Olmecas:
O Elo Perdido das Civilizações Mesoamericanas


Danilo José Figueiredo
danilo@klepsidra.net
Bacharel em História pela USP
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Introdução:

    Neste texto buscarei retratar o menos mal possível a uma Civilização que a História praticamente ignora e cujas fontes são quase que exclusivamente provenientes da Arqueologia: os Olmecas.

    Primeiramente é interessante que se diga que se sabe tão pouco sobre este povo que nem mesmo seu nome se pode precisar. Isso mesmo, Olmeca não era o nome pelo qual este povo se reconhecia. Este nome está perdido para sempre, apagado pelo tempo e soterrado pelos pântanos mexicanos e pelas instalações do PEMEX, o equivalente da Petrobrás no México.

    Mas, se os Olmecas não tinham realmente este nome, porque são assim chamados? A explicação é arqueológica. Na época Asteca, distante cerca de 2000 anos da época retratada neste texto, os indivíduos que habitavam a região na qual a cultura Olmeca se desenvolveu eram chamados de Olmecas que, em Nahuatl (a língua dos Astecas), quer dizer: Habitantes do País da Borracha. Isso porque naquela região existiam muitos seringueiras, as árvores de onde é extraído o látex utilizado na fabricação da borracha.

    Por esse motivo, quando os arqueólogos descobriram vestígios desse povo e concluíram se tratar de uma nova Civilização até então desconhecida, resolveram utilizar o nome Asteca dos habitantes da região para designar esta Civilização, sendo assim, quando se lê a palavra Olmeca, deve-se tomar em conta o contexto na qual está escrita. Na grande maioria das vezes ela se referirá aos Olmecas retratados neste texto, mas em algumas poucas obras, em especial naquelas voltadas ao mundo Asteca, ela pode se referir ao povo tributário e contemporâneo daquele Império. Em todo caso, quaisquer adjetivos relacionados com a palavra Olmeca estão, certamente, se referindo aos Olmecas tradicionais, os referidos aqui.

    Ao leitor deste texto recomendo ainda duas observações:

    1ª) Tenha em mente que nenhum dos dados fornecidos aqui é definitivo, afinal o estudo desta Civilização ainda engatinha se comparado com o estudo de outras Civilizações Mesoamericanas como os Maias ou os Astecas. Dessa forma, peço que me perdoem se futuramente ficar comprovado que algo, ou mesmo tudo, neste texto estava incorreto, afinal, dadas as referências até hoje encontradas, ainda existem aqueles que sequer acreditam que os Olmecas foram uma Civilização. Para esses indivíduos, este povo nada mais foi do que o início do mundo Maia.

    2ª) Quero alertar a todos para o fato de que não sou um especialista em América Pré-Colombiana. Escrevo este texto com a autoridade de quem irá concluir seu bacharelado em História daqui a um mês e que, além de ser interessado no tema, já escreveu três outros textos a seu respeito (Tawantinsuyu: O Império Inca, Tlachtli: Esporte ou Ritual de Sangue? e Astecas: Uma República confundida com Teocracia), mas não com a mesma autoridade que teria um arqueólogo especializado no tema. Por isso, quero ressaltar que ele é apenas um texto introdutório acerca deste povo, sendo assim, mesmo que, a exemplo de Vikings: Mais que um Povo, um Ideal, ele venha a ser um dos maiores textos em português a esse respeito, isso não significa que será completo.

    Finalmente, aos arqueólogos que porventura venham a ler este texto, quero pedir, desde já, desculpas se não souber me expressar corretamente nos termos de sua profissão ou, mais ainda, se em algum momento vier a ofende-los com alguma colocação infeliz. Sinto-me obrigado a ressaltar que a Arqueologia é, sem dúvidas, a maior contribuinte da História Antiga e, dentro dessa linha está incluída a História da América Pré-Colombiana, a qual não seria possível sem a dedicação, os acertos, e até mesmo os erros dos vários Arqueólogos que, nos últimos 150 anos têm se embrenhado em lugares por vezes insalubres ao extremo em busca apenas de conhecimento. Por isso, aos arqueólogos: Obrigado.

1 – A Trajetória do Homem:

    Segundo convenciona-se hoje, o Homem surgiu na África há, pelo menos quinhentos mil anos. É certo que temos dezenas de ancestrais Hominídeos, mas aquilo que chamamos de homo sapiens só a apareceu por volta da data acima. Devido a fatores incertos, mas provavelmente à busca por comida e aos conflitos entre os diversos bandos nômades, o Homem pôs-se a caminhar, sem, contudo, nunca ter abandonado seu continente materno.

    Migrando, o ser humano conquistou a Europa, a Ásia, a Oceania, a América do Norte e até a América do Sul, mas foi justamente em seu caminho entre a América do Norte e a América do Sul que ele se estabeleceu numa das regiões mais fascinantes do mundo: a Mesoamérica.

    Foi apenas por volta de 30, ou 40, mil anos antes de Cristo que os primeiros homo sapiens chagaram à América. Nesse período, a raça humana ainda era nômade e estava, em alguns lugares, começando a se sedentarizar. Processo iniciado em tempos diferentes nos diversos lugares, mas cuja origem é a mesma, a descoberta da agricultura.

    Os milhares de anos que separam a saída do Homem da África de sua chegada à América foram provocando, segundo uma visão Darwinista, uma certa diferenciação devida à adaptação da espécie ao clima ao qual era submetida. Por isso é impossível dizer qual dos segmentos da espécie humana é mais desenvolvido, uma vez que cada qual é proveniente de uma diferente adaptação da espécie à natureza num tempo em que o homem ainda não a havia vencido.

    Foi justamente essa adaptação natural que fez dos Homens da América os chamados “Peles Vermelhas”. Eles tinham feições orientais, ou seja, olhos oblíquos (herança de sua saída, ainda não tão distante no tempo, da Ásia) e faces quase ou totalmente imberbes, mas sua pele eram mais escura devido a uma nova adaptação, ou seja, o sol e as dificuldades Americanas fizeram com que os mais escuros se tornassem mais adaptados numa época em que não existiam protetores solares.

1.1 – O Homem na América:

    A teoria mais aceita para a chegada do Homem à América é a da transposição do Estreito de Bering (entre Alaska e Rússia) durante a última Glaciação, período no qual as águas entre eles estariam congeladas possibilitando o caminho a pé. Esta teoria é facilmente aceitável, pois não nos diz que o Homem necessitasse de outra tecnologia que não fossem as peles dos animais abatidos para faze-los aquecerem-se. No entanto, até mesmo os pássaros, que são irracionais, sabem que se você está no hemisfério norte e caminha em direção ao norte, o clima fica cada vez mais frio, sendo assim, é um tanto ilógico que o Homem, racional como é, tenha seguido tal rota em busca de terras mais quentes e, dessa forma, mais propícias à sua vida.

    Justamente por essa falta de lógica é que outras teorias se traçam a respeito da chegada do Homem à América. Apenas uma coisa se tem certeza, ou seja, de sua proveniência: a Ásia.

    Mas, será que não se pode aceitar a hipótese de que numa dada época tenha ocorrido uma leva migratória marítima através das calmas águas do Oceano Pacífico. Sim, porque também existe a teoria de que regiões como as ilhas da Oceania tenham sido as verdadeiras “mães” do Homem Americano. Isso seria mais lógico, afinal, se estivesse frio no sul, o homem iria para o norte em busca do calor.

    Entretanto, o objetivo deste texto não é discutir a proveniência do Homem Americano, mas sim levantar alguns pontos de discussão, sendo assim, vou “aceitar”, para efeito da elaboração do texto, como verdadeira a tese de que o Homem cruzou o Estreito de Bering em busca da caça de Mamutes.

    Os Mamutes, aliás, ao contrário do que muitos pensam, não eram dinossauros e nem tão pouco coexistiram com eles. Eram mamíferos como os elefantes de hoje, só que, ao contrário destes, eram mais adaptados ao frio. Em épocas remotas eles habitaram todo o hemisfério norte da Terra, inclusive a América, entretanto, talvez por seu tamanho e conseqüente abundância de carnes, acabaram extintos pelo Homem em sua busca de alimentos durante a glaciação. A carne de um Mamute podia alimentar todo um bando por vários dias. Ainda há ossadas na América que comprovam a caça do Mamute pelo Homem naquela região.

1.2 – A Mesoamérica:

    A Mesoamérica é uma região que não existe em nenhuma das divisões clássicas da América. Lembremos que segundo a divisão política, a América é dividida em três partes: do Sul, Central e do Norte. Segundo a divisão lingüístico-cultural, ela se divide em duas partes: América Latina (incluindo toda a América do Sul, toda a América Central e ainda o México) e América Anglo-Saxônica (apenas EUA e Canadá). Sendo assim, onde está a Mesoamérica?

    Este nome, ao contrário do que pode erroneamente indicar não é um sinônimo de América Central. É uma expressão Antropológica e também Arqueológica que se refere à região da América onde se desenvolveu uma cultura de nível tão alto que se equiparou ao nível das grandes Civilizações da Antiguidade do Velho Mundo. É certo que outras Civilizações Pré-Colombianas como a Inca não estão situadas na Mesoamérica, mas isso se deve tanto à sua distância geográfica (o que implicaria na inclusão de áreas de “baixa” cultura no termo) quanto a uma disputa ideológica dentre da Arqueologia, afinal, como o México é o detentor dos territórios da maior parte daquilo que um dia foi a Mesoamérica e como este é vizinho dos EUA, os Norteamericanos acabam por preterir as Civilizações grandiosas da América do Sul na maioria de seus estudos Arqueológicos e Antropológicos, dando maior atenção e, conseqüentemente, importância àqueles que lhes são vizinhos.

    A rigor, a Mesoamérica se estende do Planalto Central Mexicano, ao norte, até Belize e Honduras, ao sul, passando pela Península do Yucatan, as outras regiões próximas podem ser incluídas ou excluídas de autor para autor.

1.2 – A Agricultura ou o Milho, Pai da América:

    É certo que a agricultura é considerada o fator determinante para que uma civilização deixe o nomadismo e entre definitivamente no estágio de sedentarização. No entanto, ao contrário do que pode se pensar, ela não enriqueceu, a princípio, a alimentação dos indígenas da América. Pelo contrário, tornou-a menos rica em uma série de nutrientes necessários à sobrevivência humana.

    Enquanto viviam em comunidades caçadoras e coletoras, os indígenas comiam uma variedade muito grande frutas e legumes, além de terem sua dieta complementada com a caça. No entanto, depois da descoberta da agricultura, tendo que se sedentarizar, as populações tiveram que organizar sua divisão de trabalho de modo a poderem produzir, sendo assim, é provável que tenham deixado funções como a caça e a coleta (dificultadas pela sedentarização) totalmente fora de suas tarefas diárias.

    É bem verdade, no entanto, que a segurança e a comodidade proporcionadas pela certeza do alimento fizeram com que houvesse um “boom” populacional após o fim do nomadismo. Na América Pré-Colombiana.

    Uma grande mentira que se tem como verdade é a de que em todos os grupos sociais, mais cedo ou mais tarde, ocorreu a chamada “Revolução do Neolítico” e que foi justamente ela (a descoberta da agricultura) que fez com que aquele grupo emergisse do nomadismo em direção à vida sedentária. Isso é mentira, na medida em que diversas comunidades litorâneas abandonam o nomadismo para se estabelecerem permanentemente numa posição estratégica em frente ao mar, de onde, através da pesca, retirarão se sustento. Para essas comunidades a sedentarização em nada teve haver com a descoberta da agricultura e, quando essa descoberta ocorre, não põe fim à atividade da pesca (extrativista por natureza), mas apenas complementa a alimentação dos indivíduos da região.

    O milho, na América, desempenhou o papel de principal agente da agricultura inicial. Por muito tempo se pensou que talvez a sua disseminação estivesse ligada à expansão de alguma civilização em específico e, sendo assim, a descoberta dos Olmecas só fez aumentar essa desconfiança. No entanto, hoje se sabe que o milho foi realmente uma fonte importantíssima de carboidratos e vitaminas para os habitantes da América, mas que seu cultivo não estava relacionado à difusão, mas, mais possivelmente, à invenção paralela.

    Mesmo o milho não sendo, dessa forma, o pai da América, ele foi uma cultura importante para o seu desenvolvimento e, em última instância, ainda intriga a todos nós por uma questão: Terá sido o hibridismo também uma invenção paralela dos povos Mesoamericanos e Andinos, ou essa tecnologia terá se difundido entre os povos do continente? E caso tenha se difundido; quem teria sido seu difusor? Será que os Olmecas, ou algum povo da América Andina?


2 – Contribuição da Arqueologia:

    Ocorre entre a História e a Arqueologia algo semelhante ao que ocorre entre o Jornalismo e a História. É um erro muito grave que acaba se tornando irremediável na medida em que é alimentado pelo mercado consumidor. É um erro cujos culpados são os membros de ambas as profissões em ambos os casos. Vejamos:

    Os Arqueólogos se embrenham numa floresta tropical Mexicana em busca de vestígios arqueológicos de uma cidade qualquer. Passam anos pesquisando sem ganhar quase dinheiro algum, sofrem com doenças e privações as mais variadas. Esforçam-se, aprendem até a ler (ou interpretar) hieróglifos antigos e, ao final de dez ou doze anos publicam um trabalho com uma excelente qualidade científica, mas com pouca análise historiográfica e com uma interpretação, por vezes, muito parcial. Esse trabalho acaba restrito à comunidade científica da qual fazem parte, circulando apenas em revistas especializadas e em seminários e congressos de Arqueologia.

    Pois bem, um Historiador pega o trabalho do Arqueólogo e o encara como um documento. Como tal, ele deve ser visto como uma prova parcial dos fatos. Através da historiografia e de seus paradigmas próprios, este Historiador escreverá um livro onde fará uma discussão aprofundada e, possivelmente onde fará com que mais que dois arqueólogos dialoguem entre si através de suas próprias palavras utilizadas como citações. O livro acabará sendo muito extenso, cheio de trechos dispensáveis e com uma linguagem de extrema erudição, ou seja, ao alcance de pouco, apenas os Historiadores e os Arqueólogos. Sendo assim, o Historiador terá transformado algo que era restrito a um grupo em algo restrito a dois.

    Observando a demanda do mercado por textos mais compreensíveis, o Jornalista lerá os livros do Historiador e, com base neles, escreverá o seu próprio, muito mais conciso, direto e de linguagem acessível a todos.

    Nessa situação teremos o seguinte padrão: o Arqueólogo trabalhou dez anos, em péssimas condições, para produzir um texto que não lhe deu dinheiro algum e quase nenhum reconhecimento. O Historiador passou um ou dois anos trancado numa biblioteca e gastando dinheiro para viajar a congressos, seminários e arquivos regionais para, no fim, produzir um texto que lhe dará um reconhecimento moderado e um rendimento financeiro pouco compensador. Já o Jornalista lerá por dois meses (se for minimamente sério) e, no final disso, escreverá um livro que lhe renderá fama e fortuna, além levar uma interpretação extremamente fracionada ao leitor, o que fará com que ele tenha uma visão muito parcial e, se não se precaver, seja doutrinado a pensar como o Jornalismo que, por ser um vencedor do sistema, luta para mantê-lo e, sendo assim, faz de tudo para que ninguém queira muda-lo. Essa é a função da mídia e é isso, em essência, que diferencia um Historiador de um Jornalista.

    A solução para essa situação é simples, mas implica na transformação do pensamento vigente na Historiografia nacional, ou seja, de que o texto só é bom se for excludente, restrito aos iniciados. Isso só serve para duas coisas: fazer da História uma Ciência Esotérica (ou seja, restrita a um pequeno grupo de iniciados, que está apto a distinguir suas mensagens secretas) e contribuir para que a lacuna no saber da população leiga seja preenchida por pessoas menos capacitadas e, o que é pior, que lutam pela manutenção dos veículos opressores da sociedade. Se a erudição deixasse de se refletir na linguagem científica e, ao invés disso, se mostrasse pela linguagem popular; todos sairiam ganhando. Até os Jornalistas, que poderiam fazer o que realmente sabem, escrever textos curtinhos em Jornais e Revistas e, na grande maioria das vezes, exaltar o sistema.

    Enquanto essa situação continuar, quando falarmos no descobrimento do Brasil, o primeiro nome (de autor) que nos virá à cabeça continuará sendo o de Eduardo Bueno, Jornalista cujos livros que escreveu no oportuno momento da comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil figuraram entre os mais vendidos por cerca de um ano fazendo sua fortuna financeira e a colaborando para a manutenção de inverdades na cabeça do Brasileiro médio.

2.1 – Ciência Séria X Ciência Ideológica:

    Ciência é um conceito muito amplo e vago. Segundo o dicionário, qualquer competência de estudo pode ser considerada uma ciência, por esse ponto de vista, virtualmente tudo é científico.

   Segundo Kuhn, científico é todo o trabalho produzido através da analise de algo que um dia fora considerado científico em tempos anteriores. Por essa definição, chegaríamos à conclusão de que a Ciência não existe, afinal, tudo se pautaria em objetos científicos que se pautariam em objetos científicos anteriores que se pautariam em objetos científicos anteriores... Até que se chegasse numa primeira Ciência que teria surgido sem um objeto científico anterior e, sendo assim, não seria científica e, tendo servido como base para pesquisas posteriores, estas também perderiam, em conseqüência suas validades científicas fazendo com que nada fosse científico e, sendo assim, a Ciência não existisse.

   Para muitos, dentre esses alguns Historiadores, a própria História não é uma Ciência, pois a Ciência só seria científica se fosse exata, sendo assim, somente coisas como Matemática, Física, Química... Seriam Ciências, ficando as Ciências Humanas e Biológicas relegadas ao papel de Filosofias.

   Para mim, a História é sim um Ciência, não é pelo fato de não existir uma Verdade Histórica que ela passa a perder a credibilidade. O Historiador trabalha com hipóteses, coisas que, em última instância não deixam de ser especulações, mas, mesmo assim, ele faz sobre essas especulações uma análise dialética, ou seja, baseada em proposições e contra-proposições, que torna o que é Histórico impossível de ser construído sem um elevado grau de abstração. Busco e defendo que a abstração é científica, existe até uma metodologia de trabalho baseada nela. Chama-se Fenomenologia. Uma metodologia segundo a qual não existe uma verdade definitiva, todos os fatos só existem quando acontecem, mas é impossível retrata-los tal como eles realmente são, pois toda e qualquer tentativa de faze-lo será apenas mais uma interpretação e, como tal, extremamente parcial, baseada em juízos de valores e características individuais que, como o nome diz, são diferentes em cada um. Sendo assim, duas interpretações de um mesmo fato não serão iguais nem mesmo se forem dadas por duas testemunhas oculares. Tornar interpretações em padrões é o trabalho da imprensa, dessa forma, uma “verdade” acaba sendo criada através da destruição dos demais pontos de vista.

   Ninguém pode negar que, em sua época, Platão foi um cientista, no entanto, ele não se baseava em fatos comprovados ou mesmo em documentos totalmente dignos de credibilidade. Mesmo assim, até hoje não ficou comprovado que ele tenha inventado nada, nem mesmo a História de Atlântida, afinal ele a atribuí a Sólon, o famoso político grego. O que Platão fazia então? Ele abstraía em cima de acontecimentos que presenciava ou dos quais tomava conhecimento. Suas abstrações foram tão brilhantes que ele iniciou uma corrente de pensamento tão forte que até hoje é tida como válida. Agora vejamos. Se Platão podia faz Ciência através, única e exclusivamente, da abstração, porque nós também não podemos?

   Temos que ter em mente que nossas concepções pessoais estão e sempre estarão envolvidas em tudo o que escrevermos, dissermos ou pensarmos, mas não podemos deixar que elas (que são os nossos paradigmas) nos retirem do eixo que deve ser o fundamental de cada trabalho sério e, sendo assim, científico: a busca da verdade.

   A busca da verdade é ingrata, pois, como eu disse, por mais que a busquemos, tudo o que encontraremos será nossa própria construção do que é real. É de ensandecer, mas o real não existe, tudo depende de como encaramos, só não podemos deixar que nossos índices de parcialidade nos ceguem a ponto de fazer com que manipulemos o que estamos vendo de modo a que a visão nos agrade, pois isso não é científico, mesmo sem deixar de ser ideológico.

   Toda essa longa digressão foi feita com o único objetivo de mostrar ao leitor que nada sabemos de verdade nem mesmo quando presenciamos o fato, imaginem quando entramos numa tumba trancada por vinte, ou trinta séculos e, à partir dela, tentamos recriar todo o contexto histórico de uma Civilização há muito esquecida.

   Foi mais ou menos isso que aconteceu com os Olmecas. Até 1862 nunca se tinha cogitado a possibilidade da existência desse povo. Os Maias eram tidos como a “Cultura Mãe” dos povos Mesoamericanos e quaiquer objetos que fossem encontrados nas proximidades da Zona Maia eram rapidamente identificados como pertencentes àquela cultura, cultura esta que, por ser tão fascinante e heterogênea, gerou milhares lendas, muitas delas tidas como verdades até mesmo por pessoas mais esclarecidas. Foi nesse ano que um viajante chamado José María Melgar y Serrano, quando estava de passagem por San Andrés Tuxtla, no Estado de Veracruz, no México ficou sabendo da descoberta de uma Cabeça Colossal que havia sido desenterrada pelo funcionário de uma fazenda de açúcar não muito longe dali. Ao que parece, o homem estava cortando árvores da floresta a fim de expandir a área de plantio da fazenda quando encontrou um relevo estranho no chão. Pediu ordem ao proprietário e desenterrou o objeto. Deparou-se com uma Cabeça gigante com feições negróides e um peso de várias toneladas. O viajante, sete anos depois, conseguiu publicar sua descoberta no boletim da Sociedad Mexicana de Geografía y de Estadística.

   A descoberta foi tida como mais uma descoberta arqueológica Maia e só causou algum espanto devido às feições negróides que estampava. No mais, o mundo Olmeca ficou esquecido por muito tempo até que começassem, já no século XX, a pipocar evidências de que aquelas peças de arte em nada tinham haver que com o mundo Maia, que constituíam de fato provas da existência de uma outra Civilização que, a julgar pelos traços, datações em carbono, estilo, falta de vestígios e outros fatores... Seria mais antiga.

   Essa tese, de que os Olmecas eram mais antigos do que os Maias foi duramente defendida por alguns grupos de Arqueólogos de vanguarda e duramente criticada por Arqueólogos mais conservadores. Para estes conservadores, seu estudo dos Maias não era uma ciência, era quase uma religião e, como tal, não poderia ser questionado. Temiam que se os Olmecas fossem considerados mais antigos do que os Maias, todo o brilho de seus estudos fosse ofuscado pelo nascente brilho Olmeca.
Essa batalha colocou, entre os anos 40 e 50 do século XX, frente a frente a Ciência Séria (que estava em busca da “verdade”) e a Ciência Ideológica (que estava em busca do enaltecimento dos egos de seus cientistas). Felizmente, para todos nós, a Ciência Séria saiu vitoriosa e hoje os Olmecas, ainda que pouco conhecidos, nos podem ser mostrados em textos como este.

2.2 – O que sabemos, não sabemos, supomos e porquê:

    Como afirmei até agora, sabemos muito pouco sobre os Olmecas, não sabemos seu verdadeiro nome, se foram um Império, se tinham algum tipo de unidade entre as cidades ou se eram um povo constituído de diversas cidades-estado, como os Maias. Não sabemos até onde vai realmente sua área de influência, se foram realmente os primeiros povos “Civilizados” da Mesoamérica, se praticavam sacrifícios humanos, se tiveram ou não contato com povos da Europa, da Ásia ou da África, não sabemos sequer se eles existiram de verdade.

    Apesar de não sabermos tantas coisas sobre este povo, nos é possível escrever um texto grande como este a seu respeito. Como?

    Bem, é óbvio que item anterior responde em parte esta questão, ou seja, através da abstração, mas também é verdade que não podemos abstrair em cima do nada e é aí que entra o que sabemos sobre os Olmecas. Sabemos que numa área pantanosa localizada próximo à costa leste do México, mais precisamente nas regiões banhadas pelos rios Tonalá, Blasillo, Papaloapan e Chiquito foram encontradas uma série de esculturas e peças de cinzelagem que remontam a um caráter diferente do Maia, diferente do Tolteca, diferente do Asteca, do Zapoteca, do Mixteca e do Teotihuacano. Peças que foram classificadas como Olmecas.

    A partir dessas peças nos é passada toda uma série de informações através de interpretações arqueológicas que nos possibilitam intuir muitos dos aspectos da Civilização Olmeca. Por exemplo, existem 18 sítios arqueológicos com traços Olmecas em maior ou menor grau. Destes, três são muito superiores aos demais e, sendo assim, são considerados os centros da Civilização.

    La Venta, Tres Zapotes e San Lorenzo são considerados os centros da Civilização Olmeca, foi, aparentemente, deles que se originou a expansão daquele povo rumo à conquista dos outros sítios.

    Além desses três sítios arqueológicos, existem outros quinze localizados em sua proximidade que podem ter sido Olmecas ou, ao menos, influenciados por este povo.

    Sobre os Olmecas sabemos ainda que suas jades e jadeítas eram retiradas das montanhas de Taxco, região próxima à costa oeste do país, ou seja, havia uma distancia muito grande a ser vencida para que aquele povo pudesse chegar até o ponto de extração do artigo de maior valor em sua arte. Em pontos desse caminho também é possível encontrar traços Olmecas. Disso pode-se concluir duas coisas: ou os Olmecas deixaram rastros de comércio com os povos em seu caminho ou, o que é mais provável, fizeram deles seus tributários e os contaminaram com sua cultura.

    Por fim, sabemos que a única região da Mesoamérica onde não se encontram vestígios convincentes da cultura Olmeca é a região onde se desenvolveu a cultura Maia, deve haver, portanto, alguma explicação para isso. E tal explicação é um dos objetivos deste trabalho. Sabemos, por fim, que após o século IV a.C. tornam-se cada vez mais raros os vestíigios Olmecas até chegarem à total extinção dessa população.

2.3 – Urbanização e Modernidade, a destruição dos vestígios:

    Inegavelmente a vida moderna nos trouxe muitas facilidades. Carros, aviões, navios, foguetes, enlatados, computadores... Mas, a que preço? Poluímos a atmosfera, gradualmente acabamos com nossas florestas, intoxicamos nossa água e nosso alimento, além de destruirmos a fauna do planeta.

    Dentro desse insaciável impulso destrutivo do capitalismo, qualquer fonte de renda torna-se mais importante do que a cultura. Foi exatamente o que aconteceu com um dos principais sítios arqueológicos Olmecas: La Venta.

    Para muitos, La Venta poderia ter sido a capital de um possível Império Olmeca; não era a cidade mais antiga, mas, sem dúvida, era a mais bem conservada, além de ser a possível “criadora” de muita parte do estilo Olmeca. Pois bem, por volta do final da década de 70, com a crise do petróleo, este recurso se tornou muito caro e escasso no ocidente, o que fez com que o empenho das empresas prospectoras de petróleo estatais em encontrar novas fontes do material aumentasse. Foi o que aconteceu e, dessa forma, a PEMEX descobriu que embaixo do sítio de La Venta existia petróleo em abundância.

    O governo Mexicano não pensou duas vezes, autorizou a remoção de tudo o que estava no sítio e a instalação de uma central de extração de petróleo na pequena ilha fluvial. Resultado: foi criado, em Villahermosa, o Parque La Venta, onde estão os objetos retirados do sítio e as coisas que não puderam ser retiradas, como (simplesmente) a Pirâmide (talvez a mais antiga da América e, dessa forma, uma bela fonte de estudo para se chegar a um porque da construção desse tipo de edifício na América) foram destruídas.

    Será mesmo que a extração de Petróleo por alguns anos (petróleo é recurso esgotável) vale mais do que o patrimônio (inesgotável) cultural da humanidade? Do que uma possível compreensão do passado? Ou melhor. Vamos perguntar de outra forma. Você venderia a casa em que vive para fazer uma viagem de alguns dias sendo que depois do final da viagem não teria mais onde morar?

    Acho que não preciso comentar.




3 – Quem eram os Olmecas:

    Como já mencionei no item 2.2, não sabemos muito sobre os Olmecas, no entanto, a partir do pouco que sabemos nos é possível construir toda uma organização social que nos indica, ainda que de uma forma muito sujeita a erros, quem eram os Olmecas.

    Antes de mais nada é interessante notar que aquilo que é conhecido com Mesoamérica, salvo pela exceção da Península do Yucatan, é, a grosso modo, a região onde nos é possível encontrar vestígios dessa civilização. Sendo assim, podemos assegurar quase que com certeza absoluta que os Olmecas foram, na realidade, os pais da Mesoamérica. Neste item de meu trabalho, mais do que definir os Olmecas com poucas palavras, coisa que seria impossível fazer, eu irei enumerar alguns dos principais traços de sua civilização.

    Inicialmente, no que se refere às deformações cranianas, uma prática muito corriqueira entre os povos da América Pré-Colombiana, os Olmecas parecem ter sido os pioneiros. Essa prática consiste em um sem-número de modificações que os indivíduos de determinadas sociedades podiam provocar voluntariamente em seus filhos ainda bebês. É possível que houvesse entre os Olmecas uma espécie de hierarquização devida às deformações, tal qual houve entre os Maias (em Palenque, os governantes deveriam nascer com alguma deformação física para estarem aptos a governar, isto era visto como um presente divino; os que não nasciam assim, mutilavam-se em busca dessa proximidade com os deuses). Isso é dito devido à análise das feições que se convencionou em chamar “Olmecóides”, ou seja, as feições como as das grandes cabeças de basalto (faces redondas com narizes negróides, olhos mongólicos e lábios superiores protuberantes). Como se sabe, as feições comuns entre os aborígenes da América não era nem de longe parecida com a feição “Olmecóide”, sendo assim, é possível que este tipo de rosto fosse o rosto de governantes com deformações cranianas. É lógico que tal aparência suscita logo a dúvida: teriam os Olmecas tido contato com negros Africanos? Esta questão será tratada mais adiante.

    Como se pode afirmar que as Cabeças Colossais são cabeças de governantes? Na verdade, não se pode afirmar. Há várias possibilidades. Vale sempre lembrar que os Vikings tinham o costume de criar feições horríveis para colocar nas proas de seus navios a fim de afugentar os maus espíritos. Outra possibilidade seria a de se tratar (como veremos adiante) de um retrato de visitantes exóticos. Há ainda a possibilidade de se tratar meramente de uma imaginação de uma figura divina, mas a hipótese mais aceita é realmente a de se tratar de governantes, ou, ao menos, membros de um grupo social dominante.

    Sabemos que entre os Astecas havia um costume que proibia os membros de classes sociais inferiores de utilizrem certos tipos de plumas, as plumas eram, entre aquele povo, um fator hierarquizante da sociedade. Um indivíduo que fosse pego utilizando publicamente plumas que lhes eram proibidas seria sacrificado como exemplo aos demais. Entre os Olmecas é possível que houvessem costumes semelhantes. Dessa forma, não só as plumas, mas também as deformações cranianas identificariam os membros de cada classe, ou casta.

    As estátuas que nos restam nos mostram que os Olmecas utilizavam um tipo de vestimenta muito simples, tratava-se de saias (tanto para os homens, quanto para as mulheres) e outras partes de roupa que variavam conforme, provavelmente, o nível social do indivíduo (neste texto, seguirei a linha de Jacques Soustelle e, sendo assim, considerarei que os mais ricos (ou nobres, ou simplesmente os dominantes, como queiram) utilizavam as melhores roupas e eram mais freqüentemente retratados pela arte daquele povo. Trata-se de uma suposição lógica, mas que nem por isso é necessariamente verdadeira). Os mais proeminentes utilizavam calçados de tiras de couro ou palha para protegerem os pés, também estes, quando homens, podiam utilizar uma infinidade de capas e robes; já as mulheres mais ricas utilizavam uma espécie de top de pano que lhes cobria os seios, enquanto as mais pobres andavam, a exemplo de seus pares masculinos, com os torsos nus. As roupas eram feitas, provavelmente, de algodão que era uma planta muito abundante na Mesoamérica e que era utilizada como fonte de fios para o tecido na época da conquista.

    Quanto aos adornos, é interessante ressaltar que os de cabeça eram, muito provavelmente, exclusivos dos mais ricos que os utilizavam para simular uma altura maior e, com isso, se destacarem entre os demais cidadãos. Vários tipos de jóias também eram utilizados tanto por homens, quanto por mulheres, entretanto, como os Olmecas não conheciam o trabalho com metais, tais jóias eram exclusivamente pedras preciosas e semi-preciosas. É muito provável que, a exemplo dos Maias e dos Astecas, também os Olmecas considerassem a jade como a jóia mais bela de seu conhecimento, afinal há muitas peças de jade em sítios Olmecas. Os Olmecas foram, com certeza, os pais da arte da cinzelagem na Mesoamérica.

    Dentro do contexto militar, seus guerreiros (só existiam pelotões de infantaria, visto que não havia animais grandes o bastante para serem utilizados como montaria) utilizavam armaduras leves, feitas de couro e madeira, talvez forradas com penas e pele de animais. Em suas cabeças trajavam capacetes de madeira revestidos de couro (algumas das Cabeças Colossais trajam capacetes como estes, o que indica que talvez fossem guerreiros e, em se confirmando a tese de se tratarem de governantes, o Estado Olmeca seria um Estado Militar). As armas Olmecas eram várias e rústicas, mas em especial: machadinhas de pedra polida, maças (talvez com pedras incrustadas para tornar-lhes cortantes) e tochas (que tinham a dupla função de golpear e atear fogo ao inimigo). Além dessas armas, que eram as mais usadas, também pode-se constatar a utilização de manoplas (espécie de luvas de couro duro utilizadas como protetores para as mãos, mas também, provavelmente, como aumentadores de potência para os golpes com as mãos, visto que a mão se tornava mais rígida e menos sensível, podendo golpear mais forte, como um soco-inglês), de fundas (tiras de couro utilizadas para atirar pedras; estas eram, por sua vez, uma das principais armas da civilização Maia e também, no Peru, da civilização Inca), de lanças (que poderiam ser utilizadas no combate corpo-a-corpo ou para arremesso) e escudos. Há ainda uma boa probabilidade de que os Olmecas tenham vindo a conhecer o arco e flecha (aliás está é uma das bases para teorias que sugerem contatos com indivíduos do Velho Mundo). Além das armas mencionadas havia ainda uma arma cujo uso ainda não foi bem definido pela Arqueologia, trata-se de um círculo de pedra. A meu ver ele poderia ser utilizado a um só tempo como escudo e como uma espécie de maça, mas sua real função é ainda ignorada.

    No que se refere ao lazer, que é uma das maiores fontes de manifestação cultural de uma civilização, certamente os Olmecas conheciam a música, entretanto, não nos é possível precisar quais os instrumentos utilizados por eles e nem qual o som que obtinham deles. No entanto, baseados em comparações com outros povos de nível tecnológico semelhante e da América Pré-Colombiana, os Arqueólogos supõem que estivessem entre os instrumentos conhecidos pelos Olmecas um ou mais tipos de instrumentos de percussão (tambor, pandeiro, tamborim...), e talvez alguns instrumentos de sopro (flautas, gaitas, flautas de pan...). É possível que conhecessem alguns instrumentos de corda, mas isso já é menos provável segundo os estudos realizados.

    Como veremos mais adiante, a religião Olmeca era, a exemplo da Egípcia, Antropozoomórfica, ou seja, havia deuses em formas humana, animal e híbrida; sendo assim, é muito possível que sua mitologia religiosa fosse muito rica, comparável a mitologias como a Grega e a Egípcia. Dessa forma, mesmo se aceitarmos que os Olmecas conhecessem a escrita, temos que ter em mente que dificilmente esta estaria ao alcance de todos, sendo assim, a riqueza da mitologia Olmeca deveria ficar restrita aos sacerdotes que provavelmente deveriam fazer dela uma espécie de trampolim para obter poder e, assim sendo, nada melhor do que a realização de simulações das epopéias divinas durante dias de festas. Essas simulações deveriam ser realizadas pelos sacerdotes e tão somente por eles, e apesar de serem cerimônias de fé, constituiriam também, uma forte expressão artística, uma espécie de teatro.

    Por fim, como já afirmei no texto Tlachtli: Esporte ou Ritual de Sangue?, é muito possível que os Olmecas tenham sido os primeiros idealizadores do famoso jogo de pelota da Mesoamérica. Podemos dizer isso com certa tranqüilidade devido a uma série de fatores: os Olmecas, como seu próprio nome nos diz, eram os habitantes do país da borracha, devido ao imenso número de seringueiras que lá havia; as bolas do Tlachtli eram feitas de borracha, por isso é possível que ele as tenham inventado. Seguindo a teoria de que os Olmecas teriam sido os pais da Mesoamérica, o Talchtli, como sendo um dos elos de intersecção dos povos que nela habitavam, pode ser considerado uma herança Olmeca e, por fim, uma das mais famosas esculturas Olmecas, batizada com o nome de “O Lutador” é, segundo especialistas, na verdade um jogador de Tlachtli, não um lutador, sendo assim, é provável que o Esporte tenha sido, senão inventado, pelo menos difundido pelos Olmecas.


3.1 – Descrição Física da Zona Metropolitana:

    A região conhecida como Zona Metropolitana Olmeca é a região onde se encontra o maior número de sítios arqueológicos daquela civilização. É também a região onde, no caso deste povo ter formado um Império em algum momento de sua existência, estaria localizada uma possível capital Olmeca. Esta região é muito particular dentro do México, uma vez que é uma planície pantanosa cercada de planaltos e montanhas. Vários rios cortam a região e os três principais sítios arqueológicos Olmecas (La Venta, Tres Zapotes e San Lorenzo) se localizam praticamente dentro desses rios.

    A proximidade da região com o Oceano Atlântico também denota uma possível simbiose daquele povo com o mar. Há estátuas que comprovam que os Olmecas conheciam criaturas como golfinhos, sendo assim, tendo em vista que tais criaturas não se encontram muito próximas à costa, podemos afirmar que os Olmecas possuíam embarcações, mesmo que rudimentares.

    A selva que circundava as cidades Olmecas além de lhes dar borracha e alimentos, também lhes trazia problemas. Inundações freqüentes fizeram com que cidades como San Lorenzo fossem totalmente adaptadas à região onde estavam situadas. Para se ter uma idéia, esta cidade se situa cerca de cinqüenta metro acima da selva que é freqüentemente inundada. Porém, a colina onde ela foi edificada é artificial, foi construída pelas mãos do homem, por um gigantesco esforço populacional. Esforço esse só comparável ao exigido para a construção das grandes pirâmides do Egito. Vinte lagoas, três aquedutos e até uma rede de tubulações subterrâneas atravessam a cidade construída pelas mãos do homem mais de mil anos antes de Cristo. No topo da colina artificial, onde estava a cidade propriamente dita, há, além das construções, mais de uma centena de túmulos de prováveis dignatários. Essa impressionante obra da engenharia Olmeca se estende por mais de um quilômetro de comprimento.

    Além das inundações freqüentes, ataques de animais dos mais variados (desde mosquitos transmissores de doenças até jaguares e serpentes) também preocupavam os habitantes da Zona Metropolitana, mas, se os Olmecas eram tão poderosos como parecem ter sido e como veremos que de fato foram, por que motivo mantiveram o centro de sua civilização num lugar tão inóspito? A resposta talvez nunca venhamos a saber.

3.2 – Cidades ou Centros Cerimoniais?

    Quando estudamos História tendemos, naturalmente, a fazer paralelos do passado com o presente. Esse fenômeno é absolutamente normal, visto que não podemos conceber algo que não conhecemos, a mente humana funciona através da comparação com o conhecido para que se compreenda o desconhecido. Esse é, aliás, o motivo que faz com que as pessoas, em geral, tenham tanta dificuldade em aceitar novas idéias ou em abstrair acerca de temas que batem de frente com sua moral pessoal. Bem, mas voltemos ao eixo da narrativa, quando se trata de História, fazer comparações com o presente pode nos levar ao mais grave dos erros: o anacronismo.

    O anacronismo é o ato de se atribuir coisas de um tempo a outro, de se colocar um costume, uma organização, uma arma, um pensamento... Em um tempo que não é o dela. Em gera o anacronismo se dá em relação a tempos mais remotos, por exemplo, é comum se acreditar que Roma foi sempre um Império, que sempre teve um Imperador, afinal, sempre ouvimos falar de César, do Império Romano, mas isso é uma inverdade, o Império Romano só pode ser considerado como iniciado em 27 a.C., quando Otávio é considerado Augusto, ou ainda, em 14 d.C., quando depois de sua morte, Tibérius assume como o primeiro Imperador Romano, visto que Auguasto é considerado pela historiografia como Príncipe, mas não como imperador. Depois dessa explicação, pode-se constatar uma coisa, Júlio César, o famoso César de Roma, aquele que enfrenta Asterix e Obelix em suas histórias, nunca foi Imperador, ele era apenas um dos Cônsules da Roma Republicana, e sendo assim, anterior ao nascimento do Império. Considera-lo Imperador seria um anacronismo.

    Falo de anacronismo porque quando cito as cidades Olmecas, sei que a primeira tendência dos leitores é imaginar um conglomerado de pessoas vivendo ao redor de uma construção de poder (um palácio ou coisa parecida) e com uma organização política bem definida. Pensando dessa forma, uma cidade com 1200 m de extensão em sei maior eixo não impressionaria ninguém por seu tamanho. Quantas pessoas poderiam viver nela? 500? 1000? 2000 no máximo? Exatamente. Quando se fala em Mesoamérica, deve-se ter em mente que, em geral as cidades não eram bem cidades (exceto grandes centros como a Tenochtitlán dos Astecas, que chegou a ter mais de quinhentos mil habitantes), mas centros cerimoniais.

    Centros cerimoniais funcionavam mais ou menos como as acrópoles das Cidades-Estado da Grécia Clássica, ou seja, eram lugares bem defendidos, onde viviam as elites: sacerdotes, governantes e guerreiros; e onde estavam localizadas as principais construções: templos, palácios, grandes mausoléus...    Ao redor desses centros cerimoniais (onde, de fato, habitavam poucas pessoas) se localizavam vários vilarejos. Nesses vilarejos as casas eram de madeira e, sendo assim, não resistiram ao tempo, neles também viviam poucas pessoas, mas como eram diversos, a população subordinada ao centro cerimonial se tornava numerosa. Cada vilarejo tinha uma forma particular de organização que nos é impossível precisar, mas é muito provável que cada um constituísse uma espécie de clã familiar, ou seja, um grupo de pessoas semi-aparentadas que vivem próximas para cooperação mútua.

    Em boa parte dos centros cerimoniais Mesoamericanos, a presença das populações periféricas só era permitida em duas ocasiões: em festividades e no caso de solicitações específicas.

    Não se pode dizer com certeza absoluta que as cidades Olmecas eram centros cerimoniais, mas devido à impressionante expansão daquele povo (o que exige um bom contingente populacional) e ainda às grandes façanhas arquitetônicas, como a construção de San Lorenzo, pode-se acreditar que sim, as cidades Olmecas seriam apenas centros cerimoniais, ainda porque, se assim fosse, as populações periféricas é que estariam sujeitas às intempéries do clima da região e aos ataques de animais, pois elas e que viveriam dentro da selva, enquanto as elites viveriam confortavelmente acomodadas em seus palácios nos centros cerimoniais.


Continuação