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Remodelação da cidade e organizalção do trabalho livre:
representações da ordem nas relações entre
educação e engenharia nos anos 1920

André Luiz Paulilo
paulilo@hotmail.com
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No editorial da Revista Brasileira de Engenharia de novembro de 1930, ao comentar a posição da revista frente ao movimento revolucionário os engenheiros encarregados da publicação expressavam uma visão bastante particular de história:


Fosse a história escrita por autores mais versados em assuntos técnico e provavelmente não seria objeto de sábias e prolixas dissertações e divergências entre as condições políticas e econômicas de Atenas e de Esparta. Ou, baixando a época mais recente, o grande Watt, - transferindo para a Inglaterra, com a invenção da maquina a vapor, a hegemonia industrial que até então cabia à França, e instaurando o período histórico em que as grandes potências mundiais passaram a ser carvão, trigo, petróleo, borracha e algodão, - estaria provavelmente incluído no pantheon dos revolucionários de 1789, por ter com sua invenção, concorrido para esse movimento com cota maior do que todos os enciclopedistas com seus escritos[1]


O enquadramento da escrita da história num modelo de reflexão regido pela classificação ou gerenciamento de fatos responsáveis pelo progressivo domínio da técnica notabilizou um pensamento fundado na articulação entre o tempo e a ciência. A questão da formação ilustrou muito bem essa proposição quando indicou a falta de instrumentos do historiador para avaliar as circunstâncias engendradas pela ciência no tempo. O alvo do texto, precisado nas imagens bacharelescas das “sábias e prolixas dissertações e divergências” bem como dos “enciclopedistas com seus escritos”, determinava uma contradição insuperável entre as incessantes controvérsias da escrita e o mundo objetivo do cálculo. Entre uma imagem e outra a proeminência da ciência no sucesso humano de compreender o mundo configurou-se não só no equipamento por excelência do progresso como também num enunciado capaz de calar os contrários e suspender as controvérsias frente aos avanços materiais da sociedade.


Apreendida na história como realização do progresso, a engenharia auferia na sociedade do início do século XX juízos de legalidade no andamento das obras civis de remodelamento da cidade e do sistema produtivo. Determinava a pertinência do projeto de revisão do regulamento de construções apresentado à Câmara por Gastão Bahiano ou as restrições ao plano de remodelação elaborado por Alfred Agache, ambos de 1928, bem como avaliava modelos de organização da produção industrial em diferentes matizes. Exemplos claros dessa prática podem ser verificados tanto nos artigos publicados nas revistas técnicas[2] de engenharia quanto nas funções desempenhadas pelos engenheiros nos órgãos públicos, geralmente ligadas à fiscalização de obras[3]. Em ambos os lugares de fala (aos pares, e ao público) os engenheiros cuidaram de construir um discurso caracterizado pela pesquisa teórica derivada da análise de um problema essencialmente técnico como por exemplo a determinação do efeito útil de uma máquina ou o aviamento do escoamento das águas pluviais a partir do  problema das inundações no Rio de Janeiro. Estratégia implicada com um modelo de compreensão forjado no diálogo do raciocínio indutivo, a alteridade entre a manutenção mecânica e o funcionamento normal das máquinas serviria para elidir um discurso no qual a previsão e o planejamento desempenhariam um importante papel nas relações entre os engenheiros e a sociedade.




A Av. Central do Rio de Janeiro em obras...


... e pronta, após a reurbanização

              E de fato, as comissões sanitárias, os cargos de fiscalização da prefeitura do Distrito Federal, do Estado do Rio de Janeiro e do Governo Federal colonizados por engenheiros, o Instituto Politécnico, os planos de remodelação da cidade, o Clube de engenharia e a Sociedade de engenheiros e o progresso das indústrias na paisagem urbana davam conta da eficiência alcançada “pela solução de problemas técnicos formulados com dados precisos” perante a sociedade carioca do início do século. Nesse sentido, a perfeita linearidade da Av. Central seqüestrava as atenções da belle époque tropical com o charm de seus prédios bem alinhados e o cortejo dos automóveis que a freqüentavam. Do mesmo modo as modernas práticas industriais por meio das quais a engenharia fincava firmes esteios no progresso material prendiam a imaginação da sociedade num futuro tanto previsto como provido.

             A introdução de maquinismos acionados mecanicamente pela cidade que ia se remodelando e a passagem à produção em grande escala, juntamente com o progresso nos meios de transporte e distribuição criados ao longo das primeiras décadas no Rio de Janeiro configuraram um novo espaço de representações sociais para a legitimação de novos métodos de intervenções sociais.


       

 O texto da Revista foi um dos produtos gerados por um trabalho progressivo de penetração social do engenheiro na sociedade. Nesse trabalho a própria política desempenhou um papel importante. Seria no “estabelecimento preciso da diferenciação entre a ordem política e a ordem técnica” que os profissionais da engenharia assumiriam posição de apoio àquilo que chamavam de “mecanização progressiva do Brasil”. Alçada como fator com o qual a política do novo Estado que se implantava em 1930 necessariamente teria de operar, a imagem de mecanização fazia reconhecer a incapacidade do poder público em afetar os “dados do problema técnico-nacional e assim influir sobre os seus métodos de solução na mesma proporção da necessidade que teria dos profissionais capazes de o fazer nos setores de fiscalização, arrecadação e infraestrutura do governo para promover o progresso nacional.


Recolocava-se, nesse momento, a mesma estratégia de legitimação da engenharia frente aos poderes públicos desde fins do século XIX até as portas da década de 1930. A formalização técnica de situações articuladas em outros campos de saber ou poder em função da idéia de progresso. A diferença é que se nos anos 1930 os engenheiros articularam soluções tecnicamente demonstráveis e preocupações com gastos e custos da progressiva mecanização da estrutura produtiva do país frente aos constrangimentos da regulamentação jurídica das normas políticas do Estado, na República Velha priorizaram a remodelação dos processos de modernização frente a concorrência médica no gerenciamento dos modos de ver a cidade. Ambos os momentos encontram na década de 1920 um período de coexistência em que tanto a ingerência de um plano formal de colocar a técnica e a ciência dos engenheiros a serviço dos interesses da nação quanto os conflitos em que se envolveram a engenharia e a medicina converteriam em práticas de intervenção um sistema de representações sobre modernidade, civilização e progresso profundamente integradas aos aparelhos de Estado em particular, a escola pública.


Nesse sentido, o divórcio entre a técnica e a política instituía uma nova pauta de valores meritocráticos por meio dos quais os engenheiros imputavam critérios de percepção social fundados unicamente numa nomenclatura de ordem profissional. Nesse sentido, procuravam “fazer valer os seus direitos e defender os seus interesses junto aos poderes constitutivos e o público em geral”, batendo-se pela criação de leis que colocassem “os engenheiros no mesmo pé de igualdade que as outras profissões liberais”. E argumentavam:


“(...) se não é permitido fazer a mais pequena receita sem ser médico, ou assinar uma petição em juízo sem ser advogado, natural e lógico seria que só um engenheiro pudesse assinar com responsabilidade ou ser admitido nas grandes concorrências públicas e lugares técnicos das administrações.”[4]


Foi por meio das implicações jurisdicionais envolvidas na luta pela regulamentação profissional que a luta pelo reconhecimento das competências técnicas da engenharia transferiu-se do campo político das discussões sobre a liberdade profissionais colocadas pela mudança de regime em 1889 para as práticas de fechamento do mercado de prestação de serviços possibilitada pelo credenciamento escolar, a posse do diploma de nível superior. Nesse discurso as idéias de habilitação, saber científico e capacidade determinaram os espaços nos quais o credenciamento escolar adquiria sua legitimidade como fator de seleção[5]. A estratégia da seleção via escolarização guardava em si o desejo, comum à outras áreas do saber, de organizar uma sociedade administrada por peritos cuja realização dependia, segundo seus ideólogos, tanto do ensino primário obrigatório quanto de um programa de formação profissional capaz de criar um estrato social educado para ser “um elemento de progresso técnico nas oficinas e nas indústrias nacionais”. Dessa perspectiva, a educação deixaria de receber somente engenheiros-professores para abrigar engenheiros-educadores, isto é, profissionais não só comprometidos com o ensino, mas sobretudo portadores de um conjunto de idéias à respeito da educação que não só penetrariam os quadros da administração escolar como editariam obras de divulgação de métodos e idéias pedagógicas.[6]


          Já as pretensões da engenharia no campo do sanitarismo podem ser compreendidas como importante ponto de clivagem do seu discurso uma vez que foi sob as teorias miasmáticas do mefetismo e das emanações deletérias que os engenheiros conseguiram abrir os cofres e os cargos públicos ao “embelezamento” da cidade. Enquanto esses conceitos médicos tiveram validade cientifica a engenharia conseguiu, agregando-lhe o valor do planejamento, apresentar planos de obras e conjuntos de soluções capazes de rasgar a cidade com avenidas e construções imobiliárias. Invadindo a sociedade com os maquinismos, mas também com um poderoso discurso fincado no progresso e na positivação da ciência, a engenharia conquistou legitimidade no exercício material da profissão. Pouco afeitos aos exercícios teóricos do pensamento médico ou jurídico, os engenheiros, entretanto, ocupavam-se da mesmas tarefa que o direito e a medicina prontificavam-se a cumprir: civilizar. Depois da ilustre geração politécnica que passou pela administração pública – Pereira Passos, Paulo de Frontin, Vieira Souto, Paula Freitas, Belford Roxo e Carlos Sampaio – civilizar não seria mais tão somente regulamentar e higienizar, mas sobretudo construir.


A R. Uruguaiana (RJ), durante...


... e depois da reurbanização


            O verbo “construir” passou na década de 1920 a aferir o alcance das realizações. O editorial de março de 28 da revista A Escola Primária entusiasticamente saudava a administração Fernando de Azevedo à frente da Diretoria Geral de Instrução Pública da capital nos seguintes termos:


           
Chega, porém, a hora das realizações (...)

Já não queremos falar do edifício projetado para a Escola Normal e seus anexos, mas de atos ainda mais recentes. A prefeitura acaba de abrir concorrência para a realização de nada menos de quatro importantíssimas obras: a construção de anexos destinados a escolas profissionais femininas Rivadavia Correia e Paulo de Frontin e a de dois novos grupos escolares.” [7]


           
No contexto das reformas da instrução na capital o tema dos prédios escolares sempre surgia como ponto nevrálgico do percurso administrativo do ensino. A reforma Fernando de Azevedo reuniu condições para viabilizar as obras de nove escolas ao todo, o que constituiu um eficiente argumento para a aprovação do seu projeto e depois de legitimação de sua reforma. Foram edifícios levantados segundo os critérios da higiene, mas usuários de um padrão estético sofisticado (classicizante) que evocava nos traços arquitetônicos as proezas da engenharia moderna. Estabelecia-se nesses edifícios um diálogo estreito entre os apuros da técnica – pedagógica e arquitetônica – com a distribuição ou construção dos espaços. No cerne do diálogo repetiam-se os procedimentos de remodelação da cidade ativados na administração Passos: a construção de um espaço novo a partir de um pré-existente. A arquitetura do prédio escolar cumpria a mesma função do “embelezamento” nos planos de remodelação dos engenheiros. Produziam representações - históricas no primeiro, modernas no segundo -, de harmonia, equilíbrio e ordem, isto é, de planejamento e técnica. A necessidade de um espaço especifico de aprendizagem das ciências naturais, de exercícios físicos e de aulas, planejado segundo as determinações da higiene e da eficácia presente nos edifícios construídos ou remodelados na administração Azevedo, cumpriam o mesmo programa traçado pela engenharia décadas atrás quando fazia parecer inegável a necessidade de um plano, bem estudado, e definitivamente aceito como diretriz de engrandecimento da capital[8], ao trabalho de atualização das velhas formas escolares (ou urbanas). Programa de construção de escolas, aliás, contemporâneo aos trabalhos desenvolvidos por Agache junto a Comissão Urbanística do Rio de Janeiro no planejamento de novo aformoseamento do traçado da cidade.


           
A eficiência do discurso técnico da engenharia na educação não se limitou as soluções materiais ou práticas de ordem espacial ou decorativa, penetrou também na organização dos enunciados sobre trabalho, profissão e ensino sobretudo à respeito do ensino profissional. Seria nas Escolas ou Institutos profissionais, sobretudo masculinos onde se reuniriam os esforços para a formação de uma mão de obra capaz de executar os planos e ordens de execução desenvolvidos e comandadas pelos engenheiros. Lugar privilegiado para o exercício de um engenharia subsidiada pelas garantias do poder público as empresas ferroviárias geralmente mantinham uma escola de aprendizes cujo ensino procurava “na medida de suas possibilidades, e de acordo com o grau médio da instrução popular das regiões em que funcionam, selecionar cada vez mais profundamente os seus auxiliares, e até mesmo fornecer-lhes a instrução necessária para o bom desempenho dos seus misteres[9]. A Central do Brasil oferecia trinta vagas para um curso de quatro anos na sua Escola Prática de Aprendizes Dr. Silveira Freire. Escola cujo ensino era ministrado nas oficinas de locomoção, onde, sob orientação de dedicados e competentes mestres, e num campo vasto para aquisição de conhecimentos técnicos, aprendem os alunos os diferentes ofícios, de acordo com as suas inclinações, e do modo mais prático e simples que se possa imaginar...[10].



Fernando de Azevedo
             Repare o local, o responsável e a natureza do ensino organizado na Central do Brasil aos seus cento e vinte alunos: oficinas, mestres de ofício e prático. Três referências constantes no discurso sobre o ensino profissional. Setor do ensino particularmente dominado por engenheiros no que tangia as representações de eficiência e organização e que com a regulamentação da reforma de Fernando de Azevedo viria a ser, por lei, reservada aos ofícios industriais, classe profissional especialmente sujeita as representações produzidas nas Escolas de Engenharia. Dizia o art. 278 do decreto n.º 2940 de 22 de novembro de 1928:

Os diretores de escola ou instituto profissional masculino serão professores que se hajam dedicado ao ensino profissional ou engenheiros civis, arquitetos industriais, eletrotécnicos, mecânicos, agrônomos e técnicos especialistas, conforme as atividades da escola e exercerão o cargo em comissão.”[11]


           
Tanto a direção tomada pelos engenheiros nas suas apreciações sobre o ensino técnico quanto nas medidas tomadas pela Diretoria de Instrução Pública sobre as escolas e institutos profissionais demonstram uma mudança de olhar dos poderes públicos e de setores da sociedade em relação ao ensino técnico. O ensino em oficinas escolares ou de locomoção e as reformas administrativas de seu funcionamento durante a década de 1920 indicavam o deslocamento do ensino profissional masculino que não teria mais com alvo principal os meninos desvalidos, filhos da rua e da miséria,[12] mas os (futuros) operários, na sua maioria, meros trabalhadores, sem competência, sem iniciativa e sem autonomia.[13] Mudança retórica por meio da qual pode-se notar antes a dimensão que as perspectivas oferecidas pela disciplina do trabalho e pelas técnicas de produção alcançavam nas preocupações escolares do que propriamente uma mudança do público costumeiramente presente nas oficinas dos institutos e escolas profissionais da capital. No entanto, perfilou representações nos programas de uma instituição que cada vez mais deixava de ser compreendida como


“Um asilo de menores desvalidos, mais do que isto, deixou de ser um departamento da Assistência pública, senão da Santa Casa de Misericórdia ou mesmo um patronato de menores tarados ou delinqüentes.”[14]

           

            E tentava recompor-se de modo a efetivar um programa curricular capaz de formar

 

“(...) técnicos de profissões liberais, conhecedores da razão de ser de seu ofício, inteligentemente, conscienciosamente tal como o advogado a sua profissão na defesa do seu constituinte, como o engenheiro a construção e prática de uma ponte (...)”[15]


       
O ensino atenderia as demandas produtivas e não mais assistenciais. A organização do discurso pedagógico, nesse sentido, seguiria o passo das noções de progresso e ciência presentes na codificação de “realidade” de que os engenheiros se utilizavam para se movimentarem na sociedade. O discurso que provia, a engenharia de eficiência penetrava a sociedade pela imagem de moderno, de progresso por meio das quais os engenheiros ligavam a sua prática. Fosse na utilização do concreto armado, no aparelhamento mecânico das oficinas, na remodelação da cidade ou na economia do discurso os engenheiros determinaram formas de representar o funcionamento social de sua profissão estreitamente ligadas à intervenção prática e a solução planejada. Duas imagens que se auto – regulavam no estatuto de uma engenharia entendida por seus profissionais como fator principal de progresso em todos os ramos da atividade humana e por isso mesmo responsável pela maior presteza com que se ascende no nosso meio o interesse pelas mais recentes conquistas da ciência, e o desejo de aplicá-la entre nós[16]. Trabalho verificado tanto na resolução dos problemas sanitários das cidades e no aperfeiçoamento dos processos industriais quanto nas representações de ensino e profissão. No primeiro, as remodelações urbanas e as preocupações com a infraestrutura previstas no plano Agache davam conta ainda na década de 1920 o papel que cabia a engenharia no desenvolvimento da cidade. No segundo, as preocupações com a higiene, disciplina e eficiência do trabalho organizavam as grandes corporações manufatureiras instaladas na capital segundo os requisitos das práticas modernas, leia-se, fordismo e taylorismo. E, finalmente, a eficiência que alcançou nos métodos de ensino a imagem de um aparelho escolar organizado não para despertar novos gênios mas para tão somente selecionar competências[17].


As circulação do discurso da engenharia foi garantido pelas funções que seus profissionais desempenharam nos mais diversos ramos de atividade. As obras públicas, a gerência das indústrias e mesmo o magistério acabaram por possibilitar aos engenheiros legitimar uma visão social também pautada pelas diretrizes de um pensamento em que a previsão e o planejamento implicados nas relações entre a manutenção mecânica e o funcionamento normal da máquina seriam configurados como modelo de ação característico dos dias vividos pela geração atual[18].


Entre as imagens de progresso e ciência veiculadas pelos engenheiros e as reformas escolares empreendidas no espaço reconfigurado da cidade carioca a idéia de modernidade despontava das páginas dos jornais, revistas e decretos como trajetória admirada sem reservas cuja representação vinha associada ao desenvolvimento de qualidades, à rapidez com que progredia o mundo e ao pleno domínio do aparelho escolar.



A Av. Beira Mar (RJ),
urbanizada em 1905

            Três formas de estar no mundo, pela aptidão, pela eficiência e pela escrituração, capturadas tanto pelas apresentações absolutamente calculadas dos ritmos, texturas e problemas humanos indicados nos trabalhos de remodelação do espaço urbano ou de adaptação dos processos industriais às condições e necessidades da progressiva mecanização nacional como pelas condições expressas na legitimação das reformas do aparelho escolar implicada na pauta meritocrática que procurava pôr fim a uma organização social que muitas vezes tolerava a ascendência à “presidência da República, às Câmaras e ao Supremo Tribunal, homens que em um país medianamente educado, seriam estivadores, capatazes de fazenda ou rabulas de direito[19]


A modernidade seria assim, sentida como momento de realizações, momentos no entanto, usufruídos como um vantajoso processo artificial de seleção cuidadosamente construído na interseção entre o trabalho de formalização técnica dos modelos de ação sobre o espaço social e da atenção dada a esses modelos no momento de restringir a freqüência com que se apresentavam os problemas de organização social na escola. O meio para tanto foi encontrado na separação territorial e funcional dos espaços físicos e simbólicos. Tanto na cidade quanto na escola, a construção de espaços restritos a determinadas funções, de circulação, poder, lazer, ou aula, experimentação, exercícios corporais, aumentavam a eficiência desses espaços físicos de freqüência e simbólicos de interação no controle do uso dos percursos sociais já classificados como seguros.


Nesse sentido, a engenharia e a educação se complementavam no cotidiano moderno, ou porque instrumentalizaram os nichos da burocracia central do Estado com procedimentos de intervenção afinados com o zelo remodelador e planificador dos aparelhos de poder, ou porque descreviam uma a outra os limites da assimilação do indivíduo e da cidade às ordens de exclusão e expulsão construídas durante as reformas do ensino e as remodelações do espaço urbano e das relações de trabalho.

 


Referências Bibliográficas


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[1] “Engenharia e política.” Revista Brasileira de Engenharia. Ano XI, tomo XX, n.º 5, Rio de Janeiro, nov. 1930, p. 187.

[2] Em especial a Revista do Clube de Engenharia que publicou as atas da reunião de 1 de agosto de 1928 em que avaliaram as implicações técnicas do Projeto de Revisão do Regulamento de Construções e o parecer do engenheiro Costa Moreira sobre o plano Agache emitido no n.º 32 da revista que saiu em 1930 e, a Revista Brasileira de Engenharia na qual diversos artigos sobre as remodelações da cidade e os diferentes modos de  implementar a produtividade nas linhas de produção da indústria foram publicados entre 1921 e 1930.

[3]Nesse aspecto é conveniente reconhecer com Edmundo Campos Coelho, que engenheiros como Pereira Passos, Paulo de Frontin e Vieira Souto foram casos particulares de uma profissão geralmente absorvida nos quadros de fiscalização, arrecadação e infraestrutura do governo. COELHO, Edmundo Campos. Profissões imperiais: medicina, engenharia e advocacia no Rio de Janeiro (1822-1930). Rio de Janeiro: Record, 1999. P. 219

[4] “Sociedade Brasileira de Engenheiros.” Revista Brasileira de Engenharia. Ano VII, tomo XI, n. º 1, Rio de Janeiro, jan., 1926, p. 01.

[5] “A regulamentação da profissão de engenheiro”. Revista Brasileira de Engenharia. Ano II, tomo II, n. º 5, Rio de Janeiro, nov., 1921, p. 214.

[6] Sobretudo, Vicente Licinio Cardoso, Everardo Backheuser e Heitor Lyra da Silva

[7] “Ainda os prédios escolares.” A Escola Primária. Ano XII, n.º 1, Rio de Janeiro, mar. 1928, p. 01.

[8] “A remodelação da Capital Federal.” Revista Brasileira de Engenharia. Ano IX, tomo XVIII, n.º 2, Rio de Janeiro, ago. 1929, p. 57

[9] “O preparo técnico na Central do Brasil.” Revista Brasileira de Engenharia. Ano VII, Tomo XIV, n.º 03, Rio de Janeiro, set. 1927, p. 105

[10] idem., p. 106

[11] Decreto n.º 2940 de 22 de novembro de 1928. Boletim da Prefeitura do Districto federal (Rio de Janeiro). Publicado pela Secretaria do Gabinete do Prefeito, 1928, ano LXVI, Rio de Janeiro: Oficinas Gráficas do Jornal do Brasil, jul-dez. de 1929.

[12] AZEVEDO, Fernando de. A instrucção publica no Districto Federal. Rio de Janeiro: Mendonça, Machado & C., 1927.  p. 23

[13] CARNEIRO LEÃO, Antonio. “O ensino municipal no Districto Federal”. A Educação. Ano IV, vol. IX, n.º 3, Rio de Janeiro, mar. 1925,  p.194.

[14] BRAGA, Theodoro. “Considerações (sobre o ensino profissional)”. A Educação. Ano IV, vol. X, n.º 7 e 8, Rio de Janeiro, jul.-ago. 1925, p. 795.

[15] Idem.

[16] “Regulamentação do exercicio profissional do engenheiro.” Revista Brasileira de Engenharia. Ano V, Tomo X, n.º 03, Rio de Janeiro, set. 1925, p. 97.

[17] KULNIG, F. “A proposito de um livro publicado pelo Instituto de Engenharia de São Paulo”. Revista Brasileira de Engenharia. Ano VII, Tomo XIII, n.º 04, Rio de Janeiro, abr. 1927, p. 154.

[18] “A remodelação da Capital Federal.” op. cit., p. 57.

[19] CHATEAUBRIAND, Assis. “A instrucção popular”. O Jornal, Rio de Janeiro, 17 fev. 1928




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