Gráficos: os artesãos das palavras

Angela Birardi e Gláucia Rodrigues Castelani
angelabirardi@ig.com.br e glauciacastelani@hotmail.com
Bolsistas FAPESP e Pesquisadoras do PROIN (Projeto Integrado Arquivo Universidade)
Quarto Ano - História/USP
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Este artigo pretende introduzir a temática da imprensa ligada ao trabalhador gráfico como catalizador dos movimentos sociais e políticos inerentes às primeiras décadas do Brasil república.


“Os trabalhadores gráficos eram extremamente valorizados pelas outras categorias profissionais, talvez devido ao fato de dominarem o principal instrumento de reivindicação da época: a palavra escrita.”
(NARARÉ, 1978: 131)


Por essa razão os gráficos se colocaram em posição de liderança nos movimentos sociais.

É de considerável importância, principalmente no estudo das comunicações esta particularidade do trabalhador gráfico, isto é, o fato de ser alfabetizado. Tanto foi importante nos albores do desenvolvimento da imprensa – ele se desenvolve justamente com ela – como foi imprescindível elemento de comunicação na popularização das idéias políticas, que vinham no bojo da questão social, ao despontar do século XIX.

Composição tipográfica do jornal A Classe Operária. Esta
composição foi apreendida pelo Deops em 1932 na casa em que
funcionava a Tipografia do Partido Comunista.

         

De acordo com Maria Nazareth Ferreira, em seu livro sobre a imprensa operária, toda a extraordinária movimentação que se desenvolveu no meio do operariado brasileiro do final do século XX, foi marcado pela presença do operariado gráfico. Justamente por ser esta categoria profissional a vanguarda da organização operária no mundo todo. E, no Brasil não seria diferente.


O  ano de 1905 foi caracterizado por mobilizações político-sociais relevantes para os gráficos e o operariado em geral. É importante salientar, neste contexto, a grande participação do elemento imigrante (espanhóis e italianos) como cooptador de tais movimentos. Neste período, surgiram vários jornais fundados pelos operários gráficos, cuja principal preocupação era desenvolver nas classes trabalhadoras o sentimento de união. “Por trabalhadores gráficos entende-se aqueles elementos politizados que compreenderam o momento em que viviam, onde problemas tais como, religião e política eram um empecilho à unificação da classe trabalhadora.” (NAZARETH, 1978: 115)

           

A questão social foi o grande enfoque do discurso deste militante da palavra. Com a chegada do elemento imigrante, incluindo aqueles que saíram de seus países por questões políticas, os gráficos ganharam o impulso necessário à organização, fundando em 13 de março de 1904 a União dos Trabalhadores Gráficos. Dentre as metas que se impôs, podemos destacar: obtenção da diminuição de horas de trabalho; regulamentação da admissão de aprendizes nas oficinas gráficas; estimular o espírito de solidariedade entre os operários gráficos; instalação de uma biblioteca que pudesse ser freqüentada pelos associados; publicação de um periódico para tratar dos interesses da classe e o progresso das artes gráficas; prestar apoio moral a seus associados, para que não fossem maltratados nas oficinas.


O ponto alto da difusão de idéias organizativas foi a publicação, no final de 1904, do jornal que iria representar a categoria gráfica, o jornal porta-voz da União dos Trabalhadores Gráficos: O Trabalhador Gráfico. Este jornal funcionou como veículo de propaganda entre a classe operária com o fim de estabelecer um senso de união e conscientização entre as classes trabalhadoras.


Devido à exigência de seu ofício, o trabalhador gráfico necessariamente deveria saber ler e escrever, destacando-se em meio a uma população predominantemente analfabeta. Situação que o colocava na vanguarda do movimento operário, pois os mesmos eram considerados uma espécie de intelectualidade entre os operários.


Essa categoria também contribuiu para a difusão entre as massas de ideologias políticas (anarquismo e comunismo) que “ameaçavam” a estabilidade político-ideológica do sistema vigente.


Apreensão feita pelo Deops, da Tipografia Comunista,
onde se encontrava material impresso para a
distribuição e maquinário tipográfico


A história da República brasileira nos mostra que os homens do poder sempre tiveram consciência da força da palavra sobre as massas, pois esta simbolizava um catalizador das lutas sociais.

Ao analisar o acervo documental do extinto Deops/SP (Departamento de Ordem Política e Social – criado em 1924), podemos perceber a grande freqüência com que o elemento gráfico aparece em tal documentação. Por meio de sua ação, ele era classificado como um elemento “perigoso” à ordem social estabelecida.


O pensamento político dos anos 30 do século XX foi permeado por questões articuladas pelo pensamento conservador, tais como idéias de ordem e hierarquia. Após a Revolução Liberal de 1930, o Estado revelou-se disposto a centralizar, progressivamente em suas mãos, tanto as discussões econômicas quanto as de natureza sócio-política. Por intermédio do nacionalismo difundido pelo governo de Getúlio Vargas, assim como o princípio de brasilidade, caracterizava-se um estado social de harmonia e ordem social onde as manifestações de individualidade não poderiam ser toleradas, isto é: qualquer vestígio de divisão social ou luta de classes não condiziam com o sentimento da nação. Assim, a censura transformou-se no mecanismo utilizado para o saneamento ideológico, cujo objetivo era impedir a circulação de idéias “subversivas”, garantindo o projeto político homogeneizador. Era importante para o Estado autoritário impedir, por meio da censura, a circulação ou alfabetização das massas por doutrinas “alienígenas” ao sistema.


O Estado assumiu-se como condutor de um processo excludente das massas e silenciador das oposições. A constituição de 1934 condicionava a publicação de periódicos e livros sob licença do poder público, bem como proibir a propaganda de guerra ou de processos violentos voltados para a subversão da ordem política e social. Por sua vez, a Polícia Política encarregou-se em silenciar as vozes dissidentes. Como um exemplo da ação policial, preocupada, em garantir a ordem e “os princípios de segurança nacional”, temos o caso do gráfico Mário Dupont, que foi preso em 1931 por fazer parte da greve dos gráficos.


Como poderemos ver no documento abaixo, um relatório policial feito pelo Sub-Chefe dos Investigadores, e mandado para o Exm. Sr. Dr. Ibrahim Nobre – Delegado de Ordem Política e Social – da Delegacia de Ordem Política e Social de São Paulo; a intensa vigilância a que eram submetidos os gráficos. (O relatório que se segue é o Documento 1 da Folha 1, e faz parte do Prontuário n.º 331 de Mário Dupont, Deops/SP. Arquivo do Estado de São Paulo).


        “Desde a proclamação da greve dos gráficos declarada em 23 de março de 1931, entre as demais investigações, procedi também a que se prendiam a publicação do ‘Boletim da Greve’, editado diariamente nesta capital.

As investigações foram coroadas de êxito no dia 10 do corrente.

Nesse dia incumbi os inspetores Otávio Mello e João Ramos, de darem uma busca no prédio n.º 147 C, da rua Piratininga.

A busca foi rigorosa e deu, os melhores resultados: escondidas em vários lugares, bem disfarçados, estavam todas as composições tipográficas que se referem a O Trabalhador Gráfico, Boletim da Greve.

Num saco de papéis velhos e inutilizados, foram encontrados muitos originais rasgados, sendo que vários foram recompostos e colocados em papel, tornando-se a sua leitura bem legível.

Todo material foi recolhido a esta Delegacia.

São proprietários dessa tipografia os Irmãos Mendes, a saber: Júlio Mendes e Henrique Mendes.

Na ocasião da busca ali apareceram os indivíduos Lido Piccinini e Mário Dupont, este membro do Comitê da Greve.

Todos foram recolhidos a este Gabinete onde encontram-se a disposição da V. Excia.”


Por intermédio do seu discurso, o trabalhador gráfico desmascarava as mazelas político-sociais inerentes a massa trabalhadora, negando a eficiência do Estado autoritário. Apesar de todas as medidas coercitivas contra os artesãos da palavra, o Estado não conseguiu abafar as manifestações de rebeldia das massas trabalhadoras impressas no boletins e jornais.                          



Bibliografia


BEIGUELMAN, Paula. Os Companheiros de São Paulo. São Paulo: Editora

        Símbolo, 1977.


CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Livros Proibidos Idéias Malditas o Deops e as

        Minorias Silenciadas. São Paulo: Estação Liberdade/Arquivo do Estado,

        1997.


CARNEIRO, Maria Luiza Tucci (org.). Minorias Silenciadas - História da Censura

        no Brasil. São Paulo: EDUSP/Imprensa Oficial do Estado, 2002.


DOPS. A Lógica da Desconfiança. Rio de Janeiro: Secretária de Estado da

        Justiça/Arquivo Público do Estado, 1996.


FERREIRA, Maria Nazareth. A Imprensa Operária no Brasil – 1880 -1920.

        Petrópolis: Vozes Editora, 1978.


GIDDENS, Anthony. O Estado-Nação e a Violência. São Paulo: EDUSP, 2001.


GUIMARÃES, Silvana Goulart. Sob a Verdade Oficial – Ideologia, Propaganda e

        Censura no Estado Novo. São Paulo: Marco Zero Editora, 1990.


Prontuários Deops/SP - Arquivo do Estado de São Paulo

Pront. 331, Mário Dupont

Pront. 2259, Tipografia Comunista v.I





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