Paixão que mata

Leitura popular no início do Século XX
em  São Paulo
Valéria Guimarães

valeriaguimaraes@terra.com.br
Doutoranda da USP e professora da UNISA
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Paixão Que Mata


Um moço, julgando-se abandonado pela mulher que amava, põe termo à existência disparando um tiro de revólver na cabeça — Em um quarto do hotel “Universo” — Quem era o suicida — outras informações

O amor, mais uma vez, armou ontem o braço de um homem de espírito fraco, fazendo com que ele, em um momento de exaltação, pusesse termo à existência, disparando um tiro na cabeça. O russo Abrahão Scholnick, há já bastante tempo aportara no Brasil, cheio de esperanças e de boa vontade, ocupando-se em vários místeres. Percorreu vários Estados e por fim chegou a São Paulo, trazendo de seu algumas economias, fruto de um labor insano, muitas vezes exposto à chuva ou ao sol para fazer jus a um minguado salário. Trabalhador infatigável, reuniu-se a dois patrícios seus e estabeleceu-se com uma grande casa de gramofones, à rua de São João nas proximidades do Largo do Paissandu , ficando constituída a firma Kobilisky, Raichberg & Co.


Desde então, os seus negócios pareciam prosperar e Abrahão passou a residir comodamente no quarto no 42 do Hotel Universo, à rua de São João, dando fundos para o beco do Paissandu, no 6.


A vida de novo comerciante decorria calma e feliz, quando ele conheceu uma mulher de nome Elvira, por quem se apaixonou doidamente. A mulher, a princípio correspondeu ao amor ardente do russo, que julgava ter alcançado a suprema felicidade. Um dia, porém, Abrahão foi visitar a sua adorada. Encontrou-a mudada. Já não era a mesma dos outros dias. Negava-lhe os seus carinhos e os seus grandes olhos negros desviavam-se do olhar ardente e apaixonado do negociante.


Este retirou-se cabisbaixo e pensativo.


Elvira nem mais o esperava à janela, como outrora. E Abrahão, no entanto, amava-a cada vez mais, passando horríveis noites de insônia, durante as quais lia sofregamente romances de amor, cheios de cenas repassadas de ternura, terminando quase sempre pelo suicídio do protagonista, que se via abandonado pelo ente amado. Ontem, Abrahão tentou uma reconciliação. Não foi porém atendido. Louco, desvairado completamente, recolheu-se ao seu quarto e algum tempo depois um estampido surdo chamava a atenção dos demais moradores, para o quarto no 42. Nesse momento chegávamos também ao local e fomos um dos primeiros a penetrar no aposento. Estava tudo em ordem. A porta do guarda-casaca estava semi-aberta. Sobre uma pequena mesa, junto ao lavatório, estava o paletot, um chapéu mole, preto, uma gravata e o colarinho de Abrahão.


Em frente à porta, em uma cama de casal, somente sobre o colchão, estava deitado atravessado o infeliz moço, com uma perna caída para o chão e a outra apoiada nos pés da cama. Tinha a cabeça em uma poça de sangue e ainda vivia.


Na mão direita empunhava o revólver e na outra amarrotava um volume do “Romance de um Moço Pobre”, aberto na página 37. Ao lado estavam dois volumes do “Amante Ideal”, de Victorien du Saussay e o “Como se Conquistam Mulheres” ou “Conselhos a um Rapaz”. Chegavam então a autoridade policial e um médico legista, que, vendo o estado gravíssimo de um desditoso russo, providenciaram a sua remoção para a Santa Casa. Isso, porém, foi desnecessário, pois momentos depois, ele exalava o último suspiro. Seu cadavér ficou depositado no necrotério da Central, devendo ser hoje entregue a seus amigos e patrícios que querem fazer o funeral.

 

O Estado de S. Paulo, 1912




Esta é a triste história de Abrahão. Nela a violência se faz presente como se fez na vida da maior parte das pessoas que o cercavam numa cidade em ritmo acelerado de crescimento como a São Paulo do início do século XX. Tipo cada vez mais comum na capital paulistana, era imigrante que como tantos vinha em busca de um futuro melhor, "cheio de esperanças e de boa vontade".


Encontrou, porém, um panorama desalentador. Os anos 90 do século XIX ficaram conhecidos como "a grande década da imigração".[1] Os habitantes de São Paulo se deparavam com uma abrupta mudança decorrente do grande afluxo populacional, o que fez surgir a necessidade de uma urgente reestruturação.[2]


A cidade passa por um amplo processo de urbanização no decorrer do primeiro decênio do século XX, sob a administração do conselheiro Antônio Prado. Inspirado no modelo europeu, consolidou as idéias de civilidade e urbanidade em amplos setores da sociedade: serviços sanitários, alargamento de ruas, reformas das praças e dos serviços de segurança, construção de pontes, áreas públicas de lazer, arborização, etc.


O "Hotel Universo", onde Abrahão morava, estava na principal área atingida pelas reformas, no centro velho de São Paulo. Apesar das melhorias, as inovações não eram suficientes para conter o aumento do índice de criminalidade e todo tipo de problemas de uma cidade em ritmo desenfreado de crescimento: epidemias, atropelamentos, falta de moradia, entre outros. Como o abastecimento de água era insuficiente, o freqüente uso de cisternas facilitava as epidemias. O risco aumentava com o despejo de esgotos sem tratamento no Tietê.


O Largo do Paissandu, onde ficava a loja de gramofones de Abrahão e para onde o hotel dava fundos, também é incluído no projeto de modernização. A Praça de chão de terra se abria no meio do terreno alagadiço, outrora conhecida como Praça das Alagoas. Freqüentada zona boêmia desde o Império, era ponto de tílburis, circundado por comércio popular, hotéis de segunda, restaurantes e cafés.[3] Mesmo quando ajardinado, continuou ponto de carroceiros e tinha grande afluxo de pessoas.


Antes das reformas a rua de São João foi conhecida por muito tempo como Ladeira do Acu, que é em tupi-guarani "febre" ou "água que produz febre", devido a uma bica insalubre que ali existia, aterrada em 1898. Lugar em que fiéis banhavam a estátua de São João, rendendo-lhe homenagem, acabou ganhando o nome do santo. Com o aterro foram igualmente higienizadas as práticas populares, mácula para a civilização. À época da morte de Abrahão, não mais havia banho, nem festas.
Rua São João (1900)


Essa área central, conhecida como "triângulo"[4], perde progressivamente sua característica residencial.[5] A administração seguinte, de Raimundo Duprat, adere ao plano Bovard, referência ao arquiteto francês de passagem pelo Brasil que o elaborou. A São João torna-se avenida, duplicada e ampliada, com arborização entre as vias. Os proprietários lucram com as indenizações enquanto inquilinos são submetidos ao despejo. "Desapropriações escandalosas. Dinheiro a rodo. Cada metro de terreno, os olhos da cara."
[6]


O centro da cidade como um todo tinha uma grande afluência de pessoas, seja para trabalhar – sobretudo nas áreas de serviços e administração – seja para se divertir ou consumir. Era um lugar estratégico para situar uma loja de gramofones, como a de Abrahão e seus patrícios. A clientela seria formada pelas senhoras de elite – sempre acompanhadas –, enquanto a população mais pobre só podia caminhar admirando as vitrines.


São Paulo modernizava-se na sua estrutura e também nos costumes, com a incorporação de novas tecnologias na área das comunicações, como o telégrafo e o telefone, e nos transportes, com os bondes elétricos, os automóveis e o avião.


O bonde destaca-se na paisagem da
Rua São Bento, em 1900.

A moda do vestuário tinha  roupas mais leves e soltas, influenciadas também pelo desenvolvimento dos esportes.[7] A ordem era manter-se atualizado com a moda européia, equiparando, em termos de status, a elite brasileira aos estrangeiros ricos.

Desde o planejamento urbano, até as peças do vestuário, tudo era copiado. Isso pode ser ilustrado também pelo fato de pessoas mal vestidas (isto é, que não tinham a indumentária conveniente: casaca e chapéu para homens e a toilette completa para as damas, incluindo luvas) ou descalças (caso de muitos matutos recém-chegados do interior) serem proibidas de freqüentar determinados lugares, não só particulares como públicos.


O cotidiano da cidade era marcado pelo burburinho de vozes e línguas diversas, onde o italiano sem dúvida era a mais ouvida. Nas suas ruas sobressaíam os gritos dos pequenos jornaleiros e dos vendedores do mercado da São João, onde se acotovelavam cozinheiros pela manhã, italianas com suas cestinhas e toda sorte de prestidigitadores: o homem que jejuava em público, um outro que se deixava enrolar por uma imensa cobra e a "mulher da caixa", grande sensação, serrada ao meio aos olhos dos passantes incrédulos.[8]


É essa São Paulo de Abrahão. Nela o estigma ao estrangeiro era também uma realidade. Ele, contudo, escapa à classificação dada em geral aos imigrantes, tidos muitas vezes como causadores da degradação dos costumes, em particular no que diz respeito à "lepra da luta de classes".[9] Ao contrário, ele é descrito como "trabalhador infatigável".


A ausência de uma ocupação fixa era freqüentemente associada à vagabundagem. O alto índice de desemprego, a expansão de mão-de-obra feminina e infantil, os baixos salários e as péssimas condições de trabalho, faziam do crescente contingente de desocupados um incômodo para as autoridades. O problema de Abrahão aparentemente não era este. O cronista o descreve como um tipo honesto, trabalhador, vestido de maneira adequada aos padrões exigidos, como vemos pela descrição final da crônica onde são enumerados seus pertences: "o paletot, um chapéu mole, preto, uma gravata e o colarinho". Tudo ia bem na vida dele, sugere o cronista. O início das desgraças se deu justamente no momento que ele conheceu Elvira, por quem se "apaixonou doidamente".


Se havia algo de errado em Abrahão, foi ter se deixado desviar do bom caminho para entregar-se de maneira "doentia" a este amor, de conotação fortemente negativa, associado ao desregramento e à instabilidade da paixão e não à constância do casamento. Era um amor intenso, negativo, relativo a trevas e confusão.


O casamento era a instituição que garantia a coesão da família, a estabilidade e organicidade desta que é a célula básica da sociedade.


O valor do casamento é muito conhecido (...); sabe-se demais o papel que ele representa, sua influência sobre a mortalidade, que é sempre maior nos solteiros. (...) O casamento reduz o perigo da alienação mental de perto da metade, é uma fonte que, se não esgota o mal, pelo menos o alivia de muito e sobre o suicídio é tão pronunciada sua ação, que na opinião de Proust o celibato e a viuvês constituem uma causa forte e ativa do suicídio nos dois sexos.[10]


A moça "a princípio corresponde ao amor ardente do russo". Apenas a princípio como se tramasse de antemão um desfecho infeliz. Seu retrato é de uma pessoa traiçoeira, a própria imagem demonizada da mulher. Esse momento histórico assiste a uma redefinição da família onde a mulher é imaginada como contida, "voltada para a intimidade do lar".[11] É exatamente a imagem contrária de Elvira que nos dá a notícia de jornal. Ela corresponde muito mais ao perfil da mulher pública, que se expõe à janela, "carnal e egoísta – encarnação do mal"[12], oposta à idéia de mãe Virgem Maria. Mesmo o seu nome lembra o da primeira pecadora Eva – "razão da perdição do homem"[13].


Não há referência ao seu sobrenome, ela pode ser qualquer uma, uma mulher...da vida. De fato, a região em que o russo morava era cercado de rendez vous e tradicional ponto de prostituição.


É bem possível que Elvira fosse uma prostituta. Independente disso, não há, de qualquer forma, nenhum valor positivo associado a ela: labor, fidelidade, honestidade, procedência, maternidade, nada que corresponda aos valores burgueses.


Ao contrário, ela esteve pronta para se entregar à violenta paixão de Abrahão e é ele que tem a alma atormentada (até a morte...) quando ela "negava-lhe os seus carinhos e os seus grandes olhos negros". De qualquer modo os dois encarnam papéis degenerados – a antropometria aproximava criminosos, loucos, anarquistas (associados quase sempre a imigrantes), prostitutas e mais ainda os suicidas ao afirmar serem seus cérebros diferentes do das pessoas normais. Elvira é, portanto, uma mulher má, demonizada, que leva seu companheiro à morte. Ele, um tanto ridículo, assumindo o papel de fraco, romântico, passivo, dócil em oposição às características masculinas da força, razão, liberdade e poder.


O suicida, uma categoria facilmente classificada entre louco e criminoso, é tido como fraco, também o oposto da imagem masculina de força e resistência. Ele se entrega ao desespero no lugar de resistir, superar e vencer. "Que loucura (...) Porque amou, e uma bela mulher o embriagou no seu seio, querer morrer!", diz Satan sobre Macário.[14]


Esse amor romântico faz o amante idealizar o ser amado, tornando-o a única condição de sua felicidade. É um amor à distância, imaginado e alimentado pelas leituras que a possibilidade de ócio e a reclusão do ambiente privado e solitário do quarto de hotel na grande cidade propiciava. Essa leitura também é tida como patológica e sobretudo contagiosa. Uma leitura intensiva que na intimidade do quarto podia causar "a desordem dos nervos e o esgotamento do corpo"[15], tal qual as práticas sexuais solitárias, também alvo de condenação pelo discurso médico. Assim, Abrahão se consumia "passando horríveis noites de insônia, durante as quais lia sofregamente romances de amor, cheios de cenas repassadas de ternura, terminando quase sempre pelo suicídio do protagonista, que se via abandonado pelo ente amado." As autoridades registravam essa preocupação nos relatórios sanitários que começaram a ser elaborados no fim do século XIX.


Na verdade, a imprensa de São Paulo não tem levado em conta o perigo de tais notícias, ainda quando mesmo esteja certa do incontestável contágio moral do suicídio, principalmente em relação aos indivíduos apenas púberes, nos quais a superexcitação nervosa própria da idade, despertando sensações novas exageram os sentimentos de amor.
[16]


Vimos como a crônica com a história de Abrahão impõe uma série de estigmas a alguns tipos sociais que nela aparecem esteriotipados e que percorrem o imaginário desta época.


R. XV de Novembro (1910)
Ela foi publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 1912. Seu caráter, porém, não é simplesmente informativo. Além do comunicado de um suicídio, tem elementos do melodrama e tom coloquial. A esse "...relato romanceado do cotidiano real" chamamos de fait divers[17]. No Brasil, a difusão deste gênero jornalístico (ou literário?) foi quase concomitante à sua invenção na Europa no século XIX. Congênere do folhetim, faz uma relação inversa com este. Enquanto o folhetim é uma ficção que busca inspiração na realidade, o fait divers é a realidade contada com recursos do melodrama.

Davam o tom mundano e indefinido do cotidiano, com notícias de prodígios, monstros, acontecimentos fantásticos ao lado de crimes passionais, obituários, esquetes cômicos, a presença excepcional de autoridades ou o nascimento de um elefantinho no zoológico...[18]


Era um novo tipo de jornalismo que aos poucos substituía as folhas de cunho político, em geral efêmeras, abundantes durante o Império. Em São Paulo, a difusão da imprensa e destes novos gêneros se deu um pouco mais tarde que no Rio de Janeiro, na virada do século XIX/XX. Nesta época o consumo destas notícias na cidade de São Paulo era significativamente generalizado entre a comunidade de leitores e seus ouvintes. Um dos periódicos de maior importância já desde o Império, quando se denominava A Provícia de S. Paulo, O Estado de S. Paulo tornou-se definitivamente a voz oficial da elite local na virada do século.[19] Com a aquisição da rotativa Marinoni em 1907, máquina que significava um imenso avanço tecnológico, a tiragem chegou a 35.000 exemplares em edições de 15 a 20 páginas, empregando dezenas de gráficos e atingindo milhares de novos leitores (e ouvintes).[20]


A Imprensa cumpria uma função agregativa desta consciência do que era ser paulista e podemos dizer, do que era ser brasileiro, já que a locomotiva São Paulo ocupava uma posição central na República do café. Ficava assim constituído um pacto entre jornalismo e sociedade. Ao mesmo tempo que ratifica o poder do Estado pela aliança social firmada com esse pacto, a Imprensa se coloca como vigilante, um “quarto poder”. E é, indubitavelmente, pela linguagem, pelo compartilhamento de um idioma e seus significados simbólicos, que se dá a confirmação desse acordo tácito.[21] A despeito de a população paulistana poder ser considerada predominantemente oral no início do século XX, a palavra escrita e difundida pelo impresso é de fundamental importância para a formação da comunidade imaginada, mesmo que seja preciso lançar mão de intermediários entre os vários graus existentes de domínio da escrita.[22]


Capitalismo, tecnologia da comunicação e língua estavam entre os principais fatores que possibilitaram a formação do sentimento nacional. Isso quer dizer que tanto as descobertas científicas, como a passagem de uma produção impressa artesanal para industrial aceleraram o processo de decadência de determinadas certezas, asseguradas pelos conceitos culturais que o precederam. No plano da transcendência, podemos nos referir à decadência do cristianismo e das dinastias divinas. A nação surge nesse contexto quase que como uma nova religião. No Brasil, a Proclamação da República retomou com ardor as discussões sobre caráter nacional. O grande tema da geração de setenta foi, sem dúvida, a formação do Estado Nacional. Iniciada com a emancipação política, a discussão sobre o caráter nacional brasileiro esteve diretamente vinculada ao movimento romântico e terminou o século XIX cercado pela fusão peculiar das idéias liberais e evolucionistas, estas últimas difundidas pelo que podemos chamar de "naturalismos".


O jornal O Estado de São Paulo pode ser visto como um dos protagonistas do projeto modernizador de uma elite que achava possível efetivar a substituição do mundo da superstição pelos valores racionais do nacionalismo. Não se trata de vincular automaticamente aqui o nacionalismo com a dessacralização do mundo, mas entendê-lo em face aos valores já existentes e profundamente arraigados na cultura popular, como a religião e a monarquia. Isto é, o nacionalismo não vem em substituição, mas em sobreposição ao passado. A palavra escrita e, sobretudo, impressa é um dos componentes da formação da comunidade imaginada. É certo que não tínhamos uma comunidade formada majoritariamente por leitores. Mas, se mesmo na Europa a posição de intermediários que ocupavam os letrados foi essencial neste processo, onde os programas de alfabetização do século XIX alcançaram relativo êxito e a difusão da cultura letrada tinha um extenso histórico, no Brasil, onde dispúnhamos de uma camada ínfima de leitores e nossa elite letrada, além de igualmente reduzida, era grandemente tributária dos padrões europeus, o papel dos intermediários foi muito mais importante.




R. Libero Badaró (1900)
Esta elite intelectual acabou se revestindo de verdadeira missão civilizadora. Naturalmente a falta de público os afetou e, com certeza, o descompasso entre a produção letrada e o ambiente predominantemente oral dificultou ainda mais a identificação do público com este projeto. São as "idéias fora de lugar" de que fala Schwarcz. A situação se agravou com o passar do tempo, pois a contradição entre um projeto nacional, que buscava a "autenticidade" e a "originalidade" brasileira, se tornava cada vez mais gritante a medida em que a consciência deste "qüiproquó das idéias"[23] se fazia mais evidente.


É neste contexto que acreditamos que o fait divers assume um papel peculiar, sendo um atalho eficaz para aproximar o projeto regenerador com o público. Não queremos dizer que o fait divers tem uma função meramente ideológica, onde valores são impostos de cima para baixo. Eles são a prova de que era preciso falar a língua do povo caso se quisesse chegar até ele. E assim, a linguagem oral mistura-se ao discurso erudito.[24] Assim ocorre também com um tipo de literatura – dita popular – como os livros que Abrahão possuía, a qual percorre o imaginário dos leitores em variados níveis de alfabetização. Esse processo amplia o público leitor-ouvinte e a idéia de nação pode, enfim, ser imaginada por um grande número de pessoas, ainda que restrito ao ambiente urbano.


Outro ponto interessante a ser observado neste tipo de notícia, “desgraça pouca é bobagem”[25], cuja característica se abre a várias definições, espaço vago no jornal para tudo o que não se classifica e que exercia um forte magnetismo sobre o tipo de leitor que se formou após a consolidação da Imprensa Industrial[26] é a ausência de uma oposição rígida entre ficção e realidade. Sua fórmula reúne informação e invenção ao mesmo tempo, a ponto destas se confundirem, tênue linha separando real e imaginação. A simultaneidade propiciada pelo tempo homogêneo e vazio – presente nas grandes cidades regidas pelo tempo mecânico da modernidade como já era São Paulo no início do século XX – e os vários acontecimentos se desenrolando concomitantemente, como na trama de um romance, são elementos também encontrados no jornal. Conjunto de incoerências, “uma forma extrema do livro”, a notícia representa e é ficção.[27] Efêmera como o tempo e a vida, a informação compartilhada simultaneamente propicia uma experiência comum aos seus leitores, fundindo-os numa realidade construída, imaginada. E se há um lugar privilegiado para observar a fusão entre esses dois pólos, de maneira alguma rigidamente opostos, é o fait divers.


Tradicionalmente classificados de acordo com sua função, os textos eram tidos em categorias opostas, como documentais (onde é reforçada a veracidade dos fatos) e textos de ficção (que não podem ser considerados testemunhos da realidade). A historiografia mais recente contesta essa divisão partindo do pressuposto que o documento se origina de uma construção literária, embora obedecendo regras diversas daquelas próprias da arte. Uma notícia de jornal, como o texto apresentado por nós, baseia-se em acontecimentos mas a linguagem empregada para expressá-los seguem linhas de discurso próprios.
[28]


Ora, falávamos que essa leitura era considerada popular. Mas quem é o Povo?


Esse "povo", do qual Abrahão também faz parte, não contém características únicas na qual o podemos classificar. São letrados, mas não eruditos. Pode ser que o leitor da notícia da morte de Abrahão Scholnick não tenha freqüentado curso superior, geralmente restrito às elites econômicas, mas isso não o impedia de ser familiarizado com a cultura letrada. Dessa forma, a oposição entre cultura letrada e popular se esvai e se mostra sem sentido para definirmos o conceito de popular a partir de práticas ou objetos.[29]

R. XV de Novembro (1898)


Também não é o nível econômico que determina o que é "povo", o restringindo à condição de "pobre". Ou, então, se partíssemos da própria notícia ou das leituras de Abrahão, teríamos que popular é o que é feito por eruditos e tornado popular, como a literatura de cordel? Ou seja, aquilo que é destinado ao povo? Ou, popular é o que é feito pelo povo? Obviamente essa é uma falsa questão, o que buscamos não é a definição de um conceito mas sim descobrir, ainda que muito pouco, como nas práticas, representações e produções se cruzam as "diferentes práticas culturais".[30]


Há, sem dúvida, uma intensa circularidade entre erudito e popular, tanto nas práticas de leitura de Abrahão como na constituição da própria notícia. Por um lado há uma deslegitimação desse outro, do "gosto popular", da maneira como desfrutam as coisas. A paixão, o descontrole, o ruído, o tumulto, as emoções incontidas seriam a "marca da ausência de cultura, de gosto e de educação."[31] Mas por outro lado, a própria estrutura e temas do fait divers ultrapassa os limites do público a que foi destinado. Após o romantismo que revestiu os temas próprios da tradição popular com a erudição, a linha divisória entre high e popular culture tende a ficar cada vez mais tênue. Assim, quando o romance romântico torna-se referência para um consumo em grande escala é recebido em terreno fértil. São muito familiares aos que se dirigem pois retomam fórmulas já consagradas pela tradição. Acostumados com histórias fantásticas ou dramáticas e sobretudo de conteúdo violento, como seu próprio cotidiano, acham no fait divers algo de familiar, que lhes lembra as mesmas histórias contadas por gerações. Portanto, se quisermos entender o consumo das crônicas do tipo fait divers  como uma nova prática popular, própria do ambiente urbano que se formava no início do século no Brasil será pelas marcas da cultura oral que nele percebemos.


Ela está na escolha dos temas como o amor, a morte (geralmente juntos, numa oposição dramática entre eros e tanatos), a paixão, o desespero, o sangue, o extraordinário, o prodígio, o grotesco, o cômico. Difundem os estigmas já consagrados pela tradição, que o projeto burguês aproveita para adaptar ao mesmo tempo que ele próprio se adapta à maneira deles. Aparece na construção do discurso como a presença do tom agonístico, as repetições (conjunções aditivas), os clichês (fórmulas), o ritmo que permite a leitura em voz alta recuperando um pouco do calor que tinha esta palavra antes de ser escrita, quando só vivia no campo do efêmero da palavra falada, que se esvai antes mesmo de acabarmos de pronunciá-las. Todos esses recursos mnemônicos, que penetram o impresso visam recuperar um pouco da força da palavra falada. A cultura escrita e sobretudo impressa operou profundamente sobre o funcionamento da mente humana[32]. Enquanto que para nós, letrados, a palavra é um símbolo, uma convenção, exterior ao real, uma "película fina e inconsistente" que separa o mundo real do mundo das idéias para o homem pertencente à cultura oral, a palavra é uma substância, uma força material.[33] A palavra falada é uma realidade e não uma convenção, é um modo de ação e não uma confirmação do pensamento.[34] Dada pelo som – cujo universo é o habitual da linguagem, e não pela forma, a palavra falada incorpora, envolve, unifica. Não temos aqui, portanto, representação. Não há separação entre significante e significado.


Quando o cronista incorpora os recursos orais em seu discurso escrito, recupera um pouco dessa mágica, e consegue atingir com muito mais eficácia, inclusive aos que não sabem ler, aos que apenas ouvem nas leituras em grupo as histórias destes crimes que por vezes materializam-se, tornando o horror contido no romance ou fait divers, uma terrível realidade.


Os folcloristas, em busca das sobrevivências do passado, não conseguiram enxergar na leitura de notícias sangrentas ou romances melodramáticos uma prática popular. Enfim, não quero afimar, absolutamente, que o fait divers seja o lugar onde se formou a consciência nacional em São Paulo mas sim, que ele é um lugar privilegiado para observarmos as saídas que estes intelectuais acharam para chegar ao público e, mesmo condenados pela elite pelo muito o que ainda guardavam de superstição e de oralidade (ou seja, de não-erudição), foram sem dúvida muito mais lidos que os compêndios acadêmicos, sejam eles da esfera da medicina ou do direito, e, portanto, muito mais influentes na formação do caráter brasileiro.


Nele vemos como se constroem as representações ligadas a um projeto de elite adaptado a uma realidade bem diversa da abstrata razão do mundo da escrita.


Podemos, portanto, entender o consumo de fait divers como uma prática popular, carregada de estigmas, urbana, típica dessa sociedade que se formava, a medida em que é elaborada por uma elite a fim de constituir uma sociedade orgânica e impor através dos elementos que são próprios da cultura oral um novo ethos. Se conseguiram ou como os leitores reagiram a esta imposição não será possível tratar aqui, ficando para uma próxima oportunidade.

R. São Bento no Largo do Rosário (1902)



GUIMARÃES, Valéria. Paixão que mata – leitura popular no início do século XX em São Paulo, comunicação publicada nos Anais do I Simpósio Nacional de História Cultural, RS, 2002, GT- História Cultural – ANPUH-RS, CD-ROM, Ventura Livros/Livraria Terceiro Mundo



[1] LEME, Marisa Saenz. Aspectos da evolução urbana de SãoPaulo na Primeira República, tese de doutoramento apresentada ao Departamento de História da USP, SP, 1984, p.3, 5

[2] MORSE, Richard, Idem, Ibdem, p.85; TAUNAY, Afonso de E. História da cidade de São Paulo sob o Império (1842-1854), vol. VI, SP, Col. da Secretaria Municipal de Cultura, Dep. do Patrimônio Histórico, 1977; SEVCENKO, Nicolau. Orfeu Extático na Metrópole - São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos vinte. Cia. das Letras, São Paulo, 1992, p. 107

[3] LEME, Op. Cit., p. 94

[4] "Triângulo" era o nome dado à área que compreendia as ruas XV de Novembro, Direita e São Bento

[5] LEME, Op. Cit., p. 22

[6] MOURA, Paulo Cursino de. São Paulo de outrora- evocações da metrópole, Edusp/Itatiaia, 1980, p. 97

[7] SEVCENKO, Op. Cit., p. 49

[8] LEME, Op. Cit., p. 104

[9] RAGO, Margareth. Do Cabaré ao Lar: a utopia da cidade disciplinar – Brasil 1890-1930, Ed. Paz e Terra, São Paulo, 1997, 3a edição, p. 11

[10] Anuário Estatístico de Seção de Demografia – ANO X – 1903 pela Diretoria do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, São Paulo, 1904

[11] RAGO, Op. Cit., p. 12, 13

[12] RAGO, Op. Cit, p. 82

[13] RAGO, Op. Cit, p. 82

[14] AZEVEDO, Álvares de. Macário, Noites na Taverna e Poemas Malditos, Francisco Alves, 1983, p. 121

[15] CHARTIER, Roger. Do Palco à Página – publicar teatro e ler romances na época moderna – séculos XVI - XVIII, Editora Casa da Palavra, 2002, p. 107

[16] Relatório apresentado ao Presidente de Estado pelo Secretário Interino dos Negócios da Justiça de São Paulo - José Álvares Rubião Jr. Em 31.12.1894 - SP, p.260/261

[17] MEYER, Marlyse.Folhetim, uma história. SP, Cia. das Letras, 1996, p.94

[18] MEYER, Marlyse. Voláteis e Versáteis, de variedades e folhetins se fez a chronica in BOLETIM BIBLIOGRÁFICO BIBLIOTECA MÁRIO DE ANDRADE, vol.46, NO 1-4, janeiro a dezembro de 1985, p. 21 e 25

[19] Em 1902, Júlio de Mesquita passou a ser o único proprietário daquele a que Werneck Sodré chamou de “o grande órgão político na capital do Estado”. SODRÉ, Nelson Werneck, A História da Imprensa no Brasil, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1966

[20] SODRÉ, Op. Cit., p. 371

[21] GOMES, Mayra Rodrigues. Jornalismo e Ciências da Linguagem, Hacker Editores e Edusp, São Paulo, 2000, p. 20

[22] ANDERSON, Benedict. ANDERSON, Benedict. Nação e Consciência Nacional, ed. Ática, São Paulo, 1989, série Temas, vol. 9

[23] SHWARCZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas – forma literária e processo social nos inícios do romance bradsileiro, Livraria Duas Cidades e Editora 34, 5a edição, 1a reimpresão, 2001

[24]BAKHTIN, Mikhail, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, Ed. Hucitec, São Paulo, 1997

[25] Como diz Marlyse Meyer

[26] MARTINS, Wilson, A Palavra escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca, Editora Ática

[27] "...pois, se nos voltarmos agora para o jornal como produto cultural, vamos ficar chocados por seu profundo caráter ficcional. (...) Desta perspectiva, o jornal não passa de uma "forma extrema" do livro, um livro vendido em escala imensa, porém de popularidade efêmera. Poderia dizer-se que são best-sellers por um só dia."A metáfora da imaginação usada por Anderson já implica a ficção: na tradução do original, "Comunidade Imaginadas", ANDERSON, Benedict. Op. Cit., p. 41 e 43

[28] "O texto, literário ou documental, não pode nunca anular-se como texto, ou seja, como um sistema construído consoante categorias, esquemas de percepção e de apreciação, regras de funcionamento que remetem para suas própria condições de produção." CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações, Lisboa, Difel, 1988 (1a edição – 1985), p. 63

[29] CHARTIER, A História Cultural..., Op. Cit., p.55, 56

[30] CHARTIER, A História Cultural..., Op. Cit., p. 56

[31] MARTÍN-BARBERO, Jesus. América Latina e os anos recentes: o estudo da recepção em comunicação social, In: SOUSA, Mauro Wilton de. Sujeito, o lado oculto do receptor, Editora Brasiliense/ECA-USP, 1995, São Paulo, p. 52

[32] McLUHAN, Marshall. A Galáxia de Gutenberg, São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1977

[33] KRISTEVA, Júlia. História da Linguagem, edições 70, Lisboa, 1969, p. 69

[34] ONG, Walter. Oralidade e Cultura Escrita, Editora Papirus, Campinas, São Paulo, 1998





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