Darth Vader: a Realidade e a Fé em Star Wars

Danilo José Figueiredo
Quarto Ano - História/USP
danilo@klepsidra.net
download darthvader.rtf - 91KB

Introdução:

Este é meu décimo segundo texto para Klepsidra. O segundo cujo tema é a Religiosidade, ou, mais precisamente, a Fé (em especial o Cristianismo). É certo que já existiram diversos textos, livros, artigos, sites... sobre a tão aclamada série denominada Star Wars, talvez o maior sucesso da História do Cinema. No entanto, não é de meu conhecimento nenhum outro trabalho cujo tema seja exatamente igual ao deste, ou seja, uma tentativa de comparação da vida do protagonista da série com a vida do homem mais famoso de todos os tempos: Jesus Cristo.

Antes que as críticas despenquem sobre minha pessoa, uma vez que é fácil criticar um texto antes mesmo de lê-lo (no entanto, tais críticas não são nada mais do que vazias de valor), quero deixar bem claro que o objetivo deste texto é científico, tanto que foi originalmente preparado para ser apresentado sob a forma de seminário no curso de História da Cultura I, ministrado pelo Professor Dr. Nicolau Sevcenko, na Universidade de São Paulo, e não religioso. Não exaltarei nenhum feito não comprovado e, ao contrário do que faz a fé, tentarei (sempre que convir ao texto) proporcionar explicações mais plausíveis a fatos legendários justificados pela Fé. A História é uma Ciência, não uma Religião.

Aos fãs da série, dentre os quais eu próprio me enquadro, devo dizer que a leitura deste texto pode proporcionar-lhes uma nova visão da saga que lhes é tão bem conhecida; afinal, para muitas pessoas no mundo Star Wars é hoje muito mais do que uma novela de cavalaria futurista, é sim, um modo de vida.

Espero que aproveitem a leitura.
 
 

1 – A Trilogia original (1977 – 1983):

Em 1977, depois de ter o roteiro rejeitado por outros grandes estúdios de Hollywood, George Lucas estréia o filme que o colocaria no hall dos maiores diretores/produtores da História do Cinema: Star Wars episódio IV: Uma Nova Esperança.

O que causou estranhamento na mente da maioria dos estúdios não foi nem sequer o fato do filme, que era o primeiro de uma possível série, se intitular episódio IV, mas sim, o roteiro em si. Para a maior parte dos produtores que se recusaram a aceitar o projeto, um filme que se passava numa Galáxia cuja evolução tecnológica e religiosa era tão diferente da nossa (com espadas (ainda que laser) convivendo com cruzadores intergaláticos e uma rede de comunicações poderosa o suficiente para sustentar um Império numa Galáxia inteira), era no mínimo anacrônico e, sendo assim, digno do Cinema B, ou trash, como chamamos hoje.

George Lucas durante as filmagens
de Episódio 1 - A Ameaça Fantasma

No entanto, a Twenty Century Fox aceitou o projeto e, apesar de inicialmente propor a Lucas que o filme fosse lançado na forma de uma série de televisão, ou seja, em vários capítulos, acabou lançando-o como película para o cinema. Acertou em cheio, em pouco tempo Star Wars se transformou no maior sucesso do cinema até então. O filme enriqueceu tanto a Fox quanto George Lucas e tornou inevitável o lançamento, por volta de 1981, do segundo filme da série (considerado até hoje, pela crítica, como o melhor de todos): Star Wars episódio V: O Império Contra-Ataca.

Mostrando ainda mais do Universo Star Wars, este excelente filme fez com que o mundo passasse a esperar ansioso pelo lançamento, em 1983, do desfecho da série: Star Wars episódio VI: O Retorno de Jedi.

Todos estavam satisfeitos, haviam visto como tudo começara, se desenvolvera e acabara. Uma perfeita história de traição, conspiração e redenção medieval, ambientada num universo futurista. Porém, o começo de tudo ainda estava por vir.

2 – O começo que vem depois do fim (1999 – 2005):

Apesar de inúmeros, poucos são os fãs de Star Wars que realmente fazem jus à palavra (fã é uma contração da palavra fanático). Isso porque, até 1997, eram poucos os que sabiam o que estava por vir em 1999, ou seja, o início da saga Star Wars.

Até então, George Lucas já era um dos homens mais ricos de Hollywood, ganhava rios de dinheiro todos os anos graças a merchandising de produtos relacionados a Star Wars e vivia uma vida calma e sossegada no Skywalker Ranch. Em termos de contribuição para o cinema mundial, George Lucas também estava entre os mais importantes de Hollywood. Isso graças a sua empresa semi-secreta: a Industrial Light & Magic (IL&M). A maior produtora de efeitos especiais do cinema na atualidade. Ninguém sabe precisar a localização exata da IL&M; isso porque, apesar de ter mais de 1500 funcionários e de ter a segunda maior capacidade de processamento de dados do mundo (perdendo apenas para a NASA, isso mesmo, para a agência aero-espacial dos EUA), aos olhos do transeunte normal a IL&M se parece com uma loja tradicional como uma relojoaria. Porém, essa loja é apenas a entrada de um Império subterrâneo de computadores de última geração, com técnicos treinados nas melhores universidades do planeta. Tudo isso para criar os efeitos especiais mais impressionantes do cinema. Segundo o próprio Lucas, que também é cliente de sua própria empresa (aliás, ele custa a assumir que é na realidade seu dono), sua empresa cria qualquer coisa que o diretor de um filme queira que seja criada, basta que se lhe dê tempo e dinheiro suficientes. Mesmo que o pedido seja algo que ainda não exista (como eram os dinossauros de Jurassic Park), não há problema, a IL&M inventa.
 

Mas voltemos a Star Wars. Em 1997, a trilogia original voltou aos cinemas. Foram apenas três semanas, mas foram três semanas de salas lotadas, isso porque os filmes haviam sido remasterizados, ou seja, as cenas cujos efeitos especiais estavam abaixo do padrão adequado para os dias de hoje foram melhoradas, além disso, haviam sido colocadas cenas novas nos filmes.

Foi um sucesso absoluto, sucesso muito superior, por exemplo ao fracasso da volta aos cinemas de outro grande filme remasterizado: ET, o Extraterrestre, que voltou aos cinemas no ano passado. Porém esse sucesso, mais do que à remasterização da série em si, se deveu ao fato de que aquilo que estava acontecendo era o início da contagem regressiva para o episódio I, que seria lançado em 1999, dois anos depois.

Enfim o mundo saberia porque a saga mais famosa da História do Cinema se iniciava com um filme intitulado episódio IV. Foram dois anos de espera por um filme que ficou abaixo das expectativas da imprensa, da crítica e da maioria dos fãs, mas que, mesmo assim, foi outro sucesso estrondoso de bilheterias.

Mais três anos de espera e, enfim um filme bom, à altura da série original, mas que, mesmo assim, e mesmo sendo outro sucesso de público, foi extremamente criticado. Tudo isso por quê? Porque Star Wars já abandonou os padrões de série de sucesso. Alcançou o padrão de mito e, como tal, é incomparável com quaisquer outras coisas, inclusive consigo mesmo. Desde o fã mais exaltado até o crítico mais ferrenho, todos esperam de Star Wars muito mais do que ele pode dar, isso porque todos esperam de Star Wars o que um fiel espera de um Deus: perfeição; mas Lucas não é um Deus. É um homem e como tal tem pontos de vista e percepções da realidade que podem (e com certeza não irão) agradar a todos, ainda mais se todos (mesmo os que não gostam) estão tão mal acostumados.

Em resumo Star Wars é uma série de tanto, mas tanto sucesso que o próprio governo dos EUA roubou seu título para o projeto de defesa anti-mísseis iniciado no governo de Ronald Reagan, na década de 80.
 

Continuação ->