MOEDA E PROPAGANDA: A tipologia das cunhagens do Imperador Constâncio II (337-361) através da aplicação do método de análise de conteúdo
Cláudio Umpierre Carlan
Mestre em História Antiga e Medieval - UFF
claudiocarlan@ig.com.br
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Nosso trabalho tem por objetivo analisar as cunhagens monetárias como uma representação do poder imperial, onde os símbolos expressos nestas moedas têm uma função de mídia e de propaganda, funcionando como legitimador de uma dinastia ou elite social (NIETO SORIA, 1993, p. 19).

Centralizamos nossos esforços no governo de Constâncio II, filho e sucessor de Constantino I, o Grande (306-337), considerado o mais eficiente administrador dentre os herdeiros do pai. Segundo a profa./dra. Maria Beatriz Florenzano, um estudo mais detalhado destas moedas torna-se inédito no meio acadêmico nacional e internacional.

Neste artigo, por razão de espaço, não abordaremos os seguintes tipos e subtipos monetários de Constâncio II: tipos militares (subtipos fortificações), cenas de batalhas (grande maioria), e moedas com símbolos pagãos.
 

1 - Moedas Laudatórias ou Votivas

Segundo Ney Chrysostomo essas moedas, surgidas durante a Tetrarquia de Diocleciano, cunhadas pela primeira vez pelo imperador do ocidente Maximiano (286-305) (COSTA, 1969, P. 547.), são consideradas as mais populares, por isso cunhadas apenas em bronze. Os votos que elas expressam inspiram confiança e fidelidade do povo ao seu governante. Não aparecem imagens ou representações no reverso.
 

VOT XX MVLT XXX
Os principais votos encontrados foram VOT XX MVLT XXX. Mas existe um único exemplar no MHN em cujo reverso vem VOT XV MVLT XX. Segundo Cohen, (COHEN, 1888-1892, P. 444) este exemplar só poderia ser encontrado, fora do MHN, no Museu da Dinamarca.

Outras peças com os votos diferentes podem ser achadas. Segundo Ney Chrysostomo, além dos citados acima, os mais comuns são VOT XX SIC XXX (a promessa que fazemos para vinte anos fazemos para trinta anos); VOT XX MVLTIS XXXX (votamos por trinta anos depois por mais quarenta anos) (COSTA, 1969, P. 548). Esta última existe na coleção de Juliano, o apóstata, no MHN.

A que agora analisamos é mais simples que as outras moedas trabalhadas. No anverso, o busto está representada apenas do pescoço para cima. Encontramos no reverso, mais especificamente no campo, uma coroa de louros, cercando o voto; no exterior e concêntricos com a coroa, dois círculos, sendo em geral o exterior de maior largura. Os exergos mais encontrados foram CONS (Constantinopla), SMALA (Alexandria), PARL (Arles), SMNI (Nicomédia) SMANH, SMANS, SMANH (Antioquia).
 

2- Moedas ligadas à religiosidade

Com a ascensão do cristianismo começam a surgir nas moedas os equivalentes cristãos da simbologia pagã. No reverso das várias espécies monetárias do século IV, como as de Magnêncio por exemplo, já podemos encontrar o sinal de Constantino.

Nas moedas de Constâncio tal sinal também aparece. A diferença principal é que vem acompanhado do lábaro, segurado pelo imperador. Nas cunhagens de Magnêncio o sinal aparece em um ângulo maior, sem legendas, ocupando todo o reverso. Não sabemos se Constâncio mandou cunhar moedas desse mesmo estilo.

Das numárias romanas existentes na coleção do MHN, a de Constâncio, por contar de um grande número de exemplares, é a que oferece a maior variedades de exemplos das composições polivalentes e ambigüidades intencionais, como podemos observar em alguns reversos.
 


Busto de Constâncio com seu nome
 
 


Busto de Constâncio em trajes
militares

O tema central é sempre o imperador, representado em traje militar ou com o manto imperial, em atitude triunfante, e sustentando um vexillum (estandarte). Novamente encontramos uma declaração da fé que precisa ser imposta à população romana. Pois no vexillum, quase sempre vem inscrito o cristograma. Mas também pode representar a comemoração de uma acontecimento histórico, glorificação do exército.

Na realidade, segundo Gomes Marques, o cristograma do vexillum está, em algumas emissões, reduzido a um esboço. Tal erro não deve ser atribuído aos gravadores, pois se trata de uma deformação deliberada, que tinha como principal objetivo impedir a identificação incontroversa do símbolo (ARNAUD, s/d, p. 138). O é, caracteristicamente, a estenografia da comunicação visual, e onde quer que seja usado, canaliza uma grande energia informativa do criador para o seu público. Pascal Arnaud afirma que, na representação contida no reverso, podemos encontrar as mais diversas ordenações dos símbolos como monumentos, divindades, objetos ou criaturas simbólicas. Tanto, que os temas religiosos foram constantes em todas as numárias romanas. As divindades ou objetos que são representadas, semideuses ou santos, emblemas religiosos, cenas lendárias, sagradas escrituras, fatos de culto (MARQUES, 1982, P. 127).

Podemos destacar os seguintes tipos monetários que tratam deste tema: imperador navegando (7 peças), podendo ser associada com os tipos militares, pois Constâncio é representado em uniforme militar. O imperador, acompanhado com dois observadores (6 peças), novamente representado com o uniforme e o cristograma. Dois observadores ou prisioneiros, gravados em tamanho menor, acompanham a imagem imperial. Constâncio, representado em pé, com o lábaro na mão esquerda e o globo na direita (7 peças). E por último, a representação do altar com a Clemência (duas peças).
 

3 - Imperador Navegando

Representação de Constâncio
com o uniforme militar, o lábaro
com o cristograma a sua
esquerda. A sua direita
(esquerda do observador), notamos
a fênix e um globo em sua mão,
com a letra H logo abaixo
Nesta moeda, Constâncio está representado em uma embarcação, à esquerda do observador, com o lábaro na mão esquerda e o símbolo cristão acima do ombro esquerdo. De uniforme militar, o globo (símbolo do poder e do próprio império) à direita, acompanhado da fênix. Segundo os catálogos consultados, principalmente o RIC e os organizados por Sears, Cohen e Sabatier, o imperador é observado pelo símbolo da Vitória, ajoelhada. Os principais exergos encontrados foram PARL (Arles), SMALA, SMALE (Alexandria), SMANEI, SMANAI (Antioquia), circundados pela inscrição FEL TEMP REPARATIO.

Segundo Roldán Hervás, esses "tipos falantes", ampliam a ingênua propaganda econômica ou religiosa mediante a inclusão de imagens que pregam a riqueza da cidade ou de símbolos que se referem à divindade. Por exemplo, Sisico tem em muitas de suas amoedações, suas famosas pescarias representadas. Com o tempo e a perfeição crescente das acunhações, o pequeno disco monetário se converte em um verdadeiro campo artístico, onde: 

"...todo o panteon olímpico é representado. Alexandre Magno, estampa sua efígie no anverso de suas amoedações, com o símbolo de soberania." (ROLDÁN HERVÁS, 1975, p. 164) Quanto ao anverso, não ocorrem maiores diferenças, a não ser na legenda DN CONSTANTIVS.
 

4 - Imperador com dois observadores


Constâncio em pé, com uniforme
militar, portando o lábaro na mão
direita, com o símbolo cristão
(cristograma). Dois jovens, à
esquerda, com um dos joelhos no
chão, e mãos para trás (prisioneiros)
olham-se entre si. Logo acima das
suas cabeças a letra N.
Constâncio é de novo representado com uniforme militar e lábaro, com o cristograma na mão direita, sendo observado por duas figuras masculinas com as mãos voltadas para trás, segundo Cohen, prisioneiros amarrados em sinal de submissão (COHEN, 1888-1892, P. 454). Logo acima de suas cabeças, aparece a letra N, como já citamos anteriormente muito comum nas cunhagens de Constâncio. Notamos novamente, no campo da moeda, a legenda FEL TEMP REPARATIO. Entre os principais exergos analisados, estão AQP* (Aquiléia), PARL, (Arles), ESIN (Siscia), ALE, SAMAN (Alexandria), SMAL, SMALA, SMANH, SMANS (Antioquia), TSA (Tessalônica), TRS (Treves), entre outras.

Esta imagem do reverso será reutilizada por Juliano durante os anos de 361 e 362.

No busto ocorre outra alteração significativa. A figura de Constâncio está voltada para a esquerda, com o globo na mão direita, junto com a letra N na nuca, direita do Observador.

5 - Constâncio em Pé Acompanhado do Lábaro e do Globo

A legenda está com alguns dizeres apagados e até mesmo quebrados.

Mas é no reverso, porém, que ocorre a alteração mais significativa: a legenda SPES REIPUBLICE, acompanhada da representação de Constâncio, em pé, com o globo na mão direita, apoiado em uma lança à esquerda, com uniforme militar. Trata-se de uma alusão a temas considerados importantes para a tradição romana, como o Senado ou a República. Neste caso, destacamos os principais exergos e localidades como TES (Tessalônica), PCON (Arles) e SMAB (Sisico).
 

Conclusão

Mediante a análise de conteúdo que precede, concluímos que o tema mais presente nas moedas de Constâncio II está representado pelos tipos e subtipos militares, o que pode ser facilmente explicado. Durante o século IV, o exército tem uma função essencial no mundo romano. Além do perigo sassânida no Oriente e das invasões germânica no Oriente, havia o medo das sublevações (as quais haviam sido tão freqüentes durante a anarquia militar). Não podemos esquecer também que o próprio imperador provém antes de mais nada das tropas: no Baixo Império, antes de ser um administrador, o César ou o Augusto precisa ser um chefe guerreiro. Não raro, generais foram aclamados pelos seus soldados, que lhes atribuíram o título de Augusto. O próprio Constâncio, ao falecer, estava a caminho da Gália para enfrentar Juliano, proclamado Augusto pelas tropas no Reno. Os fatores que impediram uma guerra civil foram a morte de Constâncio, atingido pela peste, e a aceitação do novo Augusto, Juliano, também pelo exército rival.

Razões como as mencionadas são mais do que suficientes para explicar o aumento da amoedação durante o período, bem como o caráter assumido pela iconografia monetária. É preciso pagar o exército, legitimar o poder de Constâncio II perante a tropa, homenagear ou favorecer uma determinada legião, demonstrar a segurança do seu governo divulgando a construção de muralhas ou campos militares, representar a sua vitória – a vitória de Roma – sobre um determinado inimigo.

As moedas configuravam significados, mensagens, do emissor (Constâncio II) para seus governados. Continham símbolos que deveriam ser entendidos ou decifrados pelo receptor.
 

Bibliografia

ARNAUD, Pascal. Le Commentaire de Documents en Histoire Ancienne. Paris: Belin Sup, S/D.

COHEN,Hernry. Description Historique des Monnaies.Frappés Sous L’Empiere Romain. Communément Appelées Médailles Impériales. Deuxième Edition. Tome Septième e Huitième. Paris: Rollim e Feuardent, Éditeurs, 1888-1892.

COSTA, Ney Chrysostomo da. Dicionário de Numismática. Porto Alegre: Livraria Sulina Editora, 1969.

MARQUES, Mario Gomes. Introdução à Numismática. 1a. ed. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1982.

NIETO SORIA, Jose Manuel. Ceremonias de La Realeza. Propaganda y Legitimacion en La Castilla Trastámara. Madrid: Editorial Nerea, 1993.

ROLDÁN HERVÁS, J. M. Introducción a la Historia Antigua. Madrid: Ediciones Istmo, 1975.

THE ROMAN IMPERIAL COINAGE. Edited by Harold Mattingly, C.H.V. Sutherland, R.A.G. Carson. V. VIII. London : Spink and Sons Ltda, 1983.
 


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