A Revolução, os Lobos e o Besteirol

Danilo José Figueiredo
Quarto Ano - História/USP
danilo@klepsidra.net
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1 – Introdução:
 

Desde o fim da parceria de Klepsidra com o Cineclube Pandora, a revista não tem um texto que trate sobre o tema Cinema e História. Confesso que esta não é nem de longe a minha especialidade, nem tão pouco meu campo maior de interesse; no entanto, depois de assistir ao filme Francês O Pacto dos Lobos (Le Pacte des Loups, França, 2001) fiquei muito motivado a escrever uma, digamos, crítica sobre o filme.
É certo que no Brasil, nossas crianças vêem sexo quando assistem à novela das oito, vêem lutas sangrentas no desenho da manhã e assassinatos ainda mais cruéis que os da ficção nos noticiários diários, sendo assim, acho até que 14 anos foi uma idade um pouco alta demais para ser o mínimo exigido.

O filme se ambienta na década de 1760 e tem um "certo" embasamento histórico. Trata-se de uma fantasia a respeito de um certo lobisomem que teria matado cerca de cem pessoas nas redondezas da cidadezinha Francesa de Gévaudan. Descobriu-se (na realidade), depois, que não se tratava de um lobisomem, mas sim de um casal de lobos famintos que procuravam alimento entre as pessoas da cidade.

A partir deste gancho semi-histórico, o diretor Christophe Gans emenda uma séria de lutas desconexas, gritos de medo, conspirações cortesãs, espionagem, paganismo e outras misturas (regadas à participação de um índio Iroque Americano) que parecem não querer chegar a lugar algum. Porém, depois que quase todos os protagonistas do filme morrem, o fim se aproxima. Uma ressurreição, a do mocinho, um naturalista da corte interpretado por Samuel Le Biham, faz com que todo o mistério aparentemente insolúvel seja rapidamente desvendado com muitos golpes de artes marciais que mais parecem orientais (notem que os tais golpes, outrora desferidos pelo índio, são agora aplicados por um burguês estudioso do Antigo Regime, ou seja, o protótipo do almofadina que nunca saberia qualquer forma de defesa pessoal que não fosse gritar por ajuda) e com a inexplicável morte a "besta" que se havia dito ser imortal.

2 – O Filme:

Toda a introdução acima só deve ter servido para uma coisa. Provar ao leitor que realmente Cinema e História não é minha especialidade, pois, se fosse, por que diabos eu estaria escrevendo sobre uma porcaria sem pé nem cabeça como eu mesmo pintei que o filme era?

A resposta para tal pergunta será dada mais abaixo, mas só poderá ser constatada caso o leitor tenha a possibilidade de assistir ao filme.

Bem o filme mostra um naturalista (mais ou menos o equivalente a um biólogo do século XVIII) Francês que acaba de retornar da recém-perdida Guerra dos Sete Anos, travada contra a Inglaterra, em território Americano, pelo domínio do que hoje posteriormente se tornariam os EUA.

O naturalista volta da América com um índio Iroque (uma etnia de índios dos EUA) que lhe havia salvo a vida. Este índio, além dos costumes diferentes daqueles adotados pelos Franceses, também parece ter estranhos poderes. Ao que parece, ele se comunica de uma forma empática com os lobos.
 

Ao chegar à corte de Versalhes, o naturalista é enviado a Gévaudan, uma cidadezinha onde uma "besta" estaria matando várias pessoas. A besta só ataca mulheres e crianças, nunca homens e os relatos dos poucos sobreviventes dizem se tratar de uma espécie de lobo gigante.

O naturalista não é nobre, mas um filho da burguesia enriquecida que teve a oportunidade de estudar e se formar em ciências naturais. Ao chegar à cidade centro da trama, o cientista se vê diante de um grave problema. Descobre que a besta já havia sido baleada algumas vezes e que isto não a havia feito recuar ou sequer enfraquecer.


O naturalista burguês, representante do iluminismo
à frente e o nobre arcaico, representante do
Antigo Regime ao fundo. Mocinho X Vilão

Logo o burguês encontra uma filha da aristocracia empobrecida pela qual se apaixona e cujo coração passa a tentar conquistar. Entre os galanteios dispensados à moça e as investigações (cada vez menos concludentes) a respeito da "besta", o protagonista ainda tem que encarar o preconceito do povo da região para com seu fiel escudeiro, o índio Iroque, além de ter tempo para se entregar a uma paixão carnal com uma misteriosa prostituta local.

O padre da cidade fica apreensivo com a continuidade dos ataques do monstro e organiza uma caçada geral a todos os lobos da região para que o mal seja expurgado de uma vez por todas.

O índio fica totalmente ensandecido ao ver centenas de lobos, com os quais mantém uma relação mental serem mortos e, a partir daí passa a se tornar um dos suspeitos de ser a "besta". As suspeitas, contudo, dispersam-se quando, diante dos olhos de muitos, o aborígene opera um verdadeiro milagre: revive uma criança que havia acabado de morrer vítima da "besta". A criança ressurge com uma revelação um tanto estranha. O licantropo é controlado por alguém, alguém que ela havia visto de relance.

A partir daí, o filme toma novos rumos e a prostituta (que também é meio bruxa) passa a ser a principal suspeita não-oficial de ser a controladora da fera. O caso toma proporções nacionais, a tal ponto que o Rei envia um substituto para o naturalista. Este, ao chegar a Gévaudan, ordena ao naturalista (que também é especialista em embalsamar animais) que faça com que um lobo normal que havia sido caçado fique parecendo uma verdadeira aberração infernal e que, sendo assim, o caso seja encerrado.

Sem opções, o naturalista obedece e, com sua criatura falsificada, convence o Rei Luís XV de que tudo chegou ao fim. Porém, mortes continuam ocorrendo e o naturalista passa a temer pela vida daquela aristocrata decadente pela qual se apaixonara. Sendo assim, regressa a Gévaudan e vai diretamente à casa da moça que está justamente sendo atacada pela criatura. Neste momento, pela primeira vez o animal ataca um homem (lembrem-se que ele só atacava mulheres e crianças), o pai da moça, também um aristocrata decadente.
 
Índio Iroque: astro das artes marciais
O naturalista age muito habilmente e consegue impedir a morte de sua amada, no entanto, seu amigo índio, que perseguiu a besta e descobriu que havia um verdadeiro culto em sua homenagem é cercado (não sem antes matar e desabilitar pelo menos uma dezena de cultistas) e morto.

A morte do índio faz o naturalista buscar vingança e sua busca por vingança, além de torna-lo parecido com o índio faz com que ele seja preso e condenado à morte.

Ainda na prisão, o naturalista é visitado pela prostituta que lhe promete alívio das torturas e diz que pode ajuda-lo, pois sabe de tudo sobre a besta. Ela dá ao protagonista um suposto veneno e isto faz com que ele morra.

Diante da morte do amado, a jovem aristocrata é cortejada por seu primo, um alto nobre e ex-guerreiro que retornara da África com um braço só. Desde a infância este primo almeja casar-se com a moça, mas esta sempre o repudiou como esposo. Agora, porém, diante de mais uma repudia, o primo ataca a moça, revela que, na verdade, não tem um único braço, mas dois, e o outro (que supostamente não existia), serve para que controle a "besta". Depois de estuprar a moça, o senhor do monstro mata-a e volta ao seu reinado de terror.

Neste ponto parece que tudo está acaba, todos os principais personagens do filme estão mortos e o vilão venceu. Porém, a prostituta, que também integrava o culto do monstro, traz o naturalista de volta à vida. Agora a sede de vingança do moço é ainda maior, almeja vingar não só a morte de seu amigo índio, mas também a de sua amada e a sua própria. Ele encontra o culto do monstro e, com a ajuda da prostituta, que agora descobre-se, além de ser uma aristocrata, era apenas uma espécie de espiã dentro do culto, desbarata os cultistas e provoca a morte da fera, devido ao colapso de seu senhor. Ah, o padre da cidade era um dos principais sacerdotes do culto e quase todos os cidadãos proeminentes de Gévaudan estavam envolvidos na conspiração. Sabe-se depois, com o fim do filme que aquele alto aristocrata de um braço só havia voltado da África com um estranho animal, uma fêmea. Esta estava grávida e morreu ao parir três filhotes. Dos três, apenas o mais forte e mais adaptado sobreviveu, este animal tornou-se a "besta" de Gévaudan, que foi criada, educada e controlada pelo nobre que a trouxe de seu habitat natural.

3 – O Caminho das Pedras:

A descrição do filme não pareceu muito animadora, fê-lo parecer uma mistura de Coração Valente com algum filme do Steven Seagal e os velhos filmes de Terror sem nexo dos anos 80.

Pois bem, agora irei revelar a parte mais fundamental para a compreensão do filme e que, mesmo assim, fez com que a maior parte das pessoas da sala em que assisti à película caíssem na gargalhada, visto que não conseguiram compreender a mensagem deste que, apesar de tudo indicar que não, é um grande filme.

A primeira cena do filme mostra um nobre em seu castelo pronto para começar a escrever algo. Neste momento, o nobre é importunado por seu secretário que o avisa que os rebeldes estão se aproximando do castelo e que seria melhor ele se apressar em fugir. O nobre então retruca que não irá fugir e pede que seu empregado lhe traga comida porque aquele seria mais uma longa noite de trabalho e começa a escrever.

No final do filme, os rebeldes (da Revolução Francesa) invadem o castelo e prendem o nobre que, ao sair vai narrando as revelações finais sobre a "besta" de Gévaudan. Ele então vê a criatura estendida sobre o pátio de seu castelo, semi-morta e o naturalista se aproximando dela e desferindo-lhe o tiro de misericórdia.

4 – Moral da História:

Pensemos. Eu mesmo disse que o filme se passa logo depois do fim da Guerra dos Sete Anos, ou seja, em 1763. Então, como ele começa e termina com um nobre sendo capturado pela Revolução Francesa, cujos primeiros movimentos só se iniciaram quase trinta anos depois, em 1789?

Simples, porque a história da "besta" é uma mera ficção criada pelo nobre naquela noite de trabalho, noite que seria a última de sua vida de nobre, antes de ser preso e perder seu status e seu título.

A história mostra vários personagens figurativos, isto é, que não são realmente personagens individuais, mas retratos das classes que representam, tal qual faz Gil Vicente na Trilogia das Barcas.

No filme, vê-se que a "besta" era a monarquia Francesa, o Antigo Regime. Ela era imortal e inabalável e só atacava crianças e mulheres, ou seja, a esperança de futuro das pessoas, visto que o futuro traz mudanças e uma ordem estabelecida não pode aceitar mudanças.

A besta era controlada essencialmente por um alto nobre e um padre, ou seja, o Absolutismo Francês era mantido através do apoio da nobreza de do clero.

Notem, porém que alguns nobres, em especial os da baixa nobreza, começam a não apoiar a criatura, é o caso do pai da aristocrata pela qual o protagonista se apaixona e da própria prostituta, que representa a nobreza decadente, que tem que vender o que tem para poder manter o status. Estas facções auxiliam a burguesia, no filme representada pelo naturalista, a derrubar o apoio do licantropo, ou seja, os altos nobres e o clero. Caracterizando pelo ideal anti-clerical da Revolução Francesa.

Os cultistas, no filme, também incluem pessoas do povo, que ocupavam papéis menos importantes no culto e que, por isso, acabam ajudando o protagonista, no final, a dar o tiro de misericórdia na criatura. Esses cutlistas representam a Assembléia dos Estados Gerais convocada por Luís XVI, em 1789, na tentativa de obter poder para realizar as reformas de que a França necessitava.

A gigantesca caçada aos lobos, que vitima mais de uma centena de animais inocentes representa os excessos aos quais a corte se dava ao luxo e que fizeram com que a situação na França ficasse insustentável.

Por fim, o índio representa a América, sua força, suas possibilidades. E sua morte, o fechamento da última porta que poderia salvar o Antigo Regime, afinal, não era por acaso que o índio tinha uma ligação mental com os lobos. Isso indica que se o mal fosse expurgado corretamente, mas a América não tivesse sido perdida (na Guerra dos Sete Anos) esta poderia ter sido a salvação do Absolutismo Francês; visto que o índio também poderia avir a controlar a "besta". Controlar, neste caso, como em todo o filme, não significa controlar o governo Francês, coisa que os Franceses jamais aceitariam da América, mas sim, dar sustentação.

Para concluir, digo que O Pacto dos Lobos é um dos filmes mais brilhantes feitos ultimamente, pois consegue o que poucos conseguiriam: misturar uma série infindável de elementos dignos de um verdadeiro besteirol e que, além de tudo são imiscíveis e criar uma obra realmente, que me perdoem os que (como eu) não gostam do termo, erudita. Porém, justamente por ser erudito, o filme peca, uma vez que os mais de 5 milhões de espectadores (isso mesmo, 5 milhões, o filme bateu todos os recordes de bilheteria em seu país natal) Franceses do filme e os outros tantos que o virem ao redor do mundo provavelmente o farão, ou fizeram, pelas lutas marciais, pelo clima de terror, pelos dotes físicos de Monica Bellucci (que interpreta a prostituta no filme e que é considerada uma das mulheres mais sexys do mundo) ou pelos de Mark Dacascos (o ator havaiano que interpreta o índio do filme e que, como bom índio, passa a maior parte do tempo com o torno nu). Dificilmente o espectador médio irá gostar ou mesmo recomendar o filme. Talvez se divirta em algumas cenas, mas, no final, dirá: mais um besteirol sem nexo feito só para ganhar dinheiro. Este é o legado da escola Francesa, a elitização do saber e a criação de uma classe (constituída da imensa maioria da população mundial) sem (ou com pouco) poder de análise, percepção e crítica das situações, nisto incluo até mesmo algumas pessoas de suposto respeito, como Isabela Boscov, crítica de cinema da Revista Veja, que ao fazer a análise do filme esqueceu de mencionar que ele não era um Transgênico Gaulês, mas sim uma analogia à Revolução Francesa. Três vivas à erudição!
 


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