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Egito: o Berço do Ideal Imperial

Danilo José Figueiredo
danilo@klepsidra.net
Mestrando em História Social/USP

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Geografia e Climatologia
Período Formativo
Período Pré-Dinástico
Reino Antigo
Guerras Divinas
1º Período Intermediário
Reino Médio
2º Período Intermediário
Novo Reino
Supremacia do Sol
Período de Caos
Período Ptolomaico
Disseminação do Ideal Imperial
Outros pontos
Bibliografia

 

         Introdução:

 

         Este é meu 18º texto em Klepsidra, o 8º sobre uma grande civilização do passado. Nos textos anteriores, já escrevi sobre Incas, Vikings, Japoneses, Astecas, Árabes, Mongóis e Olmecas. Finalmente, porém, é chegada a hora de se falar sobre os Egípcios.


        
Confesso ao leitor que protelei a escrita desse texto o máximo que pude, visto que sabia que seria um trabalho exaustivo e, sobretudo, difícil. Havia, é verdade, uma vontade dentro de Klepsidra no sentido de que eu o escrevesse, afinal, os Egípcios são uma civilização fascinante que intriga tanto por suas Histórias, quanto por seus enigmas e mistérios. Ao contrário, das demais civilizações sobre as quais escrevi, sobre os Egípcios existe muita bibliografia, inclusive em Português. Existem, no entanto, livros (aos montes, diga-se de passagem) que, ao invés de ensinar algo a seus leitores, realizam um trabalho inverso, constroem verdades inverossímeis e tendenciosas que tendem a confirmar pensamentos componentes do senso comum, ou seja, coisas como a maldição da tumba de Tutankhamon, como a magia Egípcia, idéias sobre a grandiosidade de Faraós que talvez nem tenham sido assim tão grandiosos, dentre outras coisas.


        
Participação de alienígenas, herança de Atlântida, conhecimento de tecnologias fantásticas... são muitas das idéias que se têm sobre o Egito Antigo e que se cristalizaram de tal forma que muitos passam a defender como verdadeiras. Os filmes de Hollywood, como “Cleópatra”, “Os Dez Mandamentos”, “O Príncipe do Egito”, “A Múmia”, O Escorpião Rei”, dentre outros, também contribuem muito para criar uma falsa idéia a respeito do modo de vida daquele povo e, sobretudo, a respeito de seu legado.



Elisabeth Taylor
como Cleópatra

         Pensemos em “Cleópatra”, nele o que é retratado não é o Egito Antigo, mas o Egito Ptolomaico às vésperas da conquista Romana. É uma outra realidade, porém, o cidadão comum que assiste ao filme, não se dá conta de que há entre Cleópatra e a época das Grandes Pirâmides, por exemplo, mais de 2500 anos de distância (na prática, só para se ter uma idéia, nós estamos mais perto, cronologicamente falando, de Cleópatra do que ela estava de Queóps, Quéfren e Miquerinos, coisa que parece inimaginável).

 

Filmes como “Os Dez Mandamentos” ou o desenho animado “O Príncipe do Egito”, que se referem ao período Faraônico, em si, também pecam gravemente contra a construção do conhecimento sobre o Egito na medida em que transformam os cultos Egípcios numa espécie de amontoado de rituais pagãos e falsos (com os Sacerdotes Egípcios fazendo mágicas baratas em contraposição aos grandes milagres de Moisés) e transformam o povo Hebreu em escravos obrigados a prestar trabalhos forçados em construções públicas.


          Idéias completamente descontextualizadas, na medida em que construções públicas eram trabalhos muito apreciados pela população Egípcia livre e, possivelmente, muito bem remunerado. Além disso, os escravos (como os Hebreus podem até ter sido, mas o que não é confirmado pelos indícios Arqueológicos) eram empregados nas minas e como mercenários na infantaria dos exércitos do Faraó.

           Os filmes hollywoodianos esquecem de nos mostrar alguns dos aspectos mais fundamentais do mundo Egípcio, como, por exemplo, a Divindade do Faraó. Ignoram que ao relatar uma crise de fé como a demonstrada por Ramsés II em frente à estátua do Deus Anúbis, em “Os Dez Mandamentos”, estariam implicando na desestruturação das bases do mundo Egípcio, coisa que não ocorreu no governo daquele Faraó. Omitem que ninguém (nem mesmo um membro da família Real, como Moisés se pretende nos filmes) poderia invadir o palácio e sequer dirigir a palavra ao Faraó, quanto mais afronta-lo diretamente, e conseguir sobreviver no final.


A capa do filme
"Os Dez Mandamentos"


A fim de desconstruir tantos pressupostos enganosos, especialmente confirmados hoje em dia, na medida em que a febre da Egiptologia começa a ganhar força outra vez (com a divulgação da possível descoberta da múmia de Nefertiti, por exemplo), sabia que meu texto teria de ser denso e suficientemente embasado para poder cumprir seus objetivos. Com este trabalho, venho a quebrar meus próprios recordes dentro de Klepsidra, pois, se antes meu maior trabalho não atingia sequer 80 páginas, este superou em muito as 200. Realmente, há cerca de sete meses, quando comecei a empreitada para escrever este texto, não esperava que escreveria tanto. Sabia que seria mais um de meus “mega-textos”, como brincam meus colegas de revista, mas não imaginava que viria a escrever um verdadeiro livro. É verdade que a gama de leituras que realizei para concluir esta obra foi muito grande, afinal, abranger mais de 3000 anos de História num único texto é realmente tarefa difícil, áspera e, talvez, que venha a se provar frustrante, na medida em que sei que haverá críticas a meu trabalho, justamente por isso, visando evitar críticas desnecessárias, gostaria de prestar meus já tradicionais esclarecimentos:


Este é um trabalho de um Bacharel em História, alguém apaixonado por História Antiga e que, inclusive, realiza seus estudos de Pós-Graduação justamente nessa área. Contudo, meus estudos se direcionam para o período final da República Romana e, sendo assim, em nada têm a ver com um período tão recuado quanto o do Egito Faraônico. Apesar de tantos indivíduos de tão diferentes áreas (Medicina, Antropologia, Teologia, Arqueologia, História, Geografia, Geologia, Arquitetura, Odontologia, Engenharia Civil...) se dizerem Egiptólogos apenas por serem interessados no tema e terem lido (ou quem sabe feito uma ou duas viagens até o Egito) diversos livros; eu não consigo me ver como tal, não sou um especialista no período. Acho até que seria uma certa presunção de minha parte dizer-me Egiptólogo apenas por ter lido por cerca de seis meses e escrito este trabalho de mais de 200 páginas para publicação numa revista especializada em História.


Gostaria de terminar esta introdução longa, que faz jus ao texto que também o é, falando a respeito de alguns problemas com que o leitor se deparará no texto.


O principal dos problemas residirá na grafia dos nomes. Muitos já devem ter lido palavras como Tutancamôn, Tutmósis, Sethi, Seth, Aquenaton, Quéops, Quéfren, Miquerinos... Mas também, Tutankhamon, Tutmés, Djehutimés, Seti, Set, Akhenaton, Khufu, Khafre, Menkaure...


Em ambos os exemplos escrevi as mesmas coisas com grafias diferentes. Por que isso acontece?


Porque os nomes dos Faraós, habitantes, Deuses, lugares, coisas do Egito Antigo eram grafados em Egípcio. Esse idioma possuiu três tipos de escrita: hieróglifos, hieráticos e demóticos.


A primeira era composta de desenhos que formavam 24 letras e incontáveis símbolos (chamados determinativos), cada símbolo indicava uma determinada palavra, sendo assim, havia um número muito grande de hieróglifos, o que dificultava sua escrita. Com o tempo, os Egípcios passaram a escrever também em hieráticos, que eram uma espécie de hieróglifos simplificados utilizados em documentos e por Escribas copistas, sendo assim, o hierático foi muito utilizado em correspondências e anotações particulares, bem como em alguns livros que não possuíssem caráter religioso. O demótico foi o último tipo de escrita surgido no Egito, apareceu durante a XXVI Dinastia, ou seja, num período em que o Egito já conhecia sua franca decadência, era uma escrita completamente cursiva inspirada no hierático, que havia surgido cerca de 850 anos antes, durante a XVIII Dinastia; por ser praticada mais por comerciantes e por pessoas não pertencentes à elite e também por ter surgido num período em que o esplendor maior da História Egípcia já havia passado, o demótico não deixou tantas marcas como os hieróglifos e hieráticos, sendo assim, ele é a única escrita Egípcia que ainda não está completamente traduzida.


Certo, muito bom, mas você ainda não explicou porque a existência desses três tipos de escrita para a língua Egípcia torna difícil a grafia das palavras Egípcias hoje em dia.


Justamente, como o leitor deve saber, o Egito de hoje não fala o idioma Egípcio, mas sim, o Árabe. Isso aconteceu porque no final do século VII a expansão da Dinastia Omíada do Império Islâmico dominou o Egito e, entre outras coisas, impôs sua língua como forma de dominação cultural. É verdade que o Árabe não se estabeleceu do dia para a noite, mas demorou até o século XVI para suprimir o idioma falado então no Egito.


Ah, certo, dirá o leitor, então, o Egípcio deixou de ser falado no século XVI, não é?


Não, direi eu. A língua que o Egito falava quando sofreu a conquista Árabe não era mais o Egípcio, mas sim, o Copta (Copta é uma forma diferente de se dizer Egípcio, mas, no caso da língua, ela serve para designar um idioma diferente do Egípcio tradicional, falado no Egito Antigo). O Copta surgiu durante o domínio do Egito pela XXXI Dinastia, os Ptolomeus. Os Gregos haviam imposto que o Egípcio poderia continuar a ser falado, mas que deveria passar a ser escrito, ao menos em documentos, com os caracteres da Grécia. Aos poucos, foi havendo uma mistura entre o Grego e o Egípcio e, como a escrita Grega era de disseminação mais fácil, ela foi suprimindo, aos poucos, as escritas hieroglífica, hierática e demótica (esta última, não chegou, portanto, a ter mais de 300 anos de vida, também por isso não teve tempo de deixar sua marca na História de forma tão indelével). Por volta do século III d.C. (IV d.C. para os mais otimistas), o Egípcio antigo havia sido completamente suprimido pelo novo Copta. Também os vestígios de escritas hieroglífica, hierática e demótica não são mais encontrados depois dessa data, sendo assim, considera-se que o Egípcio se tornara uma língua morta.


Hoje, portanto, ninguém sabe realmente como se falava o Egípcio antigo, sendo assim, as sonorizações das traduções de hieróglifos e hieráticos encontrados se dão à partir da pronúncia Copta das palavras. O Copta, por sua vez, também se tornou uma língua morta por volta do século XVI, porém, assim como o Latim, há ainda hoje registros de como era sua gramática, especialmente porque a Igreja Católica Copta (Igreja Católica do Egito), por toda a sua tradição ligada ao Cisma do Oriente e à Igreja Católica Bizantina (que tem o Grego como língua mãe, assim como a Igreja Católica Romana tinha o Latim como a sua), preservou como seu idioma institucional o Copta.


As sonorizações do Copta, contudo, não são perfeitas e nem sequer devem ser iguais às originais, visto que esse idioma sofreu muita influência do Grego e alguma do Latim, sendo assim, muitas das palavras (em especial os nomes próprios) sofrem modificações que se devem às traduções regionais. A isso, deve-se somar as políticas nacionalistas de alguns países (como o Brasil teve no passado e os países de língua Hispânica ainda tem) em relação a suas próprias línguas, sendo assim, indivíduos como Martin Luther se tornam Martinho Lutero, Karl Marx se torna Carlos Marx e outras traduções que atrapalham uma universalização dos nomes que deveriam ser mantidos em suas línguas originais (ou nas mais próximas, como o Copta do Egípcio, em casos de necessidade) ocorrem.


      
Por fim, acredito que devo mencionar que a expedição de Napoleão Bonaparte ao Egito, entre 1798-9, foi decisiva para o início do estudo da Egiptologia. Até então, devido a conhecimentos do final da Antiguidade propagados por toda a Idade Média e Moderna (conhecimentos que veremos melhor no final do texto), acreditava-se que os hieróglifos não possuíam qualquer significado lingüístico, sendo tão somente, fórmulas mágicas e esotéricas. Essa expedição foi a primeira a levar indivíduos interessados numa pesquisa científica (se bem que empirista) da História Egípcia e, ao ir embora, havia instalado no Cairo (atual capital do Egito, cidade fundada pelos Árabes no lugar onde existia um outro povoado mais antigo, nas proximidades das Pirâmides de Gizé) um Instituto Francês.



A Pedra de Rosetta
A expedição também desceu o Nilo e redescobriu as ilhas de Filae e Elefantina (que não eram tocadas por Europeus desde o Império Romano) e levou consigo, além de muitos tesouros arqueológicos (que foram perdidos, assim como tantas outras coisas se perderam nos primeiros anos da Egiptologia devido a roubos, falta de preparo de Arqueólogos e acidentes), a famosa Pedra de Roseta. Esta pedra trazia em si uma inscrição reproduzida em três escritas: grega, demótica e hieróglifica. Em 1822, depois de mais de vinte anos de estudos, Jean-François Champollion conseguiu decifrar a Pedra de Roseta e dar à Egiptologia um novo rumo: um rumo de ciência (se bem que para o público leigo que se interessa pelas coisas que critiquei nesta longa introdução, é como se a Pedra de Roseta nunca tivesse existido, visto que continuam a ver o Egito com um olhar não científico e a acreditar em teorias esotéricas a respeito de sua História, fazer o que?)!


        
Apenas como observação final (e agora estou falando sério!), gostaria de esclarecer que todas as datas mencionadas neste texto, caso estejam escritas sem as desinências “a.C.” ou “d.C.”, se referirão ao período anterior a Cristo, sendo que quando alguma data posterior a Cristo for mencionada ela estará obrigatoriamente seguida de “d.C.”. Esta medida facilita as coisas na medida em que a esmagadora maioria das datas deste texto se referirá ao período anterior a Era Cristã.

 


Continuação