Arqueologia: dos ladrões de túmulos aos processuais cognitivos

Danilo José Figueiredo
Mestrando em História Social - USP
danilo@klepsidra.net


Introdução:

 

         Este texto não foi originalmente produzido para a Revista Klepsidra, mas, ao contrário, foi nela publicado como parte de um projeto editorial de apoio à pesquisa acadêmica. Este projeto propõe a publicação de relatórios de Iniciação Científica, de projetos e pré-projetos de Mestrado e de relatórios finais de cursos de pós-graduação. O presente trabalho se enquadra precisamente nesta última categoria e, portanto, excetuando-se este primeiro parágrafo e o item 4, incluídos a posteriori, para elucidar a compreensão do leitor, não terá a mesma clareza habitual presente em meus textos em Klepsidra. Esta limitação deve-se não a um desejo meu como autor, mas a uma imposição do meio acadêmico que pretere trabalhos cuja linguagem seja menos rebuscada e, por conseguinte, de acesso mais amplo. É uma pena!


No segundo semestre de 2003, o primeiro semestre do período deste curso de Mestrado, o curso escolhido pelo orientando Danilo José Figueiredo, com o aval duplo de sua orientadora Drª. Maria Luiza Corassin e da ministrante Drª. Elaine Farias Veloso Hirata, foi “Arqueologia e Religião: Questões de Método e Estudos de Casos”.


       
Após a triagem de cursos e escolha prévia do orientando, este e sua orientadora realizaram uma discussão no sentido de avaliar a pertinência do curso para a dissertação que se está desenvolvendo. A conclusão conjunta a que puderam chegar foi a de que apesar de o curso aparentemente, por sua descrição e bibliografia apresentadas na página do sistema Fênix Web, não estar diretamente relacionado à dissertação em progresso, ainda assim seria a melhor escolha passível de ser feita.


        
Colaboraram para a escolha do curso os seguintes fatores a serem tomados em conta:

-         Prazo de três semestres a partir do ingresso do mestrando no sistema de pós-graduação em História Social da USP – departamento em que está vinculada a pesquisa em andamento – para a conclusão dos trinta e dois créditos em disciplinas de pós-graduação.

-         Escassez de disciplinas, nos demais departamentos da USP, que estivessem mais de acordo com a proposta da pesquisa em si.

-         Pertinência do curso e dos conhecimentos em Arqueologia a que se propunha trabalhar para a formação de um futuro docente de nível superior na área de História Antiga.


Neste trabalho de conclusão de curso, o que se deve avaliar é tanto o aprendizado advindo deste curso, aprendizado este cuja avaliação, é importante que seja ressaltado, não será apenas limitada a este trabalho de conclusão, mas também contará com as resenhas dos textos trabalhados em sala de aula, um questionário acerca de um desses textos e as discussões realizadas entre professora ministrante e alunos ao longo de sua duração. Além do aprendizado obtido, este trabalho também tem por objetivo – inclusive este é seu objetivo principal – avaliar a real contribuição do curso para a dissertação de Mestrado em desenvolvimento.


Este trabalho não tem, por conseguinte, a obrigatoriedade de analisar quaisquer sítios arqueológicos, de encontrar uma real aplicação do curso realizado para a dissertação em curso, de propor novas teorias ou mesmo de se esgotar em si mesmo. A única obrigatoriedade deste trabalho é ser um relatório de aprendizado e de possíveis implicações do curso na dissertação de mestrando.


 

1 – Espacialidade, Temporalidade e Fontes do Curso:

 

         O curso ministrado pela Drª. Elaine Farias Veloso Hirata dividiu-se em quatro partes distintas, mas que se inter-relacionavam: inicialmente tratou das teorias da Arqueologia no intuito de familiarizar os pós-graduandos com o pensamento arqueológico e com a História da Arqueologia; em seguida, tratou-se da Cultura Minóica e dos achados arqueológicos que compõem a gama de conhecimentos que detemos acerca desta cultura atualmente; passou-se então para o estudo da Grécia Micênica e de suas relações com a Cultura Minóica; por fim, discutiu-se o surgimento das póleis e a vida tanto na Grécia, quanto nas colônias gregas.


        Os textos indicados para leitura obrigatória e opcional mostraram-se muito pertinentes para os assuntos que se estava discutindo, trabalhou-se com estudos de caso arqueológicos, com modelos de escavação e dedução para a Arqueologia do Culto, como o de Colin Renfrew, com teorias interpretativas como a de Ian Hodder e com diversos textos descritivos de períodos, estudados.



Colin Renfrew


         As indicações bibliográficas específicas para a realização deste trabalho comparativo foram também de grande proveito, pois através delas foi possível observar outros aspectos contidos na criação de um mito, ou, melhor dizendo, de um personagem, visto que o objeto da dissertação de mestrado que está em progresso, como será referido no item seguinte deste trabalho, não é Júlio César e nem sequer seu mito, mas o personagem chamado Júlio César da maneira que foi construído pelos biógrafos Suetônio e Plutarco, em suas obras “A Vida dos Doze Césares” e “Vidas Paralelas”.


        
A periodização do curso, no entanto, difere em muitos séculos dos dois períodos históricos relevantes para a dissertação de mestrado que se desenvolve, ou seja, a primeira metade do século I a.C., época em que viveu Júlio César e a virada do século I d.C. para o século II d.C., período em que viveram tanto Suetônio quanto Plutarco. O curso centra-se num período muito mais recuado, com seu objeto primeiro – Cultura Minóica – iniciando-se por volta do século XXI a.C., o segundo objeto de que trata o curso, a Cultura Micênica, também data de um período extremamente recuado, anterior ao XII século a.C.. Apenas a Grécia Arcaica data de um período um pouco mais próximo no tempo, porém, ainda assim, distante mais de seis séculos no tempo do período central da dissertação.


        
As diferenças espaciais também são muito relevantes, na medida em que Júlio César viveu em Roma, na Itália – além de passar oito anos em campanha nas Gálias (atual França) – e o curso centrou-se no estudo da Grécia e do mundo Grego, ou seja, Creta, as Cíclades, a Jônia e, apenas em menor escala, a Magna Grécia e a Sicília.


        
Contudo, apesar das diferenças temporais e espaciais, pode-se constatar que o curso foi proveitoso para o desenvolvimento da dissertação na medida em que proporcionou instrumentos de análise crítica capazes de auxiliar um arqueólogo na descrição de um culto extinto através de abstração sobre os achados arqueológicos, processo que pode muito bem ser transportado para a História no sentido de se propor motivações aparentemente impossíveis de serem determinadas, mas que, com a análise dos vestígios e a abstração adequadas podem se tornar exeqüíveis.



Mapa da Grécia

 

         2 – Espacialidade, Temporalidade e Fontes da Dissertação:

 

         A dissertação em fase de desenvolvimento tem como ponto central as biografias de Caio Júlio César, um dos principais políticos da fase final da República Romana e cuja história de vida teve importância crucial para as transformações políticas imediatamente posteriores à sua morte que levaram seu sobrinho Otaviano a se tornar o primeiro Imperador de Roma, pondo um fim tanto à Guerra Civil que se instaurara quanto à própria República.


        
O estudo dos feitos político-militares de Júlio César, ou mesmo de sua vida como um personagem histórico, já são temas bastante trabalhados no campo da História Antiga e, dessa maneira, apesar de obras novas a esse respeito ainda estarem sendo produzidas nos dias atuais, pode-se considerar que estes temas já estão bastante bem estabelecidos no meio acadêmico, o que faria com que uma tese de doutoramento ou dissertação de mestrado se tornasse por demais repetitiva para que se justificasse.


        
O intuito da dissertação do mestrando é, portanto, não o de analisar os fatos da vida de César, mas sim, o de ler, compreender e, sobretudo, comparar suas duas biografias escritas por Suetônio e Plutarco. As duas biografias são diferentes e, em muitos aspectos, conflitantes, uma vez que as dessemelhanças entre os autores são enormes.


        
Inicialmente, devemos mencionar que ambos os biógrafos são praticamente contemporâneos, visto que nasceram em meados do século I d.C. e faleceram na década de 120 d.C., além disso, ambos eram filhos de famílias ilustres e detentores de certo prestígio social, no entanto, se por um lado Suetônio foi arquivista imperial no governo de Adriano, por outro, Plutarco era grego e, como tal, um mero habitante do mundo colonial Romano e não um cidadão como Suetônio.


Além das distinções iniciais, também devemos traçar as diferenças políticas entre ambos, uma vez que Suetônio era partidário do Senado e estava envolvido com a alta cúpula da sociedade Romana, sobre quem, inclusive, escreveu, uma vez que sua obra mais famosa: “A Vida dos Doze Césares” trata justamente de Júlio César e dos onze primeiros Imperadores de Roma e, conseqüentemente, de suas relações com seus séqüitos particulares e desafetos políticos, o tipo de indivíduos que fazia parte da convivência diária de Suetônio. O estilo de Suetônio é considerado pouco crítico, se bem que sua parcialidade seja notória em relação à ala Senatorial, da qual era simpatizante. Já Plutarco, foi sacerdote do famoso oráculo de Delfos, tendo viajado por diversas partes do mundo mediterrâneo, inclusive Itália e Egito, quando retornou à Grécia, passou a escrever sobre as vidas de personagens ilustres e terminou por produzir 46 biografias chamadas, em conjunto de “Vidas Paralelas”.  Nestas biografias, Plutarco conta, com um espírito muito pouco crítico, as histórias de dois grandes políticos, sempre um grego e um estrangeiro, de modo que seja possível encontrar um paralelo – em geral posterior – daqueles grandes heróis gregos do passado Clássico e Helenístico. As obras de Plutarco adquiriram importância tal durante o Renascimento que, além de influenciarem grandes escritores como Shakespeare, ou pensadores como Rousseau, Montaigne, Alfieri e Schiller, ainda deram as bases para a prosa literária francesa e inglesa da Idade Moderna. Plutarco adquiriu tal renome que seu nome passou a ser sinônimo, nos dicionários de diversos idiomas, de biógrafo.



Busto de Júlio César
        Ambas as biografias se assemelham em estilo, uma vez que seguem uma perspectiva cronológica ao relatarem a vida de Júlio César. Nenhuma inicia-se por sua infância, mas, ao contrário, pelo início precoce e frustrante de sua carreira política, aos 16 anos, ao ser nomeado sacerdote de Júpiter. Segue-se então a narrativa quase linear dos fatos da vida de César, sendo que, por vezes, autores como Tito Lívio, Cícero e Salústio são citados como tendo sido fontes óbvias daquilo que é relatado, além disso, tão óbvio quanto o fato de Suetônio e Plutarco terem tido acesso aos escritos de tais autores é o fato de ambos também terem lido “Os Comentários sobre a Guerra das Gálias” e “A Guerra Civil” de autoria do próprio César.

       As semelhanças estilísticas podem ser tidas como normais tendo-se em conta que ambos os biógrafos foram contemporâneos, pertencentes às elites de seus países, conhecedores do mundo – e dos heróis – Romanos e, possivelmente tendo se conhecido, senão pessoalmente, ao menos através de terceiros, devido a seus escritos.


Porém, o que mais pode ser digno de nota nestes dois trabalhos sobre o mesmo indivíduo é o fato de Suetônio, apesar de romano, dar menos valor aos bons feitos e condenar mais as atitudes negativas de César do que Plutarco, que era grego e cujo personagem grego que escolhera para ser o contraponto da biografia de César fora ninguém menos do que Alexandre, o Grande. Plutarco efetivamente exalta os feitos de Júlio César e aparentemente não questiona o fato de sua divindade – atribuição post mortem – ser fidedigna. Suetônio, por sua vez, apesar de não negar os feitos de César como um todo, faz o possível para denegrir sua imagem ao enfatizar seu possível caso amoroso com Nicomedes, Rei da Bitínia; além disso, no final de sua “Vida de César”, Suetônio afirma categoricamente que César mereceu morrer por ter se coberto de títulos e honras e por demonstrar um enorme desprezo pelas tradições do povo Romano.


       Tal diferença aparentemente ilógica, ou seja, um romano denegrindo a imagem de um herói de Roma e um grego exaltando-a torna-se compreensível na medida em que compreendemos as motivações de cada um dos autores: para Plutarco, como grego, fazia-se interessante que César parecesse o mais poderoso e glorioso o possível, posto que assim, ao supera-lo, Alexandre teria suas honras aumentadas ainda mais. Quanto a Suetônio, apesar de romano, como já foi afirmado, o autor era partidário da elite Senatorial, herdeira política dos antigos Optimates do final da República, facção política – ou factio, mais propriamente escrito – antagônica àquela que impulsionou a carreira de César e fez com que ele pudesse se tornar Ditador: os Populares.
Busto de Plutarco


Em toda a sua vida política, César sempre defendeu as tradições nascidas das reformas dos Gracos e levadas – antes dele – às últimas conseqüências por seu tio Mário, que fora sucedido por Sila, aquele que o caçara (a César) do início de sua vida política até o momento em que resolvera abandonar o cargo de Ditador, atrasando os planos de César em muitos anos e, inclusive, fazendo-o cair prisioneiro de piratas durante uma tentativa de fuga.


Apesar de a pesquisa que dará origem à dissertação de mestrado relacionar-se com e inserir-se no campo da História Antiga, suas fontes são fundamental e exclusivamente textuais, sendo assim, a Arqueologia e a análise de fontes materiais podem fornecer muito pouco suporte a ela em específico, mas, certamente, fornecerão suporte à futura carreira docente do mestrando.

 

         3 – Conclusão:

 

         Originalmente, devido a todos os aspectos já mencionados e às perspectivas prévias acerca do curso, a impresso original tanto do mestrando quanto de sua orientadora era a de que a disciplina em específico teria muito pouca relação com a dissertação de Mestrado a ser elaborada. Porém, ao contrário das expectativas, o curso mostrou-se útil.


É verdade que a escala de utilidade que se pode atingir é muito restrita justamente pelo distanciamento espacial e temporal entre o período estudado pelo orientando e aquele trabalhado na disciplina. Além disso, a dissertação se pauta unicamente em fontes textuais e não poderá fazer uso de fontes materiais como as que constituem o objeto de estudo da Arqueologia.


Apesar de tudo, a bibliografia indicada e os períodos estudados puderam elucidar pontos de suma importância não apenas para o futuro profissional de História Antiga, mas para – e especialmente para – a própria dissertação de Mestrado a ser trabalhada.


Com a obra de Colin Renfrew, foi possível perceber que idéias seculares tidas como imutáveis, como a de que é impossível, em termos científicos, inferir sobre a religiosidade de uma época passada, podem ser derrubadas às custas de pesquisa de fontes e de abstração acerca delas.


A partir da obra de Price, tornou-se mais compreensível a transição dos cultos individuais desde os tempos dos cultos heróicos dos Períodos Arcaico e Clássico, passando pelos cultos reais do Período Helenístico e, finalmente, chegando aos cultos a indivíduos abastados e/ou militares importantes e à Deusa Roma, no período final da República Romana, quando a Grécia já estava submetida ao domínio de Roma. Tais cultos podem ter sido uma espécie de precursores do culto imperial que veio a se desenvolver na Grécia e em suas antigas colônias sob o domínio Romano. Como o indivíduo cujas biografias constituem o objeto da dissertação de mestrado em andamento foi consagrado com honras divinas após sua morte, pode-se muito bem incluí-lo como sendo um precursor do culto imperial, inclusive porque, o próprio Price, em sua obra, retrata dois templos em honra de Júlio César e um terceiro com possibilidades de também ter sido dedicado a ele, todos na Ásia Menor, respectivamente nas cidades de Éfeso, Nicéia e Xanthos, neste há apenas a possibilidade da existência de um templo a César.


Entretanto, foi a análise acerca da ideologia feita por Conrad e Demarest que se mostrou a maior contribuição do curso realizado para a dissertação em curso. Em seu texto, os autores discorrem acerca dos Impérios Inca e Asteca, civilizações não tão distantes de Roma no tempo, quanto a civilização Minóica, por exemplo, mas certamente, muito mais distantes dela em termos culturais do que qualquer  outra cultura do Mediterrâneo poderia estar. Pois bem, se por um lado Conrad e Demarest se debruçam sobre essas civilizações Ameríndias, por outro, na verdade, o tema principal de sua obra é o de que a ideologia é o principal agente de mudança de um povo e deve ser encarado como tal. Os autores contrariam as teses de que a religiosidade possa ter apenas implicações políticas e enveredam pelo caminho oposto ao afirmarem que a política sim possa ter motivações religiosas.


Agora vejamos, se a política pode ser um instrumento de ação religiosa e acabar modificada pela ideologia dos cultos, então, podemos dar uma nova interpretação aos feitos de Júlio César tais como descritos por Suetônio e Plutarco, na medida em que César foi, em última instância, um grande general, o homem responsável pela conquista das Gálias à República Romana. Segundo as teorias tradicionais, a expansão territorial se dá por conta de um crescimento populacional exacerbado e descontrolado que passa a demandar mais terras do que aquelas disponíveis, o que pode-se observar de uma forma clara na atitude de Mário, antes de César, de permitir o ingresso de não-proprietários de terra nas forças armadas como forma de engrandece-las com o ímpeto conquistador de indivíduos desprovidos de terras que visavam consegui-las por meio de seu empenho nas legiões de Roma. No entanto, se Conrad e Demarest estiverem corretos em suas afirmações, então a expansão territorial de César não se deveu à necessidade de terras, mas a impulsos ideológicos de cunho religioso.


Em nenhuma hipótese é incorreto aplicar a teoria de Conrad e Demarest a Roma, na medida em que os próprios autores sugerem que ela não é restrita à América Pré-Colombiana, apenas foi desenvolvida tendo-a como base para seus argumentos. Indicam-na, como faz Renfrew com suas conclusões sobre o Santuário de Phylakopi, como um modelo universal onde, o que não se enquadra é que se trata de uma exceção.


        A relação diacrônica entre política e religião se dá, segundo os autores, na medida em que geralmente as elites governantes da política – em especial em sociedades mais antigas – também estão relacionadas à religiosidade e, sendo assim, são capazes de realizar pequenas alterações estratégicas nos cultos de modo a fazer com que eles se adequem mais a seus propósitos políticos e, por que não, militares.
A Ilha de Melos, onde situa-se o
Santuário de Phylakopi


Talvez tenha sido justamente isso que César tenha feito ao, como sugerem Suetônio e Plutarco, saquear o tesouro do Santuário Capitolino, ou ao erigir estátuas suas em santuários Galeses. Tal possibilidade também se encaixa na hipótese da Norma de Culto Bipolar tão bem exposta pela Drª Elaine Farias Veloso Hirata, onde se erigia centros de culto relacionados ao conquistador em pleno território conquistado de modo a fazer com que as populações conquistadas tanto se rendessem ao novo culto, quanto tivessem presente em suas vidas o reforçamento da noção de superioridade militar do conquistador.


É interessante, porém, que se note que todos os elementos fornecidos pelo curso ao mestrando são elementos de pesquisa que podem auxiliar muito na compreensão dos fatos da vida de César, mas pouco na compreensão de seu personagem criado nas biografias de Suetônio e Plutarco. Para tanto, as melhores fontes ainda permanecem textuais, tratam-se das obras dos próprios autores estudados, das obras de autoria do próprio Júlio César, das obras de autores contemporâneos a César e, por fim, das obras atuais que analisam tanto o gênero biográfico, quanto o período estudado, quanto os autores trabalhados. Uma nova fonte de elementos para se pensar, contudo, como a fornecida pela disciplina ministrada pela Drª. Elaine Farias Veloso Hirata, não deve ser descartada e pode, inclusive, ser vista como uma possibilidade futura de encaminhamento da presente pesquisa em níveis de doutoramento.

 

         4 – Breve Histórico da Arqueologia Ocidental:

 

         Como já mencionado no início da introdução deste texto, este é o único item que não fez parte do trabalho originalmente entregue no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Sua inclusão nesta versão destinada à publicação em Klepsidra deve-se à necessidade que, a meu ver, a revista possui de estar ao alcance de todos, sendo assim, de elucidar os pontos levantados em seus textos e não apenas levanta-los como se se destinasse unicamente a conhecedores plenos do assunto. Como diz um amigo também professor de História, João Adair Campagnolo: “O verdadeiro sábio é aquele que se faz entender a doutos e ignorantes!”.


       
Agora vamos ao item em si. Lembrando que tudo o que abaixo está escrito remete-se não a leituras realizadas durante o curso, mas às anotações de aula do referido curso e, portanto, às exposições da Professora Drª Elaine Farias Veloso Hirata.


      
Durante o Renascimento houve uma retomada da Cultura Clássica, intitulada na época de Helenismo. Em termos práticos isso representou uma recuperação das fontes com reedições dos textos clássicos, além disso, a fim de estudar as esculturas e a arquitetura deixadas pelas grandes civilizações do passado, surge também a Arqueologia.


       
Viagens à Grécia começam a se tornar freqüentes, inclusive Monarcas dos principais países da Europa passam a incluir a Grécia em seus roteiros de férias e/ou viagens científicas, como, inclusive fez, anos mais tarde, o Imperador brasileiro Dom Pedro II. A Grécia, portanto, torna-se o principal alvo do vandalismo Arqueológico Europeu dos primeiros tempos da Arqueologia. Um exemplo claro disso foi a ordem de Luís XIV, o auto-intitulado Rei Sol da França setecentista, aos seus embaixadores para que trouxessem tudo o quanto fosse de valor Arqueológico para a França a fim de enriquecer os museus Reais. A Arqueologia, nesta época e até meados do século XIX (ou princípios do século XX em casos como o do Egito) era praticada por ladrões de sepulturas, indivíduos movidos por interesses próprios e não-científicos que roubavam o que podiam para vender tanto a colecionadores particulares (daí as inúmeras coleções de antigos magnatas que hoje, nas mãos de seus herdeiros que não souberam manter seus negócios à pleno vapor depois das crises econômicas do século XX, viajam o mundo de museu a museu em forma de exposições fantásticas), quanto aos diversos museus de seus países, o que importava era quem pagaria mais. Os grandes museus da Europa, inclusive, só puderam formar os acervos magníficos de que hoje dispõem por conta das doações de magnatas excêntricos que, ao invés de colecionarem antiguidades em suas casas, preferiam ser vistos como beneméritos da sociedade ao financiarem os museus de suas cidades para que estes comprassem as obras e as colocassem em exposição para que todos vissem (é óbvio que, ao lado da obra sempre se apresentava uma placa com uma inscrição que dizia algo como: “uma cortesia de fulano de tal”).


        
Os saques, contudo, representaram em muitas vezes, a salvação da maior parte das obras roubadas, uma vez que muitas delas, caso tivessem permanecido em seus países de origem, teriam sido destruídas nas tantas guerras que assolaram o continente Europeu nos séculos XIX e XX. Para se ter uma idéia, o próprio Partenon já chegou a ser utilizado como paiol de munições. É, porém, muito pouco provável que as antigas potências imperialistas, em especial França e Inglaterra, devolvam a seus países de origem qualquer quantidade substancial de artefatos Arqueológicos, isso porque tais objetos já estão há tanto tempo nos museus de Londres e Paris que já passaram a fazer parte do patrimônio cultural daqueles países. Há, no entanto, grandes movimentos de petição e proteção cultural, especialmente na Grécia, no sentido de readquirir tais achados. Em Atenas, por exemplo, há um abaixo assinado com mais de um milhão de assinaturas requerendo a devolução daquilo que os Gregos chamam de Patrimônio Grego Roubado.


        
O Iluminismo do século XVIII, também chamado de Século das Luzes, espalha pela Europa Ocidental o culto ao racionalismo Greco-Romano. Também o Anti-Semitismo que começava a ressurgir depois de quase um século de relações mais amenas baseia-se em muitos sentidos na contraposição entre as culturas Clássica (Europa Ocidental e Grécia) e “Bárbara” ou Oriental (Fenícia, Judéia, Mesopotâmia...).


        
Nesse sentido, a Arqueologia do século XVIII não tinha pretensões de estudar a Cultura Grega, mas sim, de apreciá-la colecionando suas obras-primas, obras essas que agradavam ao bom gosto estético das elites governantes da Europa Ocidental e aos Déspotas Esclarecidos. Achados Arqueológicos que viessem a contribuir contra a idéia de racionalismo da Cultura Grega eram deliberadamente “esquecidos” nos porões dos museus, como no caso, por exemplo, de algumas estatuetas de chumbo incrustadas com pequenos pregos, achado que sugere a prática de magia (ou seja, a idéia de que uma ação perpetrada contra um símbolo pode incorrer numa reação contra um indivíduo) entre Gregos, o que é vetado pelo racionalismo e foi encontrado no porão do Museu de Atenas.


        
A Arqueologia Pré-Histórica, aquela voltada a escavar as civilizações da Europa continental e insular não-Mediterrânea acabou por se desenvolver de uma forma mais rápida que a Arqueologia Grega, uma vez que foi obrigada a lutar contra muito mais paradigmas do que aquela que, ou bem, ou mal, podia se dar ao luxo de se apoiar também em fontes textuais.


        
Somente por volta de meados do século XIX é que as primeiras Escolas de Arqueologia das grandes potências Européias começam a surgir. A pesquisa Arqueológica na Grécia propriamente dita só se estrutura a partir de 1870, mesmo com a Escola de Arqueologia Francesa de Atenas datando de 1846.


        
A exploração Arqueológica da Grécia era realizada através de Missões Arqueológicas, ou seja, grandes empreendimentos financiados por magnatas de seus países que compravam do governo Grego o direito de explorar determinadas áreas por um determinado tempo. Todas essas missões eram gerenciadas pelo Serviço arqueológico Grego que, no entanto, por possuir menos recursos, acabava escavando muito menos do que as Missões Arqueológicas Estrangeiras.


        
Apesar de as escavações perpetradas pelas grandes Missões Arqueológicas do século XIX terem tido um objetivo muito mais estético e filológico do que científico e um caráter muito mais semelhante ao de grandes obras públicas do que de expedições científicas minuciosas, a principal contribuição desse período para a Arqueologia foi a profissionalização (academicamente falando) dos Arqueólogos.


        
Após sua unificação tardia, a Alemanha, ao ter que se esforçar para cobrir o tempo de vantagem que as demais potências possuíam sobre ela, acaba por despontar como a principal força da Arqueologia Clássica no século XIX, posição esta que se mantém até a Primeira Guerra Mundial, acontecimento que destrói a economia Alemã e impossibilita o país de prosseguir com suas Missões Arqueológicas, ao menos até os anos 1930, quando Hitler realiza o milagre econômico Alemão e dá a esse país novamente a preponderância Arqueológica Européia, preponderância esta que se baseia não apenas na força econômica da Alemanha, mas principalmente na fixação Nazista pela estética Clássica.


        
Após a Segunda Guerra Mundial, a crise econômica que assola a Europa faz com que os grandes projetos Arqueológicos do passado sejam definitivamente abandonados. Em seu lugar, surge uma necessidade de se estudar e refletir sobre os milhares de achados já desenterrados ao longo de dois séculos de escavações sem preocupação científica.


        
Dentro desse novo contexto de acontecimentos do Pós-Guerra, Langlotz é o primeiro a propor uma regionalização Arqueológica da Grécia. Para ele, ao invés de estudos relativos à Arqueologia Grega, os pesquisadores deveriam dedicar-se a estudos referentes à Arqueologia de Olinto, ou à Arqueologia de Delfos, ou à Arqueologia de Atenas...


A impossibilidade de se financiar grandes obras de escavação faz com que partes outrora ignoradas ou preteridas dentro dos sítios Arqueológicos passem a obter maior atenção por parte dos pesquisadores, sendo assim, casas, louças profanas, objetos do dia-a-dia do cidadão comum, etc passam a ser mais valorizados nessa nova visão Arqueológica, em detrimento da visão antiga que valorizava apenas obras de arte, templos, palácios e pertences de aristocratas, ricos e governantes.


A cientificidade, porém, só se estabelece definitivamente nas escavações Arqueológicas Gregas à partir da década de 1950, isso, graças aos métodos de Wheeler. Equipes pluridisciplinares passam a buscar a análise da vida das regiões estudadas, dessa forma, já não se estudava apenas o santuário (ou necrópole, ou palácio), mas também a cidade em que estava inserido, bem como seus arredores, a fim de se compreender as vidas das pessoas que realizavam as oferendas e os cultos que movimentavam a vida do templo, ou que pagavam os impostos que mantinham o palácio, ou ainda, que eram enterradas na necrópole.


Nessa época, os países do Bloco Socialista, por sua vez, desenvolveram uma forma de Arqueologia muito particular, uma que, por se pautar na teoria da luta de classes de Marx, se preocupava com a cultura material, ou seja, constituía-se num extenso estudo das comunidades no sentido de se documentar a vida dos oprimidos para, dessa forma, ao se comparar suas histórias com as das elites, chegar-se a uma História dos menos favorecidos. As técnicas de escavação, bem como de análise utilizadas pela URSS eram muito superiores àquelas empregadas pelos países Capitalistas, isso porque havia investimento estatal nos projetos Arqueológicos, projetos estes que, num mundo pautado na obtenção de lucros, acabam sendo secundários frente à reconstrução econômica do Pós-Guerra.


Dentro dessa onda modernizadora que atingiu a Arqueologia à partir dos anos 1950, mas, mais fortemente à partir da década de 1960, a única frente da Arqueologia a resistir continuava a ser a Arqueologia Clássica. Para Etienne: “Se havia um bastião a resistir aos ventos modernizadores da década de 1960 foi a Arqueologia Clássica que não podia se envolver, sem se enfraquecer, com a Antropologia”.


Em meio a todas as mudanças teóricas que atingiam a Arqueologia no Velho Mundo, nos EUA surge um movimento que é batizado de New Archaeology, em outras palavras, a Nova Arqueologia. Para estes novos teóricos, a falha da Arqueologia tradicional estava no fato dela partir do estudo de fontes materiais e tentar concluir a realidade. Nesse sentido, seu método, batizado de hipotético-dedutivo, seria muito superior, visto que visava a formulação de uma hipótese prévia e, a partir de estudos de fontes materiais, a obtenção de sua comprovação ou negação. Dentro dessa nova perspectiva, o inglês Vere Gordon Childe, ao escrever o livro “O que aconteceu na História?”, propõe uma linha de estudo das sociedades antigas que se inicia no Oriente e desemboca nas sociedades ditas Clássicas, ou seja, Grécia e Roma. Esse modelo inicialmente ficou restrito à Inglaterra, mas hoje ainda é utilizado nos níveis de ensino inferiores ao Superior, visto que tradicionalmente se estuda primeiramente as sociedades Orientais (ou Hidráulicas), depois a Grécia e, por fim, Roma.


Em sua busca por modelos exatos, a New Archaeology passa a se afastar da História, considerada muito subjetiva, e a se aproximar de Ciências Exatas, ou da Natureza. Essa necessidade de distanciamento do subjetivismo, contudo, fez com que a New Archaeology terminasse por se aproximar muito de idéias Positivistas, pois, na medida em que traçava modelos exatos, concluía que o que descobria era real e científico per se.


Renfrew dizia que a Grande Ruptura entre a Arqueologia Clássica e a New Archaeology diferenciou-as no sentido em que a primeira se baseava no estudo de grandes obras e a segunda, no estudo de teorias.


Nos anos 1980, na Inglaterra, a Escola de Cambridge começa a discutir em que medidas a Arqueologia Clássica teria a ganhar se incorporasse técnicas da New Archaeology e, em contrapartida, em que esta poderia se fortalecer se pudesse se tornar um pouco mais parecida com a Arqueologia Clássica. Toda essa discussão foi fomentada pela força da Arqueologia Pré-Histórica no país, visto que boa parte dos vestígios de Culturas Neolíticas da Europa se encontram na Inglaterra.


As discussões que se estenderam por vários anos acabaram por realizar uma forte crítica ao cientificismo exacerbado da New Archaeology, porém, a idéia (fortemente presente na Arqueologia Clássica) de se pautar o mérito das declarações na autoridade do declarante também foi condenada. Surgiu, então, na Escola de Cambridge, em meados dos anos 1980, a Arqueologia Pós-Processual (nome que tinha a conotação de ser uma evolução da New Archaeology, também conhecida (e especialmente hoje conhecida) como Arqueologia Processual).


A Arqueologia Pós-Processual se pauta basicamente nas idéias Marxistas presentes na Arqueologia Soviética, mas incorpora em si grandes legados tanto da Arqueologia Clássica, quanto da New Archaeology. Os Arqueólogos Pós-Processuais dividem-se em três ramificações básicas: os Neo-Marxistas (voltados para o estudo da luta de classes ao longo da História), os Estruturalistas (que estudam as estruturas das sociedades antigas) e os Processuais Cognitivos. Estes últimos, ao incorporarem diversas técnicas tanto da Arqueologia Pós-Processual quanto da Antropologia, sempre (como é preceito da Arqueologia Pós-Processual como um todo) embasados em fontes textuais históricas, buscam o estudo de coisas outrora vistas como impossíveis de serem estudadas pela Arqueologia e, inclusive, algumas das responsáveis pela ruptura passada da New Archaeology com a História, ou seja, as Religiões, as Motivações Artísticas, as Mentalidades e os Pensamentos Cotidianos.


O cerne do curso ministrado pela Professora Drª Elaine Farias Veloso Hirata foi justamente a Arqueologia Pós-Processual, com a abordagem Processual Cognitiva, também chamada de Arqueologia Cognitiva, abordagem da qual o principal nome é hoje em dia Colin Renfrew.


Como já foi referido ao longo do trabalho, Renfrew, ao publicar os resultados de suas pesquisas no Santuário de Phylakopi, criou também um manual de Arqueologia Cognitiva, manual este que ele julga aplicável a qualquer situação. É óbvio, no entanto, que em termos Históricos nós podemos até mesmo traçar certos modelos, desde que estejamos certos de que tais modelos não passam exatamente disso, ou seja, de modelos e, sendo assim, não constituem a verdade absoluta e podem, inclusive, estar errados na maior parte das situações.

 


5 – Bibliografia:

 

CONRAD, Geoffrey W. e DEMAREST, Arthur A.. Religion and Empire:

The dynamics of Aztec and Inca expansionism. London: Cambridge University Press, 2001.

 

HODDER, Ian. Interpretación en Arqueología: Corrientes actuales.

Barcelona: Crítica, 1994.

 

HUMPHEYS, S. C.. Death and Time. 1983.

 

LAWRENCE, Denise L. e LOW, Setha M. The Buit Environment and Spatial

Form. In ANNUAL REVIEW OF ANTHROPOLOGY. Committee, 1990.

vol. 19.

 

MORGAN, Catherine. Athletes and Oracles: The transformation of Olympia

and Delphi in the eighth century B.C.. London: Cambridge University

Press, 1994.

 

PRICE, S. R. F.. Rituals and Power: The Roman imperial cult in Asia Minor.

London: Cambridge University Press, 1987.

 

RENFREW, Colin. The Archaelogy of Cult: The Sanctuary at Phylakopi.

Athens: The British School of Archaelogy, 1985

 

------------------------. What is Cognitive Archaelogy? In CAMBRIDGE

ARCHAELOGICAL JOURNAL. London: Cambridge University Press,

1993. vol. 3:2, pp 247 – 270.

 

WHITLEY, James. Tomb Cult and Hero Cult: The uses of past in Archaic

Greece. In WHITLEY, James. Time, Tradition and Society in Greek

Archaeology.



 

Saiba mais sobre a Arqueologia.
Compre livros a partir destes links e ajude Klepsidra a permanecer no ar de graça.



Interpretación en Arqueología - corrientes actuales, de Ian Hodder
Atheles and Oracles: the transformation of Olympia and Delphi in the eight century BC, de Catherine Morgan
Rituals and Power: the Roman Imperial cult in Asia Minor, de S. R. F. Price




Este texto é de total responsabilidade de seu autor e destina-se à divulgação científica.
Utilize-o apenas como fonte de consulta.
Copyright Klepsidra - Revista Virtual de História