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“Terra para Rose”

Olívia Pavani Naveira
olivia@klepsidra.net
1º Ano - Letras/USP
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Ensaio sobre o filme :

“Terra para Rose”

Dirigido por Tetê Morais, 1987

 

Rose morreu. Se  fosse possível, pediria meu dinheiro de volta, o ticket do cinema ou a locação do vídeo. O título me enganou, pois a Terra não é para Rose, pelo menos, não a terra que ela queria ver divida .            

Essa mulher, entre muitas que deram seus depoimentos durante o documentário, era a figura mais singela, doce e esperançosa do movimento que acompanhamos durante os 84 minutos de duração da fita.  Em muito pouco tempo, as pessoas e as questões que vemos serem discutidas no vídeo tornam-se mais  caras e próximas de nós.  Nos emocionamos ou somos   tocados de alguma forma.


Não é justo! Recebermos a notícia da morte de Rose quase no final do filme, quando queremos ter    a esperança,  de que todos irão viver felizes para sempre. Anticlímax.  O documentário passa muito longe da perspectiva reconfortante de um futuro melhor, podemos considera-lo muito mais esperançoso no início do que no final.


Se a esperança é a ultima que morre, talvez estejamos com problemas, pois Rose morreu.


Visto 17 anos depois de ter sido realizado, as questões que o documentário traz continuam a serem atuais. A Reforma Agrária na oitava potência mundial ainda não saiu do papel. Não é possível considerar como  “feliz”, a situação econômica e social da maioria da população brasileira.


Rose tinha tantas esperanças...


A luta pela reforma agrária no país,  documentada  por Tetê Moraes,  mostra   um dos movimentos sociais na luta pela terra,  que ocorreu no Rio Grande do Sul em meados dos anos 80. 1500 famílias montaram um acampamento na fazenda Anoni, que encontrava-se num processo de desapropriação que durou 14 anos. Apesar de toda a pressão exercida por esses camponeses e até mesmo da opinião pública,  o governo foi muito lento ao tratar do assunto.



A briga dessas famílias para que houvesse um assentamento nessa fazenda, antes considerada improdutiva, virão a constituir em  parte,  a  gênese do  MST. Este, foi  fundado em 1986, a partir dos resultados do Primeiro Encontro Nacional dos Sem Terra realizado em Cascavel, estado do Paraná.


            A luta pelo direito a terra, mostrada  no  documentário, constitui-se como um forte  movimento da luta popular, que se organizou para exigir seus direitos e fazer valer suas idéias,  reunindo elementos políticos e religiosos.

            Na história do Brasil, encontramos diversos momentos em que se deflagraram  lutas  camponesas, por terra e por condições melhores de trabalho.  Lutas que sempre foram marcadas por uma grande violência, principalmente a partir da década de 70.


O choque que tomamos com a morte de Rose,incorpora apenas mais um número às  estatísticas  de morte de camponeses durante conflitos  de terra. Não se pode dizer que Rose tenha sido assassinada, mas sim ,que foi   atropelada por um caminhão durante uma manifestação perto da fazenda Anoni. Dois de seus companheiros também morreram.


Descobriu-se com a perícia, que a versão dada pelo motorista do caminhão para o atropelamento, de que os freios do veículo estavam quebrados,  era falsa. Prestando uma atenção maior na capa do filme podemos notar, que no lugar do rosto de Rose, encontramos uma pergunta “Quem matou Rose?”, o aviso sobre o destino da mulher, que acompanhamos durante todos os movimentos dos sem terra, já tinha sido contado. Azar de  quem não havia prestado atenção.


Sabemos assim como o final do documentário, o que  parte do  movimento que vemos documentado em 1985,  representará  no campo da política brasileira e dos movimentos sociais que tem-se mostrado forte atualmente.


No entanto, na primeira cena do filme, não é possível identificar com nitidez o que se passa. Rose está na frente, (ainda não conhecemos seu nome) junto a muitas outras mulheres, homens e crianças.   Juntos , alguns com os pés descalços,  o grupo canta: “Vou com meu senhor (...) a terra prometida (...)”. Andam   como uma marcha, e não há como saber, se o que vemos é uma procissão ou manifestação. Faltam em suas mãos os santos,  velas, e terços. O que  notamos são  os instrumentos de lavoura. A enxada levada por um grupo de mulheres está em posição baixa; um ato de  paz, de defesa e não ataque.


Na próxima cena, um  grupo passa por uma ponte sobre um belo  pôr-do-sol. Eles estão  batendo palmas , gritando e cantando enquanto seguram  galhos verdes em suas mãos. Seria por acaso uma procissão num Domingo de Ramos? Provavelmente não.


As duas  primeiras cenas compõem as principais imagens que serão repetidas nos principais atos do movimento que reuniu 1500 famílias na fazenda Anoni. Uma luta pela posse das terras e pela Reforma Agrária.


A primeira cena refere-se ao momento em que houve um cerco por parte da política militar, que impedia o grupo de sair do acampamento para ocupar outras fazendas.Um dos últimos desdobramentos mostrados pelo documentário durante os quase dois anos de ações enfáticas dessas famílias para a posse das terras da fazenda.


A segunda refere-se à chegada dos romeiros, um grupo de sem terra formado entre as famílias que se encontravam na fazenda Anoni. Eles saíram em manifestação,  andando 50 km até Porto Alegre, para pressionar o governo a desapropriar e lhes  dar o termo de posse das terras.


A dinâmica do documentário,  compõem-se de uma divisão dos  acontecimentos ocorridos entre os anos de 1985 a 1987 em cinco partes: A promessa, A espera, O confronto, O sonho e A trégua.


Narrado pela voz feminina de Lucélia Santos, as mulheres são as principais interlocutoras escolhidas para comentar e descrever, os acontecimentos que vão tomando parte de suas vidas. No início, não sabemos o nome das mulheres,  apenas o de Rose, que  aparece em uma legenda.


Após um breve histórico sobre a questão agrária no Brasil e as medidas que o governo Sarney havia prometido  realizar em relação à Reforma Agrária inicia-se as ações na fazenda Anoni.


Rose é a primeira das mulheres  a contar a  história, de como chegou na Anoni grávida e enfrentado a polícia,  em 29 de Outubro de 1985. Em 1 de novembro, Rose deu a luz à primeira criança nascida no acampamento, Marcos Tiaraju. Participando da luta pela terra junto à  mãe, desde que estava em sua barriga, Marcos foi um dos símbolos da esperança que movia o grupo. “Para traz eu não volto”, disse Rose aos policiais quando chegou no acampamento.


Com “coragem e fé em Deus” todos prosseguiram com sua luta. A relação existente entre a religião e o movimento na Anoni , é pouco explorada durante o documentário.As pastorais e os padres ligados à  teologia da Libertação formaram elementos muito fortes na constituição desses movimentos populares. A religião aparece como uma das principais  bases para a ação dessas pessoas, além das suas consciências políticas. É principalmente através da fé em Deus, que muitos do grupo diziam conseguir sobreviver a tantas diversidades e dificuldades. As ações do movimento pela posse da Anoni eram sempre acompanhados pela   execução de missas, recebendo um apoio efetivo de padres e até mesmo de  freiras . 


A trilha sonora do documentário é repleta de músicas de cunho religioso e de gritos de luta. As vozes que os compõem são  masculinas, femininas e de crianças.


     As imagens captadas por Tetê Morais são muito bonitas e fortes. As tomadas que mostram o assentamento das 1500 famílias  que ocupam a fazenda Anoni, são belas e impressionantes. Vemos o cotidiano dos acampados. Corta-se lenha, lava-se roupa, as mulheres cozinham e as crianças  brincam. Os barracões cobertos por lonas pretas tornam-se bonitos,  um dos símbolos de luta e de força no desejo pela divisão mais igualitária da terra. Tetê Morais transforma em poesia imagens  que denotam isolamento e pobreza .


Ao partirem em marcha para Porto Alegre, o documentário dividir-se  em três momentos espaços intercalados de ação. Temos o acompanhamento das ações que  passam a ocorrer na Marcha e na  cidade de Porto Alegre e o cotidiano dos  acampados  no Incra e na Assembléia legislativa, além dos depoimentos e acontecimentos no Acampamento na Anoni  e os comentários do dono da Fazenda e do Ministro da Agricultura. 


São extremamente fortes e contraditórias a visão do dono da fazenda que está sendo desapropriada e a dos componentes do grupo que tentam conseguir a posse das terras.


Um dos principais movimentos populacionais que assistimos no Brasil a partir da década de 50, mas que se acentua nas décadas de 70 e 80, são as migrações dos trabalhadores do campo para as cidades. O modelo econômico adotado pelo governo brasileiro favorecia as grandes propriedades e a modernização do campo acentuando cada vez mais a concentração de terras e a perda do emprego e de pequenas unidades produtivas por parte da população mais pobre e menos favorecida.


Quando lutam por Reforma Agrária, os assentados seus depoimentos no documentário,  falam em restabelecer a produção agrícola, com a diminuição do desemprego e o fornecimento de produtos alimentares mais baratos para quem vive na cidade. Muitas mulheres, afirmam seu desejo de terem terra para plantar, criar gado, porco, ter uma horta; ou seja, permanecerem no campo e não de irem viver na cidade.


Percebe-se no relato dessas pessoas, um projeto de vida, um projeto social, que se destaca das idéias globalizantes e de inserção de uma população, como mão de obra urbana, trabalhando em fábricas ou com prestações de serviço. Nota -se um movimento no  contrafluxo da economia mundial, que não se alinha a desejos de inserção no mercado internacional, mas sim no desenvolvimento interno do país, a partir da união da população em cooperativas , comunidades e grupos familiares. Grande parte dos participantes dos  movimentos por terra , depois de assentados, organizam-se em unidades familiares.


No acampamento filmado por Tetê Morais, vemos uma população composta por idosos, jovens,  adultos e crianças de ambos os sexos.   Mostra-se como na prática, as pessoas vão se organizando e gerindo as necessidades que vão aparecendo nos acampamentos.  As mulheres relatam como organizaram o grupo da higiene, da saúde, chegando a comentar suas preocupação com a educação.


Durante o tempo em que ficaram na Assembléia, Rose e mais um das mulheres, ficaram com a incumbência de organizar a alimentação das pessoas que estavam acampadas. Tem-se o grupo que se responsabilizará em cozinhar, cortar os alimentos os que farão a limpeza do chão, os que  lavam os pratos. Todos ajudam.


Para o fazendeiro, proprietário da Anoni, esses movimentos vêm para prejudicar a agricultura, uma vez que invadem fazendas “produtivas” e desencorajam o produtor a produzir, trazendo danos e prejuízos à economia.


O documentário traz sempre  um diálogo entre as opiniões divergentes do movimento dos acampados na fazenda, com as autoridades e o dono da fazenda. É surpreendente o esclarecimento e a lógica simples e pratica com a qual os depoimentos dos sem terra vão ganhando cada vez mais credibilidade frente aos dos outros.


Quando começamos a nos familiarizar com os rostos daqueles que participaram do movimento, começamos a notar as correspondências entre as  imagens mostradas no filme. Reconhecemos entre as mulheres encarregadas da faxina em uma das salas da assembléia ou  que se encontram em algum canto desfocado das imagens, aquelas que haviam aparecido nas primeiras imagens do documentário,  cantado, andando e gritando palavras de ordem  nas marchas.


Um dos momentos mais belos entre  os relatos mostrados no documentário é quando Rose e as outras mulheres, comentam seus aprendizados com a experiência de estarem vivendo em comunidade. “Todo mundo ajuda o outro (...) como irmão”.


Serli, só conhecemos seu nome no fim do documentário, diz ter aprendido a viver menos para si, e mais para as outras pessoas, encontrado um sentido para família, que extrapolou o da unidade consangüínea. Todos passam a por em prática o conceito de comunidade , de inter-relação, confiança e dependência mutua, no qual todos dividem tarefas  e assumem suas responsabilidades perante e a favor do próximo, do companheiro.


Talvez seja essa uma das lições que mais tenha ficado em relação ao documentário, a crença de que o trabalho em conjunto pode vir a ocorrer e ser proveitoso para todos, de forma que todos se percebam fazendo parte de uma verdadeira comunidade.


Em uma das faixas, feitas pelos sem terra durante o cerco militar “Estado de Sítio” que sofreram quanto tentaram retirar-se da fazenda Anoni , havia as seguintes palavras 

  “Se o exército também é povo, ele também é a favor da reforma agrária”.


Infelizmente, nem sempre as necessidades da população brasileira, reflete-se em movimentos amplos pela luta por melhorias. Apesar do exército ser formado por parte da população, os soldados reprimiram o movimento, obedecendo às ordens de seus superiores. A coesão social que constitui a formação da sociedade brasileira não foi feita de maneira cooperativa e sim impositiva, através da exploração do trabalho escravo em grandes empreendimentos agrícolas.


Assim  apesar dos brasileiros em sua maioria, serem a favor da Reforma Agrária e os movimentos sociais tenderem a reivindicar a redistribuição das terras improdutivas no país, a realidade prática de formação e organização de comunidades realmente orgânicas que funcionem é uma experiência muito recente. Apesar de algumas experiências de Assentamento que têm dado certo, a reforma agrária continua sendo um sonho.


De fato, alguns brasileiros através da sua luta por dignidade, respeito e direito à vida, têm experimentado a prática de viverem em comunidade, mas infelizmente são muito poucos e as esperanças assim como Rose, são frágeis e podem sim, morrer pelo caminho.

 




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