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Nota Historiográfica sobre a
Sociedade Colonial
*

Rodrigo Elias Caetano Gomes
rodrigo@klepsidra.net
Mestrando - História/UFF
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Essa sociedade herdou concepções clássicas e medievais de organização e hierarquia, mas acrescentou-lhes sistemas de graduação que se originaram da diferenciação das ocupações, raça, cor e condição social, diferenciação esta resultante da realidade vivida na América.

 

Stuart B. Schwartz, Segredos Internos.

 

Multiplicidade. Esta palavra é verdadeiramente significativa para quem tenta pensar a América portuguesa nos seus aproximados trezentos anos de existência. Significativa em vários aspectos, mas podemos aqui destacar dois. O primeiro, do qual nos dá pistas a epígrafe àcima, é o histórico, que diz respeito à própria “sociedade” colonial, ou seja, multiplicidade econômica, religiosa, social, étnica... O segundo, o historiográfico, diz respeito às opções. Opções de tradições interpretativas, opções de correntes teóricas, opções de recortes, ângulos, escalas de observação por parte do historiador.

A dificuldade de lançar um “olhar” sobre o “nosso” período colonial encerra-se, portanto, entre estas duas barreiras fundamentais. Porém, pode ser que estas barreiras tornem-se, ao contrário do que poderíamos acreditar a priori, em instrumentos ou “lentes” para que lancemos este olhar. Ou seja, a múltiplicidade histórica pode nos fornecer uma gama infindável de elementos ou indícios para que investiguemos um tempo que já perdemos, podendo assim começar por desconstruír a própria idéia de “sociedade” colonial, visto que ambos os termos (“sociedade” e “colonial”) sequer são usados durante quase todo o período do qual ora nos ocupamos. Quanto à multiplicidade historiográfica, esta pode se converter em uma ferramenta na medida em que nos permite observar de vários ângulos diferentes a multiplicidade à qual nos referíamos anteriormente. Isto é, o confronto de opiniões – que é apenas uma das faces da multiplicidade historiográfica – proporciona solidez epistemológica ao exercício do historiador, na medida em que a historiografia vai se definindo enquanto campo científico. As multiplicidades de recortes e escalas podem nos ajudar também na construção de uma visão de conjunto.


Quanto a este último ponto, a visão de conjunto, cabe dizer que a América portuguesa tende à obliteração. Ou seja, uma concepção holística acerca da “realidade” colonial resulta quase impossível devido a dificuldades de ordem geo-históricas, isto é, a amplitude espaço-temporal do domínio colonial português na América é demasiadamente grande para uma simplificação historiográfica. No entanto, podemos, neste pequeno ensaio, apontar algumas tentativas de interpretação desta sociedade.



Francisco Adolfo de
Varnhagen

Tomemos como ponto de partida João Capistrano de Abreu. É necessário mencionar primeiramente sua importância no quadro mais geral da historiografia brasileira, da qual ele é um marco, definindo uma viragem que ocorre no início do século XX em relação à historiografia institucional identificada sobretudo com o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e com Francisco Adolfo de Varnhagen (apesar de haver ente estes consideráveis diferenças), na medida em que estes propunham uma história que poderíamos chamar – é claro, simplificadamente – de acontecimental, preocupada antes de tudo com a legitimação de uma ordem baseada no nacionalismo.


Capistrano pode ser considerado o primeiro esforço no sentido de se fazer, já em 1907, uma nova história colonial, história esta que elegeria novos objetos, novas abordagens, novas perspectivas, elementos que seriam valorizados sistematicamente pela historiografia brasileira cerca de meio século depois... Portanto, seria Capistrano de Abreu um visionário, um "profeta"? Acredito que não. Então qual é a sua originalidade? O que o torna até hoje lido e citado? Não restam muitas dúvidas. Capistrano insere novas problemáticas na História do Brasil e, o que é mais interessante, as responde de uma maneira ainda não considerada pelos pensadores brasileiros até então: a diversidade cultural.



Voltaire
             Esta concepção teórica, que nasce da crítica aos valores ilustrados, sobretudo franceses, crítica ao Iluminismo e que nasce com o próprio, sobretudo nas críticas feitas por Giambatista Vico à noção de natureza humana presente nos principais expoentes do Iluminismo francês, visível na sua forma mais elaborada em Voltaire, para quem haveria um ideal ahistórico de civilização, assume em Capistrano o status de metodologia. Capistrano não vai enxergar um Brasil no período colonial, ao contrário, verá Brasis, onde há diferenças às vezes inconciliáveis, onde há pessoas e grupos se organizando e vivendo de formas absolutamente variadas, ou seja, Capistrano enxerga o Brasil através de uma perspectiva que poderíamos chamar de pluralista.


Ou então que outra explicação poderia ser dada à percepção de Capistrano em relação aos cinco grupos etnográficos que “não se prezavam” na passagem dos setecentos para os oitocentos senão a correspondência cultural daquilo que Ranke identificou como a “legitimidade de cada época perante Deus”? Esta era uma concepção pluralista. Não é relativista nos moldes de Heidegger (que irá radicalizar a noção de pluralismo), pois enxerga e analisa as diferenças, ou seja, na concepção de Capistrano – ainda que este reproduza certos estereótipos, principalmente em relação aos povos indígenas – há janelas entre as diversas culturas que, inclusive, permitem que ele faça a análise sócio-cultural acerca do período colonial.


Mais do que um simples intermediário entre a historiografia tradicional nos moldes do IHGB e a chamada “geração de 1930”, João Capistrano de Abreu (para alguns mestre Capistrano) inaugura na historiografia um olhar problematizador baseado no reconhecimento do diferente, não como exótico, mas como elemento formador da realidade social colonial. [1]



Gilberto Freyre
              Passemos então à chamada “tríade fundadora” da historiografia profissional brasileira moderna, que tem início na chamada “geração de 1930”. Falemos primeiramente de Gilberto Freyre. Antropólogo por formação, Freyre desenvolve seus estudos ainda na década de 1920, época em que o ambiente intelectual brasileiro está ainda sob o impacto do modernismo e movimentos pipocam por todo o país em prol de um brasilianismo, um nacionalismo com características próprias e que estimula um descolamento das matrizes intelectuais em voga no final do século XIX, sendo propício o ambiente para interpretações originais ainda que comprometidas com determinada ideologia.


É neste ambiente que Gilberto Freyre está inserido, passando posteriormente a completar seus estudos nos Estados Unidos, onde entra em contato com os estudos do professor Franz Boas, antropólogo que o influenciaria em seu grande trabalho sobre o período colonial brasileiro, Casa Grande e Senzala.[2]


Este trabalho de Freyre, além de leitura agradabilíssima, é de capital importância na historiografia brasileira, na medida em que incorpora a matriz culturalista da Antropologia à abordagem histórica, principalmente em um momento, 1933, em que teorias explicativas de ordem raciológica tinham grande espaço no ambiente acadêmico mundial (note-se que 1933 é o ano em que o Führer chega ao poder na Alemanha). Pode ser notada no texto de Freyre a reiterada preocupação em rebater as explicações de cunho biologizante racistas, sendo para ele as diferenças entre os grupos sociais principalmente de natureza cultural.


No que concerne estritamente à historiografia, Casa Grande e Senzala tem grande relevância no que diz respeito à incorporação de alguns objetivos manifestados por Marc Bloch e Lucien Febvre pouco antes de sua publicação, como a interdisciplinaridade e a ampliação do espectro documental. Seu trabalho dá grande importância – como podemos notar pelo título – às relações estabelecidas entre senhores e escravos, assumindo pela primeira vez a importância do negro na formação do nosso “modo de ser”, indo da alcova ao canavial e explorando todos os tipos de relação, das sexuais às de produção, sempre sob a égide da dominação senhorial, utilizando-se de relatos de viagens, diários, cantigas populares e várias outras fontes, criando assim uma interpretação que foi acusada posteriormente de “adocicar” a escravidão. Acusação que talvez seja injusta, visto que o conflito não está ausente na interpretação de Freyre, sobretudo quando este narra os terríveis castigos aos quais os escravos que recusavam a se sujeitar aos seus senhores eram submetidos.



Sérgio Buarque de Holanda
             Ainda no que diz respeito à “geração de 1930”, não podemos deixar de mencionar a iportância dos trabalhos de Sérgio Buarque de Holanda para a interpretação da sociedade colonial “brasileira”. Raízes do Brasil é publicado em 1936. Com um estilo econômico, de leitura fácil e agradável, este trabalho está preocupado em verificar elementos psicológicos e sociológicos da nossa formação histórica colonial, na qual Sérgio Buarque de Holanda encontra as raízes explicativas para o nosso estágio de desenvolvimento na década de 1930, encontrando as explicações na metáfora, por exemplo, do semeador, ou na “irracionalidade” – preferiríamos dizer racionalidade barroca – do homem cordial, movido pela emoção e não pela razão (pelo menos não uma razão iluminista), vasculhando para isso Sérgio Buarque um grande número de crônicas coloniais e relatos de viagem, além de considerável bibliografia, sendo ainda assim o seu trabalho portador de um tom ensaísta. [3]


É interessante também notar que algumas características teóricas ou metodológicas de Holanda podem ser identificadas com a tradição hermenêutica alemã, tradição esta que tem o seu início fora da Alemanha (ou do que viria a sê-la), com o pluralismo de Giambatista Vico, passaria aos germânicos via Herder, atingiria a Hegel, Dilthey e Ranke, tendo repercussões no trabalho de Weber e sendo apropriado por Sérgio Buarque na sua reflexão sobre aquilo que se tornaria o Brasil, visto que era necessário compreender suas raízes. Estas características o inserem de certa forma na mesma tradição intelectual de Capistrano de Abreu.


Mas qual a relação do intelectual feliz com as problemáticas inseridas por Capistrano? Como foi dito anteriormente, Holanda compartilha da tradição historicista alemã, tradição esta que é mergulhada nos valores pluralistas supracitados. Sérgio Buarque ressalta em Raízes do Brasil o valor do singular, do único, onde o objeto é compreendido através de um processo contínuo, gradativo, empático, onde a metodologia é criada a partir do contato com o objeto.


Max Weber

Não seria este o círculo hermenêutico de Gadamer, que teria antes passado por Dilthey e Weber? Não seria o mesmo pluralismo ao qual estaria filiado Capistrano? A resposta para ambas as perguntas parece ser a mesma, e a chave para ela parece estar na abordagem dos dois historiadores ao objeto “Brasil”. Em Capítulos de História Colonial o cerne teórico é o pluralismo, em Raízes do Brasil, este vem acompanhado dos tipos ideais, caros a Max Weber (não seria este o caso do Semeador e o do Ladrilhador?). Ambos tendem a compartilhar – pelo que se pode notar nas suas interpretações acerca do “Brasil Colonial” – , portanto, a mesma tradição.



Completando a tríade, consideremos agora Caio Prado Júnior. Formação do Brasil Contemporâneo pode ser considerado a primeira grande síntese histórica de matriz materialista do “Brasil” colonial.[4] É importante que se identifique, de início, um princípio de natureza metodológica que permea o trabalho de Caio Prado Júnior e que pode ser notado no início de sua elaboração acerca da sociedade colonial: a abordagem teleológica. Caio Prado enxerga uma rígida continuidade entre o passado colonial e o presente do Brasil, e isto pode ser notado até mesmo no título de seu trabalho: Formação do Brasil Contemporâneo, título de um trabalho sobre o período colonial. O elemento norteador do trabalho de Caio Prado é o sentido da colonização, que define a formação social da colônia desde os primórdios do século XVI e que não fizera mais do que juntar um “aglomerado heterogêneo” disperso no tempo e no espaço com o objetivo exclusivo de fornecer riquezas à metrópole, não havendo uma lógica interna para a conformação de uma sociedade.


               Destarte, é importante considerar a relevância atribuída por Caio Prado à estrutura produtiva tida por ele como absoluta durante todo o período colonial e molde da sociedade luso-americana, a grande propriedade produtora de açúcar para o mercado consumidor europeu, havendo apenas dois intervalos que não ameaçaram suplantar a predominância desta: o extrativismo do pau-brasil no início do século XVI e a mineração no século XVIII. Segundo Caio Prado, este tipo de produção perpassou todo os três séculos de colonização lusitana na América, sem diferenciação (a não ser as supracitadas), o que é por si só problemático na medida em que se passa a conceber a colônia como uma unidade no tempo e no espaço, sendo isto decorrente do fator teleológico presente na interpretação caiopradiana.


A partir daí, o autor passa a considerar uma polarização fundamental e absoluta na sociedade colonial: senhores e escravos. Os setores intermediários são praticamente ignorados, ficando identificados com a débil produção de subsistência ou entregues, nos espaços urbanos, à sua própria sorte – sem nenhum tipo de organização ou solidariedade social.


Porém, para Caio Prado, mesmo na atividade em que era especializada a colônia não conseguia tirar o maior proveito possível. E para explicar a baixa produtividade nas grandes propriedades, Caio Prado recorre a um juízo de valor de natureza, ao que me parece, preconceituosa: a inferioridade moral dos escravos, “semibárbaros”. Mas os juízos de valor não ficam por aqui. Os colonizadores seriam uma “chusma de burocratas incapazes e pouco escrupulosos”, enquanto os indígenas seriam “indolentes”.


Deve-se porém reconhecer o valor do trabalho e do esforço de interpretação de Caio Prado Júnior acerca da sociedade colonial, na medida em que ele foi o primeiro – no que diz respeito à história econômica – a romper com a interpretação dos tradicionais ciclos econômicos e, sem sombra de dúvida, produziu um modelo de interpretação claro que proporcionou a possibilidade de compreensão, debate e até mesmo de sua própria contestação. Pode-se também ressaltar a importância de Caio Prado quanto à identificação geográfica das diferentes produções coloniais, fazendo este também uma interessante análise das rotas comerciais e das dietas regionais.


Pode-se afirmar, entretanto, que a análise caiopradiana acerca da economia colonial encontra dificuldades quando confrontada com a “realidade” apresentada pelas fontes seriais, levando-se também em consideração o contexto histórico em que Caio Prado realiza o seu estudo, contexto este que favoreceu uma certa teleologia atinente ao desenvolvimento econômico brasileiro, esbarrando também no número relativamente pequeno – quando comparado com os anos 70 e 80 – de pesquisas com fontes seriais.


             Formação do Brasil Contemporâneo criou, porém, uma tradição historiográfica no Brasil, identificada sobretudo com o marxismo, buscando dar uma explicação estrutural e holística da sociedade colonial. Um dos trabalhos mais profícuos filiados à concepção caiopradiana de sentido da colonização é Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777 – 1808), de Fernando Antônio Novais, publicado em 1979, trabalho que impressiona pelo volume de informações e pelo conceito de Antigo Sistema Colonial, com acumulação exógena de capital, sistema este que teria o seu fim, segundo a formulação de Novais, com a ascensão das nações industrializadas.[5]


Na década seguinte, os trabalhos acadêmicos baseados em pesquisa serial abalariam gravemente as teorias defendidas neste último trabalho, sobretudo aquela que defende a exclusividade da acumulação exógena.[6]


Portanto, a tradição historiográfica iniciada por Caio Prado Júnior só começaria a ser seriamente revista nos anos 80, na medida em que convergiram vários fatores para uma mudança no ambiente acadêmico brasileiro. A bem da verdade, visões diferentes da de Caio Prado Júnior já haviam se manifestado nos anos 60 e 70, mas não tiveram grande impacto no meio acadêmico brasileiro, permanecendo em uma espécie de “limbo historiográfico”.



         Exemplos destas diferenças interpretativas são Charles R. Boxer e A. J. R. Russel-Wood, que realizam profícuos trabalhos respectivamente nos anos 60 e 70. Boxer tem grande importância na medida em que situa o Brasil no sistema mais amplo do Império Colonial Português, o que é válido na medida em que não comete o risco de se perder em meio a um nacionalismo que hipertrofie a importância da América portuguesa dentro do sistema global.[7]


Já Russel-Wood,  trabalhando especificamente com a Câmara Municipal de Vila Rica no século XVIII, consegue vislumbrar o poder local na América portuguesa como um escape ao poder central metropolitano, o que faz também inserindo o caso americano no contexto global do Império Português, chegando à conclusão – através do que chamou de “teoria da análise das estruturas convergentes” – de que a alegada “confusão de jurisdições” nas câmaras municipais no Império Português era o mecanismo através do qual os poderes locais e o poder central se adaptavam às situações políticas, sociais e materiais locais.[8]


A partir dos anos 1980, acontece uma grande viragem na historiografia brasileira. Notamos neste período que há um grande impacto no ambiente historiográfico brasileiro daquilo que Roger Chartier chamou de “A Nova História Cultural”[9], que retoma aspectos que na verdade estavam presentes nos trabalhos de Bloch e Febvre, como a preocupação com as aparelhagens mentais, tendo no Brasil correspondência nos trabalhos de Gilberto Freyre, e mesmo para estes não sendo novidade, uma vez que já faziam parte das preocupações, na Europa, de Jules Michelet e Leopold Von Ranke, e no Brasil, estes aspectos dão o tom das diferenças entre os “cinco grupos etnográficos” de Mestre Capistrano, embora estes sejam deveras estereotipados.


Roger Chartier


Enfim, esta “nova” história cultural teria uma de suas primeiras representantes no Brasil em Laura de Mello e Souza, professora da Universidade de São Paulo, em O Diabo e a Terra de Santa Cruz, livro no qual a autora – já incorporando a microhistória de Carlo Ginzburg – perscruta fontes inquisitoriais, tratados teológicos, fontes literárias e muitas outras, analisando assim a demonização da América Portuguesa.[10]


Outro autor de fundamental importância nesta viragem historiográfica dos anos 80 é Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense, que insere a América portuguesa no mundo cristão ocidental moderno, no contexto das reformas religiosas, que estariam agora a tentar moldar – através do braço pedagógico da Companhia de Jesus e do braço punitivo do Santo Ofício – as consiências da Europa e do além-mar. Para Vainfas, no seu belíssimo Tropico dos Pecados[11], resultado de sua tese de doutorado de 1988, a sociedade colonial seria conformada através da tentativa dos setores intelectuais dirigentes de “legitimação de saberes unicamente derivados da cultura escrita”. A sociedade colonial é moldada na tentativa de disciplinamento dos corpos e das mentes.


Ronaldo Vainfas


Outra preocupação que surge no bojo da “nova” história cultural é, sem embargo, a vida privada, que surge com a preocupação de se estudar a separação entre as esferas pública e privada de poder, separação esta relacionada como surgimento do Estado Moderno e com a desintegração das solidariedades coletivas, entre os séculos XV e XVIII, tendo na Europa um de seus principais incentivadores Philippe Ariès[12] – estímulo externo ao campo historiográfico acadêmico-profissional.


             No Brasil esta temática só seria investigada na década de 90 – para ser sincero a publicação do primeiro volume da História da Vida Privada data de 1997 – onde historiadores do porte de Fernando Novais, Laura de Mello e Souza e Ronaldo Vainfas debruçam-se sobre o fôro íntimo da sociedade colonial.[13] Aparecem aí trabalhos como o de Luiz Mott, antropólogo de formação que consegue vislumbrar aspectos da religiosidade popular colonial como a importância dos ex-votos e dos talismãs, assim como de simpatias domésticas e do calundu.

Laura de Mello
e Souza


Os trabalhos de István Jancsó e Luiz Carlos Villalta, também na História da Vida Privada organizada por Laura de Mello e Souza, tratam do ambiente intelectual na América portuguesa sobretudo na segunda metade do século XVIII, onde estes identificam uma atividade intelectual direcionadas mormente à formulação de uma base teórica para a contestação do sistema colonial – visão que vem sendo revista recentemente, entre outros, por Luiz Carlos Villalta, na medida em que este identifica elementos tradicionais nos discursos produzidos pelos intelectuais “brasileiros” daquele período, que indicariam mais em uma direção de reforma do que revolução, direções que ainda representam diferenças historiográficas na academia brasileira.[14]


Enfim, a multiplicidade no que diz respeito à sociedade colonial e seu estudo pode ser verdadeiramente proveitosa, na medida em que esta seja canalizada nas duas direções expostas àcima: o reforço de um campo científico historiográfico, na medida em que é favorecido o debate, e a ampliação do espectro de objetos e fontes, que pode fornecer uma visão “multicolorida” da sociedade colonial, na mesma medida em que é superado o “monocromatismo” do dogmatismo acadêmico pseudovanguardista.


 

Indicações Bibliográficas

ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial (1500 - 1800). 7a. edição. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Publifolha, 2000.

ALEXANDRE, Valentim. Os sentidos do Império: questão nacional e questão colonial na crise do Antigo Regime portugês. Porto, Afrontamento, 1993.

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2a. edição. Lisboa, Morais Editores, 1980.

BOXER, Charles R. O império colonial português (1415-1825). Lisboa, Edições 70, 1981.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa, Difel, 1988.

CHARTIER, Roger. Da Renascença ao Século das Luzes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991. (História da Vida Privada, vol. 3, dir. Georges Duby e Philippe Ariès)


FRAGOSO, João Luís Ribeiro. Homens de Grossa Aventura: Acumulação e Hierarquia na Praça Mercantil do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1992.


FREYRE, Gilberto. Casa-grande e Senzala. 16a edição. Rio de Janeiro, José Olympio, 1973.


HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26a edição. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.


NEVES, Guilherme Pereira das. “A suposta conspiração de 1801 em Pernambuco: idéias ilustradas ou conflitos tradicionais?” in Revista Portuguesa de História. T. XXXIII, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1999, p. 440-481.


NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1809). São Paulo, Hucitec, 1979.


PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. 15a edição. São Paulo, Brasiliense, 1980.


RUSSEL-WOOD. A. J. R. “O Poder Local na América Portuguesa”, in Revista de História, v. 55, no. 109, São Paulo, 1977, pp. 25-79.


SOUZA, Laura de Mello e (org.). Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa. São Paulo, Companhia das Letras, 1997. (História da Vida Privada no Brasil, Vol. I, dir. Fernando A. Novais.)


SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo, Companhia das Letras, 1986.


SCHWARTZ, Stuart B. Segredos Internos: engenhos e escravos na sociedade colonial: 1550 – 1835. São Paulo, Companhia das Letras, 1988.


VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997.




* Apoio: Faperj - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro.

[1] Capistrano de Abreu. Capítulos de História Colonial (1500 - 1800). 7a. edição. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Publifolha, 2000.

[2] Gilberto Freyre. Casa-grande e Senzala. 16a edição. Rio de Janeiro, José Olympio, 1973.

[3] Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. 26a edição. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

[4] Caio Prado Júnior. Formação do Brasil Contemporâneo. 15a edição. São Paulo, Brasiliense, 1980.

[5] Fernando A. Novais. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1809). São Paulo, Hucitec, 1979.

[6] Ver. João Luís Ribeiro Fragoso. Homens de Grossa Aventura: Acumulação e Hierarquia na Praça Mercantil do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1992; Valentim Alexandre. Os sentidos do Império: questão nacional e questão colonial na crise do Antigo Regime portugês. Porto, Afrontamento, 1993. O trabalho de Alexandre ataca frontalmente o conceito de “crise do antigo sistema colonial” de Novais, afirmando que não houve crise nos anos que antecederam a independência do Brasil. Alexandre demonstra, com farta documentação serial, como a economia colonial não entrou em crise no final do século XVIII.

[7] Charles R. Boxer. O império colonial português (1415-1825). Lisboa, Edições 70, 1981.

[8] A. J. R. Russel-Wood. “O Poder Local na América Portuguesa”, in Revista de História, v. 55, no. 109, São Paulo, 1977, pp. 25-79.

[9] Roger Chartier. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa, Difel, 1988.

[10] Laura de Mello e Souza. O diabo e a Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo, Companhia das Letras, 1986.

[11] Ronaldo Vainfas. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997.

[12] Philippe Ariès. História social da criança e da família. 2a. edição. Lisboa, Morais Editores, 1980. A coleção Histoire de la vie privée, editada na França nos anos 80, tem a direção de Georges Duby e Philippe Ariès, tendo este último um texto-manifesto publicado postumamente no volume III da mesma coleção, sob o título de “Por uma história da vida privada”. A coleção foi traduzida no Brasil pela Companhia das Letras, e o terceiro volume é de 1991.

[13] Laura de Mello e Souza (org.). Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa. São Paulo, Companhia das Letras, 1997. (História da Vida Privada, Vol. I, dir. Fernando A. Novais.)

[14] Outro exemplo desta consideração historiográfica das tradições presentes nos discursos políticos é o trabalho de Guilherme Pereira das Neves. “A suposta conspiração de 1801 em Pernambuco: idéias ilustradas ou conflitos tradicionais?” in Revista Portuguesa de História. T. XXXIII, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1999, p. 440-481.





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