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Arantes, Paulo Eduardo. "Um Departamento  Francês de Ultramar: estudos sobre a formação da cultura filosófica uspiana". Rio de Janeiro: Paz e terra, 1994.

Olívia Pavani Naveira
olivia@klepsidra.net
Bacharel em História / Graduanda em Letras - USP
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O Livro “Um Departamento  Francês de Ultramar”, de Paulo Eduardo Arantes, publicado em 1994, traz grandes contribuições para a discussão sobre filosofia e Universidade no Brasil. O livro está organizado em textos, que foram escritos entre os anos 80 e 90 e é dedicado a Bento, Bento Prado.

Possuindo ao todo 316 páginas, o professor de filosofia da USP, Paulo Arantes, tenta durante o livro, realizar uma reconstituição histórica da implantação do curso de filosofia e da  filosofia universitária na USP.  Inicia  sua análise com a constituição da graduação em filosofia nos anos 30, e concentra- se na discussão a respeito das linhas de pensamento geradas no departamento,  principalmente  nos anos 60 .

Apesar de fazer diversas citações e indicá-las ao pé de cada  página, ficamos procurando pela bibliografia, inexistente no livro.


“Um departamento Francês de Ultramar” apresenta uma escrita vinculada a um forte caráter ensaístico, sendo constituído por cinco capítulos ou assuntos, articulados entre si.

Do conjunto da obra, surge ao final da leitura, uma compreensão a respeito da visão de Paulo Arantes em relação à filosofia a ao departamento de Filosofia da USP. Arantes preocupa-se não só com as tendências existentes na  “filosofia uspiana”, como procura desvendar como a filosofia e o filosofar brasileiro  foi adquirindo a partir dos anos 30  uma identidade própria.


Em grande parte, esta é a questão de Arantes em todo o livro: a constante discussão sobre as influências da filosofia européia principalmente a francesa nos estudos filosóficos brasileiros e até que ponto fez-se e ainda faz-se no departamento história da filosofia e não filosofia.


Nos primeiros assuntos do livro  “O Bonde da Filosofia”, “Certidão de nascimento, Instituto de nacionalidade”, “O essencial de uma filosofia é uma certa estrutura, Instauração filosófica no Brasil ”, o autor procura discutir  o período de formação da intelectualidade e da sociedade brasileira, atravessando trinta anos da nossa história.


Buscou-se reconhecer, quem eram os atores principais na constituição do pensamento filosófico no Brasil,  como se posicionavam, e quem eram  os alunos e professores do departamento de filosofia da USP.  Arantes comenta  as contribuições, intromissões, participações e até mesmo omissões, de homens como Michel Debrun, Goldschmidt,  Giannotti, Bento Prado, Oswaldo Porchat, Ruy Fausto que compuseram e ainda compõem  a  vida universitária uspiana .


Percebemos durante a leitura do livro uma preocupação de certa forma hermenêutica de Paulo Arantes,  em discutir e  explorar  as dezenas de definições que o conceito de filosofia e das funções que a filosofia tiveram   entre o  anos 30 e  60 tanto  no Departamento de Filosofia como  entre os intelectuais do período.


Dependendo do autor estudado, das influências das leituras que eles tiveram, e do período que está sendo analisado por Arantes, o termo filosofia acabava por ser definido de uma forma. O autor nos apresenta diversas das opiniões de filósofos e estudiosos sobre o assunto.


Segundo H. Arent “pensamos para não nos contradizer”. Ao comentar sobre Oswaldo Porchat, Arantes destaca a opinião do colega para o qual, “A filosofia é antes de tudo explicação e discurso”.  Seguindo as aulas de Godschmidt, ficamos sabendo que o professor acreditava que em matéria de filosofar, a verdade se confunde com a procura da verdade. “De que serve pensar em alguma coisa, em vez de esforçar-se por conhecer alguma coisa”. Correspondendo ao que pretendia em parte discutir, encontramos diversas informações sobre os pensamentos filosóficos na formação filosófica uspiana.


Iniciando sua narrativa de forma  poética, Arantes no texto inicial do livro, chama-o de “O Bonde da Filosofia”. Escrevendo em primeira pessoa, comenta algumas das suas experiências e saudades, lembrando-se do tempo em que a Faculdade de Filosofia encontrava-se na Maria Antônia, no Centro da cidade de São Paulo. Encontramos até mesmo, divagações sobre a “invenção filosófica da noite paulista”.



O prédio da FFCL na R. Maria Antonia
Saudosista da “Maria Antônia” no entanto, é o que não falta aos atuais prédios da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), localizada do outro lado da ponte, pelos lados do Butantã. Entre os atuais estudantes de graduação, não há quem não tenha desejado, assim como Arantes, tomar o bonde e filosofar junto à Maria Antônia.

Sobressai dessa passagem, uma questão muito importante a ser discutida sobre a Universidade de São Paulo, uma vez que percebemos até mesmo o seu  isolamento geográfico em relação à sociedade. O campus encontra-se apartado do centro da cidade, assim como muitas das  atividades que se exercem dentro da universidade,  também estão. Até que ponto a Universidade está  ficando cada vez mais apartada da realidade nacional ?

As primeiras palavras de Arantes em seu livro sobre “a formação da cultura uspiana” podem vir a tornar-se uma séria questão para os estudantes de graduação que as lerem. Quando Arantes fala das suas aulas na Maria Antônia faz com que pensemos não apenas no problema da distância física que a Universidade de São Paulo possui em relação ao centro político e econômico da cidade, mas sim que prestemos atenção sobre o quanto e o que se estuda nesta Universidade.


Será que o que é preocupação central dentro da Universidade, corresponde às necessidades e realidades da sociedade que a sustenta? Será que o papel da Universidade é responder a esse tipo de expectativa? Pode-se perguntar também até que ponto seguimos o modelo liberal com o qual a universidade foi planejada e idealizada, e de que maneira este modelo não faz necessariamente parte das próprias ideologias pessoais dos alunos e professores.


Discutindo o papel da filosofia na sociedade brasileira, Arantes retoma ao fato de que ao contrário do que ocorreu com a literatura brasileira, a filosofia, ou a leitura de livros de filosofia, ocupou durante muito tempo um lugar subalterno na evolução de conjunto da cultura nacional no Brasil.

Pode-se dizer que a filosofia ocupou e de certa forma ocupa até hoje uma posição afastada da sociedade brasileira como um todo. Segundo Arantes, a filosofia feita na Universidade até os anos 60, se prestava muito pouco à representação da realidade do país. Fica-nos então uma pergunta, se a filosofia atual, ou se os alunos de filosofia de hoje, possuem uma preocupação conjunta ou intrínseca em seus cursos de tentar entender realidade social do Brasil e se isso é função da Universidade.

Existiam principalmente durante os primeiros anos de formação do departamento de filosofia correntes de pensamento que acreditavam, e vale lembrar que até hoje muitos pensam assim, que a filosofia podia ser entendida e estudada como uma matéria técnica.  Um método que possuía uma clausula muito severa, a de deixar a filosofia para os filósofos.


Segundo Arantes, esse método adotado por muitos pensadores tornava-se um álibi e uma carapuça protetora a todos aqueles que se dedicavam à filosofia, uma vez que escondidos no método, muitos estudiosos deixavam diversas questões sociais e de peso de lado. Escrevia-se muito pouco e a divulgação para o público leigo daquilo que se discutia na Universidade era muito rara. 


Principalmente a partir dos últimos assuntos “Timidez da filosofia, a musa do departamento” e “A falsa consciência como força produtiva”, o autor discute o papel do departamento de filosofia durante a ditadura militar e da esfera progressista que começou a fazer parte do departamento. Diz que principalmente nos anos 60 passou-se a valorizar o espírito de crítica e livre exame dentro da faculdade.


Identifica-se neste período o surgimento de um pensamento de classe média que seria um dos responsáveis, por uma das primeiras visões não aristocráticas em relação ao  Brasil. A Universidade de São Paulo como um todo, e a Faculdade de Filosofia em particular, começava  a possuir um número cada vez maior de estudantes das classes menos abastadas da população, que não pertenciam apenas às mais ricas elites brasileiras.

Durante os primeiros mandos e desmandos do golpe militar no Brasil,  a faculdade de filosofia ficou ilesa. A explicação de Arantes para isso - do fato de que em um primeiro momento a direta triunfante entre 64 e 69 tolerou de certa forma a cultura, principalmente em função da quase nenhuma influencia da cultura filosófica uspiana, na desconjunturada evolução da vida ideológica nacional.


No entanto,  a nova massa radical de estudantes dos anos 60 começou a se sentir em condições de derrubar o governo militar e para tanto havia elegido a universidade como primeiro baluarte natural a ser conquistado. Começaram a surgir propostas de mudança internas na estrutura política e educacional da Universidade de São Paulo, como por exemplo o fim das cátedras e a discussão sobre a paridade  nos conselhos.


Segundo a analise irônica de Arantes,  parecia haver algumas oscilações em relação ao movimento que podia ser percebido na faculdade. Ora a conquista da paridade e a ocupação das faculdades estavam subordinadas à causa maior da Revolução próxima, ora configurava numa luta pela regeneração de uma instituição carcomida.


Em 1968, como os estudantes e público da melhor cultura estavam começando a tomar a feição inquietante de massa politicamente perigosa, tornou-se necessário que o Governo Militar agisse em consequência, liquidando os focos da inteligência viva no momento. Ocorria assim, uma diáspora da intelectualidade brasileira.

Dezenas de professores foram cassados, exilados ou aposentados compulsoriamente, alunos foram presos.


Toda a questão da ditadura e da repressão militar, passou a fazer-se presente na história da Universidade de São Paulo e na história do Brasil.  Iniciavam-se os movimento de luta estudantil e  os desejos por mudanças na sociedade e na universidade.


Seguindo as discussões de Arantes sobre esta questão, é possível realizar um paralelo sobre os chamados “monopólios da força” de Michel Foucault. A  questão do disciplinamento e da educação.

Uma problemática pertinente quando se estuda sobre educação, ou quando se lê sobre história das idéias, e da formação do pensamento, é o questionamento sobre até que ponto, a educação liberta o indivíduo ou o disciplina.




As fases do confronto entre os estudantes da
USP e do Mackenzie: embates na Maria Antonia
e incêndio do prédio da FFCL

Será que seria possível a alunos e professores, permanecerem durante muito tempo em uma posição apolítica em relação ao que estava acontecendo no Brasil durante as décadas de 60 e 70?  Será que o conhecimento impõe apenas sujeitos passivos e receptores, uma espécie de “não –educação” a onde apenas um sujeito e é detentor do conhecimento?

A universidade como instituição, é legitimada pelo Estado, uma espécie de monopólio de conhecimento, cujo acesso é para poucos e que acaba sendo codificado e servido como disciplinamento. Mas como próprio Arantes diz, “quando se é de esquerda e de classe dominante, punge fundo uma nostalgia bifronte que sob pretexto de boas maneiras intelectuais, perdidas com o ocaso da faculdade liberal, não perdoa a falta de jeito pequeno-burguesa da massa que invadiu o pequeno santuário, os alunos que esqueceram seu francês, às moças mal-amanhadas, os colegas que não são primos de ninguém” ( pg 57.)

O que ocorreu nos anos 60, foi que o governo impôs suas regras à Universidade de São Paulo quando percebeu que essa instituição não encontrava mais a seu serviço, ou interesse. Assim como havia ocorrido com  os fechamentos das Universidades católicas durante as Independências na América Espanhola.


Durante o livro, Paulo Arantes persegue os passos do pensamento e das discussões que foram cronologicamente surgindo no departamento de filosofia, junto a seus “filósofos professores”. Em suas explicações sobre os fatos que foram ocorrendo e as idéias que se tornaram vigentes, o autor acaba por discutir e filosofar sobre os homens que considera como os principais “filósofos” do período que estuda.  Assim, os textos se apresentam mais fiéis aos próprios pensamentos de Arantes do o reflexo de um objeto de  estudo.

Durante a leitura do livro, acabamos por ser convidados a pensar junto com o autor, por mais leigos em filosofia que sejamos. Com Guerrould e Lebrun, passamos a perceber um certo ampliamento da filosofia paulistana da época. Passam a serem formuladas questões mais intrínsecas ao interesse real das pessoas envolvidas nesta realidade, separando-se um pouco dos interesses importados de talvez, quem sabe, um ultramar francês.


De certa maneira, assim como os estudantes daquele período, o próprio leitor do livro, vai tendo também, a oportunidade de ampliar os seus conhecimentos. Temos a impressão que assim como os intelectuais dos anos 60, vamos tomando base para pensarmos filosofia ou talvez história da filosofia. O livro pode ser lido por diferentes tipos de pessoas e entendido a partir dos conhecimentos e interesses de cada um.


Para Arantes, já nos anos 60 havia uma maneira uspiana de olhar, analisar, muito ligada às discussões entre Filosofia e História da filosofia. Antônio Cândido acreditava que “no dia em que um brasileiro for capaz de escrever um trabalho original sobre alguns dos problemas filosóficos abstratos, estaremos presenciando a nossa integração na atividade criadora do espírito moderno”.(Arantes, 1994. pg. 97). Para Arantes, Oswaldo Porchat, foi um dos homens que a partir deste período começou a filosofar por contra própria.


Acreditava-se que se havia uma busca no ensino da filosofia este estava calcado no pensamento crítico, no espírito da crítica no que pode ser considerado um credo uspiano de que espírito filosófico é antes de tudo crítica. Crítica neste caso, entendido como exame livre e público.


Dessa maneira, desenvolver uma discussão sobre a Faculdade de filosofia da USP faz todo o sentido, tanto para o seu escritor, Paulo Arantes, como para os próprios alunos e professores desse e dos outros departamentos. Acredito, não ser apenas no curso filosofia, o lugar em que se pode desenvolver um espírito crítico nas pessoas, mas que este espírito crítico deva ser importante para todas as áreas do conhecimento e em todos os graus de instrução.


Alguns comentam que o livro é na verdade um grande devaneio ou até mesmo “idealização sobre o passado” de Arantes. Durante a leitura, não é possível deixar de notar uma certa visão romantizada em relação à formação da cultura filosófica uspiana, mas não é preciso ser tão crítico assim.


O fato é que ao andar com o livro durante alguns meses nos braços, foram poucos aqueles que ao olhá-lo não teceram algum comentário. Para alunos e professores, é difícil ficar indiferente a um livro que fale de seu próprio ambiente, sobre a USP, e discuta de certa forma, sobre a formação de cada um de nós.  Não há como “Um Departamento de Ultramar” não provocar interesse.


Quando ainda estava em meu curso de graduação em história, um dos meus professores me perguntou, o que é que eu fazia com um livro “subversivo” como aquele. Uma brincadeira, logicamente. Para ser sincera, esperava que o livro aprofundasse mais a discussão a respeito  da Universidade e os movimentos estudantis da década de 60 e 70. Subversivo, não concordo que o livro seja, apesar dos muitos dos  “atores” que o compõem  terem sido assim considerados. O que não há dúvidas é sobre o quanto o livro é polêmico, assim como o seu próprio autor.






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