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Os Santuários de Pico Minóicos: Interações entre Religião e Estados Primitivos em Creta durante a Idade do Bronze

Paulo de Castro Marcondes Machado
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Introdução

 

 

Neste trabalho procuraremos analisar as interações entre a religião e o sistema palacial minóico ao longo da história desta civilização - o objetivo básico será demonstrar como a manipulação das práticas de culto cretenses passa a constituir uma das principais bases de sustentação do poder das elites minóicas. Para tanto, iremos analisar a sociedade minóica, principalmente aspectos da administração palacial e das práticas de culto, sob uma perspectiva sistêmica. O uso da teoria de sistemas e do conceito de peer polity interaction (interação entre unidades sócio-políticas paritárias) serão fundamentais para o entendimento dos processos de mudança na civilização minóica, e o conceito de estratégias de poder de Earle será fundamental para a análise dos estados do sistema da sociedade minóica.

 

 

Teoria de Sistemas

 

Um problema com o qual a Arqueologia se depara frequentemente é a definição do que é uma explicação arqueológica. A Arqueologia “tradicional” se enredou em certos vícios que limitavam o horizonte de explicações possíveis para o arqueólogo. A insistência na correlação absoluta entre culturas arqueológicas e etnias, (ou seja, na correlação entre , por exemplo, uma tradição cerâmica e um determinado povo), e o constante uso de explicações “difusionistas” ou de movimentos migratórios para explicar alterações no registro arqueológico, sem qualquer dúvida causaram explicações equivocadas ou, ao menos, muito simplificadas.

O Minotauro de Creta foi uma figura mitológica
criada pelos gregos inspirada na exploração
imposta por Creta aos micênicos da Grécia

Os arqueólogos processualistas viram as análises da Arqueologia tradicional como meras narrativas de eventos que jamais poderiam levar a análises dos processos de mudança nas sociedades humanas, auxiliando, no máximo, na definição de uma cultura em particular. Os estudos tradicionais, portanto, não poderiam chegar à elaboração de uma cadeia causal capaz de realmente explicar a dinâmica de uma cultura, muito menos de explicar a evolução social humana de forma geral; quando se analisa um processo como o da formação dos Estados, atuam tantos fatores que invariavelmente existe grande simplificação em explicações monocausais.

Para os processualistas, apenas através da generalização pode-se fugir dos eventos particulares e modelos ou leis arqueológicas podem ser desenvolvidas. O enfoque processual trata de estudar e identificar os diferentes processos que atuam nas sociedades, com ênfase nas relações com o meio ambiente, na subsistência e na economia, nas relações sociais dentro da sociedade, o impacto que tem sobre estes aspectos a ideologia e o sistema de crenças dominantes, e o efeito das interações entre as diversas unidades sociais. Ou seja, identificar cada variável e estudá-la como uma variável independente, tendo por finalidade última a reconstrução de todo o padrão de articulação, junto a todas as variáveis relacionadas.

O assassínio do Minotauro por
Teseu representa, figurativamente, a derrocada do
poderio minóico no final da Idade
do Bronze. Até hoje não se tem
certeza se tal derrocada foi
ocasionada por um ataque grego
ou pela infiltração gradual dos
chamados "Povos do Mar"


O único modo de se obter uma explicação satisfatória seria, portanto, através da utilização de explicações multivariantes que integram várias explicações de forma sistêmica. A Teoria de Sistemas prega a visão da cultura como um sistema, visando possibilitar a análise das alterações das sociedades como fruto da interação de fatores internos ao sistema e da entrada de estímulos externos. Cada variável distinta, como o tamanho populacional, deve então ser vista como um parâmetro do sistema - considerando aí uma sociedade enquanto um sistema. Deve-se, portanto, considerar o sistema como dividido em subsistemas caracterizados por atividades econômicas distintas, por exemplo, e marcados por uma documentação material própria. O grau de detalhe de uma análise arqueológica sistêmica depende do interesse do investigador: a divisão dos subsistemas é determinada pelos objetivos do estudo.


O sistema se transforma com o passar do tempo, sendo útil considerar uma série sucessiva de estados do sistema. Os sucessivos estados do sistema indicam a trajetória do mesmo. Uma noção chave nesse conceito de sistemas é a retroalimentação, com diversos mecanismos de entrada e saída de influências, conceitos, técnicas, etc. Dessa forma, um sistema com retroalimentação (feedback) negativa tenderá a se manter estável, enquanto um com retroalimentação positiva estará sujeito a forças que levam a alteração. O sistema pode estar sujeito a efeitos multiplicadores quando mudanças num subsistema levam a mudanças em outros que, por sua vez, intensificam a mudança original, levando a uma retroalimentação positiva com “efeito geométrico”. Um conceito importante é o da possibilidade de teste das explicações arqueológicas – os modelos arqueológicos gerais podem ser contrastados com a documentação material.

 

 

Interação Entre Unidades Sócio-políticas Autônomas e Paritárias

 

            Renfrew elaborou o conceito de peer polity interaction com o objetivo de estudar o desenvolvimento de estruturas nas sociedades, como instituições políticas, sistemas de comunicação especializada em ritual, etc. Interação entre unidades sócio-políticas (USPs) paritárias designa todas as formas de intercâmbio entre USPs autônomas normalmente situadas geograficamente próximas umas às outras. Parte-se do princípio que o processo de desenvolvimento das hierarquias de controle e instituições de uma USP não pode ser compreendido através da análise dessa USP em isolado, mas apenas a partir da análise de um sistema mais amplo, que abranja aquilo que normalmente classificamos como civilização ou cultura. O conceito de interação entre USPs paritárias também evita análises sustentadas por relações de dominação entre USPs com graus de desenvolvimento diferente, uma vez que trata das relações entre sociedades com graus de desenvolvimento e complexidade semelhantes.


Esse conceito se desenvolveu a partir da idéia, também formulada por Renfrew, do Módulo de Estado Primitivo (early state module - ESM) – a maioria dos estados primitivos se desenvolve junto a outros estados de USPs adjacentes, que normalmente partilham de instituições políticas, culturais e sociais muito semelhantes, formando o que se costuma chamar de cultura ou civilização. Com frequencia um estado acaba por dominar as outras USPs, formando um estado nação. A extrapolação de que os mesmos processos de interação que conduzem os estados constituintes de um ESM a crescentes similaridades entre cada uma de suas USPs constituintes também podem ser percebidos em sociedades com níveis de complexidade maior ou menor – mesmo em sociedades nômades não definidas territorialmente - levou à formulação do conceito de interação entre USPs paritárias. As homologias que se desenvolvem através dessas interações são extremamente sutis e específicas, não podendo ser explicadas através de conceitos de evolução convergente ditada por necessidades de adaptação ecológica; também não podem ser explicadas por idéias de difusão ou imposição, pois tais estruturas homólogas surgem e se desenvolvem de forma mais ou menos simultânea nas diversas USPs paritárias. Para que esse conceito possa ser aplicado sem que se caia em erros e paradoxos, algumas condições devem ser cumpridas pelo sistema estudado: deve haver contato entre as USPs, na forma de fluxo de informação (atestado no documento material por trocas de artefatos e outros materiais), anterior às mudanças observadas, e devem existir alguns mecanismos claros que apontem como esse contato pode ter auxiliado ou desencadeado tais mudanças.

          

          As análises arqueológicas de mudanças em sociedades podem ser divididas em duas categorias, as análises que buscam razões exógenas de mudança (externas à sociedade) e as endógenas (internas). As análises que enfatizam as causas exógenas de mudança tradicionalmente buscam relações do tipo centro-periferia para explicar alterações numa sociedade. Apenas através de influências externas de sociedades mais complexas é que ocorreria mudança; o exemplo mais óbvio desse tipo de análise são as explicações difusionistas tradicionais. Mesmo análises que buscam por causas internas de mudança para a sociedade estudada, como a teoria de sistemas vista acima, podem acabar por explicar mudanças apenas através de influências externas; alguns autores enfatizam que sem um input externo, o sistema tende ao equilíbrio... Já as análises que buscam causas endógenas para as mudanças podem fazer uso da teoria de sistemas enfatizando a retroalimentação positiva que leva à morfogênese. No caso de análises através do conceito de interação entre USPs paritárias, a mudança não é vista como exógena ao sistema como um todo, mas o enfoque não é dado apenas à USP estudada, como pode ocorrer em análises que buscam razões endógenas para a mudança. Neste caso, a mudança surge através da interação sistêmica entre as diversas USPs paritárias; ocorre a nível regional. A unidade de análise nesta abordagem é, portanto, a comunidade formada por diversas unidades políticas independentes, porém estreitamente relacionadas. É apenas com este nível de análise, para Renfrew, que se pode entender o aumento de complexidade nas sociedades humanas.

      
         
Para Renfrew, a emergência de novas instituições nas sociedades podem primordialmente ser explicadas ou pela intensificação da produção ou pela interação entre as USPs. Essa interação pode ocorrer de diversas formas. A guerra entre as USPs certamente pode implicar em aumento da produção (de itens de subsistência ou não) e desenvolvimento de instituições hierárquicas novas. A cópia competitiva entre as unidades, com cada uma tentando sobrepujar a outra em termos de demonstração de riqueza, capacidade e poder, certamente é um incentivo fundamental para a absorção e o desenvolvimento de inovações e desenvolvimentos de complexidade; ligados a este fenômeno estão a cópia simbólica e administrativa: desenvolvimentos em termos de linguagem simbólica e administrativa provavelmente serão emulados e desenvolvidos pelas outras USPs, em parte para que continue existindo uma linguagem comum através da qual a competição entre as USPs possa continuar ocorrendo. O puro aumento no fluxo de troca de mercadorias entre as USPs também pode acarretar alterações nas sociedades, uma vez que pode favorecer a especialização e o desenvolvimento de novas instituições relacionadas à produção e à troca.

 

 

Estratégias de Poder e o Desenvolvimento de Instituições Políticas Complexas

 

Para construírem instituições políticas, chefes moldam suas posições a partir de três fontes primárias de poder: econômica, militar e ideológica. Estas três fontes de poder podem ser universais para o processo político de sociedades humanas, mas o resultado do uso das mesmas pode ser extremamente variável; enquanto sociedades estatais podem surgir em algumas ocasiões, em outras as relações de poder podem permanecer descentralizadas e instáveis. A consolidação e a institucionalização do poder dependem da sistematização de “estratégias de poder”, que variam em termos de quais fontes de poder são centrais e como elas articulam-se entre si. A fonte de poder determinante parece ser a economia política; a habilidade de controlar e intensificar aspectos da economia política e usar a produção excedente para sustentar e desenvolver outras fontes de poder. O uso político efetivo do poder social depende do controle das diversas fontes de poder, e, como veremos, o controle reside principalmente na natureza da economia política.


O poder econômico é o mais facilmente controlado. Como recursos, tecnologia ou itens específicos são necessários ou desejados para a subsistência e a ação social, o controle sobre a produção e a distribuição garante poder social. A economia política é orientada para o crescimento; o excedente é reinvestido para expandir a base tecnológica e aumentar o próprio excedente. O poder militar é a essência da força coerciva, necessária para a expansão das unidades sócio-políticas. Entretanto, a natureza competitiva da força coerciva é inerentemente instável, podendo se voltar contra a elite. A ideologia é a porção do significado cultural que é usada estrategicamente, seja para garantir dominação política ou para resistir à mesma. O poder ideológico é a essência das leis sociais, do padrão de comportamento do grupo. Apenas através da materialização – na forma de artefatos de prestígio, paisagens culturais, cerimônias, etc. – a ideologia pode ser transmitida e, portanto, ter possibilidade de êxito; por ser materializada, a ideologia pode ser controlada e manipulada através da posse de conhecimento (cerimonial e técnico) e de objetos simbólicos ou de prestígio. A complexidade e escala das cerimônias, assim como o controle da produção e troca de itens de prestígio, permitem o controle do acesso às formas de materialização ideológica.


Além da possibilidade de controle do poder, uma variável crítica é como as diversas fontes de poder podem ser usadas para controlar e sustentar umas as outras. O poder econômico pode ser usado para controlar o poder militar e ideológico através do excedente: o poder militar é sustentado pela produção de excedentes que também podem ser usados para recompensar os guerreiros e manter a lealdade dos mesmos (o acesso limitado aos armamentos também pode controlar, parcialmente, o poder militar); o excedente também suporta o poder ideológico, uma vez que a produção de reservas e o controle dos itens de exportação são as bases do desenvolvimento tanto do poder militar quanto do ideológico. Já o poder militar pode ser utilizado para aumentar e defender tanto o poder econômico quanto o ideológico – garante a expansão das bases produtivas e o monopólio do fluxo dos itens de prestígio. O poder ideológico é utilizado para estruturar e legitimar as relações de poder na sociedade – a natureza dos direitos aos recursos não é uma coisa evidente numa comunidade, é um fato cultural criado por grupos sociais para manter e intensificar seus próprios interesses.

 

 

Os Santuários de Pico Minóicos

 

            Apesar de terem existido muitos tipos de locais de culto (tanto urbanos como rurais) na Creta minóica, uma classe destes locais de culto, os Santuários de Pico, possui uma importância singular para a análise das práticas religiosas minóicas, principalmente no tocante ao estudo das interações entre religião e Estados primitivos. Os “Santuários de Pico” minóicos (cerca de 25 santuários de pico foram confirmados até o momento) são locais de culto localizados em montanhas ou montes em Creta. Entretanto, nem todos os sítios arqueológicos em montanhas que apresentam vestígios de práticas religiosas podem ser classificados como santuários de pico. Estes santuários se encaixam dentro de um padrão arqueológico razoavelmente estabelecido (Peatfield). Dentro deste padrão algumas características topográficas devem ser encontradas para que possamos definir um local de culto minóico em montanhas como um santuário de pico: 1) deve haver uma boa visibilidade a partir do sítio arqueológico da área da qual os adoradores vieram; 2) o santuário de pico deve ser visível a partir desta mesma área; 3) obrigatoriamente deve ser possível ver outro(s) santuário de pico a partir de um santuário de pico; 4) o sítio arqueológico deve ser acessível – não estamos falando de locais de culto relacionados a uma peregrinação árdua em montanhas, como temos em outras culturas; 5) os santuários de pico são localizados próximos a áreas de habitação. Poucos objetos de culto minóicos, como machados duplos e cornos de consagração, foram encontrados em santuários de pico. Também foram encontradas poucas construções, como muralhas ou cômodos. Por outro lado, muitas oferendas votivas (a maioria de materiais pobres e manufaturadas com técnicas rudimentares), principalmente estatuetas de terracota, foram encontradas nestes locais de culto. O mais surpreendente nos santuários de pico é a incrível uniformidade de culto; os achados em um santuário de pico num dos extremos de Creta serão, invariavelmente, quase idênticos em tipologia e quantidades relativas aos achados em qualquer santuário de pico localizado no outro extremo da ilha. Tal uniformidade de culto não é verificada em nenhum outro tipo de local de culto minóico, rural ou urbano. Devido, principalmente, a essa uniformidade, que sugere uma atividade religiosa desenvolvida e padronizada, o estudo dos “Santuários de Pico” minóicos é de especial interesse para este estudo da ligação entre religião e política.

 

 

O Surgimento do Sistema Palacial Minóico

 

            A civilização minóica tem uma longa história, tradicionalmente dividida em três grandes períodos, o Prépalacial, o Protopalacial e o Neopalacial. O período prépalacial (cerca de 3.000 a 1.900 a.C.) é marcado por grandes mudanças sociais e tecnológicas, como o desenvolvimento da metalurgia do bronze, o surgimento das tumbas circulares e um grande aumento dos contatos marítimos entre as diversas civilizações do Mediterrâneo Oriental.



Vista aérea do Palácio de Cnossos
             Por volta do ano 1.900 a.C. (MM I A) inicia-se o período protopalacial, com a construção do grande palácio de Cnossos. Neste período surgem os grandes palácios minóicos, centros políticos que caracterizarão esta civilização. Ocorre um grande desenvolvimento urbano e demográfico. Em 1.700 a.C. (MM II – MM III) grandes incêndios e destruições, provavelmente causados por um grande terremoto, marcam o registro arqueológico.


O período subsequente é conhecido como neopalacial: apesar dos grandes danos os palácios foram reconstruídos e muitos avanços tecnológicos e sociais realizados. Neste período Creta exerce forte influência comercial e cultural em todo o Egeu.

O fim do período neopalacial, em 1.450 a.C. (MT I B), também é marcado por grandes destruições, possivelmente tendo por causa a erupção de um enorme vulcão na ilha vizinha de Tera. Desta vez as destruições não foram seguidas por grandes reconstruções e por todo o Egeu há uma diminuição da influência minóica e um forte aumento da influência dos micênicos – povo indo-europeu “proto-grego” do continente. Em Creta, a influência micênica é atestada, principalmente, pela substituição da escrita Linear A pela Linear B (já decifrada), uma adaptação da Linear A para o proto-grego. Em 1.370 a.C. o palácio de Cnossos é totalmente destruído por causas ainda não entendidas, marcando o colapso da civilização palacial minóica.


A análise do surgimento do sistema palacial em Creta, fundamental para o entendimento de tal sistema (e, portanto, para a compreensão da interação entre religião e Estado), deve se dar a partir de duas abordagens distintas. Em primeiro lugar, deve-se realizar uma análise descritiva para entender os estágios do surgimento dos palácios; depois, deve-se realizar uma análise explanatória das causas deste surgimento. Três tendências sociais podem ser discernidas no período prépalacial (Warren): o desenvolvimento do conceito de território, uma ênfase na vida comunal e a evolução da família nuclear.



Planta arquitetônica do Palácio de Cnossos

No período seguinte, o protopalacial, existe, para Warren, um forte desenvolvimento social provocado pela emergência da família como uma unidade social mais forte e distinta do restante da comunidade, vivendo em grandes casas em muitos sítios e erigindo construções monumentais em Cnossos, Phaistos e Mália. O fato do desenvolvimento de níveis hierárquicos numa sociedade limitar os conflitos entre seus membros poderia explicar o sucesso desse desenvolvimento social; a ritualização constante, característica da sociedade minóica que pode ter surgido junto a este desenvolvimento social, também é eficiente no redirecionamento da agressividade do grupo e pode ter auxiliado na aceitação desta evolução social.



 

Sistema Redistributivo e Administração

 

Nunca se conseguiu determinar com precisão a natureza do sistema de governo secular em Creta minóica – monarquia guerreira, democracia primitiva, teocracia? A análise do sistema de governo minóico – e de mudanças no mesmo ao longo do tempo – esbarra em dois fatores: 1) as escritas minóicas hieroglífica e Linear A não foram decifradas; 2) parece ter existido uma completa ausência de ambições políticas pessoais na civilização minóica. Dessa forma, não temos as listas de reis da Mesopotâmia, os túmulos monumentais do Egito, os tholoi micênicos ou as estátuas e estelas comemorativas de eventos políticos. Por outro lado, podemos entender, através da Arqueologia, qual o papel dos palácios nas atividades econômicas, sociais e culturais do mundo minóico. Os palácios minóicos, assim como os templos da Suméria pré-monárquica, centralizavam muito de todas as áreas de atividade da sociedade minóica. Os palácios administravam a economia de toda a ilha, provavelmente tendo nas mansões rurais sedes de governo regional. Armazenavam e distribuiam grãos e outros diversos materiais, organizando a vida material da sociedade. Também eram centros produtores, além de organizadores e armazenadores: é no palácio que se encontravam os artesãos especializados, por exemplo. Possivelmente, a exemplo do Egito, os palácios regiam todo o comércio internacional. Também eram centros irradiadores e produtores de cultura – as mais finas obras de arte e objetos religiosos eram produzidas nos palácios. A cultura dos palácios, (a “cultura das elites”), foi irradiada para todo o mundo Egeu, servindo de inspiração para as elites locais se desenvolverem. O papel religioso dos palácios ainda não foi completamente entendido. Sabe-se que existiam pequenos santuários dentro dos palácios, além das bacias lustrais com possível caráter religioso. Os pátios centrais dos palácios talvez fossem utilizados para festivais religiosos, dos quais faziam parte os jogos minóicos, como o salto sobre touros. Mas qual o verdadeiro papel religioso dos palácios nós ainda não sabemos – a iconografia palacial, notadamente os afrescos que enfeitavam os palácios, representam, em sua maioria, cenas religiosas, o que pode indicar o grau de relação entre os palácios e a religião. Devemos ter em mente que o sistema palacial minóico existiu por quase um milênio, sendo incorreto, portanto, entendê-lo como estático e imutável.


A administração palacial envolveu o uso da escrita, (na realidade, pelo menos dois sistemas distintos de escrita, a Hieroglífica e a Linear A, ambas não decifradas) e de selos, utilizados para regular os estoques e registrar transações. Até o momento, três palácios foram identificados para o período protopalacial, Cnossos, Mália e Phaistos. Todos estes palácios utilizavam escrita e selos na administração, mas a forma dos mesmos ainda não estava padronizada. Os palácios também participavam na produção e troca de itens de prestígio e como centros redistributivos dentro de seus territórios, com enorme capacidade de armazenamento. Durante este período eles parecem ter atuado como os únicos centros administrativos e redistributivos da ilha. Os três palácios parecem ter controlado toda a parte central de Creta, com territórios prováveis de 1.000 a 1.500 Km². A situação nas extremidades oriental e ocidental da ilha não é bem compreendida, uma vez que não se conhece o status político de sítios como Palaikastro, Kato Zakros e Chania durante o protopalacial, mas é provável que outros centros palaciais tenham existido em algumas destas regiões.

       

         A situação no período subsequente, o neopalacial, é bastante complexa. Os antigos palácios reconstruídos e o novo palácio em Kato Zakros tiveram sua capacidade de armazenamento de alimentos extremamente reduzida. Por outro lado, pelo menos em Cnossos, houve a criação de centros de armazenamento de itens de valor e um grande aumento da produção de artesanato especializado nos palácios. Neste período aparece um grande número de sítios rurais, denominados vilas ou casas de campo, muito semelhantes aos palácios em termos arquitetônicos, mas, obviamente, numa escala muito reduzida. O mais significativo é que esses palácios em microcosmo possuíam uma considerável área de armazenamento; também foram encontradas tabuletas de Linear A e selos de impressão nesses sítios, elementos ligados à administração palacial. Dessa forma, surge uma hierarquia de sítios muito mais complexa que a do período anterior; sítios importantes como Gournia, Agia Triada e Archanes também apresentam construções de tipo palacial, mas de tamanho reduzido, provavelmente funcionando de forma subordinada aos palácios. Um terceiro nível hierárquico seria composto pelas vilas e casas de campo, como Sklavokampos e Myrtos Pyrgos. A existência de centros de armazenagem nesses sítios hierarquicamente inferiores aos palácios parece sugerir que os palácios já não agissem como centros redistribuidores, mas apenas como mobilizadores de recursos para consumo próprio. O tamanho dos territórios palaciais parece não ter sofrido grandes alterações, mas agora Zakros definitivamente dominava uma pequena área no extremo oriental da ilha, enquanto Chania – independente de ter sido um centro palacial ou não – dominava vastas extensões de terra no ocidente, apesar de muito de seu território ter sido montanhoso.

 

 

A Passagem do Período Protopalacial para o Neopalacial

 

Jennifer Moody realiza uma análise das mudanças das manifestações de prestígio nos centros palaciais minóicos na passagem do período protopalacial para o neopalacial com a esperança de, assim, entender mudanças na sociedade e economia minóicas. Como foi dito no tópico anterior, uma das mais notáveis características dos palácios do período protopalacial é a enorme quantidade de área destinada ao armazenamento de alimentos. Para Moody, além de serem uma mostra do caráter redistributivo do sistema palacial deste período, isto também refletiria a prática de ganho de prestígio das elites palaciais através da realização de festas e banquetes. Também como já foi dito, a área destinada a reservas de alimentos teve uma queda drástica após as reconstruções do início do período neopalacial. Por outro lado, houve um aumento notável das áreas destinadas a práticas de culto e áreas destinadas à produção artesanal, principalmente de itens de prestígio ou de culto. Também existem evidências de restrição ao acesso do público a atividades religiosas nos palácios e, como veremos depois, evidências de maior controle sobre os locais de culto de forma geral, principalmente os Santuários de Pico.


Uma das grandes questões relacionadas aos santuários de pico minóicos é justamente a possível relação dos mesmos com o poder político dos palácios de Creta. A grande maioria dos arqueólogos acredita que os santuários de pico tenham surgido associados à população de pastores entre o período M.A. III, aproximadamente 2.200 a.C., (um ou dois séculos antes do surgimento dos palácios de Creta) e o período MM I, (2.000 a.C.), ou seja, entre o final do período prépalacial e o início do período protopalacial.


Este foi um período de grandes transformações econômicas que incentivaram o desenvolvimento da atividade pastoril (o aumento demográfico e a importância da lã para o comércio internacional). Também devido à natureza dos achados, oferendas votivas simples e pobres, (principalmente estatuetas de terracota representando animais e seres humanos), pode-se concluir que há uma associação entre o desenvolvimento da atividade pastoril e o surgimento dos santuários de pico, que serviriam às práticas religiosas da população de pastores.


Oferendas localizadas nas ruínas do Palácio de Cnossos

        

               Sabe-se, também, que muitos santuários de pico foram estabelecidos próximos a áreas de habitação ou de utilização humana, principalmente em regiões de pastoreio.

            Entretanto, existe uma alteração, pelo menos aparente, no papel destes santuários na sociedade minóica iniciado durante a passagem para o período neopalacial. Durante o segundo período palacial, ou neopalacial, os santuários de pico passaram por algumas mudanças. Alguns, como Juktas, Kophinas, Traostalos e Petsophas, foram agraciados com muralhas, construções e enriquecimento na qualidade e número das oferendas votivas; outros, como Atsipadhes, foram abandonados. Esse movimento culminou no período M.T. I com a sobrevivência de apenas um santuário de pico, Juktas. As alterações apresentadas pelos santuários de pico ao longo deste período podem refletir as do sistema palacial neste período; teria acontecido um “apadrinhamento” dos santuários de pico por parte da elite palacial. Essa proposta é fundamentada pelas alterações encontradas nos vestígios arqueológicos deste período em santuários de pico, tais como: surgimento de construções em alguns santuários de pico; descoberta de selos de impressão e tabuletas de Linear A nos santuários, (elementos ligados à administração palacial); maior riqueza dos achados em santuários de pico, com o aumento do número de objetos metálicos; maior presença de objetos de culto relacionados ao poder político palacial, como machados duplos e cornos de consagração.


Em resumo, aparentemente temos, no período neopalacial, uma descentralização das reservas de alimentos – dos palácios para as vilas e outros sítios urbanos – um simultâneo aumento da produção de artefatos de culto ou de prestígio, uma concentração das atividades de culto em um menor número de sítios e uma crescente exclusão de uma parte da população de atividades religiosas palaciais. Com o aumento da estratificação na sociedade minóica, a redistribuição pode ter deixado de funcionar como um efetivo instrumento de ganho de prestígio e controle ideológico; aparentemente, a mobilização passou a ser mais importante. A coleta de bens e serviços para o benefício das elites, com pouco retorno para a população, parece ter se tornado a regra numa sociedade onde o patrocínio de festas não poderia mais garantir prestígio, uma vez que a redistribuição de riqueza não era mais um valor importante para as elites. O prestígio e o poder das elites aparentemente passaram a ser definidos muito mais pelo controle ideológico através da religião; objetos de prestígio, a celebração de cerimônias religiosas, o domínio de locais sagrados e a exibição de monumentalidade e riqueza religiosa nos santuários de pico. O controle dos locais de culto e da produção de artefatos de prestígio ou de culto passou, aparentemente, a ser a prioridade da elite palacial - a competição entre as diversas USPs minóicas levou a um constante aumento de monumentalidade e ostentação simbólica nos santuários de pico, assim como a uma constante restrição ao acesso a locais de culto e atividades religiosas de prestígio. Portanto, temos uma mudança na estratégia de poder das elites palaciais, desencadeada, provavelmente, pelo aumento da hierarquização da sociedade, causada, por sua vez, pela intensificação da agricultura e do comércio exterior no período neopalacial. Essa nova estratégia de poder buscava no controle religioso e na ostentação de bens e cerimônias de prestígio, e não mais na redistribuição de alimentos, sua sustentação, o que reforçava a hierarquização social e a especialização técnica. Dessa forma, a sociedade minóica perdeu alguns de seus mecanismos de equilíbrio, como o sistema redistributivo palacial, e entrou num processo morfogênico, acentuado pela competição emulativa entre as USPs minóicas.

 

 

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