos explicativos da economia colonial, percebemos que o tráfico de escravos, acaba sendo analisado como variável central para a permanência do sistema escravista. Seguindo esses modelos, encontramos concepções comuns, que seguem afirmando que, em função da perenidade da escravidão, era imprescindível a existência de um fluxo externo contínuo e economicamente viável de mão - de- obra para o Brasil.

Através da análise do que a historiografia brasileira concebe como o tráfico de escravos, percebemos que existem diversos pontos de confluência nessas interpretações, o que nos permite encontrarmos alguns grandes eixos de análise. Um deles, é o que analisa o tráfico, como uma variável do calculo econômico da empresa colonial, já que principalmente para os historiadores de tendências marxistas, a reprodução física do homem corresponde, no plano econômico à reprodução da força de trabalho e desta forma o tráfico tornava-se essencial para a continuidade das atividades econômicas.

Destaca-se também, o que o autor traz como primeiro paradoxo da historiografia brasileira. Lidando com essa interligação entre África e Brasil, o autor afirma, que em "termos de extensão cronológica, seja com relação ao volume absoluto de importações, nenhuma outra região americana esteve tão ligada a África como o Brasil." O tema continua sendo discutido, quando o autor inicia uma contraposição desta constatação histórica, com o fato dos maiores "clássicos" da historiografia brasileira, como Caio Pardo Júnior, Jacob Gorender, Fernando Novais, Ciro Cardoso, Celso Furtado, falarem muito pouco sobre a África.

O autor interpreta o tráfico de escravos no Brasil, levando em conta as suas mais diversas facetas. O trafico é visto, como um mecanismo portador de um duplo papel estrutural, pela sua diferenciação geográfica. Como um negócio, esse comércio de alma, era marcado por uma estruturação e dinâmica empresarial própria, que ao mesmo tempo não negava a sua ligação com o cálculo econômico da empresa mercantil colonial.

Sabe-se que no Brasil o comércio atlântico de almas era o principal instrumento viabilizador da reprodução física dos escravos, especialmente em áreas intimamente ligadas ao mercado internacional em expansão. Já na África, o tráfico possuía perspectivas muito pouco abordadas e estudadas pelos historiadores.

Pode-se destacar, como parte vital para o entendimento do tráfico na África, a forma com que era feita a produção social do cativo. Esta "produção" possuía duas importantes dimensões, a uma delas constituída de conteúdo político-social, que tinha por móvel a cristalização da hierarquia social e das relações de poder nas regiões africanas mais ligadas à exportação de homens. A segunda, de conteúdo econômico stricto sensu, relacionaria-se à forma pela qual se dava produção do cativo, através da violência , o que permitia ao fluxo de mão de obra realizar-se a baixos custos.

Em relação aos baixos custos, por exemplo, nós podemos fazer um paralelo com a esfera da demanda brasileira por escravos. Essa demanda gerava comportamentos muito discutidos historiograficamente, como a super exploração do trabalho e a lógica empresarial da propriedade escrava
 


Manolo Florentino, autor da obra
Manolo reafirma que o tipo de lógica demográfica empresarial, que tinha no comércio negreiro seu maior veículo, baseava-se no preço baixo pago pelos cativos o que beneficiavam as empresas escravistas. Apesar dessa afirmação fazer todo o sentido, se seguirmos a lógica proposta pelo autor, questões como esta ainda permanecem em constantes polêmicas e discussões.

Polêmica, aliás, é coisa que não falta em suas obras e em suas posições. Em mesas com Jacob Gorender o diálogo é sempre interessante e enriquecedor, apesar dos diferentes pontos de vista. Munido de um grande respeito aos seus colegas é comum vê-lo provocando-os com seus questionamentos sobre o continente Africano e suas possíveis ligações com o Brasil.

O autor merecidamente reconhecido por esta obra, nos deixa curiosos a respeito de suas próximas investigações.
 


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