Mestre dos Mares... ou do Mundo?

Danilo José Figueiredo
Mestrando em História Social - USP
danilo@klepsidra.net

 

         Introdução:

 

         Na edição anterior de Klepsidra, por motivos de excesso de trabalho (a vida de formado, ao contrário do que pensam alguns estudantes, é muito mais difícil do que a de estudante... bons tempos aqueles), fui obrigado a me ausentar desta que é uma de minhas tarefas prediletas: escrever para a revista. Devido às férias, contudo, pude colocar minhas coisas em uma certa ordem e, sendo assim, cá estou eu a lhes escrever outro de meus textos, caros leitores.


        
Como podem ver, este não será um de meus tradicionais textos da sessão “Grandes Impérios e Civilizações Antigas e Medievais”, mas sim, à exemplo de meus textos “A Revolução, os Lobos e o Besteirol” e “Darth Vader: Fé e Realidade em Star Wars”, outro texto sobre Cinema, desta vez, enfocando o filme “Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo” (Master and Commander – the Far Side of the World, EUA, 2003).


        
Escrever sobre Cinema numa revista especializada em História não é uma tarefa tão simples quanto parece, trata-se de algo muito diferente, por exemplo, do que escrever sobre o mesmo tema numa revista convencional de variedades. Digo isso porque numa revista de História, como Klepsidra, os escritores devem sempre ter em suas mentes que a abordagem histórica é fundamental, caso contrário, cairemos no âmbito da análise das técnicas cinematográficas, tarefa para a qual não fomos formalmente preparados numa faculdade e que, portanto, foge de nossa alçada.


        
Acredito que após quase quatro anos de revista não seja mais necessário dizer o que vou dizer, porém, como sempre leitores novos têm visitado Klepsidra, é interessante que se reitere o que, para muitos já não é novidade, ou seja, o fato de que este é um texto introdutório, escrito por um Historiador não especializado em Cinema, mas curioso a respeito; ele não se pretende definitivo sobre o tema, nem sobre o filme do qual trata, mas, tão somente, pretende ser uma forma de incitar a discussão e a pesquisa a respeito dos assuntos abordados (no caso de um público mais especializado e que busque textos sobre os temas tratados), ou mesmo esclarecer dúvidas do público leigo.


        
Espero que, tendo em mente todas as afirmações já consideradas e, sobretudo, já tendo assistido ao filme, uma vez que este texto não constitui uma mera resenha (pelo menos não na acepção de resumo ligeiramente crítico do filme, como fazem os diversos jornais quando intentam promover uma obra cinematográfica), mas uma análise, o leitor possa apreciar a leitura de minha obra.


Por fim, gostaria apenas de explicar que, como este texto não tem o intuito de promover o filme (uma vez que, ao contrário das revistas tradicionais que recebem dinheiro dos estúdios para fomentarem a ida de espectadores às salas de cinema, Klepsidra não recebe um tostão de ninguém e, por isso, seus escritores são livres para falarem o que pensam), o final não será omitido, nem mesmo as partes mais interessantes, ao contrário, serão analisados. Por isso, se você não assistiu ao filme, depois não diga que eu não avisei, que agora você não vai assistir porque perdeu a graça. Pelo contrário, até gostaria que você já o tivesse assistido para que assim você fosse apto a tecer sua própria crítica (favorável ou contrária) à obra, crítica esta que pode concordar, discordar ou concordar em partes com as minhas. Sem mais delongas: boa leitura!


 

1 – O Filme:

 

Mestre dos Mares é um filme muito extenso para um enredo não tão rico. Talvez a comparação entre Patrick O’Brian, autor dos livros que deram origem ao filme, e Homero, pelo caráter épico de suas obras tenha gerado no diretor Peter Weir a idéia de que a adaptação para o cinema do primeiro livro da série só poderia ser feita de forma épica, ou seja, num filme com orçamento milionário e um comprimento épico, leia-se, bem mais do que os 120 minutos convencionais aos longa-metragens.



O H.M.S. Surprise do filme

O filme se passa em 1808 e cerca de 90% de suas cenas se dão à bordo do navio H.M.S. Surprise, um velho navio da Marinha Inglesa comandado pelo renomado capitão Jack Aubrey, também conhecido como Jack Sortudo, um herói menor de batalhas navais no Mediterrâneo.


O navio Inglês é bom, mas já começa a se tornar obsoleto frente aos novos navios capazes de portar canhões de longo alcance, contudo, é seu capitão quem recebe da coroa Inglesa a ordem de proteger a costa Brasileira contra ataques e/ou invasões Francesas.

      Dentro deste aspecto, o filme remonta, é claro, e em nós Brasileiros esse fato histórico é mais facilmente reconhecível do que a qualquer outro povo do mundo, salvo, talvez, aos Portugueses, à vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil.


Como se sabe, após a aliança da Espanha ao regime de Napoleão, em 1801, o General Junot, comandante das tropas Francesas na Península Ibérica, começou a pressionar Portugal para que também se rendesse, ou aliasse à França, abandonando seus negócios com a Inglaterra. Por seis anos o Regente do trono Português, Dom João, resistiu às pressões Francesas não através da força das armas, mas através de tratados para evitar derrotas como a da invasão do Alentejo, que resultou na perda de Olivença, por Portugal, no Tratado de Badajoz.


Em 27 de novembro de 1807, contudo, a situação chegara a um extremo, as tropas do General Junot entravam em Lisboa e, para evitar a captura e possível execução da Realeza, Dom João achou por bem seguir o conselho Inglês e, sob escolta da Marinha Britânica, abandonar seu Reino em direção à América Portuguesa, ou seja, ao Brasil.


A derrota Portuguesa que parecia certa frente ao maior e melhor exército Francês, acabou não acontecendo devido a uma intervenção Inglesa. Um destacamento do Exército Britânico sob o comando do General Wellesley desembarcou em Lisboa e, engrossando os contingentes da resistência Portuguesa, conseguiu derrotar os invasores comandados por Junot, em meados de 1808. Wellesley foi sagrado Lord Wellington e se tornou o principal responsável pelas sucessivas derrotas impostas aos Franceses em solo Português entre 1809 e 1814, ano da abdicação de Napoleão.


Todo este panorama histórico não é contado no filme e, portanto é presumivelmente conhecido pelo espectador que está em frente à tela. Por quê? Porque caso o espectador não o conheça o filme não perderá o sentido, afinal, ao menos aparentemente, não há nenhum sentido a ser perdido mesmo, mas passará a ser apenas uma enorme e sem sentido “briga de gato e rato” onde, à exemplo dos famosos “Tom e Jerry”, o rato sempre acaba por vencer no final, mesmo sendo inferior em todos os aspectos.


Pois bem, é nesse contexto que o H.M.S. Surprise é enviado para a costa Brasileira, mais precisamente para o litoral de Pernambuco, próximo a Fernando de Noronha e Abrólios. É bom que fique claro que o filme é baseado num Romance Histórico e não se pretende verdadeiro, portanto, não houve tal navio nem mesmo tal preocupação da Marinha Britânica em proteger a costa Brasileira contra uma invasão Napoleônica, afinal, o próprio Napoleão não teria condições de alçar um vôo tão alto (a conquista do Brasil), pois tinha antes que vencer suas guerras na Europa e, se o fizesse, fatalmente as colônias da América cairiam ante ele assim como suas metrópoles haviam feito.


Não na tentativa de conquistar ou invadir o Brasil, mas, muito mais, com o intuito predatório de afundar embarcações inimigas do regime Revolucionário Francês, do qual Napoleão Bonaparte era o atual representante, o navio Acheron é enviado para a costa Brasileira.


O Acheron é um desses navios modernos que supera em muito o velho navio do Capitão Jack Aubrey. Maior, mais veloz e dotado de canhões de longo alcance, logo no começo do filme, em meio a um nevoeiro e durante o turno de vigia do Imediato do H.M.S. Surprise, o navio Francês aproveita-se de seus canhões de longo alcance e da cobertura do nevoeiro para bombardear os Britânicos até quase afundar seu navio.


Mesmo conseguindo salvar seu navio, o Capitão Aubrey é obrigado a se dirigir para a costa Brasileira onde, através de escambos com os nativos (sim, os Brasileiros do filme são praticamente todos índios, cafuzos ou mamelucos). Depois de perder vários dias consertando seu navio, Jack Aubrey ordena que sua tripulação se ponha no encalço do Acheron, o “Fantasma”, como passou a ser conhecido pela tripulação depois de ter atacado de surpresa no meio do nevoeiro.


Exceto pela rápida cena do escambo com os nativos do Brasil, nenhuma mulher é vista no filme e nem mesmo nenhuma outra pessoa que não sejam os tripulantes do H.M.S. Surprise ou do Acheron, depois da batalha final (ah, sim, há também alguns prisioneiros que são resgatados de dentro do Acheron).


Do conserto do navio em diante, todo o filme pode ser resumido como uma grande perseguição de navios onde o perseguido (Acheron) nem toma conhecimento do perseguidor (H.M.S. Surprise) e, vez por outra, quando este menos espera, apronta-lhe uma emboscada. O misticismo cresce entre a tripulação do navio Britânico. Para eles, o Acheron não é um navio comum, mas sim um navio fantasma, talvez até enviado pelo Diabo e, portanto, impossível de ser derrotado. Os homens também começam a associar os ataques surpresa à figura do Imediato de seu navio, visto que todos eles ocorreram exatamente no seu turno de vigília.


O clima de tensão entre tripulação e Imediato passa a ser tal que um motim se torna iminente e o Imediato passa a temer por sua vida, mesmo depois de um tripulante que o desacatou abertamente ter sido condenado a chibatadas pelo Capitão Aubrey. Com medo de que outro ataque ocorresse em seu turno e que, devido a isso ele perdesse também o apoio do Capitão, o Imediato Britânico se atira na água segurando uma bala de canhão. Morre afogado. É o fim do único personagem com profundidade psicológica dentro do filme!


Os personagens do filme, aliás, são um show à parte. Podem ser analisados de duas formas e ambas, diga-se de passagem, muito subjetivas: ou são meros peões num contexto da história grandiosa de um capitão e, por isso não aparecem muito, ou são uma alegoria ao povo Norte-Americano que segue o que seu governante propõe sem esboçar muita crítica e com um misticismo exacerbado.



        Primeiramente, deve-se dizer que salvo por Russell Crowe, que interpreta o Capitão Aubrey, os demais personagens são atores pertencentes aos times B (como nos casos de Paul Bettany, que interpreta a co-estrela da saga literária, mas que, no cinema, ficou relegado a coadjuvante de luxo, o Naturalista e Cirurgião de Bordo Stephen Maturin; ou do Condutor do Navio, o ator Bill Boyd, o Pippin de “O Senhor dos Anéis”) e C (como David Threlfall, o Cozinheiro do Navio e Max Pirkis, de 13 anos, que interpreta Blakeney, o Oficial Mirim que sofre a amputação de um braço logo após a primeira batalha do filme).


Definitivamente o orçamento do filme não se destinou à contratação de grandes astros, mas ao investimento em Efeitos Visuais.

Paul Bettany é, a exemplo de Bill Boyd, um bom ator, tão bom que poderia ter sido mais bem aproveitado no filme. Tem um talento humorístico tão grande que conseguiu salvar um filme fadado ao fracasso como “Coração de Cavaleiro”, onde interpreta um Arauto Medieval com características de apresentador de lutas de boxe ou de jogadores da NBA. Já Bill Boyd, um ator que antes de interpretar Pippin era quase que totalmente desconhecido, provou ser capaz de segurar um papel de relativa importância (especialmente em “O Retorno do Rei”, quando Pippin se torna Conselheiro de Denethor, o Regente louco de Gondor) com grande desenvoltura, não foi nem um pouco aproveitado. Aliás, só percebe que ele participou do filme o espectador mais atento e que, obrigatoriamente, assistiu a “O Senhor dos Anéis”, pois Boyd não tem nenhuma fala maior do que grunhidos como “Sim Comandante!”, ou “Veja!”. Um exemplo de dinheiro jogado fora com um ator caro num papel onde qualquer um serviria.


Depois de abandonar a costa Brasileira no encalço de sua nova obsessão, o Capitão Aubrey leva seu navio a diversos lugares dos mares do sul, como, por exemplo, ao perigoso Estreito de Magalhães, no extremo sul da América do Sul e ao arquipélago de Galápagos, onde, para agradar seu amigo Stephen Maturin, que todos acreditavam estar à beira da morte depois de levar um tiro acidental na barriga, desembarca mais de cinqüenta anos antes de Charles Darwin. Maturin realiza em Galápagos uma pesquisa digna de um Naturalista. Mesmo ferido ele, em companhia dos dois Oficiais Mirins do navio percorre a ilha onde haviam aportado (Galápagos possui 13 ilhas e mais de 90 ilhotas vulcânicas) recolhendo espécimes animais e vegetais para análise. Porém, para que sua existência no filme não contrarie toda a História da Biologia, Maturin é obrigado a liberar toda a sua carga para poder se locomover mais rapidamente, a fim de avisar a Aubrey acerca dos movimentos do Acheron que, como ele havia avistado, estava ancorado na costa oposta da mesma ilha em que os Ingleses se encontravam.



       No final, graças a um estratagema bolado por seu Capitão (que faz com que o H.M.S. Surprise se pareça com um navio baleeiro, as principais vítimas dos saques Franceses no filme, visto que não eram dotados de armas e possuíam uma carga muito valiosa: óleo de baleia), os Ingleses conseguem superar sua inferioridade tecnológica e tomar o Acheron, capturando ou matando a todos, exceto ao Capitão do navio Francês que, não se sabe como, mas possivelmente se fazendo passar pelo Cirurgião de seu navio, consegue escapar.


 


2 – Onde termina a Ficção e começa a Realidade?

 

Tudo bem, é certo que o pano de fundo histórico é verdadeiro, afinal, havia no princípio do século XIX um acirramento da rivalidade histórica entre Inglaterra e França, acirramento este que se devia não só às invasões Napoleônicas, mas que já vinha de cerca de 45 anos antes, com a vitória Inglesa na Guerra dos Sete Anos e a conseqüente perda Francesa de boa parte de seu Mundo Colonial.


Porém, qual é a relevância de os EUA fazerem um filme onde os próprios Norte-Americanos não são nem sequer citados e onde além de os Ingleses serem os heróis, o próprio enredo se baseia num best seller Inglês?


Bem, devemos perceber que o cinema, em especial o cinema de Hollywood, não dá ponto sem nó. Já são muitas décadas de experiência e análise do mercado e do mundo para que qualquer estúdio se proponha a fazer um filme sem propósito, algo que além de não ter uma história convincente (sejamos realistas, a idéia de um navio Inglês protegendo às costas Brasileiras contra uma possível invasão Napoleônica não é das mais atraentes para a maior parte do público mundial, ainda mais quando o ator principal é Russell Crowe que, por não ter um estilo muito expressivo de interpretação (ao contrário, o brilho de Crowe está em sua apatia aparente) torna-se um ator digno de amores ou ódios, mas nunca de aceitação), não tem um objetivo bem definido.


Por objetivo, ao menos em termos de meios de comunicação de massa, podemos definir a informação (como nos telejornais e periódicos escritos), a diversão (como em revistas de entretenimento, comédias, filmes românticos comuns, dramas sem crítica social, esportes em geral, programas televisivos de baixo teor de erudição, como novelas e etc) ou, em especial pelo fato deste fator estar também presente nos demais, a manipulação político-ideológica.


É claro que o objetivo de “Mestre dos Mares” não é meramente o de promover a obra literária de Patrick O’Brian, Inglês de ascendência Alemã (seu nome de batismo é Richard Patrick Russ) que se fazia passar por Irlandês e traduzia obras de Simone de Beauvoir (a filósofa Francesa mais conhecida internacionalmente como tendo sido a amante e confidente de Jean-Paul Sartre) do Francês para o Inglês no início de sua carreira. Mas se não é este o objetivo do filme e se o seu objetivo também não é histórico, então, qual é?


 

3 – O Caminho das Pedras:

 

Bem, é certo que em praticamente todos os países onde a obra de Patrick O’Brian ainda não estava traduzida (como é o caso do Brasil), após o filme “Mestre dos Mares”, esta será lançada e, se a estratégia de vendas/propaganda da editora que a for publicar (no caso do Brasil será a Record) for boa, será um sucesso de vendas.


Aliás, a obra de Patrick O’Brian é muito extensa, a dupla que a protagoniza, ou seja, o Capitão Aubrey e o Naturalista Maturin, está presente em nada menos do que vinte livros. Em ordem, são eles (as traduções dos nomes são livres, exceto a do primeiro, pois respeita a tradução do nome do filme em Português):

 

01 – Master and Commander (Mestre dos Mares)

02 – Post Captain (Pós-Capitão)

03 – H.M.S. Surprise (H.M.S. Surprise)

04 – The Mauritius Command (O Comando das Ilhas Maurício)

05 – Desolation Island (A Ilha da Desolação)

06 – The Fortune of War (O Destino da Guerra)

07 – The Surgeon’s Mate (O Companheiro do Cirurgião)

08 – The Ionian Mission (A Missão Jônica)

09 – Treason’s Harbour (Porto da Traição)

10 – The Far Side of the World (O Lado Mais Distante do Mundo)

11 – The Reverse of the Medal (O Reverso da Medalha)

12 – The Letter of Marque (A Carta do Marquês)

13 – The Thirteen Gun Salute (A Saudação de Treze Armas)

14 – The Nutmeg of Consolation (O Nutmeg da Consolação)

15 – The Truelove (O Amor Verdadeiro)

16 – The Wine-Dark Sea (O Mar Vinho Escuro)

17 – The Commodore (O Comodoro)

18 – The Yellow Admiral (O Almirante Amarelo)

19 – The Hundred Days (Os Cem Dias)

20 – Blue at the Mizzen (Azul no Mizzen)

 

Quando O’Brian morreu, em 2000, estava escrevendo seu vigésimo primeiro livro dentro da saga de Aubrey e Maturin, aliás, esta saga só começou a ser publicada na Inglaterra dez anos antes da morte do autor, ou seja, em 1990.


Os livros, segundo se diz, são muito mais movimentados do ponto de vista de acontecimentos do que o filme que, em certos momentos, se torna monótono. Porém, o que diferencia o filme dos livros não é isso, não é a atuação de Russell Crowe, não é o fato de o filme incorporar em si elementos de três livros (o número 01, o número 03 e o número 10), não é nada disso, mas sim, o momento histórico em que ambos foram escritos.


O’Brian julgava-se a si mesmo como um homem fora de seu tempo, incapaz, segundo ele próprio, de escrever sobre assuntos cotidianos e um total ignorante acerca das tecnologias contemporâneas ou mesmo das idéias posteriores a Pablo Picasso, sobre o qual, aliás, ele escreveu uma brilhante Biografia.


É impossível viver no passado, mas não é impossível alienar-se do presente. Muitos cidadãos comuns, inclusive, fazem isso diariamente para evitar o sofrimento, ou mesmo por falta de informação. Porém, quando nos alienamos, ficamos mais susceptíveis às armadilhas do dia-a-dia, como aquela que está presente no próprio filme do diretor Peter Weir.


Se pensarmos bem, o Acheron é quase um fantasma no filme inteiro, mal aparece e, quando o faz é, em geral, para atacar de surpresa tomando vidas de pessoas desprevenidas que, em geral, estão dormindo.


Ao Acheron, podemos relacionar os ataques terroristas, inclusive, o primeiro ataque do navio Francês ao H.M.S. Surprise pode ser correlacionado com o ataque e conseqüente destruição do World Trade Center, em 11 de setembro de 2002, por terroristas Muçulmanos, o que legitimou toda a Guerra contra o Terror de Bush. Da mesma forma, no filme, o ataque surpresa também motiva e legitima a ira do Capitão Aubrey contra o poderoso navio Francês.


O fato de o Acheron estar sempre um passo à frente do H.M.S. Surprise também não é por acaso, mas deve-se ao fato de os terroristas serem difíceis de serem identificados e, por isso, quase impossíveis de serem pegos.


Os ataques desleais são, óbvias analogias aos atentados terroristas contemporâneos e, por isso, causam tanta revolta na tripulação e no comandante.


Aubrey é Bush, um homem guiado por seus princípios e que, por deter o poder em suas mãos, faz uso dele de modo a perseguir seus ideais, ideais estes que, francamente acredita serem os melhores para sua tripulação, mas que, em nenhuma hipótese passam por um referendo desta, nem mesmo na medida em que homens e mais homens começam a morrer em decorrência da perseguição que Aubrey decide encampar sozinho contra o Acheron. As mortes, amputações e seqüelas que passam a acompanhar os inicialmente saudáveis personagens do filme são uma demonstração de que as baixas Norte-Americanas em sua busca pela “pax americanae” são, nada mais do que perdas aceitáveis.


O Acheron, que ataca de surpresa, representa as organizações terroristas e o próprio Napoleão representa os Estados que financiam e apóiam o Terrorismo Internacional, um dos males mais abomináveis pelos Norte-Americanos.


O fato de o Capitão do Acheron não ter sido pego apesar do navio ter sido capturado indica não apenas que o filme poderá ter continuações, mas também e, especialmente, que apesar de as células terroristas serem, por vezes, aniquiladas, suas lideranças sempre permanecem vivas para incitar mais destruições.


      
A figura de Napoleão como sendo o monstro causador e financiador de tudo o que acontece no filme não é também uma novidade, afinal ele é considerado pelo imaginário popular de diversos países, um precursor de Hitler e, portanto, alguém a ser lembrado como um traidor e, sobretudo, um homem perigoso. Porém, se analisarmos friamente, o que Napoleão tentou realizar de forma infeliz foi o que Russos fizeram por todo o norte da Ásia durante quase três séculos, foi o que os EUA fizeram em seu atual território durante todo o século XIX e final do XVIII, foi o que os Argentinos fizeram ao exterminar suas populações indígenas no final do século XIX e foi o que o Brasil fez em diversas oportunidades (e de certa forma faz ainda até hoje ao enviar forças expedicionárias e de treinamentos do exército e da aeronáutica para as regiões longínquas do norte do país) na Amazônia e Pantanal, ou seja, tentar colocar regiões que não estão totalmente submetidas ao poder central sob sua autoridade. Em termos mais gerais, Napoleão ao iniciar sua campanha de conquista da Europa estava tão cheio de razão quanto os Norte-Americanos ao tomarem o Texas e o Novo México de seus vizinhos meridionais por meio da força das armas.


        
O que torna Napoleão um monstro perante o olhar internacional são dois meros detalhes em sua campanha: o fato dela ter sido direcionada contra os “civilizadores” da humanidade, ou seja, os grandes ancestrais Europeus de todas as nações do ocidente e também, é claro, o fato de não ter obtido sucesso em sua empreitada o que, dentro de um contexto de uma História escrita por vencedores como a nossa, é imperdoável e, sendo assim, relega o indivíduo ao hall dos vilões, afinal, como em toda a história, também na História o mal sempre perde.


        
Tomando esta linha de raciocínio como ponto de partida, podemos nos lembrar de que recentemente, antes dos EUA atacarem o Iraque no início de 2003, a França foi a principal opositora a esta ação, afinal, era a única voz Européia dentro do Conselho de Segurança da ONU a se posicionar contra a invasão (também a Alemanha pertencia na época ao Conselho de Segurança, mas como não é um dos cinco países com poder de veto na entidade, sua oposição não surtia tanto efeito moral). Nesta época, foram mostradas em cadeia de televisão internacional as manifestações anti-Francesas de alguns Norte-Americanos abastados que despejaram suas reservas de vinho Francês na calçada da Embaixada da França nos EUA e que juraram boicotar as importações de produtos daquele país. Também nessa época, muitos colunistas dos mais importantes jornais dos EUA escreveram textos comparando a complacência Francesa para com Saddam Hussein com as previsões frustradas de Jean-Paul Sartre durante a Segunda Guerra Mundial no sentido de afirmar que Hitler jamais seria capaz de transpor as linhas de trincheiras que protegiam a fronteira entre França e Alemanha. Tais jornalistas afirmavam que daquela vez a França só havia sido salva por intervenção dos EUA e que hoje, se os protestos contra a invasão ao Iraque estavam sendo feitos em Francês e não em Alemão, isso devia-se aos Norte-Americanos que tombaram na Normandia.


        
Acontecimentos Históricos à parte, o filme em questão começou a ser rodado justamente durante o período de maior hostilidade entre EUA e França que já houve na história das duas nações que sempre foram amigas (devemos nos lembrar que mesmo na época do tão temido e condenado Napoleão Bonaparte, as relações entre o recém independente EUA e a expansionista França eram as melhores possíveis, afinal, foi graças ao dinheiro obtido pela venda da Louisiania ao novo país da América que Napoleão pôde financiar muitas de suas campanhas em território Europeu). Além disso, não foi por acaso que Russel Crowe foi escolhido para protagoniza-lo, afinal, ele é o maior campeão do conservadorismo Republicano no cinema Norte-Americano da atualidade. Apesar de não se posicionar oficialmente sobre as questões políticas do país, se analisarmos um retrospecto de seus filmes de maior sucesso, veremos que tanto Gladiador quanto Uma Mente Brilhante não deixam de ser, em última instância, propagandas indiretas do regime “Bushista” Republicano.


No primeiro, um herói tipicamente Norte-Americano (apesar de se situar nos tempos do Império Romano) consegue se reerguer depois de ter sido traído e alcança sua vingança punindo o Imperador malfeitor e obtendo a chance de alcançar a tão sonhada Liberdade para o povo, liberdade esta que, como todos sabem, não foi alcançada, afinal, o Império Romano não caiu após a morte de Cômodo. Sendo assim, os Senadores, órgão Romano mais semelhante ao ideal Democrata dos EUA não foram capazes, possivelmente por corrupção e ganância (males dos quais eram acusados durante o filme) de manter o legado do herói poor boy interpretado por Crowe.


No segundo filme, as apologias ao regime Republicano são ainda mais gritantes, afinal, o filme se propõe a contar a história da vida de John Nash, o matemático Norte-Americano que revolucionou as leis de Adam Smith, num período de crise do Capitalismo internacional, a época do Macartismo, período em que o Liberalismo econômico vigente há mais de 150 anos (desde a Revolução Francesa) começava a perder terreno para o Keynesianismo (doutrina econômica que perdurou até a década de 1980). Neste filme, John Nash, ao se imaginar um agente secreto do governo, nos mostra o tempo inteiro o perigo do Comunismo e a grande proteção que o partido Republicano permitiu aos EUA.


Num contexto em que diversas figuras do cinema Norte-Americano estavam sofrendo perseguições políticas indiretas (como foi o caso do ator e diretor Sean Pean e do diretor Michael Moore), era natural que qualquer crítica, ainda que mínima, à Era Bush fosse feita de forma muito velada e subjetiva. Sendo assim, creio que se Peter Weir desejou criticar o caráter religioso-místico e pouco crítico das ações Norte-Americanas no Iraque e no Afeganistão, por outro, não deixou de reiterar a todo o momento que estas ações estão corretas, afinal, são legítimas e, sobretudo, vitoriosas o que, dentro de uma ética protestante, constitui um sinal.


Acredito que dentro de tudo isso, o filme Mestre dos Mares – O Lado mais distante do Mundo pode ser considerado não apenas como uma idéia de um épico naval, mas especialmente como uma idéia de uma legitimação à punição de um soberano, afinal, os EUA são nada mais do que os auto-intitulados eternos soberanos do mundo e, como tais, seus atos de retaliação ou mesmo de ataques preventivos não podem ser vistos como meras vinganças, porque soberanos nunca se vingam, mas punem, pois estão em posição de educar.


 

4 – Bibliografia:

 

BOSCOV, Isabela. Todo Pano à Frente. Reportagem publicada na Revista Veja de 28 de janeiro de 2004.

 

FIGUEIREDO, Danilo J., PASSETTI, Gabriel e PINTO, Carlos I. 11 de Setembro: Um Marco para a História do Tempo Presente. Artigo publicado na Revista Klepsidra.

 

Grande Enciclopédia Delta Larousse vols. 2 e 4.


         HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos.
 

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe (com notas de Napoleão Bonaparte).

 

MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte.

 

MOOG, Clodomir Vianna. Bandeirantes e Pioneiros: Paralelo entre duas Culturas.

 

PATRICK O’BRIAN Web Site.

 




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