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Ilha Grande, ilha-cárcere

Gabriel Passetti
passetti@klepsidra.net
Mestrando - História Social/USP
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Introdução

 

Este texto começou a ser pensado há um ano e meio, quando realizei uma viagem à Ilha Grande. Naquela oportunidade, visitei os escombros do antigo presídio de Dois Rios, que me deixaram impressionado. Algum tempo depois, retornei ao mesmo local e conheci mais profundamente todo o semi-implodido complexo penitenciário, indo também à única galeria que resta do antigo presídio do Lazareto (próximo ao Abraão).

 

            Foi neste momento que decidi escrever um texto sobre este impressionante local. A antiga colônia penal, a vila abandonada, a estrada penosa. Quem tem a oportunidade, deve conhecer estes locais. Vê-los ao vivo será sempre mais enriquecedor do que qualquer descrição.

 

            Procurei material sobre os presídios e sobre a Ilha nas mais diversas bibliotecas de São Paulo e na internet. E qual não foi meu choque ao descobrir que não há publicação (ao menos em São Paulo) a respeito do presídio?

 

            Por isso, parte deste estudo está baseado nas poucas e contraditórias informações que recolhi na internet. Para a compreensão de como se deram as relações naquele local, procurei por relatos de ex-detentos. Quatro foram localizados: o clássico Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, Ilha Grande (do jornal de um preso de guerra), de Orígenes Lessa (preso durante a Revolução Constitucionalista de 1932), Exílio na Ilha Grande, de André Torrer (um preso comum, “promovido” a preso político), e poucas páginas de Vida de um revolucionário: memórias, de Agildo Barata.

 

            Este texto é, portanto, fundamentado no relato daqueles que estiveram presos nos dois presídios da Ilha Grande. Não é estranho que todos os relatos foram escritos por presos políticos durante os períodos de ditadura no Brasil: a Ilha Grande tornou-se a masmorra dos ditadores brasileiros.

 

 

Vigiar e Punir

 

            É impossível tentar compreender o que se passou na Ilha Grande, como que ela foi transformada em masmorra ditatorial, sem dialogarmos com o clássico livro Vigiar e Punir: história da violência nas prisões, de Michel Foucault.

 

            Em sua obra, Foucault traça a história do castigo e das prisões a partir de quatro divisões: Suplício, Punição, Disciplina, e Prisão.

 

Se pensarmos na prisão como a conhecemos hoje, ela é a principal forma de punição empregada pelo Judiciário, e isto se dá porque com ela há a privação do principal ideal burguês: a liberdade. Com o isolamento, os trabalhos forçados, e a regeneração, busca-se transformar o indivíduo. “Em suma, o encarceramento penal, desde o início do século XIX, recobriu ao mesmo tempo a privação de liberdade e a transformação técnica dos indivíduos”[1] . No caso das prisões políticas, a meta era mais a privação da liberdade do que a transformação propriamente dita. E é por isso que o caso da Ilha Grande é analisado neste texto como o de uma masmorra ditatorial – apesar de lá também terem sido presos aqueles considerados como “presos comuns”.

 

Tanto estes “presos comuns” quanto os “presos políticos” encontravam-se na Ilha Grande não exatamente devido diretamente aos danos que provocaram: um roubo, mesmo um assassinato, ou uma manifestação, são muito pequenos dentro da escala de toda a sociedade. Porém, o enclausuramento era visto como necessário porque estes maus exemplos deveriam ser coibidos. Tanto a proliferação dos “crimes comuns”, quanto a liberdade aos “agitadores políticos” poderiam vir a incitar os outros a seguirem este exemplo. Assim, a punição não atinge o crime em si, mas suas conseqüências para a sociedade.

 

A punição, portanto, está vinculada aos possíveis danos à ordem social que o crime acarreta, e não aos danos materiais propriamente ocorridos. Desta forma, a punição e o sistema carcerário entraram de tal maneira no imaginário social que passou a ser considerado legítimo aquele que pune, deixando de ser escandaloso o castigo, fazendo com que ambos caminhem juntos e se fundam nos presídios, onde a punição “legal” vem acompanhada dos castigos “extralegais”.

 

No relato de Graciliano Ramos, encontramos um exemplo claro desta internalização da punição e do castigo. Comentando sobre um castigo conhecido como “as vigas”, diz: “Era um castigo medonho, pior que a cela, e apenas se infligia a homens robustos e perigosos. Estavam separados de nós. Às vezes, pela manhã, durante o curto banho de sol, víamos essas criaturas em fila, conduzindo troncos pesados. Vagarosos, passavam a pequena distância, a vacilar, trôpegos, vergando ao peso da carga. As pontas dos madeiros apoiavam-se nas cabeças, nos ombros, e os infelizes arrastavam-se, dois a dois, jungidos pela horrível canga. Se um fraquejava, tombava, o companheiro via-se coagido a serviço duplo, no cocuruto uma rodilha, a trave em cima, equilibrando-se mal, as extremidades a subir, a descer. Aquilo formava uma gangorra sinistra, o espigão em marcha ronceira, titubeante. Avanços, recuos, tombos, quase impossível a geringonça manter-se em posição horizontal. Se se desconchavava, o sujeito era obrigado a arrasta-la. Polícias, com sabres desembainhados e açoites, não concediam trégua no duro esforço” [2].

 

A prisão, como conhecida hoje em dia, já mudou bastante desde a época de Graciliano Ramos ou mesmo desde a ditadura militar. Esta instituição punitiva, originada na Idade Moderna como Masmorra Real, sofreu inúmeras transformações, planos de reformas e mudanças que mantinham sua base: a punição. Para Foucault, “O mais antigo desses modelos, o que passa por ter, de perto ou de longe, inspirado todos os outros, é o Rasphuis de Amsterdam, aberto em 1596. Destinava-se em princípio a mendigos ou a jovens malfeitores. Seu funcionamento obedecia a três grandes princípios: a duração das penas podia, pelo menos dentro de certos limites, ser determinada pela própria administração, de acordo com o comportamento do prisioneiro. O trabalho era obrigatório, feito em comum; e pelo trabalho feito os prisioneiros recebiam um salário. Enfim um horário estrito, um sistema de proibições e de obrigações, uma vigilância contínua, exortações, leituras espirituais, todo um jogo para ‘atrair o bem’ e ‘desviar do mal’, enquadrava os detentos no dia-a-dia” [3].

 

A este grande modelo, juntou-se aquele que ficou conhecido como o “panóptico de Bentham”: trata-se do princípio da vigilância. O edifício da instituição – este modelo poderia ser aplicado tanto em prisões quanto em hospitais, escolas, quartéis... – deveria ter uma forma circular e em seu centro seria instalada uma torre de vigilância. A partir dela, o carcereiro poderia observar todas as celas – estas, seriam vazadas em ambas as extremidades para permitir a passagem da luz – sem que os observados o vissem.



             A torre teria um sistema de proteção nas suas janelas, de forma que os presos não poderiam jamais saber se estavam ou não sendo vigiados. Ou seja, o que importava não era necessariamente estar sendo vigiado, mas sim saber que era possível estar sendo: “Por isso Bentham colocou o princípio de que o poder deveria ser visível e inverificável. Visível: sem cessar o detento terá diante dos olhos a alta silhueta da torre central de onde é espionado. Inverificável: o detento nunca deve saber se está sendo observado; mas deve ter certeza de que sempre pode sê-lo” [4].

Interior da penitenciária de Stateville (EUA),
séc. XX, in FOUCAULT, M. "Vigiar e Punir"

 

Se somente atualmente, com as instalações tecnológicas de vigilância, as prisões estão se aproximando do modelo de total vigilância do preso, a violência ao corpo deste sempre esteve presente, caminhando junto da punição e do castigo.

 

As prisões, com sua privação da liberdade, acompanhadas dos trabalhos forçados, tiveram e tem sempre a complementariedade de punir o corpo do condenado com diminuição na ração alimentar, privação sexual, torturas e castigos físicos.

 

Recorrendo mais uma vez a Graciliano Ramos, podemos acompanhar como esta relação se dava no dia-a-dia: “Os homens do trabalho foram chegando, sujos de pó vermelho, suarentos. Cerca de meio-dia saímos do galpão, outra vez nos dirigimos ao refeitório. Vi-me sentado entre as figuras vagamente percebidas pela manhã (...). Colheres e pratos de folhas tiniram, chocando-se na distribuição, e logo veio a comida: feijão negro, farinha, um pedaço de carne. Uma insignificância, ninguém podia alimentar-se com tão pouco. Mas o que me assombrava era o aspecto da bóia. Horrorizei-me, pensando em vômito, em lata de lixo. Afirmando a mim mesmo ser impossível um estômago suportar aquilo, observava o contrário, numerosas pessoas devorando sôfregas, insensíveis à porcaria e ao cheiro teimoso de podridão. O olfato, o paladar e a vista acomodavam-se às circunstâncias. E havia um clamor surdo. Evidentemente não se abalançariam a pedir qualquer coisa. Mas achavam-se esfomeados, novecentos indivíduos esfomeados a procurar migalhas nos pratos vazios. Gestos aflitos, desespero nos rostos, um sussurro a aumentar, queixa longa. Não os inquietava a qualidade: atormentava-os a insuficiência da refeição torpe. Em redor de mim tudo se consumira, e obstinava-me a chupar o cigarro, olhando a infame ração. Na farinha escura havia excremento de rato” [5].

 

Para Foucault, “o corpo também está diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o suplicam sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais”. Ou seja, é impossível desvincular os castigos corporais do sistema punição-castigo: este exige uma mudança no corpo, que este se torne dócil.

 

A disciplinarização da sociedade e conseqüentemente das prisões está intimamente relacionada à punição. Regular os corpos, torná-los dóceis, é a meta que todos os sistemas disciplinares procuram, desde a escola até o trabalho. Aqueles que fogem a esta regra são punidos e devem ser disciplinarizados à força nas prisões, aumentando assim sua utilidade econômica e ao mesmo tempo, diminuindo sua força política contestatória. Algumas formas de obtenção destes resultados são encontradas na Ilha Grande e nas demais prisões: a vigilância hierárquica, o registro contínuo e as classificações.

 

A prisão é um aparelho disciplinar em sua mais ampla concepção: “deve tomar a seu cargo todos os aspectos do indivíduo, seu treinamento físico, sua aptidão para o trabalho, seu comportamento cotidiano, sua atitude moral, suas disposições; a prisão, muito mais que a escola, a oficina ou o exército, que implicam sempre em uma certa especialização, é ‘onidisciplinar’. Além disso a prisão é sem exterior nem lacuna; não se interrompe, a não ser depois de terminada totalmente sua tarefa; sua ação sobre o indivíduo deve ser ininterrupta: disciplina incessante. Enfim, ela dá um poder quase total sobre os detentos; tem seus mecanismos internos de repressão e de castigo: disciplina despótica” [6].

 

Na Ilha Grande, foram instaladas duas prisões: a “antiga”, também conhecida como “Lazareto” ou “do Abraão” era uma penitenciária comum, onde os presos permaneciam em suas celas durante todo o tempo. Já a de Dois Rios, a “nova”, era uma colônia penal. Ou seja, a princípio ela era destinada a modificar os presos a partir do trabalho.

 

Esta metodologia de transformação do indivíduo é recorrente nas mais diversas épocas e locais. Procura-se “reconstituir” no preso, dito como preguiçoso, o gosto pelo trabalho: ensiná-lo um ofício “útil”. Dentro deste processo, procura-se inserir no carcerário os hábitos a que ele teoricamente sempre foi contrário (porque, senão, não estaria nesta condição), ou seja, os hábitos para o trabalho, regras e ordens sociais, e o respeito à autoridade. Quando tudo isto é tido como assimilado pelo preso, ou seja, passa a funcionar automaticamente, ele é tido como “recuperado”.

 

O trabalho nas colônias penais é, portanto, destinado não à obtenção do lucro, mas sim a inserir o indivíduo nas relações de poder da sociedade burguesa, ajustando-o à submissão e ao aparelho de produção: “Não é como atividade de produção que ele é intrinsecamente útil, mas pelos efeitos que toma na mecânica humana. É um princípio de ordem e de regularidade; pelas exigências que lhe são próprias, veicula, de maneira insensível, as formas de um poder rigoroso; sujeita os corpos a movimentos regulares, exclui a agitação e a distração, impõem uma hierarquia e uma vigilância que serão ainda mais bem aceitas, e penetrarão ainda mais profundamente no comportamento dos condenados, por fazerem parte de sua lógica: com o trabalho, ‘a regra é introduzida numa prisão, ela reina sem esforço, sem emprego de nenhum meio repressivo e violento’ ” [7].

 



Mapa da Ilha Grande. A Nordeste, a área do Abraão. Ao Sul, a área entre Parnaióca e Santo Antonio (2 Rios)

 

A instalação do Lazareto e a transformação da Ilha em lugar maldito

 


“Estamos absolutamente separados da vida. A Ilha Grande é muito grande,
como dizia um gaiato no tempo do império, fazendo um soneto “à la manière”
do Imperador. A Ilha não tem fim. As embarcações pequenas ou grandes
estão todas sob o controle imediato e rigoroso do tenente Canepa.
Jornais não entram aqui, sob hipótese alguma”

Orígenes Lessa[8]

 

 

            A origem do presídio do Lazareto está no Século XIX. No final do Império, já na década de 1880, com o rápido crescimento da imigração, o governo percebeu que era necessária a criação de um novo lazareto, ou seja, de um local para o isolamento de doentes portadores de doenças infecto-contagiosas. No caso, fundamentalmente a cólera.

 

            Técnicos do Império percorreram todo o litoral fluminense e paulista, e após inúmeros estudos, acabaram selecionando a Ilha Grande, um local àquela época praticamente deserto, mas próximo de Angra dos Reis e em uma distância não muito grande nem do Rio de Janeiro, nem de São Paulo, os principais destinos dos imigrantes. O local, portanto, fora escolhido devido à sua localização, mas também pela possibilidade de isolamento dos doentes.

 

            Em 1884, o Império comprou, então, duas fazendas: a primeira, no lado voltado para o Continente, ia da Praia Preta até o Abraão. A outra, voltada para o Oceano Atlântico, chamada de Dois Rios, ia da Praia de Santo Antônio até Parnaioca.

 


O antigo complexo do Lazareto
            Naquele mesmo ano, começaram as obras de construção do lazareto. Em dois anos, os edifícios eram entregues. Sua divisão interna assemelhava-se à dos navios de imigrantes: havia um pavilhão de primeira classe, um de segunda e outro de terceira. Os dois primeiros estavam situados a 500m da praia, enquanto que o último fora construído à beira-mar. No complexo, além dos dormitórios, também havia restaurantes, laboratório bacteriológico, enfermaria, farmácia e jardins.


           
Naquele mesmo ano, começaram as obras de construção do lazareto. Em dois anos, os edifícios eram entregues. Sua divisão interna assemelhava-se à dos navios de imigrantes: havia um pavilhão de primeira classe, um de segunda e outro de terceira. Os dois primeiros estavam situados a 500m da praia, enquanto que o último fora construído à beira-mar. No complexo, além dos dormitórios, também havia restaurantes, laboratório bacteriológico, enfermaria, farmácia e jardins.

 

            O surgimento do lazareto e sua constante lotação exigiram algumas obras complementarem pouco após sua inauguração: já em 1889 foi necessária a construção de um aqueduto para trazer água das montanhas até o complexo. Dois anos depois, em decorrência do crescimento trazido pelo lazareto, a vila do Abraão foi elevada a distrito de Angra dos Reis.

 

            O governo republicano logo passou a ter outros planos para o complexo da Ilha Grande. A primeira proposta a surgir foi a de transformar todo aquele local em um enorme orfanato, destinado aos filhos de imigrantes, dos ex-escravos e da população pobre do Rio de Janeiro.

 

A idéia não vingou, mas rapidamente aquelas construções deixariam de ser apenas destinadas aos doentes. Em 1893, o lazareto recebe seus primeiros presos: são os rebelados da Revolta da Armada. Gradativamente, o local passou a receber presos junto dos doentes, até em que 1913 acabou sendo fechado.


            Com a explosão da Revolução Constitucionalista em São Paulo, em 1932, Getúlio Vargas reabre o lazareto, mas desta vez apenas como prisão. Para o local, são enviados os presos de guerra, entre eles o escritor Orígenes Lessa.

            Este, narra a rotina de preso naquela prisão adaptada, com mar e tubarões à vista, sob rígida disciplina militar: “O banho de mar sempre serve de marco. Está lá embaixo, convidativo e rumoroso. Mas nem sempre se vai. Qualquer ligeira indisciplina individual, qualquer ligeira irritação ou capricho do Ten. Canepa, diretor do Presídio, basta para transferir aquele minuto selvagem de libertação. Passam-se dias seguidos sem aproveitar aquele mar gratuito ali junto, sem pesar no orçamento, com a sua praia imunda, de vistas bonitas, de tubarões muito perto...” [9].

Vista interna da única galeria restante do Lazareto


Com a anistia após a vitória getulista sobre os constitucionalistas, o Lazareto volta a ser apenas uma prisão normal. Em 1940, o Brasil entra na Segunda Guerra Mundial e o Lazareto é reformado às pressas. Para lá, foram enviados os presos que estavam na Colônia Penal de Dois Rios. Aquela prisão destinava-se agora somente aos presos de guerra.

 


O aqueduto: um dos poucos resquícios do Lazareto
            O lance final da história do Presídio do Lazareto ocorre em 1963. Sob as ordens do Governador do Estado, Carlos Lacerda, todo o complexo é demolido após ser desativado. Resta apenas uma galeria, que fora escavada nas rochas, e o aqueduto.

            Um local afastado, muito bem protegido, de difícil acesso e natureza hostil: na visão dos ditadores, o melhor local possível para a construção de um presídio para aqueles que deveriam estar o mais longe possível da sociedade. Assim, a Ilha Grande foi transformada em um local maldito.


 

 

A colônia penal Candido Mendes

 

“Virei-me, enxerguei um tipinho de farda branca, de gorro branco,
a passear em frente às linhas estateladas. Era vesgo e tinha um
braço menor que o outro, suponho(...). Um sujeito miúdo, estrábico e
manco a compensar todas as deficiências com uma arenga enérgica,
em termos que me arrisco a reproduzir, sem receio de enganar-me (...).
O discurso, incisivo e rápido, com certeza se dirigia aos recém-chegados:

-
Aqui não há direito. Escutem. Nenhum direito. Quem foi grande
esqueça-se disto. Aqui não há grandes. Tudo igual. Os que têm protetores
ficam lá fora. Atenção. Vocês não vêm corrigir-se, estão ouvindo?
Não vêm corrigir-se: vêm morrer” .

Graciliano Ramos[10]

 

 

            Se a prisão do lazareto já era afastada, de difícil acesso e de natureza hostil, Dois Rios potencializava tudo isto. Graciliano Ramos descreve a penosa ida à pé até a Colônia Penal, e sua funcionalidade:


Vista do topo do caminho entre o Abraão e Dois
Rios: 12 km de distância

“O terreno ia ficando menos íngreme, o calor diminuía. Era certo chegarmos antes da noite e não precisava agitar-me em excesso (...). Em redor, coisa muito diversa dessas evocações familiares: sombras, matas, as estranhas árvores delgadas a vestir a peladura negra dos montes. No fim da tarde alcançamos o pátio branco. Ao fundo, enorme galpão fechado, e junto a ele cercas de arame, certamente o curral onde nos confinariam. A vista fixa nas paredes baixas, na cobertura de zinco, durante algum tempo não percebi as casas alinhadas no terreiro” [11].


           
A Colônia Penal de Dois Rios fora instalada oficialmente em 1903, sendo destinada a “presos comuns”. Sua história nos conta inúmeras reformas, que foram lentamente transformando o terreiro com galpão em uma prisão de altos muros, de onde era muito difícil sair.

 

            André Torres, que ficou preso quando o prédio já tinha a configuração que ainda hoje encontramos, narra sua terceira tentativa de fuga: “Eram 23h. Tudo em silêncio, chuviscava. O pátio iluminado por lâmpadas de 150 velas, presas na marquise do terceiro andar (...). 23,18h. A sentinela andou, saiu do telhado do corredor. Pensei: Agora! Com muita rapidez, enverguei a barra de ferro, coloquei o corpo para fora, me pendurei nas grades, soltei as mãos deixando o corpo cair. Bati no chão, amorteci a queda agachando-me. Olhei para a sentinela que continuava de costas, corri em direção ao muro. Um preso comum que estava na janela da cela do andar térreo, espantado com a cena jamais imaginada, gritou não sei para quem: Olha lá! Com fúria pulei o muro num salto felino, corri seis metros rente à parede lateral da enfermaria que ficava bem em frente ao necrotério.


Pátio, guaritas e a praia: caminho para a liberdade
Parei na quina para não ser visto e para ver se vinha algum PM no portão da guarda. Ninguém! Corri 13m em direção ao portão da guarda. Dobrei à direita junto à parede do almoxerifado, e ainda teria que correr mais 6m. Então, ouvi a sentinela gritar do telhado: Pare aí! Continuei correndo em direção ao muro. Ele deveria estar sacando a arma. Me agarrei nos tijolos furados. Ouvi disparo, em seguida outro. Ouvi o projétil bater na parede. Pulei para o lado de fora. A sentinela gritava palavrões. Corri, mas senti que estava ferido.

Continuei a correr em direção à praia. Ligaram o alarme geral, acenderam os holofotes. Entre o presídio e a praia havia um campo de futebol que foi logo iluminado (...). As sirenes de alarme soando... (...) Rastejei pelo mato, tentando alcançar a praia. Não podia mais correr em pé de tão iluminado que ficou o sítio. Dois PMs armados de metralhadoras apareceram caminhando no campo de futebol. Parei de rastejar (...). Era um formigueiro de PMs (...) Os soldados estavam atentos e assustados. Se vissem um vulto qualquer no mato, eles atirariam (...). [Os soldados] formando uma cerca humana fardados de preto. Estavam eles a uns 100m do local onde eu estava deitado e os dois PMs a uns 20m de distância (...). Levantei-me devagar com os braços erguidos” [12].

 

            Dois Rios era uma Colônia Penal com capacidade para 1000 presos, cercada por uma vila onde moravam os guardas e os destacamentos da PM. Ela estava situada na pequena planície entre as altas montanhas e o mar. O único caminho possível de fuga era a praia, e depois a floresta.

            Havia somente uma via que a unia à vila do Abraão.

Vista do presídio a partir do campinho: muros e mata fechada


            A estrada havia sido aberta durante as reformas de 1940. Antes, era uma trilha, que fora percorrida à pé por Graciliano Ramos durante sua prisão na época getulista.

 

            André Torres narra a transferência de um preso do Rio de Janeiro para a Ilha Grande:

 

            “Fui para a Ilha Grande, no caminhão fechado com carroceria igual à de um caminhão de carne. Dentro, um banco de cada lado, o que era insuficiente para o número de homens. Viajamos em pé, revezando no caminho. Chamavam esse caminhão de ‘Coração de Mãe’ (...). O caminhão saiu do Presídio Hélio Gomes às 5,30h, chegaria em Mangaratiba às 11h. Era escoltado por um caminhão de polícia com 20 soldados e um cabo, uma camioneta Pick-up com o motorista e o sargento (...).

            Com a barca Loretti pronta para receber a mercadoria humana, o motorista do caminhão estacionava o veículo sobre o atracadouro ao lado da barca. Os soldados se colocavam em posições-chaves, com suas metralhadoras formando um corredor, enquanto na barca os soldados da escolta também tomavam posição. Os motoristas abriam as portas dos caminhões e os presos, indiferentes àquele esquema de segurança, aguardavam serem chamados pelo sargento, que com uma relação na mão gritava pelos nomes (...).

            Após pegar alguns pertences, o preso pulava do atracadouro para a barca, deixava o que pegara sobre a proa e descia por um buraco quadrado para o porão (...).


Chegada a Dois Rios a partir da estrada
            Depois disso, os sargentos responsáveis pela escolta trocavam e assinavam ofícios. O caminhão partia, o barco aguardava passageiros e moradores da Ilha Grande e seguia em direção ao Abraão. Isto demorava mais de duas horas. Ao atracar no Abraão, os passageiros saltavam, depois os policiais se colocavam a postos, armados de metralhadoras e cassetetes.
            À medida que o sargento chamava o primeiro da lista, o preso saía do porão, pegava qualquer bagagem, pulava para o atracadouro caminhando em direção ao caminhão e subia na carroceria.

            Do Abraão até o presídio levava 40 minutos subindo e descendo a serra, por estradas de barro. O motorista do caminhão era um presidiário. Chegando ao Presídio Cândido Mendes, deixávamos os pertences no setor de segurança e os presos ficavam formados em coluna de dois” [13].


O mesmo André Torres, narrando sua segunda fuga (a única que foi completada com êxito), descreve o caminho de volta ao Abraão: “Ouvimos um barulho de motor de caminhão e nos ocultamos rapidamente no mato. Vi passar a três metros de distância um caminhão tipo lotação cheio de carcereiros que seguiam para o presídio. Incrível como não nos viram (...).

Depois que o caminhão sumiu numa curva, saímos do mato para a estrada (...). Fomos em frente, até alcançar uma trilha por onde subimos a montanha perto de Abraão, Em poucos minutos, chegamos ao topo onde avistamos outras montanhas que também teríamos que escalar” [14].

Após quilometros de subida, a vista da Vila do Abraão


O caminho de volta esgotava as energias do fugitivo, que enfrentava montanhas, chuva e insetos: “Na Ilha Grande em qualquer lugar os borrachudos atacam. Existe lá uns insetos que voam não mais que um metro de altura. O pessoal costumava chamá-los de borrachudos e, onde eles picam, deixam um pontinho preto. Vi muitos presos com os pés inchados em conseqüência das picadas dos insetos. Os recém-chegados passavam maus momentos picados por eles” [15]. Depois, bastava atravessar o mar até Angra dos Reis ou Mangaratiba. Isto poderia ser feito roubando barcos dos pescadores, montando balsas ou a nado. Detalhe: a região é conhecida por ser povoada por cações e tubarões.

 


Ruínas do prédio principal, onde
podem-se ver os 3 andares de celas

            Durante a ditadura militar, os presos comuns ocupavam o térreo, o primeiro e o terceiro pisos do edifício central. Os presos políticos ficavam em um regime ainda mais fechado, no segundo piso. Apesar das tentativas, é óbvio que houve contato entre os diferentes presos. E o fruto mais famoso deste convívio foi a fundação do Comando Vermelho, em 1979, por traficantes do Rio de Janeiro.

            Seis anos depois, em 1985, foi realizada a mais espetacular fuga da Ilha Grande: José Carlos Encina, líder do CV, conseguiu fugir do presídio subindo em um helicóptero. Depois disso, ficou conhecido como “Escadinha”.

         Em 1993, o presídio foi desativado. Em abril de 1994, foi semi-demolido pelo então Governador do Estado, Leonel Brizola.

 

        Em 2003, a Governadora Rosinha Matheus propôs a reconstrução do presídio, agora no modelo de segurança máxima, teoricamente com o apoio dos moradores. O projeto, que necessitaria de apoio do Governo Federal, foi vetado.

 

            A configuração do complexo prisional, segundo André Torres, era a seguinte:

 


Vista aérea da praia de Dois Rios. No
destaque à esquerda, a área do presídio

            “Havia um estábulo em ruínas (...). Em duas hortas alguns presos teimavam em conservar pés de couve. Havia também uma olaria, (...) uma plantação estéril de amendoim (...). Tinha um britador que quebrava pedras todos os dias. Dinamitavam pedreiras (...). Dois rios (...). Um cemitério no morrinho cheio de mortos (...). Havia alguns bananais abandonados. Uma represa que produzia energia elétrica e abastecia o presídio de água encanada. Dois destacamentos para a PM. Um telégrafo, um campo de futebol, um mininecrotério, uma capela, a garagem para quatro caminhões, um trator, duas Pick-ups e um carro Aero-Willis (...).

            O prédio do meio era o presídio de três andares cercado de muros altos com guaritas e sentinelas no portão de guarda.

            No térreo ficava o refeitório, cozinha e estábulos. Em todas as passagens havia portas de ferros. Ao chegar no hall do presídio à direita, havia um galeria entre quatro celas coletivas para 30 homens, com camas-beliche de até três andares. Espaço de 4x8m com vaso sanitário e, sobre este, um pedaço de cano que servia de chuveiro; em frente, uma pia.

            Atravessando duas portas de ferro, ficava o refeitório com mesas de concreto e granito, bancos de concreto com assento de madeira. As janelas tinham grades. Ao lado do refeitório ficava a cozinha. Perto do hall, à esquerda, cubículos individuais de 2x4m, onde dormiam presos. Em cada um desses cubículos havia uma cama-beliche para dois, o restante dormia no chão. Havia 50 celas, 25 de cada lado. No final da galeria um portão de ferro separava as ‘surdas’. Cubículos de 2x4m, onde colocavam até 10 presos de castigo em cada uma delas, isolados, sem janela ou buraco nas portas. Havia apenas um buraco de 4x10cm perto do teto.

A área do antigo refeitório,
atualmente semi-implodida


O mato toma hoje o que foi o principal
prédio do presídio


Vista do pátio a partir da guarita lateral
               Assim os carcereiros evitavam que o preso fosse para perto do buraco e ao mesmo tempo deixava entrar ar para os presos não morrerem asfixiados.
            No segundo andar ficavam os presos políticos, em cubículos individuais para dois ou três presos. Do lado direito, os coletivos com camas-beliches de madeira (...).

            No terceiro andar do lado esquerdo ficava o GREI (Grêmio Recreativo da Ilha), e a sala de música. Do lado direito, seis cubículos iguais aos já citados.

            Nos fundos da galeria, separado por uma porta de ferro, ficava o isolamento, celas sem camas, onde permaneciam de castigo, isolados, os presos tidos como indisciplinados, do ponto de vista dos carcereiros.

            Atrás do prédio, ficava o pátio de 200x60m. O preso Bonga plantou três pequenas eiras de batata-doce e girassóis. Os urubus gostavam de ir para lá (...).


           Pela manhã, os presos se reuniam nesse pátio para formar as turmas de trabalho em frente ao galpão onde ficavam a serraria, carpintaria, mecânica e lavanderia.
            Nos anos mais negros, os carcereiros mandaram construir no pátio uma cerca de arame farpado. Ali ficavam os presos que não saíam para trabalhar. Isto me fazia lembrar os campos de concentração nazistas.

          À frente do prédio-alojamento, havia outro de dois andares, o setor burocrático, sala de direção, etc. Ao lado, entrando por um corredor, chegava-se à enfermaria e ao necrotério.

        O portão de entrada e o guarda tinham em cima o alojamento dos policiais e numa sacada ficava sempre uma sentinela armada de metralhadora”[16] .



Prédio administrativo/bucocrático da prisão
Foto de baixo: Adilson Moralez

 

            Foram inúmeros os presos “famosos” da Ilha Grande. Entre eles, destacamos os que escreveram sobre sua estada: Graciliano Ramos, Orígenes Lessa, Agildo Barata e André Torres. Mas, também passaram por lá o famoso Madame Satã (que passou a morar no Abraão após ser libertado), o atualmente deputado Fernando Gabeira, os revolucionários Flores da Cunha e Luiz Carlos Prestes, o escritor Nelson Rodrigues, além do próprio Escadinha e de Lucio Flávio.

 

 

Ilustres prisioneiros

 


            Orígenes Lessa, protestante, nasceu em Lençóis Paulistas (SP), em 1903. Viveu no Maranhão durante a infância. Voltou para São Paulo quando jovem, tornou-se jornalista e tradutor. Em 1932, ingressou nas linhas constitucionalistas paulistas, onde foi preso e enviado ao presídio (Lazareto) da Ilha Grande. Após sair da prisão, continuou como escritor e jornalista, tendo sido eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1981. Faleceu em 13 de julho de 1986.

            Em seu livro Ilha Grande (do jornal de um prisioneiro de guerra), narra sua prisão, junto de milhares de soldados paulistas – famosos e desconhecidos. Jamais tentou fugir, mas narrou diversas tentativas.

 

Seu livro mostra a super-lotação da prisão, o desespero e o desânimo, do ponto de vista de um preso de guerra: “Um bocejo imenso e coletivo saúda a primeira manhã de Presídio. Alguns botam-se de pé, reagindo contra a moleza. Não há preparativos difíceis. Dormiram vestidos, sem tirar o sapatão, sem desapertar as perneiras, como nas noites pipocadas da trincheira. Saímos depois formados para a continência à bandeira. O quadrado de prisioneiros, no pátio, com os vestuários mais disparatados do mundo, olha a bandeira que se eleva com o olhar de quem espera, faminto, o toque de café. Só nos interessa comer” [17].

 

      Agildo Barata, nasceu no Rio de Janeiro em 1905. Capitão do Exército, foi um dos líderes da Revolução de 1930 na Paraíba. Logo depois, desentendeu-se com o governo getulista, fez parte da Revolução Constitucionalista de 1932. Filiou-se em 33 ao PCB, para onde levou Luiz Carlos Prestes. Ingressou na ANL. Em 1935, participou da “Intentona Comunista”, foi preso e enviado à Ilha Grande. Elegeu-se vereador no Rio pelo PCB em 1947, mas afastou-se do partido em 1957. Faleceu no Rio de Janeiro em 1968.

 

            Em seu livro “Vida de um revolucionáro: memórias”, narra todas as atividades políticas narradas acima. Praticamente não se pronuncia sobre a Ilha Grande: “Como já me encontrava preso no dia 27 de novembro e fui solto no mesmo dia que Prestes, quando Getúlio mandou libertar os presos políticos, eu – por uma desagradável coincidência – fui o primeiro a ser preso e dos últimos a sair. Quando isso ocorreu, em abril de 1945, eu batia um desagradável recorde: até então, eu era o campeão de prisão política, no Brasil ou, noutras palavras: estivera preso por um período de quase dez anos e, até então, ninguém havia ‘tirado’ uma tão longa ‘cana’” [18].

 

            Barata pode funcionar como uma introdução ao talvez mais famoso preso da Ilha Grande, Graciliano Ramos: “Durante os dois anos e pouco em que esteve preso, Graciliano Ramos tomou notas e observou. Graciliano (quem o conheceu, de perto, sabe) era um introspectivo e pouco participava da vida dos presos políticos. Bastante irritado com as violências que vinha assistindo, e sofrendo, Graciliano, deixava-se ficar pelos cantos ou encafuado em seu cubículo. Seu temperamento amargo e suas tendências ao isolamento não lhe permitiram uma observação mais completa dos lances de nossa vida presidiária. Mesmo assim, o laureado escritor alagoano conseguiu reunir dados para encher as páginas de 4 alentados volumes de reminiscências da cadeia, volumes que foram editados sob o título de ‘Memórias do Cárcere’” [19].

 


            Graciliano Ramos nasceu em Quebrângulo (AL) em 1892. Escritor, manteve-se como comerciário, tendo se tornado prefeito de Palmeira dos Índios (AL). De 1930 a 1936, foi Secretário de Instrução de Alagoas. Demitido sob acusação de aproximação com os comunistas, foi preso. Passou por diversas prisões, entre elas, pela Ilha Grande (Dois Rios). Em 1937, foi solto. Em 1945, filia-se ao PCB e em 1952, viajou à URSS, morrendo no ano seguinte, vítima do câncer. Publicou diversos clássicos da literatura brasileira, como São Bernardo, Vidas Secas, e o Memórias do Cárcere, onde narra o período em que esteve preso.

            Em Memórias, critica duramente o governo, sua prisão e as instituições por onde passa. Na sua descrição, Dois Rios foi o pior presídio pelo qual passou: “Através das barras de ferro uma turba confusa me surgia de chofre, corpos indecisos a mexer-se, em pé, de cócoras, estendidos, espalhando o surdo rumor já notado enquanto me raspavam a cabeça. Nenhuma particularidade, som ou visão, se destacava nessa balbúrdia. Apenas o novelo animado a desdobrar-se no escuro e o burburinho a rolar. Um cheiro desagradável, complexo, indeterminado, provocava tosse” [20].

 

            André Torres, apesar de ter sido quem melhor descreveu o presídio e a vida lá dentro, apesar de ter sido um dos poucos a conseguir fugir (sua 2ª fuga) do presídio e da Ilha Grande, é um desconhecido. Sua única obra publicada é o livro Exílio na Ilha Grande, e tudo o que sabemos é o que ele conta lá. Jovem de classe média do Rio de Janeiro, começou a roubar e foi preso. Logo, transferido para a Ilha Grande, de onde conseguiu fugir. Então, voltou ao Rio e tornou-se ladrão de bancos. Foi então mais uma vez preso, torturado, voltou à Ilha Grande, de onde tentou mais uma vez fugir sem sucesso.

 

 

Meio século de cotidiano da prisão: de Orígenes Lessa a André Torres

 

            Acompanhando o relato dos ex-prisioneiros da Ilha Grande, entramos contato com o cotidiano de violência, abusos e castigos em uma das mais famosas prisões brasileiras. Dos três relatos, dois, os mais longos, são a respeito de Dois Rios. Será a partir deles, fundamentalmente, que nos basearemos. O presídio do Lazareto, infelizmente, conta com ainda menos informações e relatos do que o de Dois Rios.


 
            Comentando sobre o Lazareto, Orígenes Lessa nos mostra um amontoado de soldados vencidos, vivendo em precárias condições:


Aspecto interno da única galera restante do Lazareto
“O aspecto dos alojamentos impressiona. Homens barbudos, semi-nus, cabisbaixos, amontoados pelo chão. Alguns gargalham rudemente, gritam insultos, soltam blasfêmias. Outros passeiam sombrios, a mão na barba, o pensamento longe. Muitos estão estirados na esteira, devorando uma revista, lendo os anúncios com uma paciência infinita, com ar interessado de quem vai comprar. Nunca se leu tanto anúncio...” [21].


           
Comentando sobre o Lazareto, Orígenes Lessa nos mostra um amontoado de soldados vencidos, vivendo em precárias condições: “O aspecto dos alojamentos impressiona. Homens barbudos, semi-nus, cabisbaixos, amontoados pelo chão. Alguns gargalham rudemente, gritam insultos, soltam blasfêmias. Outros passeiam sombrios, a mão na barba, o pensamento longe. Muitos estão estirados na esteira, devorando uma revista, lendo os anúncios com uma paciência infinita, com ar interessado de quem vai comprar. Nunca se leu tanto anúncio...” [21].

 

            O Presídio de Dois Rios de Graciliano Ramos (década de 1930), parece menos organizado e mais violento do que o de André Torres (década de 1970). Naquele local, o tempo do preso era preenchido em sua totalidade: não era possível, quando se estava no presídio, descansar:

 

“Esgotou-se o tempo, buscamos os nossos lugares, pusemo-nos em marcha; o zumbido lamentoso decresceu e findou na extensa linha resignada e lenta. A viagem curta esfalfou-me. Entrando no galpão, deitei-me e adormeci logo. O berro de Cubano despertou-me:

- Formatura geral.

Com certeza aquilo iria prolongar-se indefinidamente, não nos deixariam em sossego. Queriam apenas isto: mexer-nos, obrigar-nos à correria estúpida” [22].

 

Neste local, altamente hierarquizado, com praticamente um milhar de presos amontoados (Graciliano calcula em 900 o número de presos), as condições de vida eram as piores possíveis, e isto era o propósito do local: havia seis chuveiros para a totalidade dos presos, não havia sanitários, a comida vinha podre e infestada de fezes de animais, a higiene era nula. Um caso que marcou profundamente a estada de Graciliano, foi o de um preso doente que foi literalmente comido vivo pelas moscas após uma operação: “Faltavam desinfetantes. Aquilo arruinara, apodrecera ao abandono, e o sujeito, com os intestinos avariados, manifestava a dor e o medo em queixas estertorosas. Lembrei-me das palavras do médico ao examinar-me a eventração: - ‘Apendicite?’ – ‘Psoíte’ – ‘Vamos operar isso. É fácil.’ Estremeci com horror desconhecido naquele tempo. Se me houvesse entregue às facas dos magarefes, acabar-me-ia assim, decompondo-me sem tratamento, devorado pelas mucuranas” [23].

 


Muro lateral do presídio com guarita
         Quatro décadas depois, os edifícios eram mais resistentes – anteriormente não passavam de barracões – e a tortura estava institucionalizada. Aqueles que morriam – vítimas da violência carcerária ou nas tentativas de fuga – tinham todos o mesmo destino: o cemitério do morrinho. A causa mortis já era conhecida por todos: “queda de pedreira”. Inúmeros foram os casos de mortos pelas “quedas”, e alguns deles foram enterrados pelo próprio André Torres, em um ritual macabro proporcionado pela carceragem como forma de mostrar o que ocorria com os indisciplinados e fujões:

 

“Estava chuviscando. Ninguém quis levar o corpo para o cemitério. Os carcereiros pediram voluntários, eu me apresentei com mais cinco presos (...). Subi na carroceria do caminhão, junto com os presos e a caixa de madeira com o corpo inerte. O caminhão deu partida pilotado por um preso. O guarda foi na cabine. Um morto na caixa de madeira, alguns presos maltrapilhos na carroceria. Chuviscava... Na passagem do caminhão todos olhavam sérios. O cemitério ficava no morrinho, a seiscentos metros do presídio. Quando alguém morria na Ilha Grande, ia para o morrinho” [24].(AT 31)

 

            A violência institucionalizou-se nos presídios. O castigo acompanha a pena, as privações são vistas como complementares daquilo que foi imposto pelo juiz. Torturas são narradas por todos os ex-detentos, sejam os da Ilha Grande, sejam de qualquer outra delegacia, penitenciária ou presídio. Para Foucault, “É verdade que a prática da tortura remonta à Inquisição, é claro, e mais longe ainda do que os suplícios dos escravos. Mas ela não figura no direito clássico como sua característica ou mancha. Ela tem seu lugar estrito num mecanismo penal complexo em que o processo do tipo inquisitorial tem um lastro de elementos do sistema acusatório; em que a demonstração escrita precisa de um correlato oral; em que as técnicas da prova administrada pelos magistrados se misturam com os procedimentos de provas que eram desafio ao acusado;



Representação de tortura
da Inquisição

em que lhe é pedido – se necessário pela coação mais violenta – que desempenhe no processo o papel de parceiro voluntário; em que se trata em suma de produzir a verdade por um mecanismo de dois elementos – o do inquérito conduzido em segredo pela autoridade judiciária e o do ato realizado ritualmente pelo acusado. O corpo do acusado, corpo que fala e, se necessário, sofre, serve de engrenagem aos dois mecanismos; é por isso que, enquanto o sistema punitivo clássico não for totalmente reconsiderado, haverá muito poucas críticas radicais da tortura” [25].

 

            Muitos destes torturados morreram. São inúmeras as mortes vistas e narradas por Graciliano Ramos e André Torres. Graciliano, talvez por sua idade avançada, por estar constantemente enfermo, ou por ser um pouco famoso, não sofreu nenhuma tortura física propriamente falando.

 

            Já André Torres... Logo após sua primeira tentativa de fuga: “Permaneci calado. Entrou na sala o Sargento Vieira, paraíba analfabeto, guarda-costa do Diretor Maluco. Primeiro me olhou, depois me espancou com socos que acreditava ser demolidores. Quando percebeu que era apenas um homem frouxo, pegou um pedaço de pau, deu ordens pra começar a tortura. 


Prédios do centro da vila de Dois Rios
Bateram à vontade. O Diretor Maluco saiu da sala, ele não bateu, só fez assistir. Voltaram a me torturar, eram seis carcereiros: Sargento Vieira, Agente Secreto Severino, um cabo da PM e três soldados. Não satisfeitos, me carregaram para a casa do Sargento Vieira, ao lado da casa do Diretor Maluco. Ali, numa sala imunda onde o sargento morava, nova sessão de torturas, com soldados se revezando para bater. Gritei para recuperar o fôlego. Bateram mais um pouco, fiquei caído no chão. Acordei dentro de uma cela no interior do presídio. Pensei: Inacreditável, estou vivo” [26].

 

            Já após sua terceira tentativa (já transcrita anteriormente), “Eu estava lá, em pé, vivo, para eles ameaçador e representava perigo. Os dois PMs gritaram para os outros. Logo fui cercado por uma dezena de PMs. Agrediram-me com socos, pontapés, mordidas nos braços. Ficaram surpresos com a minha aparência. Levaram-me em direção ao presídio, sempre me agredindo (...). Fui agredido por... para não pensarem que é exagero, direi apenas uns 20 PMs. Eram tantos, que alguns não conseguiram chutar o meu corpo. Fiquei sufocado. O sargento era o que mais batia. Diziam: Este vai cair da pedreira. Para que se possa ter idéia da agressividade bestial, dois prisioneiros que foram presos após a fuga morreram espancados. Caído no chão, quase morto, jogaram-me dentro de uma caminhonete. Fui retirado outra vez para ser agredido pelo sargento (...)” [27].

 

A punição não se realiza sobre a ação do condenado, mas sim sobre o exemplo que este pode dar aos demais. A institucionalização do castigo e da violência fazem com que elas passem a ser normais, corriqueiras, parte do sistema. “O carcerário ‘naturaliza’ o poder legal de punir, como ‘legaliza’ o poder técnico de disciplinar. Homogeneizando-os assim, apagando o que possa haver de violento em um e de arbitrário no outro, atenuando os efeitos de revolta que ambos possam suscitar, tornando conseqüentemente inúteis sua exasperação e excesso, fazendo circular de um para o outro os mesmos métodos calculados, mecânicos e discretos, o carcerário permite a realização daquela grande ‘economia’ do poder, cuja fórmula o século XVIII procurou, quando veio à tona o problema da acumulação e da gestão útil dos homens” [28].

 

            Tal sistema, quando internalizado pelos próprios presos, passa a ser aceito e muitos percebem que, ao aderir, podem conseguir algumas vantagens pessoais. São inúmeros os casos de presos colaboradores, espiões ou apenas que entregavam os outros. Todos os ex-detentos narram esta espécie de carcerário.

 

            Orígenes Lessa toma conhecimento destes presos ao ouvir falar de uma tentativa de revolta em Dois Rios: “Joaquim Carlos Nobre, o Nobre idolatrado pelas crianças da Record, e dez ou doze companheiros mais, pagavam na Colônia Correcional, do outro lado da Ilha, um início de conspiração que um miserável delatara. A espionagem, espontânea ou assalariada, de que tanto se orgulhava o tenente Canepa, tinha os olhos abertos” [29].

 

            A Graciliano Ramos, o que mais incomodava era – além dos espiões que viviam à sua volta – a colaboração de um dos presos, o “Cubano”. Este ficara responsável pelo controle dos demais e por criar pequenos grupos também controlados por outros presos:

 

“- Formatura geral, gritou um negro [“Cubano”] lá da porta.

Deslocaram-se com rumor os objetos espalhados pelo solo, uma nuvem de poeira toldou as luzes escassas, toda a gente se moveu, organizaram-se à pressa numerosas filas. A minha, ao fundo, era a mais curta e algum tempo ficou acéfala. De repente mandaram-me sair de forma e achei-me em frente aos dezesseis homens firmes, direitos, de braços cruzados. Cabo de turma, realizava-se a previsão funesta. Mas não me conservaria no miserável cargo: era-me impossível fiscalizar os outros; naquele instante cerrava as pálpebras, ignorava os acontecimentos em redor. Uma voz longínqua chegava-me aos ouvidos, a cantar números, e nem me ocorria perguntar a mim mesmo a significação deles. Abrindo os olhos, convencia-me da existência de vultos indecisos a transitar para cima, para baixo, certamente fazendo a contagem”[30].

 

            Já o “fujão” André Torres, era especialmente incomodado pelos presos que de tão inseridos no sistema, tornavam-se vigilantes quando os demais fugiam. Estes, os presos delatores, colaboravam com os destacamentos da PM e com parte da população local na caça aos fugitivos: “Decidi me evadir no sábado [primeira tentativa]. Dois meses após chegar à Ilha Grande, mal conhecia o terreno, minhas informações se baseavam no que eu ouvira de outros fujões, no estudo do mapa retirado da revista Quatro Rodas, para me guiar no instinto de orientação. Interessante é a revolta que essas fugas provocavam em alguns prisioneiros acomodados, que não tinham coragem de fazer o mesmo” [31], “A Ilha cercada sob severa vigilância. Os presos delatores circulavam a fim de conseguirem alguma pista. Eu e meu companheiro estávamos tranqüilos, certos de que conseguiríamos atravessar” [32].

 

            Todo este sistema carcerário-punitivo criou uma enorme fama negativa em torno dos presídios da Ilha Grande. Sabia-se que lá, estava-se totalmente nas mãos dos carcereiros e policiais. Mesmo se fosse realizado um levante e ocorresse a tomada do presídio, ninguém fora da Ilha ficaria sabendo e a repressão seria ainda mais brutal. A fama da violência, da impossibilidade de fuga e das péssimas condições de vida correram entre todos os presos. Esta situação gerou o desespero naqueles que para lá iam.

 

“- Está bem. Para onde vamos?

Olhou-me surpreendido, certamente a duvidar da minha ignorância, e permaneceu calado.

- Vamos para a Colônia?

Balançou a cabeça afirmando.

- Horrível, hem?

Hesitou um momento, segredou:

- Não é tanto como dizem não. Agora está melhor.

Isso contradizia a afirmação de vários indivíduos, mas se tivermos uma corda no pescoço e alguém nos vier sorrindo negar a existência dela, acho que nos convenceremos facilmente” [33].

 

        Junto do desespero, vem a óbvia solução: a fuga. Esta, geralmente realizada na base da esperança e da sorte, geralmente acabava em uma sessão de tortura ou “na pedreira”. Poucos foram os casos dos que colocaram em prática as estratégias de fuga, e mais raros ainda os que conseguiram realiza-las por completo. Esta desesperada estratégia era a única pensada desde os anos 30 até o final da existência do presídio. Os riscos não eram poucos. Após conseguir sair do complexo penitenciário, era ainda necessário atravessar toda a Ilha (para aqueles que estavam em Dois Rios), sobrevivendo na selva e fugindo dos perseguidores, chegar ao lado voltado para o Continente e conseguir de alguma forma atravessar o mar sem ser devorado por cações e tubarões. Difícil tarefa.

A fuga deveria ser bem planejada para que
ao menos se conseguisse chegar até
esta vista: a Vila do Abraão
Foto: Adilson Moralez

 

“Às vezes está um companheiro estendido na esteira, os olhos em fogo, móveis, febris, o pensamento longe. 80 vezes em 100 aquele movimento de olhos traduz as peripécias de uma fuga imaginária. A travessia do mar, numa frágil embarcação procurada pelos holofotes, a chegada ao continente (...). E cheia de imprevistos, de lutas, de tenacidade, de heroísmo, de loucura, a fuga prossegue, traduzida por aqueles olhos em febre, agitados nas órbitas, na respiração ofegante que lhe agita o peito. Às portas, praças de baioneta calada. Distribuídas em todos os ângulos do Presídio, sentinelas beiçudas. Em volta, o mar. Um ou dois destróiers preguiçosos, distraindo as ondas, que os embalam como a um nenezinho inofensivo” [34]

Vista da mata através das grades da galeria
do Lazareto
Foto: Adilson Moralez


            “Para o Presídio o mundo acabou mesmo. Outros levaram para o terreno prático as suas tentativas de evasão. E não é raro surpreender-se uma tentativa ingênua, desesperada de fuga. Idéia primeira de quem chega à Ilha, ela é pouco a pouco abandonada por impraticável. Só alguns teimam. Os mais, devaneiam” [35].


           
Um dos raros que conseguiu realmente escapar do presídio, dos policiais, da montanha, da floresta, do mar e dos tubarões, foi André Torres.

 

            “Num dia qualquer, saímos para trabalhar nas turmas; ao invés de trabalhar, extraviamos mato adentro, perto da casa do Bilinho, e não muito longe do presídio. Exatamente a uns setecentos metros de distância, Bilinho nos viu; foi imediatamente avisar ao diretor. Deram o alarme (...).


Rua da vila de Dois Rios, onde moravam guardas

            Tínhamos mantimentos para um mês, dinheiro para nos suprirmos, caso ficássemos mais de um mês na floresta. E, o que é mais importante, tínhamos amigos de confiança para nos ajudar no que fosse preciso, e sabíamos improvisar. Passamos o dia ocultos na floresta, distante cinqüenta metros das casas dos guardas. Incrível, estávamos tão perto, e de certo modo, tranqüilos, foragidos e sendo procurados por mais de cem homens armados, experientes na tarefa de perseguir presos evadidos (...).


            Tínhamos mantimentos para um mês, dinheiro para nos suprirmos, caso ficássemos mais de um mês na floresta. E, o que é mais importante, tínhamos amigos de confiança para nos ajudar no que fosse preciso, e sabíamos improvisar. Passamos o dia ocultos na floresta, distante cinqüenta metros das casas dos guardas. Incrível, estávamos tão perto, e de certo modo, tranqüilos, foragidos e sendo procurados por mais de cem homens armados, experientes na tarefa de perseguir presos evadidos (...).

            Os carcereiros tinham cachorros e contavam com um caipira rastejador habilidoso chamado ‘Cachorro do Mato’. Esse homem nasceu na Ilha Grande, mas recebia apenas para rastejar os fujões (...). Quando ele não caçava gente, caçava bichos (...).

Saímos da estrada para dentro do mato, caminhamos encosta acima. Aos poucos nos afastamos do presídio, das casas, dos caipiras e colonos livres (presos que viviam fora do presídio em casas de sapé). Caminhávamos entre as árvores. De repente avistamos uma patrulha seguindo outra trilha, distante uns vinte e cinco metros, os soldados também nos viram, um deles gritou: Olha eles lá! Eu e o Ronaldo corremos por entre as árvores (...). Entramos no mato e descemos. Desta vez tivemos o cuidado de despistar dando alguns passos de costas e pulamos para dentro do mato, depois com o facão ergui o mato pisado. Nos afastamos do local (...).

Assim que escureceu, tiramos a roupa e escondemos, ficamos apenas de bermuda e camisa. Com os facões cortamos bambus da beira da praia (...). Fizemos uma jangada, prendendo os bambus com tiras de lençóis, cobertores, barbante e cipó (...). Preparamos dois remos (...). Em duas horas fizemos a jangada e os remos (...).

Pegamos os facões, as camisas, as garrafas e os remos e colocamos sobre a jangada, em seguida empurramos a jangada para dentro d’água. Um de cada vez sentamo-nos na jangada, primeiro preocupados em não ter bambus suficientes para sustentar nosso peso. Notamos que agüentava. Remamos para nos afastarmos da praia. A noite não estava negra de impossibilitar nossa visão, o céu estrelado, a temperatura quente (...).

As ondas começaram a jogar a jangada pra fora do nosso rumo, a água molhava nosso corpo, depois percebemos o que era, estávamos perto de uma correnteza que nos puxava para o lado do Abraão, exatamente para onde não queríamos ir de maneira alguma, não seria uma correnteza que iria atrapalhar nossos planos (...). O perigo se apresentava, apareceram alguns cações para animar a festa e nos incentivar a remar mais rápido para sair do cerco dos carcereiros do mar, que têm chifre nas costas (...).

De repente, ele ficou histérico, gritando que queria voltar para a praia, fiquei com medo de cair e ser devorado pelos cações. Os cações sumiram de vista. Senti que alcançávamos uma correnteza que nos levaria em direção a Ponta dos Macacos, ainda na Ilha Grande (...).

Atravessamos uma enseada. Toda essa confusão aconteceu entre a Ponta dos Lobos e a dos Macacos. Atracamos numas pedras e dividimos o leite condensado e a água, cada um ficou com o seu facão (...).

Remei para me afastar das pedras, senti a diferença de remar sozinho uma jangada de seis metros. Me afastei sem pensar no companheiro que deu com os burros n’água (...).

A jangada ficou pesada, pensei em abandoná-la e prosseguir a nado apoiado em dois bambus. Explorei ao máximo a correnteza que puxava para o lado de Angra dos Reis. Lembro que atravessei várias correntezas. Bebi leite à vontade para me alimentar e manter a pressão alta. Depois pulei da jangada, me segurei e soltei dois bambus e tiras de corda fina (...). Subi na jangada e calculei minha posição, percebi que estava mais parto para o lado da terra firme do que do lado da Ilha Grande. Extraordinário! Esta seria uma encenação da minha tática de fuga, fazer os carcereiros crerem que eu tinha morrido afogado. Se encontrassem a jangada do outro lado, logo ficariam sabendo que atravessei. Por outro lado, encontrando a jangada no meio da baía, pensariam que eu havia morrido.

Deixei a jangada à deriva e prossegui a nado empurrando o bambu. Eu empurrava o bambu e nadava até alcança-lo, e assim prossegui em direção à montanha negra que via em frente (...). Senti câimbra na perna esquerda, encolhi o corpo e permaneci imóvel apoiado no bambu até que a dor penetrante aliviou. Recomecei a nadar, mas sempre que forçava muito a perna esquerda, sentia novamente câimbra (...). Claro que a dor persistiu, mas com o mesmo método a dor diminuiu, e assim por diante...” [36].

 

 

Ilha Grande, ilha-cárcere

 

            São inúmeros os casos de prisões em ilhas. Caso extremo do isolamento social, geralmente estas penitenciárias são destinadas aos presos mais “perigosos”. Alguns dos exemplos mais famosos são a prisão de Napoleão Bonaparte na Ilha de Santa Lúcia, e a famosa “The Rock”, o presídio de Alcatrazes, nos EUA.

 

            Prender alguém dentro de um presídio em uma ilha significa ao menos duplicar a dificuldade de sua fuga. Quando esta ilha está em alto mar, ou cercada por tubarões, as chances de escapar são ainda menores. O caso da Ilha Grande, é então emblemático: a ilha está localizada no meio de uma baía. De um lado, o Oceano Atlântico com altas ondas, do outro, quilômetros de mar povoado por tubarões e cações até a chegada ao Continente. Fugir do presídio, neste caso, nem era o mais difícil. Depois disso era preciso atravessar a Ilha e conseguir de alguma maneira chegar à terra firme.

 

            A Ilha Grande foi, portanto, transformada em ilha-cárcere. E disto, foi transformada em ilha-masmorra. Todos os presos temiam a fama daquele lugar. Além de ser praticamente impossível fugir, o tratamento dispensado lá era dos piores. Como afirmou o carcereiro da época de Graciliano Ramos, os presos não iam para lá para serem recuperados, mas sim para morrerem.

A Ilha Grande a partir do mar


            O mar ao redor e sempre à vista é a simbologia da liberdade, oposta pelas altas montanhas de mata fechada: “Os que sabem nadar afrontam as ondas, com seu simbolismo convidativo de liberdade. Mas apenas ganham cinqüenta, sessenta metros de distância, apita o sargento, o corneteiro dá o alarme, o nadador é forçado a regressar. Aliás a cem, duzentos metros da praia, tubarões, cações e tintureiros evolucionam muitas vezes...” [37].

 

            Uma coisa interessante, porém, havia, e a favor dos presos. A arquitetura de Dois Rios acabou, para aqueles que pretendiam fugir, funcionando como o “panóptico de Bentham” invertido. Se naquele projeto, os presos deveriam sofrer com uma torre que geraria a sensação de estarem sendo constantemente vigiados, na Ilha Grande ocorria exatamente o inverso. Vejamos a descrição feita por André Torres:



Nesta foto dos escombros, vemos o prédio das celas
(à esquerda), e as guaritas (à direita)

“Olhei pela janela, vi a sentinela parada em cima do telhado, depois andou, voltou a parar. Não saiu do telhado da enfermaria. Consultei o relógio, 21.55h. Faltavam cinco minutos para trocar a guarda. De duas em duas horas, os PMs se revezavam. Por esse motivo o PM permaneceu no telhado da enfermaria. Ele esperava ser rendido pelo colega.


A guarita do muro lateral
            Se o outro PM ficasse ali parado, eu não poderia fugir. Continuei olhando (...). Vi trocar a guarda. O PM que substituiu o outro estava armado de revólver e começou a andar para não sentir frio e para melhor observar as coisas. Foi até o telhado da cozinha, acho que para cumprimentar a sentinela da guarita sobre o muro lateral, porque demorou quase cinco minutos para voltar (...). Os minutos passavam e eu observei todo o movimento da sentinela e dos PMs que passavam. Eram 23h” [38].

 

Seria então a prisão de Dois Rios, modelo? Qual prisão no Brasil não mantém a arquitetura de um prédio monolítico cercado por muros? Mas, na Ilha Grande, havia todas aquelas características da prisão elencadas por Foucault? Disse ele que a prisão moderna é baseada em isolamento, trabalhos forçados e investimento em regeneração.

 

O isolamento lá, como já foi visto, era total. Os trabalhos forçados também existiam: poderiam ser os mais duros, como as vigas descritas por Guimarães Rosa, ou “apenas” a quebra de pedras ou construções de casas, descritas por André Torres. Mas, para os “não-fujões”, o trabalho forçado era a regra. Resta-nos então somente o investimento em regeneração. Qual é a forma tradicional de tentar regenerar alguém? Trabalho e religião. Então, o que faltava era apenas a religião.


“O padre de Mangaratiba, numa longa visita, procurou salvar as nossas almas.

- Formatura geral.

Era de manhã, o frio cortante nos arrepiava as cabeças peladas, estávamos no curral de arame. Organizaram-se as filas, o reverendo surgiu com o tenente Bicicleta, o oficial de beiço rachado, passeou algum tempo a examinar-nos, depois de colocar-se junto à grade, risonho, esfregando as mãos, um brilho de contentamento nos olhos. Sem dúvida nos julgava animais perigosos enjaulados. Entrava na jaula, mas sentia-se defendido, livre das nossas garras, e esfregava as mãos, satisfeito. Indisfarçável aquele ar de triunfo e segurança. Ficou alguns minutos em silêncio, o sorriso a espalhar-se em todo o rosto, em seguida iniciou a catequese num discurso mastigado, cheio de erros pavorosos. Nunca ouvi tanta besteira. Logo no princípio engasgou-se e recorreu atarantado a uma poesia do Conde Afonso Celso: ‘Seria enorme o crime não amar aqui a Deus’. Atrapalhou-se muitas vezes, e sempre que isto acontecia largava a citação maluca; se havia no mundo lugar onde o amor a Deus estava naturalmente excluído, era aquele” [39].

 

      Ou seja, o sistema carcerário da Ilha Grande era o modelo, um dos aplicados mais à risca. Resta, portanto, apenas a complementariedade da punição: o castigo, a violência “extrajudicial”. Esta, estava presente cotidianamente na Ilha Grande, fosse após uma tentativa de fuga – como as torturas de André Torres – fosse gratuitamente, apenas como forma exemplar de punição da menor fuga de conduta.

 

“Tirou-me desse enleio um forte barulho. Despertei, vi a dois passos um soldado cafuzo a sacudir violentamente o primeiro sujeito da fila vizinha. Muxicões terríveis. A mão esquerda, segura à roupa de zebra, arrastou o paciente desconchavado, o punho direito malhou-o com fúria na cara e no peito. A fisionomia do agressor estampava cólera bestial; não me lembro de focinho tão repulsivo, espuma nos beiços grossos, os bugalhos duas postas de sangue. Os músculos rijos cresciam no exercício, mostrando imenso vigor. Presa e inerme, a vítima era um boneco a desconjuntar-se: nenhuma defesa, nem sequer o gesto maquinal de proteger alguma parte mais sensível. Foi atirada ao chão, e o enorme bruto pôs-se a dar-lhe pontapés. Longo tempo as biqueiras dos sapatos golpearam rijo as costelas e o crânio pelado. Cansaram-se enfim desse jogo, o cafuzo parou, deu as costas pisando forte, soprando com ruído, a consumir os restos de furor. O corpo estragado conservou-se imóvel. Estremeceu, devagar foi-se elevando, agüentou-se nas pernas bambas, mexeu-se a custo e empertigou-se na fileira, os braços cruzados, impassíveis” [40].



Nesta foto, em primeiro plano, os escombros das
celas e ao fundo, o prédio da administração

      Na Ilha Grande, o presídio modelo, o mais temido, não se ia para ser corrigido, mas sim para morrer. A masmorra ditatorial não procurava modificar seus internos, mas sim isolá-los totalmente da sociedade e exterminá-los lentamente através da pouca e péssima comida, dos trabalhos forçados, da violência cotidiana, da tortura. Aqueles homens estavam lá para serem esquecidos, para morrerem e serem enterrados na vala comum do “morrinho”.



E em torno disto tudo, desenvolveu-se uma sociedade própria. Por um lado, os caiçaras que sempre habitaram a Ilha e a Baía da Ilha Grande, que passaram a se acostumar com as constantes idas e vindas dos barcos com presos, e com a rotina de tentativas de fuga.

           

        Alguns, optaram pela cooperação com o sistema, outros ajudaram ou ao menos mantiveram-se neutros nesta disputa. Por outro lado, houve a criação da vila de Dois Rios. Poucos quarteirões povoados com casas idênticas, a vila fora construída para abrigar os familiares dos carcereiros e os serviços básicos do local – da Igreja ao posto de saúde. Uma comunidade que passou a viver da privação de liberdade alheia. Com o fechamento do presídio, a vila tornou-se praticamente uma cidade fantasma. Apenas algumas casas ainda são ocupadas. O restante, está sob custódia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a UERJ.

A igrejinha da Vila de Dois Rios

 

            A última pergunta que resta é: por que implodiram os dois presídios? Permanece em nossa sociedade a cultura de apagar o passado. Não deve ser considerado Patrimônio Histórico apenas as ricas vilas de comerciantes da mineração, as igrejas ou os grandes edifícios do Estado. Os presídios igualmente retratam uma época, uma sociedade e seus valores. A funesta tentativa de apagar certos aspectos da história, continua.

 

      Ladrões, assassinos, agitadores, presos políticos, perseguidos e presos, também fazem parte da história, e sua história é a história da Ilha Grande, a ilha-cárcere, a ilha-masmorra das ditaduras, história esta que tentaram, mas não conseguiram apagar ao mesmo tempo em que construíram mais inúmeros presídios – onde quer que seja, com qual metodologia quer que seja, com que arquitetura quer que seja, mas com suas histórias e suas vidas enclausuradas para servirem de anti-exemplo para outros seguirem seus modelos e conseqüências.

Apagando a história: implosões, degradações e mato

 


O adeus anônimo na
parede da guarita: "Adeus
Ilha Grande 25/03/94"

            “Enterrada como está no meio de dispositivos e de estratégias de poder, ela [prisão] pode opor a quem quisesse transforma-la uma grande força de inércia. Um fato é característico: quando se pretende modificar o regime de encarceramento, as dificuldades não vêm só da instituição judiciária; o que resiste não é a prisão-sanção penal, mas a prisão com todas as suas determinações, ligações e efeitos extrajudiciários; é a prisão como recurso de recuperação na rede geral das disciplinas e das vigilâncias; a prisão tal como funciona num regime panóptico” [41].


 

Referências Bibliográficas

 

BARATA, Agildo. Vida de um revolucionário: memórias. São Paulo: Alfa-Ômega, 1978.

 

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir.História da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 1977.

 

LESSA, Orígenes. Ilha Grande (do jornal de um preso de guerra). São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1933.

 

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Record, 1984.

 

TORRES, André. Exílio na Ilha Grande. Petrópolis: Vozes, 1979.

 

 

Filmografia


“Memórias do Cárcere”. Direção: Nelson Pereira dos Santos, 1984.

 

 

Outras obras sobre a Ilha Grande

CYPRIANO, André. O Caldeirão do Diabo. Cosac & Naify: São Paulo, 2001.

 

MELLO, Carlos Egbert Hansen Vieira de. Apontamentos para a História do Rio de Janeiro, Angra dos Reis e Ilha Grande. S/ local, s/ data.



[1] FOUCAULT, M. “Vigiar e Punir”, p. 209.

[2] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere”, vol. 2, pp. 142-143.

[3] FOUCALT, M. “Vigiar e Punir”, pp. 107-108.

[4] FOUCALT, M. “Vigiar e Punir”, p. 178.

[5] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere”, pp. 76-77.

[6] FOUCAULT, M. “Vigiar e Punir”, p. 211.

[7] FOUCAULT, M. “Vigiar e Punir”, p. 216.

[8] LESSA, O. “Ilha Grande”, p. 75.

[9] LESSA, O. “Ilha Grande”, p. 45.

[10] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere”, vol. 2, p. 69.

[11] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere, vol. 2, p. 53.

[12] TORRES, A. “Exílio na Ilha Grande”, pp. 181-182.

[13] TORRES, A. “Exílio na Ilha Grande”, pp. 140-142.

[14] TORRES, A. “Exílio na Ilha Grande”, pp. 41-42.

[15] Idem, p. 10.

[16] TORRES, A. “Exílio na Ilha Grande”, pp. 145-147.

[17] LESSA, O. “Ilha Grande”, p. 21.

[18] BARATA, A. “Vida de um revolucionário: memórias”, p. 306.

[19] Idem, p. 305.

[20] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere”, vol. 2, p. 62.

[21] LESSA, O. “Ilha Grande”, pp. 45-46.

[22] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere”, vol. 2, p. 77.

[23] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere”, vol. 2, p. 151.

[24] TORRES, A. “Exílio na Ilha Grande”, p. 31.

[25] FOUCAULT, M. “Vigiar e Punir”, p. 39.

[26] TORRES, A. “Exílio na Ilha Grande”, p. 24.

[27] Idem, pp. 182-183.

[28] FOUCAULT, M. “Vigiar e Punir”, p. 265.

[29] LESSA, O. “Exílio na Ilha Grande”, p. 105.

[30] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere”, vol. 2, p. 66.

[31] TORRES, A. “Exílio na Ilha Grande”, p. 12

[32] Idem, p. 35.

[33] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere”, vol. 2, p. 34.

[34] LESSA, O. “Ilha Grande”, p. 79.

[35] Idem, p. 165.

[36] TORRES, A. “Exílio na Ilha Grande”, pp. 33-49.

[37] LESSA, O. “Ilha Grande”, p. 31.

[38] TORRES, A. “Exílio na Ilha Grande”, p. 180.

[39] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere”, vol. 2, p. 137.

[40] RAMOS, G. “Memórias do Cárcere”, vol. 2, pp. 66-67.

[41] FOUCAULT, M. “Vigiar e Punir”, p. 267.






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