México, da "Ditadura Perfeita", à "Democracia Americana"

Gabriel Passetti
passetti@klepsidra.net
Bacharel em História pela USP
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     O México é o menor país da América do Norte, assim como o mais pobre e o menos influente na política do NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), do qual faz parte com os colegas Estados Unidos e Canadá. Sua política interna está marcada a décadas pelo monopólio do PRI, e mais recentemente pelos conflitos entre o governo e o Exército Zapatista de Libertação Nacional, na Província de Chiapas.

    O país foi palco da primeira revolução socialista das Américas, em 1910, quando instalou-se no poder depois de muita luta aquele que seria conhecido como PRI - Partido Revolucionário Institucional.


    Desde sua independência até os nossos dias, o México convive com o eterno problema de ser um irmão (bastardo) pobre dos Estados Unidos. Em toda a sua história, são incontáveis os momentos em que o "gigante do Norte" interferiu diretamente na política interna mexicana.





    Metade de seu território original foi perdido para os EUA durante guerra no Século XIX, quando a população assistiu atônita as tropas entrarem na Cidade do México e hastearem a bandeira Norte-Americana no Palácio Presidencial.

      O país assistiu à investida do mesmo país durante sua Revolução, e mais recentemente vêm assistido o PRI manter-se no poder às custas de enormes concessões, que resultaram finalmente com a aprovação pelo Congresso dos EUA para a entrada do México no NAFTA em dezessete de novembro de mil novecentos e noventa e três.


Emiliano Zapata, líder
revolucionário morto em 1919

    Desde a consolidação da Revolução, o México teve um único partido no poder, o PRI. Tal partido fundamentou-se na obrigatoriedade da filiação partidária para os funcionários públicos, sindicalistas e tantos outros indivíduos. Com isso, tornou-se o mandatário absoluto no país, legitimando-se com eleições fraudulentas (1) , com o apoio irrestrito do Congresso e com o domínio completo sobre os Três Poderes em todos os âmbitos, Forças Armadas, mídia, associações de trabalhadores e de empresários, sindicatos e mídia.

    Como o próprio nome afirma, o PRI têm em sua origem a Revolução Mexicana de 1910. Naquele momento, o "partido" defendia a reforma agrária, a estatização e tantos outros pontos de caráter socialista.

    O discurso mudou radicalmente nos anos oitenta e noventa. Abandonando seu discurso esquerdista, o PRI voltou-se à política neoliberal imposta pelo seu vizinho do Norte e durante o período privatizou a grande maioria das empresas estatais, acabou com a reforma agrária e mesmo com direitos dos camponeses conquistados desde a Revolução. O PRI traiu a Revolução ou adaptou-se aos novos tempos?

    Apesar de sua já citada origem, a prática fundamentou-se muitas vezes em uma ambigüidade com relação à política interna e à política externa. Intercalando entre as linhas de esquerda e de direita, o PRI conseguiu ao mesmo tempo manter-se como membro atuante da Internacional Socialista e receber refugiados políticos de toda a América Latina e Europa enquanto manteve uma dura política interna de combate às contestações sociais, fazendo dos sindicatos verdadeiras máfias aliadas aos interesses dos empresários e tendo seus membros de todos os escalões envolvidos com o tráfico internacional de drogas, com o Cartel do Golfo, por exemplo.


    O PRI manteve-se no poder de uma forma que sabiamente Mario Vargas Llosa, escritor e intelectual peruano, denominou de "a ditadura perfeita". Neste sistema, a violência e a manipulação eleitoral institucionalizadas como os tacos, o carrossel, o ratão louco, a operação sapato, os eleitores homônimos e o voto espírita (2)  imperam ao lado de algumas liberdades individuais (pouca censura).


    Vicente Fox foi o primeiro presidente mexicano desde a Revolução de 1910 a não fazer parte dos quadros do "partidão". Desde a instauração definitiva da Revolução, o Partido criou uma extensa e (ex-)infalível rede de manipulação eleitoral que oficializou sua ditadura de uma forma única em toda a América Latina. Enquanto a grande maioria dos seus vizinhos ao Sul amargava violentíssimas ditaduras militares, o México manteve-se sempre aliado ao sistema "democrático" do PRI.


    Este sistema começou a entrar em colapso à medida em que o México passou a adotar cada vez mais uma política neoliberal, que obrigou o Partido a promover uma abertura política e econômica nunca vista antes e que impossibilitou a reeleição do PRI nas eleições presidenciais de 2000, fato que somente não ocorreu em 1988 e 1994 por interferência direta da manipulação oficial dos resultados. Mas, entra dentro deste sistema também o desmonte da máquina estatal-sindical vinculada ao Partido, principalmente por seu último presidente, Ernesto Zedillo.

    Mas, podemos pensar no desmonte da estrutura priísta a partir do governo eleito em 1982, de Miguel de la Madrid.

Ernesto Zedillo, o último
presidente Priísta


    Foi neste governo, quando Salinas foi ministro da Fazenda, que a implantação da política neoliberal na economia começou, trazendo com ela o modelo tradicional proposto pelo Fundo Monetário Internacional e aplicado à risca: privatizações, abertura da economia aos capitais especulativos e controle do câmbio.

    Apesar de aplicar à risca a cartilha proveniente de Washington, o desemprego e a recessão começaram a pressionar o governo. O PRI teve então que recorrer ao vergonhoso espetáculo eleitoral de 1988 para manter sua hegemonia no poder, colocando na presidência o mentor do projeto, Carlos Salinas de Gortari.


    Este, já vinha negociando secretamente com o governo americano (Ronald Regan e depois George Bush, pai) a entrada do México na NAFTA. Cinco anos depois, em mil novecentos e noventa e três, o sonho estava concretizado: o México havia conseguido entrar em um bloco econômico que pensava ser uma "ponte" para o Primeiro Mundo.


    O governo de Salinas foi dos mais conturbados para o México, tendo em vista que se por um lado as privatizações introduziram o país na economia competitiva internacional, por outro este processo permitiu um rápido enriquecimento de um restrito grupo de industriais, acompanhado de um crescimento brutal na concentração de renda nacional.



José Massieu, assassinado em 1994
    As ligações com o narcotráfico aprofundaram-se ainda mais neste período, o que enriqueceu ainda mais os altos escalões do partido ao mesmo tempo em que este grupo de pessoas era pressionado pelos EUA a fortalecer a política anti-drogas. Talvez foi esta relação com o narcotráfico e a pressão externa que marcaram dois importantíssimos marcos da política mexicana no período: os assassinatos do candidato à Presidência pelo PRI Luis Donaldo Colosio e o do secretário-geral do Partido, José Francisco Ruiz Massieu, ambos em mil novecentos e noventa e quatro.

Luis Donaldo Dolosio,
também assassinado
em 1994

    Internamente, o PRI passou a apresentar cada vez mais rachas desde o governo de Miguel de la Madrid. Enquanto a base vinha sendo dinamitada com as privatizações, a perda da força dos sindicatos e o fim da obrigatoriedade na filiação ao partido, o sistema anti-democrático interno conhecido como dedaço passou a ser questionado. Nele, o Presidente indicava quem seria o candidato do Partido para a eleição presidencial seguinte, indicando também quem seriam os governadores de província e até alguns prefeitos.

    Internamente, o PRI passou a apresentar cada vez mais rachas desde o governo de Miguel de la Madrid. Enquanto a base vinha sendo dinamitada com as privatizações, a perda da força dos sindicatos e o fim da obrigatoriedade na filiação ao partido, o sistema anti-democrático interno conhecido como dedaço passou a ser questionado.

    Neste, o Presidente indicava quem seria o candidato do Partido para a eleição presidencial seguinte, indicando também quem seriam os governadores de província e até alguns prefeitos.

    Quando Salinas foi indicado por de la Madrid, partes do partido já questionaram abertamente a escolha, mas quando este indicou Ernesto Zedillo, um desconhecido para o grande público, como seu sucessor diversos dinossauros do partido manifestaram-se de forma contrária.


    De qualquer maneira, Zedillo acabou sendo eleito presidente em 1994, enfrentando logo na seqüência uma crise econômico-cambial que o forçou a quebrar a cotação peso-dólar, vindo logo mais uma guerra perdida contra o Exército Zapatista de Libertação Nacional e seu líder, o sub-comandante Marcos.

    Depois destes maus momentos no poder, Zedillo conseguiu estabilizar a economia e a política mexicanas, promovendo ainda mais a "abertura política" e a "democratização". Quando chegaram as eleições em 2000, devido a inúmeros fatores quem acabou vencendo foi Vicente Fox, do conservador PAN.


Sub-comandante
Marcos, líder do EZLN

    Podemos interpretar a queda do monopólio político do PRI como reflexo do desmonte da máquina estatal-priísta por Salinas e Zedillo, que optaram pelo fortalecimento de sua imagem pessoal em detrimento do Partido.

   
Ao mesmo tempo, as privatizações retiraram enormes quantidades de indivíduos da obrigatoriedade da filiação ao PRI e a pressão internacional por um processo eleitoral justo e claro retiraram o sustentáculo do Partido no poder. Por fim, a crise econômica pós-1995 e a intervenção direta do governo dos EUA na economia e na política mexicanas acarretaram em uma crise econômica, que embora fora razoavelmente contornada pelo governo, deixou marcas profundas no imaginário popular, que já vinha desde 1988 contestando o poder do PRI nas urnas.

    Ao sair finalmente do poder, em 2000, o PRI havia mudado radicalmente seus projetos desde sua origem em 1910. A Reforma Agrária que havia sido decretada, foi revogada por Salinas, junto com o direito sobre a terra para quem trabalha nela. O Presidente abandonou a linha nacionalista e anti-americana ao assinar o tratado do NAFTA, permitindo a entrada dos produtos made in USA, mas restringindo a principal exportação mexicana: a mão de obra.


    Ele ainda tentou mudar a imagem do "irmão do Norte" entre a população (3) . Salinas ainda realizou um extenso processo de privatizações, liquidando com as empresas criadas após a Revolução, e financiando assim o pagamento da dívida externa, a corrupção interna e o PRONASOL, aumentando a concentração de renda. Por fim, a Igreja Católica, que havia saido fortemente abalada do processo revolucionário, foi reaceita, voltando a existir oficialmente o ensino religioso e as manifestações públicas.

    Portanto, a cara do PRI modificou-se radicalmente durante as décadas de 80 e 90. Tudo o que havia existido de combativo foi superado, tudo o que havia de corrupto, violento e inescrupuloso foi multiplicado e o México voltou à sua condição "original" de irmão pobre e dominado indiretamente pelos EUA.

    Dentro deste contexto, surgem as eleições de 2000, quando o PRI sai derrotado pela primeira vez, tanto por suas brigas internas, quanto por causa de seus fracassos nos mais diversos campos, quanto por abandonar uma linha que vinha funcionando, à base de inúmeros sacrifícios, na sociedade mexicana. Vicente Fox, ex-diretor da Coca-Cola surge neste contexto como candidato do PAN, assume a Presidência.


Vicente Fox, 1º
presidente do México depois da Era Priísta





1- O caso mais escandaloso foi o de 1988, quando Carlos Salinas de Gortari (PRI), Cuauhtémoc Cárdenas (FDN) e Manuel Clouthier (PAN) disputaram a presidência do país. Durante a apuração dos votos na noite de seis de julho de mil novecentos e oitenta e oito, Cárdenas vencia com ampla vantagem quando "misteriosamente" o sistema de computadores saiu do ar. Todos aqueles que estavam na sala foram retirados e a apuração foi retomada somente no dia seguinte, com o candidato do PRI tendo uma ampla vantagem sobre qualquer outro candidato. Os números oficiais atestam uma vitória de Salinas (50,4%), com Cárdenas em segundo (30,9%) e Clouthier em terceiro (16,7%). Segundo Igor Fuser, em México em Transe, "Carlos Salinas de Gortari, o presidente que prometeu levar o México aos umbrais do Primeiro Mundo desenvolvido, democrático e civilizado, chegou ao poder através da fraude mais escandalosa da história política do Ocidente" (p. 25)

2- Segundo Igor Fuser, em México em Transe:
Tacos: introdução de número gigantesco de cédulas falsificadas nas urnas, com o consentimento dos mesários, chegando a duplicar o total de votos das urnas
Carrossel: transporte de eleitores das zonas rurais para os locais de votação. Tais pessoas recebem também pagamento em dinheiro dos cabos eleitorais do PRI
Ratão louco: nomes de eleitores oposicionistas somem de todas as listas eleitorais, inviabilizando seus votos
Operação Sapato: nos locais onde não há fiscais de outros partidos, os fiscais (do PRI) adulteram os votos fazendo com que a ampla maioria dos votos da urna seja para o PRI
Eleitores homônimos: cabos eleitorais priístas recebem dois ou três títulos de eleitor. A grande quantidade de mexicanos com o mesmo nome impede qualquer tentativa de detecção da fraude.
Voto espírita: títulos de eleitor de pessoas já falecidas são transferidas para seções controladas pelo PRI, sendo estes votos então computados para o partido da situação

3- O futuro presidente, mas ainda Ministro da Educação, Zedillo, teve papel fundamental na luta para mudar a imagem dos EUA para a população mexicana. Em sua gestão, houve uma grande revisão dos livros didáticos de História, que passaram a ter um tom muito mais ameno com relação ao antigo discurso anti-EUA.




Bibliografia

FUSER, Igor - México em transe. Scritta, São Paulo, 1995.




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