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O caráter massificado da individualidade

Jean Pierre Chauvin
  tupiano@usp.br
Doutorando –  Letras/USP
Prof. de Língua Portuguesa e Literatura do CIPS-Jabaquara

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“se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que a tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós” (José Saramago)[1]

 



            Um dos argumentos verbalizados com maior freqüência atualmente, da roda de bar aos livros, diz respeito à absoluta falta de solidariedade dentre os seres que compõe as sociedades adeptas da civilização letrada. Esse estado de coisas pode ser verificado, salvas as restrições ideológicas, tanto em discursos situacionistas (no Brasil sempre foi difícil dizer para que lado pendem os governantes) quanto de oposição.


            Daí a vigência de um certo caráter planificador por parte de pessoas mais e menos esclarecidas ou politizadas. A palavra “planificação”, a exemplo de muitas outras - centralização e flexibilização, por exemplo - é bem recente e parece ter a tarefa de atualizar uma outra, muito empregada nas rodas de intelectuais, desde a vinda da família imperial para o Brasil: conciliação. É ela que explica a famigerada má distinção entre o público e o privado, a começar pelas relações estabelecidas entre coroa portuguesa e os homens escolhidos para governar um país sem muita certeza de direção, desde os tempos da colônia. Nas palavras de Raymundo Faoro:

“O quadro metropolitano da administração como que se extravia e se perde, delira e vaga no mundo caótico, geograficamente caótico, da extensão misteriosa da América. Os juristas e burocratas portugueses, pobres de inscrição criadora – ao contrário dos escolásticos espanhóis, enredados na sutileza de especulações pouco práticas, e dos colonizadores ingleses, desvinculados da teoria rígida – transplantam mais do que adaptam, exportam mais do que constroem. Flexibilidade colonizadora e hierática fixação de pensamento – esta a característica da armadura colonial, imposta ao flutuante, mutável e rebelde mundo atlântico. Vinho novo lançado em odres velhos, mas vinho sem capacidade para fermentar e romper os vasilhames tecidos por muitos séculos” [2]

 

            A concomitância do par individualidade e massificação talvez seja uma dos temas mais interessantes para um observador de nossas manifestações sociais e culturais. Uma das cenas mais corriqueiras no Brasil dos anos noventa, que persiste em nossos dias, é a rápida expansão dos usuários de produtos multifuncionais.

            O celular, por exemplo, quando era novidade no país, colaborou para delimitar o poder de voz das camadas de menor poder aquisitivo. Com a popularização dos aparelhos vieram os diversos modelos, as várias tonalidades de som, cor e preço, concedendo a um antigo sonho de consumo algo da perversa lógica chamada democratização - a exemplo da ampliação de locais com acesso à internet e relógios suíços, baratos, mas nem tanto.


           
Um dado óbvio, mas pouco mencionado pelos usuários mais ferrenhos das modernidades capsulares, mereceria maior atenção: afinal, existirá a possibilidade de individuação, considerando o contexto histórico de nosso tempo? Quando um sujeito adquire um relógio, certamente à hora da compra, assomam um conjunto de pequenas motivações: condições de pagamento, modelos, funcionalidade etc.


           
Mas qual a reação dos mesmos indivíduos quando percebem que a mesma condição que assegurava momentaneamente seu destacamento dentre os círculos que freqüenta, padroniza gradativamente o grupo de usuários fiéis a tais marcas e modelos?


           
O paradoxo é evidente: o consumismo baseia-se na perpetuação de uma suposta necessidade de reiterada individuação perante a sociedade, processo que se exaure à medida que diminuem as margens para parcelar o pagamento dos modismos sucessivos.


           
A obviedade da questão ganha roupagem de frustração, quando lembramos que as conjunturas por que passa um país emergente tal como este remontam ao Segundo Império. Luiz Felipe de Alencastro registrou com habilidade uma amostra digna de nota:

“no ano de 1850, os fluxos do comércio externo brasileiro conhecem uma rápida e decisiva reorientação (...) Cessado o tráfico, ocorre um retorno das divisas obtidas nas vendas de produtos de exportação e até então reservadas para financiar a compra de africanos (...) Horas e minutos da regularidade diurna dos trópicos, cuja medida costumava parecer aleatória e desnecessária aos luso-brasileiros, começam a poder ser marcados passo a passo, de cebolão na mão, nas casas, nas fazendas, nas estradas, nos rios, nos pontos do litoral. Com a inauguração, a partir de 1850, de uma linha regular de navio a vapor entre Liverpoool, na Inglaterra, e o Rio de Janeiro, o tempo imperial entra em sincronia com o tempo da modernidade européia”.[3]

 

            Verdadeira matriz de nossa história, o cultivo à imagem serviu ao modo de uma sobrepeliz cultural. Os fenômenos evoluem de acordo com o tempo, ganhando artigos materialmente mais acessíveis e consumidores mais atentos aos detalhes. Mas, em lugar de pianos, bijuterias, vestes e perfumes importados, disputamos de forma atroz uma suposta supremacia assegurada pelo poder de novas formas de aquisição: estojos escolares, equipamentos eletrônicos, automóveis, best-sellers, objetos cujo escopo parece migrar de uma função a outra.


           
O caso dos livros mais vendidos é um exemplo que demonstra a sistematização operada pelos consumidores: de fontes de conhecimento e cultura muitas vezes convertem-se em verdadeiros artigos de consumo, adquiridos pelos tons da capa ou pela qualidade de acabamento.


           
De maneira similar, as pessoas ditas cultas e civilizadas concorrem avidamente à suposta imprescindível atualização pseudocultural: o último filme que ganhou o Oscar, os discos que mais venderam, a amostra de um artista de vanguarda, as longas filas nas principais avenidas das metrópoles – avenidas que, de certa forma, desempenham papel similar ao do Passeio Público, no Rio de Janeiro: freqüentado assiduamente por transeuntes que, além de namorar ou assistir ao luar, desejavam ser vistos por seus concidadãos. Ora, isso também não é novo; acompanhou as várias reformas que o Parque recebeu desde sua inauguração, na virada do século XVIII para o XIX.


           
No plano político, a transição do Império para a República foi marcada pela ligeira e pouco profunda alteração nos modos e relacionamentos sócio-econômicos, como destaca Nicolau Sevcenko:

 

“No decorrer do processo de mudança política, os cargos rendosos e decisórios – antigos e novos – passaram rapidamente para as mãos desses grupos de recém-chegados à distinção social, premiados com as ondas sucessivas e fartas de nomeações, indenizações, concessões, garantias, subvenções, favores, privilégios e proteções do novo governo. O revezamento das elites foi acompanhado pela elevação do novo modelo do burguês argentário como o padrão vigente do prestígio social (...) Era a consagração olímpica do arrivismo agressivo sob o pretexto da democracia e o triunfo da corrupção destemperada em nome da igualdade de oportunidades.”[4]

 

            O que se vê hoje, portanto, vem de longa data. Temas muito comentados como fragmentação e egoísmo são mais ou menos confrontados, senão confortados por outros, originando oxímoros mal feitos e pouco esclarecedores - exclusão social, solidariedade – quando não compõem indistintamente teorias pós-modernas carinhosamente apelidadas de terceira via, terceiro setor, pensadas a partir de supostas cabeças privilegiadas, preocupadas com os... países emergentes. Historiador sensível às oscilações de comportamento das sociedades, Eric Hobsbawm notou que:

 

“A revolução cultural de fins do século XX pode (...) ser mais bem entendida como o triunfo do indivíduo sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios que antes ligavam os seres humanos em texturas sociais. Pois essas texturas consistiam não apenas nas relações de fato entre seres humanos e suas formas de organização, mas também nos modelos gerais dessas relações e os padrões esperados de comportamento das pessoas umas com as outras; seus papéis eram prescritos, embora nem sempre escritos.”[5]

 

            Daí a crença em termos quase absolutos na auto-suficiência, outro sinônimo mal empregado por senhores e senhoras de bons modos, quando em posições favoráveis: posições favoráveis que em geral revertem assimetrias para o(s) outro(s) lado(s)... Aliás, um dos trejeitos mais empregados recentemente diz respeito a um estado de coisas em que afirmar a falta de solidariedade significa ter “evoluído”, na mesma razão em que nos fizeram crer que “cuidar da própria vida” fosse um conjunto de atitudes destituídas de egolatria, já que as classes médias pagam sua dívida para com o outro, via cartão de crédito, paradoxo máximo: caridade em forma de consumo, que muitas vezes não pára na fatura do cartão, vide os superfaturamentos de entidades com décadas de (ir)responsabilidade social no dorso.


           
Tornados em homens de etiqueta - pequena ética, é bom lembrar - não consideramos de fato a coletividade, já que cuidar de nós mesmos representa o automático, mas nem por isso natural descaso, em relação aos outros. Que outros? Aqueles que a mídia adotou para divulgar campanhas privatizadas de arrecadação. Afinal, quereríamos algo mais chocante do que o marketing feito às expensas da miséria que fazemos por parecer alheia? 

 

 

Referências bibliografias

 

ALENCASTRO, Luiz Felipe. “Vida e ordem privada no Império”. In: NOVAIS, Fernando A.; ____. História da vida provada no Brasil: império. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

 

FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 3ª ed. São Paulo: Globo, 2001, p. 204.

 

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. 2ª ed. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995

 

SARAMAGO, José. Todos os nomes. São Paulo: Planeta De Agostini, 2003, p. 42.

 

Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na I República. São Paulo: Brasiliense, 1983




[1] Todos os nomes. São Paulo: Planeta De Agostini, 2003, p. 42.

[2] Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 3ª ed. São Paulo: Globo, 2001, p. 204.

[3] “Vida e ordem privada no Império”. In: NOVAIS, Fernando A.; ALENCASTRO, Luiz Felipe. História da vida provada no Brasil: império. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, pp. 37-8.

[4] Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na I República. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 26.

[5] Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. 2ª ed. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 328.




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