Confissões de uma "pós-formada":
Arquivos e papéis velhos


Olívia Pavani Naveira
Bacharel em História - USP
olivia@klepsidra.net

 
O estudante e a faculdade

 

Os motivos que nos levam a escolher uma faculdade são sempre muito diversos. Quando temos   dezessete anos o medo de não passar no vestibular torna-se , em geral, bem maior do que a   preocupação com a opção profissional que estamos fazendo. Para os  que têm sorte, depois de passar pelo doloroso rito de passagem do vestibular, os quatro ou cinco  anos de graduação podem reforçar nos estudantes a certeza de que fizeram  a escolha correta.


Entre os diversos cursos superiores oferecidos no Brasil uma grande parte deles  possuem um direcionamento bem claro para o mercado de trabalho, sendo comum que os estudantes tenham que fazer estágios obrigatórios para poderem se formar. No entanto, seja por bem ou por mal, nem todas as formações universitárias são estruturadas dessa maneira. Em os cursos como Filosofia, Física,  História, Ciências Sociais, Matemática, Biologia, é muito comum os “pós- formados” se  sentirem bastante  perdidos após a aquisição do tão sonhado diploma do terceiro grau. 


Para aqueles que optam por estudar História, os quatro, cinco, seis , até oito  anos de faculdade permitem que o estudante tome contato com as mais amplas  discussões políticas e intelectuais que permeiam o ambiente estudantil e acadêmico. MST, (Movimento dos Sem Terra), DCE (Diretório Central dos Estudantes), a escravidão brasileira no século XIX, zapatismo, mitologia grega, greve por mais  professores  , os processos de independência na América Latina, os afrescos medievais, a queda da Bastilha,  são apenas alguns exemplos de uma série de temas e  discussões  que podem vir a fazer parte do  cotidiano de um universitário.


Meu tempo de graduanda,  pegar livro na biblioteca, tirar xerox, participar da plenárias, foi bom mas passou muito rápido.  Chega um dia em que  fazemos as contas e descobrimos  que não há mais matérias para serem feitas ( História Medieval II, Brasil Colonial I) . Passamos então, a ter que responder   outra coisa quando nos perguntam o que fazemos da vida pois estudantes , nós não somos mais.



O ex- estudante 

 

Sempre gostei de estudar História mas será que eu iria gostar de dar aula ? Lembrava da minha professora mal resolvida e infeliz da sétima, oitava série e morria de medo de me tornar parecida com ela depois que me formasse.  Quase sempre, os alunos adquirem algumas experiências profissionais e lidam  com a sua inserção no mercado de trabalho desde a graduação.  Alguns desenvolvem pesquisas em Iniciação Científica, outros dão aula,  fazem estágio mas o fato é que  entre os estudantes, muitos acabam se envolvendo muito mais com a faculdade e o curso em si , do que a sua relação e aplicação prática na sociedade.


Estar formado implica, muitas vezes,  em grandes mudanças  na vida de um universitário principalmente se ele ainda não têm um emprego fixo. Amedronta  fazer as contas e perceber que se está completando o último semestre da faculdade,  desempregada e sem nenhuma grande perspectiva de se sustentar . A situação pode ser pior ainda se nós ainda  não sabemos muito bem o que fazer depois de formado. Muitas vezes, a decisão mais sensata parece ser a de   prestar vestibular de novo.


 
          Ao me formar em Janeiro de 2003 resolvi encarar o desafio e   procurar um trabalho durante o dia para continuar estudando aquilo que eu gostava durante a noite. Para ser sincera, até que tive sorte. Depois de mandar currículos e implorar de porta em porta, consegui um estágio para trabalhar na organização de um arquivo. Pelo menos tinha conseguido um emprego  na minha área.  Aceitei,  apesar de não  fazer a mínima  idéia do que significava ser estagiária ( ou auxiliar se vocês preferirem)  num projeto de  organização do arquivo histórico documental de um  museu aqui de São Paulo.

 


Arquivos e papéis velhos: A luta continua

 

Para aqueles que acabam de se formar e ainda não sabem muito bem que área seguir, uma boa opção é fazer um curso de especialização. Entre as aplicações práticas existentes para os estudantes que se formaram na área de humanas como História, temos a especialização em museologia e arquivística. Em geral, essas duas áreas que não são muito abordadas e discutidas durante a graduação mas podem se tornar uma possibilidade  interessante para quem não quer dar aula e ainda não conseguiu definir muito bem se quer ou não fazer mestrado ou o qual tema que deseja desenvolver.


No meu estágio em arquivo, minha primeira função foi a de dobrar os papéis neutros para acomodar os documentos. Aprendi que  esse papel , semelhante a um papel vegetal, é  usado para  manter  o documento conservado,  longe da sua própria acides,    evitando também bolor, fungos  e até mesmo   traça. Dobrar as caixas que acomodariam a documentação também foi interessante. Normalmente elas são forradas por papel neutro por dentro mas existem casos em que a caixa inteira é revestida por esse material. Em geral a documentação armazenada é acomodada em pastas e conservada na posição horizontal ou seja deitada por sobre a estante e ao invés de ser enfileirada na vertical como fazemos com os livros.


No cotidiano e no labor diário  da organização de um arquivo costuma-se primeiramente identificar qual é o  tipo de documentação que vai ser trabalhado. No meu caso, acreditava-se que  os documentos que íamos organizar referiam-se principalmente aos  eventos ocorridos no museu. Haviam pastas ( dossiês separados por assuntos) que guardavam uma documentação (cartas, recibos,  folders, textos, convites, listas de obras a serem expostas, fotos, catálogos, notas fiscais, anotações) que se referiam a cada um dos eventos ocorridos separados cronologicamente.   


Conforme fomos abrindo as caixas e examinando as pastas que deveriam ser  organizadas,  notamos que a documentação que compunha o futuro   arquivo e que precisava ser que seria separada,  higienizada, classificada,  disponibilizada e catalogada num banco de dados,   referiam-se a um universo documental muito maior.  Haviam sido guardadas em caixas e separado as cronologicamente   todas as atividades ocorridas no museu , desde as exposições de pintura, escultura, fotografia, desenho, tapeçaria, apresentação de corais, cursos de desenho, exibição de filmes, até os tramites administrativos relativos ao funcionamento do museu.


Assim, foram eleitas   algumas denominações comuns para serem usadas na  classificação  dos tipos de dossiês  encontrandos. Quando o dossiê era  a respeito de um evento, ele era separado pelo tipo de evento a que se referia ( exposição , atividade de cinema, teatro, música)  , se o dossiê era  relativos à administração do museu ele podia ser separado em correspondência geral ( cartas e telegramas recebidas e enviadas, cartão postal, institucional, memorando e bilhetes) recortes ( que podiam ser de jornal ou revista  diversos) documentos jurídicos e documentos diversos.


Com o tempo eu fui me acostumando  com o tipo de classificação referente aos dossiês e com as denominações dadas a cada tipo de documento encontrado mas nem sempre isso era óbvio. Sempre que eu achava que tinha acertado se o documento era uma nota fiscal, um formulário de intercâmbio, um memorando ou qualquer coisa dúbia era só consultar minha chefe para descobrir que havia errado.


Para não me ater em muitos erros e não criar a maior confusão na minha mesa ao pegar um dossiê para fazer agia sempre da mesa forma. O primeiro passo era organizar e separar os documentos por tipos, todas as cartas recebidas eu deixava juntas em um montinho, todas as cartas enviadas em outro, telegrama, recorte de jornal, lista de obras e etc. Depois começava a preencher uma ficha de papel em que escrevia o ano do evento , nome atribuído ao dossiê ( por exemplo:  1965 - Exposição de fotografia “São Paulo e a modernidade”) preenchia com o nome do autor o tipo de dossiê , as referências originais e listava logo abaixo, quais eram os tipos de documento e em que quantidade eles eram encontrados na pasta.


Todos os  arquivos históricos  têm as suas especificidades em função do tipo de documentação que possui e disponibiliza para o público. Se estivéssemos organizando o arquivo de Siurb ( Secretaria de Infra- estrutura da Prefeitura de São Paulo) por  exemplo, estaríamos separando as plantas de São pulo primeiramente por bairro, depois por rua, seguindo os critérios fundamentais da arquivística.


         
De maneira geral, a única coisa chata de trabalhar com arquivo é se os documentos estão muito mal conservados ou se são muito antigos. É comum encontramos  séries documentais emboloradas, empoeiradas,  com traças e outros tipos de bichinhos . Chama-se de higienização o processo de limpeza da documentação que pode ser feita  ( como foi no meu caso) apenas com um pincel para tirar o pó ou passando por processos mais elaborados de restauro. 


Costuma-se retirar os grampos, os clipes, todos os materiais metálicos que se encontram no documento, como no caso de um folder que encontra-se grampeado ou uma carta  de duas páginas unidas por um clipes. Entre os documentos que pude observar,   os que mais se deterioraram são os recortes de jornal , principalmente os que foram colados ( sem o uso de cola neutra) em folhas de sulfite. Existe também, o problema dos documentos fotocopiados ( xerocados) ou  fax que apagam em poucos anos sendo  impossível ler o que estava escrito. Quando fiz as pastas de dossiês referentes aos anos de 1940 e 1950 utilizei luvas de plástico e máscara no rosto para evitar o contato direto com a poeira, a partir dos anos 60 não foi mais necessário.


Depois que aproximadamente metade do conjunto documental foi identificado e organizado já é possível ter uma idéia aproximada  dos subgrupos que serão idealizados para a melhor classificação da documentação e como será melhor e o que se deseja do banco de dados que será montado para a  pesquisa geral do público. Dessa fase do trabalho, não pude participar ativamente uma vez que todo esse processo corresponde à aplicação dos teorias relativas a Arquivística ( que eu nunca estudei) e dos conhecimentos de informática que não tenho a mínima intenção de dominar.


Em muitos casos, a organização da documentação dos arquivos é um processo quase eterno tanto em função das novas documentações que são  produzidas e que podem vir a ser anexadas à pré- existente , quanto pela falta de verba e de incentivos culturais que permitam que os projetos sejam realizados e levados adiante.


Conheço pessoas que já trabalharam em apenas uma das fases do processo de organização de um acervo documental , fazendo por exemplo, a digitação dos dados listados a respeito de dossiês já higienizados e organizados. É o caso do  projeto realizado no CEDM ( Centro de documentação e memória da UNESP) que possui um importante acervo a respeito da esquerda brasileira, entre elas a documentação relativa ao do PCB nas décadas de 70 e 80. 


Depois da fase de revisão, em que as caixas são  colocadas em seus devidos lugares e as etiquetas que as identificam são  coladas o trabalho do arquivista acaba .  Infelizmente essa minha experiência com arquivo já está chegando nessa fase final e já dá até para sentir saudade... Acho que vou escrever um projeto de mestrado a respeito dos museus brasileiros só para consultar os documentos que eu ajudei a organizar. De qualquer forma, se alguém souber de uma outra aventura no mundo dos empregos ,    do trabalho árduo e dos baixos salários oferecido aos historiadores desesperados eu estou aceitando ...





Este texto é de total responsabilidade de sua autora e destina-se à divulgação científica.
Utilize-o apenas como fonte de consulta.
Copyright Klepsidra - Revista Virtual de História