As raízes do Sebastianismo

 
Rodrigo Silva
cornerbh@zipmail.com.br
3º Semestre - História/USP
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Introdução


D. Sebastião, o Desejado
D. Sebastião , o jovem rei que perde sua vida em batalha  , à frente do seu exército a parte física desaparece nas areias da África ; mas se alguns homens buscam a imortalidade este sem dúvida conseguiu , ainda que não fosse sua intenção , ele sobrevive no imaginário português e não só lá . Com certeza o mito por vezes se torna tragicamente real , seja na morte do próprio rei seja na imitação ou no suposto renascimento da figura.

É a tragédia , o sofrimento e a esperança que alimentam o sebastianismo durante séculos , na angustia de um povo e a crença no porvir .

Figura controversa que inspira admiração e ódio ao mesmo tempo , que se apresenta diferentemente para cada pessoa , D. Sebastião vai de messias a cretino , de salvador a demente , inspira paixões e atiça polêmicas como a de Antonio Sérgio e Carlos Malheiro Dias (MEGIANI, p.5).

Encontra D. Sebastião na conjuntura espaço e condições para se tornar o Desejado , são os cristãos novos portugueses com sua tradição messiânica , é o seu nascimento que afasta as pretensões espanholas de unificação mais uma vez , é a crise que se abala contra o império português , são as trovas de Bandarra , é a tradição medieval do encoberto , é o misticismo e a religiosidade de Portugal , o milenarismo cristão , enfim um terreno prolífero para o mito , sê se pode dizer que existem “condições ideais” para o nascimento de um mito aí está um : Portugal dos séculos XVI e  XVII.

Ao estudar o mito entramos em um campo difícil aonde a longa e a curta duração dialogam de perto , ao mesmo tempo que o estudo e a pesquisa se obriga do fatual , do linear ela deve compreender a mentalidade e a estrutura que está dando suporte , com certeza não é fácil. Como diz Vainfas no prefácio de No reino do desejado “O mito é rebelde” (HERMANN, p. 11).

Busquei para este trabalho primeiramente os imprescindíveis livros de Jacqueline Hermann , Joaquim Veríssimo Serrão e Jean Delumeau além da dissertação de mestrado de Ana Paula Torres Megiani que tratam do sebastianismo diretamente , na segunda etapa busquei a compreensão do mito como fenômeno da sociedade e elemento inerente da alma humana , e para tal tarefa nada mais adequado do que os estudos de Mircea Elíade e Joseph Campbell , por fim procurei complementar a pesquisa com algumas obras que não tratam diretamente do assunto como a de Hilário Franco Jr. e a Morte do Rei Artur do século XIII. Como ausência sentida fica outro trabalho de Delumeau , “História do medo no ocidente” , no qual eu pretendia buscar elementos que me ajudassem a compreender o surto apocalíptico do século XVI , mas não foi possível viabilizá-lo a tempo.

Outra informação que acredito ser crucial é a dos limites e objetivos da pesquisa : este trabalho não teve por objetivo estudar o sebastianismo pós - D. Sebastião , mas entender e definir quais elementos formaram o mito e em que condições o jovem rei assumiu o protagonismo do mesmo , assim vários componentes do sebastianismo como a restauração , o aparecimento de candidatos à D. Sebastião e as seitas e movimentos messiânicos ficaram de fora da ótica da pesquisa.

Finalmente dois fatores se impõem ; o tempo para a pesquisa e a limitação do espaço para o trabalho que impedem de ser um pouco mais claro e estruturado , mas paciência.
 
 

Parte 1
Como se faz um mito

Há uma lógica no mito e como tal o sebastianismo responde a esta , com certeza este não é um fato novo nem tampouco original , porém é uma constatação absolutamente necessária para o desenvolvimento desta parte do trabalho. O mito sebástico não nasce com D. Sebastião , ou pelo menos não com esta configuração .

Para Joseph Campbell  “São temas ( os mitos ) que deram sustentação à vida humana , construíram civilizações e enformaram religiões , profundos mistérios profundos limiares de travessia”  (CAMPBELL, p. 4), ou seja são manifestações da alma humana e por isso identificáveis em quase todas as culturas , são “sonhos arquétipicos” da humanidade que afloram independentemente do isolamento dos grupos (CAMPBELL, p. 16) . Desta forma é compreensível como várias culturas tenham desenvolvido o mito do encoberto isoladamente.

Alguns fatores formadores destes mitos são identificáveis , talvez o mais importante deles seja o sofrimento . É no sofrimento que a criatura humana busca alternativas , “é que no fundo do abismo , desponta a voz da salvação . O momento crucial é aquele em que a verdadeira mensagem de transformação está prestes a surgir . No momento mais sombrio surge a luz.” (CAMPBELL, p. 39) , no mesmo caminho Elíade identifica este como o mito universal : “A idade do ouro” , o tempo que substituirá um período de grande sofrimento , é a luz que vence as trevas (ELÍADE, p. 63) .

Aqui é necessário um parêntese : há uma diferença entre as sociedades que entendem a história de forma linear , sem repetições , e as sociedades que acreditam em uma história cíclica , ou seja uma eterna repetição das eras assim como as estações . Na primeira é muito mais comum a idéia do milenarismo , um período de mil anos que preparará a humanidade para a segunda vinda do messias , na segunda o que prevalece é o mito da idade do ouro já referido (MEGIANE, pp. 2, 15 e 16; ELÍADE, p. 62) . Apesar desta diferenciação os mitos por vezes se misturam , e este me parece ser o caso de Portugal , que apesar de ser predominantemente cristão (milenarista) assimila o mito da idade do ouro e ainda o um messianismo conjugado ao mito do encoberto.

Fechada a questão outra consideração é sobre a mortalidade , é o homem primitivo o ser em que se desenvolve a explicação para a morte , evento extremo da existência humana , desta forma e acompanhando a fixação dos grupos e do advento da agricultura  é que o homem começa a comparar a sua vida ao ciclo das plantas ; nada mais se é do que uma semente que deve morrer para renascer , é a parábola do grão de mostarda do evangelho , é a morte e o renascimento (CAMPBELL, pp. 11-12) . Como exemplo maior e salvador da humanidade as figuras heróicas e messiânicas devem passar por esta experiência de morte e ressurreição , é o salvador que se auto sacrifica (CAMPBELL, pp. 12 e 19) pela criação.

Assim estes mitos relacionados à sucessão dos tempos , do advento de uma nova era , da morte e da ressurreição , do sacrifício divino que pertenceram à matriz da humanidade se perpetuam , evoluem sem perder a base comum (CAMPBELL,  p. 40) , se encontram nos choques culturais e por vezes recebem matizes e vernizes que os acondicionam dentro de religiões dominantes (ELÍADE, p. 148). É dentro desta última observação que encontramos elementos essenciais para o entendimento do sebastianismo , são raízes mitológicas pré cristãs e judaicas que ajudam a estruturar o mito do desejado.

Antes de avançarmos no campo das linhas formadoras do sebastianismo um último elemento deve ser analisado : o herói. Este como já foi referido é o grande representante da humanidade , o seu redentor (CAMPBELL, p. 132) , e aqui devemos explicar que herói no contexto mitológico não é apenas o ser que pega em armas mas o que se sacrifica por algo maior do que ele (CAMPBELL, p. 131) , “é o salvador que se auto sacrifica” (CAMPBELL, p. 119) , assim a alcunha de herói cabe tanto para Arthur quanto para o Cristo. Esta figura onde se depositam as esperanças da humanidade guarda sua importância na “moralidade da causa que o leva ao sacrifício” (CAMPBELL, p. 135) , ato este que encaminhará de alguma forma a humanidade a uma nova era . D. Sebastião encarna estas características , é o “Desejado” que se compromete ainda em vida a levar seu reino ao seu lugar devido , é o herói que se auto sacrifica , que passa pela experiência extrema da existência ; é o ser que se “sacrifica por algo maior do que ele” e dá à humanidade a esperança de seu retorno. É o homem semente que morre para renascer.

Esta idéia é crucial para o entendimento do sebastianismo : D. Sebastião sem querer encenou na vida real um dos “sonhos arquétipicos da humanidade” , e infelizmente não sei se consegui transmitir com justeza a raridade desta situação e a força que esta pôde exercer sobre toda a mentalidade de um povo ( mesmo reconhecendo raízes anteriores à D. Sebastião  é sem dúvida com este que a coisa se consolida e é claro que não à toa o mito leva seu nome ).
 
 

Parte 2
As linhas formadoras do sebastianismo

O sebastianismo é fruto da confluência de três “linhas” distintas , as novelas de cavalaria que transmitem o mito celta do “encoberto Arthur” , o joaquimismo , e o messianismo judaico-cristão (MEGIANE, p. 8) , tentarei nesta parte do trabalho fazer um breve levantamento da natureza e das características de cada uma destas influências.

A primeira linha apontada , a das novelas de cavalaria , é originária da Bretanha e constitui a mais original das influências , já que o joaquimismo é de certa forma uma conseqüência do milenarismo judaico-cristão. O mito arturiano remonta antigas lendas celtas a respeito de um “Rei encoberto” (SPALDING, pp. 124-125; HUBERT, pp. 329-332; ELÍADE, p. 151) , seu eixo central é a luta contra os invasores e a unificação do reino em torno desta , mas a narração revela muito mais .

O grande sentido dos acontecimentos narrados ; luta , traição , adultério , incesto e a morte final ( ou desaparecimento ) do rei e de seu filho incestuoso , mortos um pela mão do outro , revelam o fim do mundo , a desagregação de uma ordem e da instituição cavalaria  , é a “escatologia da cavalaria” (VIEIRA, pp. 1-7). Este fim não é puro e simples , ele se fortalece e se mantém na esperança do retorno do rei que não morreu , ele ficou “encoberto nas névoas da Ilha de Avalon” de onde retornará quando o reino novamente precisar . A história ganha seu formato completo ( e que será base para suas transmutações na França e na Península Ibérica ) no século XII , pela pena de um ou vários autores anônimos . Não é nenhuma coincidência com o sebastianismo é a constatação da mentalidade , da sua longa duração e de como o mito evolui .

O mito arturiano será empregado sucessivas vezes na história da Bretanha e posteriormente da Inglaterra  para assegurar a unidade territorial e a comunhão na luta contra o invasor , por isso não é estranho que o conto tenha se consolidado em um período ( já referido acima ) em que a dominação normanda nas ilhas britânicas ( após 1066 ) era identificada como o grande inimigo (MEGIANE, p. 36) . No período subsequente o mito chega à França ; traduzido em 1155 a história assimila novos elementos , como o “amor cortês” por exemplo (MEGIANE, p. 38) . Aqui é interessante notar dois movimentos distintos mas complementares para a chegada do mito à península. O primeiro movimento é relacionado ao tráfego de “monges , peregrinos e guerreiros” do além Pirineus para o aquém Pirineus e vice-versa  , este fluxo humano diretamente ligado à França carrega para Portugal diversas características que irão dar forma ao seu povo e seus traços culturais , nada mais expressivo para ilustrar este relacionamento do que o fato do primeiro soberano do Condado Portucalense ser um nobre francês. Dentre estas características estão a cultura oral , as canções de gesta , a poesia romântica e as novelas de cavalaria (MEGIANE, p. 33; FRANCO Jr, cap. 2) . Sem nenhum espanto encontramos o mito arturiano na bagagem destes nobres franceses que vão lutar em Portugal. É neste contexto , da chegada do mito à França e posteriormente a Portugal ( provavelmente século XIII (HERMANN, p. 185; VIEIRA, p. 5; MEGIANE, p. 39) ) e da consolidação da cavalaria como instituição  , que esta (FRANCO Jr, p. 19) e também as novelas ( sobretudo a história de Artur , pois possui uma forte raiz pré cristã ) se cristianizam pelas mãos de monges como Robert de Boron (MEGIANE, p. 39-40) , assim o Graal se transforma no Cálice Sagrado , Parsifal passa de homem e guerreiro comum para o casto e ingênuo , Artur se transmuta no encoberto e por fim Galahad simboliza o desejado , homem perfeito e salvador . Temos assim o antigo mito pagão devidamente enformado na fé cristã e pronto para ser consumido por uma nobreza ávida por aventuras , mas sobretudo católica. Aí está o segundo grande movimento .

Dado curioso que confirma a idéia de Campbell sobre a origem dos mitos é o de que durante a baixa idade média , principalmente ao longo das crises do século XIV vê-se pipocar “Reis encobertos” na Europa , de caráter messiânico e salvacionista (MEGIANE, p. 18) .

Podemos então avançar já dentro da história de Portugal propriamente ao identificarmos João de Barros como o grande difusor deste mito dentre a monarquia portuguesa já no final do século XV e início do XVI . Ao escrever em 1520 a Crônica do Imperador Clarimundo o poeta João de Barros cria a versão portuguesa do mito arturiano , com claras referências à Demanda do Graal (MEGIANE, pp. 49-50, 53-54) esta Crônica é utilizada na formação de sucessivas gerações de monarcas portugueses entre eles o jovem D. Sebastião , a obra terá papel decisivo na formação do caráter do futuro rei.

A segunda linha formadora do sebastianismo é o joaquimismo , termo utilizado para descrever as idéias do Monge Cisterciense Joaquim de Fiore ( existem várias grafias para o mesmo nome ) da região da Calábria. Esta linha de pensamento que definirei a seguir chega a Portugal provavelmente com os Franciscanos , tidos como “espirituais”.

O referido monge nascido no ano de 1135 na região da Calábria gozava já durante a sua permanência no Ordem de Cister de uma fama de “homem santo” e de idéias bastante controversas , assim não demora muito para que abandone a congregação e crie sua própria Ordem (DELUMEAU, p. 40). Estas idéias se baseavam principalmente na sua teoria dos tempos da cristandade : três idades do mundo correspondentes à trindade do cristianismo , o tempo do Pai que teria começado antes da graça com Adão , teve seu apogeu com Abraão e terminou com o nascimento de Cristo , o tempo do Filho que é o da graça , inicia-se com o Rei Orzias , florece com João Batista e Jesus e estaria próximo do fim , e o último dos tempos o do Espírito Santo que seria o da graça maior , teria começado com São Bento e frutificaria em breve com o retorno de Elias e terminaria com o Juízo Final (DELUMEAU, pp. 42-43). É importante ressaltar que no sentido radical das palavras Joaquim de Fiore não é milenarista porquê não fala sobre a duração deste último período e nem é messianista pois não fala sobre a volta do messias , estes conceitos mutam constantemente na sua migração e são reinterpretados a cada nova escala (DELUMEAU, p. 50). Ainda assim Fiore fala sobre “um período de descanso da terra” .

As idéias do monge seja com os Franciscanos , Dominicanos ou de outra forma com certeza chegam a Portugal e vai se juntar à massa formadora do sebastianismo.

Tanto o joaquimismo quanto o messianismo judaico-cristão que abordaremos em seguida tem suas raízes nos textos bíblicos e no Torá e a partir desta informação entramos no campo específico das religiões . Encontramos o judaísmo e o cristianismo como as duas religiões predominantes em Portugal , divisões do mesmo tronco teológico são crenças predispostas ao milenarismo e ao messianismo . Para ambos “o mito escatológico (....) se diferencia dos demais pela pregação de uma purificação e não de uma nova concepção , e este paraíso devolvido não terá mais fim . O tempo circular da eterna destruição reconstrução dá lugar ao tempo linear sem repetições . Além do mais insere-se o componente messiânico articulado com o fim do mundo e a chegada do paraíso.” (ELÍADE, p. 62)

Esta explicação de Elíade abre um campo de estudo bastante amplo e do qual tentarei levantar alguns elementos importantes . No antigo testamento , parte em comum das duas religiões , o número de referências messiânicas e milenaristas é muito grande , entre as muitas podemos citar Amós , Oséias , Zacarias , Isaías , Ezequiel e Daniel , este último importantíssimo pois é no seu livro que se interpreta o sonho do rei da Babilônia  em que aparecem os cinco impérios ou tempos da humanidade , e sobre o último deles diz:
 
 

“E (depois) se realizará o juízo , a fim de que lhe seja tirado o poder , e ele seja destruído e pereça para sempre , e seja dado o reino , o poder e a grandeza do reino , que esta debaixo de todo o céu , ao povo dos santos do Altíssimo , cujo reino é um reino eterno , e ao qual servirão e obedecerão todos os reis.” ( Daniel  7:26 e 7:27 ) 

Este texto será utilizado constantemente para comprovar a vinda do “quinto império” , encontraremos esta referência até mesmo em Fernando Pessoa no seu livro Mensagem . Outro texto cristão de grande importância é o Apocalipse de João que descreve o Juízo final e o retorno do Messias :
 

“E eles serão o seu povo , e o mesmo Deus com eles será o seu Deus ; e Deus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos ; e não haverá mais morte nem luto , nem clamor , nem mais dor , porque as primeiras coisas passaram . E o que estava sentado no trono disse : Eis que eu renovo todas as coisas . E disse-me : Escreve porque estas palavras são muito dignas de fé e verdadeiras . E disse-me : Está feito . Eu sou o Alfa e o Ômega , o princípio e o fim de tudo .”     (Apocalipse de João 21:3 , 21:4 , 21:5 , 21:6 )

É esta referencia a um tempo de dor e sofrimento que servirá como purificador e será seguido por um período de paz , prosperidade , etc. , que leva os fiéis cristãos e judeus a acreditarem na chegada do juízo final à cada nova crise , sobretudo na baixa idade média (ELÍADE, p. 63).

Talvez seja realmente difícil conseguir transmitir e imaginar a força que um texto desses tinha na mentalidade do homem medieval e as conseqüências que poderiam causar , principalmente quando transmitidos de forma parcial , alterados ou sem uma interpretação oficial da Igreja , não que esta também não tenha os alterado de acordo com seus interesses.

Fundamental para a difusão destes textos é a Diáspora Judaica após a destruição de Jerusalém em 70 d.C. (THE TIMES, p. 102) , diversas levas de imigrantes judeus fixam em diversas regiões da Europa , praticamente todo o continente recebeu mais ou menos semitas. Uma parte considerável deles se estabelece na Península Ibérica e leva consigo a sua cultura que neste longo período de exílio constitui-se como elemento mantenedor da unidade do povo judeu , separado pela distância a sua cultura e a preservação da mesma  é o que garante a sobrevivência de uma identidade própria. Uma hipótese que podemos aventar é a de que este fracionamento do povo judaico , apesar da preservação cultural acima citada , cria vários grupos isolados e sem intercâmbio , assim o aparecimento de supostos messias que seria praticamente impossível em uma situação de unidade territorial pôde se desenvolver nestas colônias e com endosso por vezes da própria comunidade , ou seja o aparecimento e a proliferação de messias nas colônias judaicas da Europa foi favorecido pelo desmembramento provocado pela Diáspora.

Assim nós encontramos as três linhas principais e identificáveis que formaram o sebastianismo em Portugal , o arturianismo , o joaquimismo e o messianismo judaico-cristão , tradições diferentes que se fundem e dão origem a uma nova configuração.
 
 

Parte 3
O contexto

Para o desenvolvimento de um mito não basta seus elementos próprios há de se ter condições favoráveis para isso , Portugal do século XVI ao que nos parece continha vários destes fatores que tentarei demonstrar nesta parte.

Durante grande parte da baixa idade média a Europa se viu afundada em crises , são sucessivas ondas de fome , peste e guerras que se manifestam sobretudo nos séculos XIV e XV, assim se vê um fortalecimento e reaparecimento de muitos mitos (ELÍADE, p. 161; MEGIANE, p. 60). Como se não bastasse desde o século XIII seguem-se diversos levantes populares em várias regiões como Flandres , Toulouse , Kent , Paris , Gand , etc. , bancos italianos vão a falência , o preço dos cereais caem , há uma ausência de metais preciosos essenciais para o comércio e caem consequentemente as arrecadações de impostos , tudo isto leva a um êxodo urbano quase que generalizado (DELUMEAU, pp. 73-76). Esta situação de desespero leva as populações a buscar explicações e soluções divinas para a crise , assim encontra o messianismo e o milenarismo espaço para crescer. Dado que atesta esta relação entre crise e escatologia é o de que não há evidências de surtos desta natureza na Europa antes do final do século XI (DELUMEAU, p. 36).

Este clima de incerteza e medo permeia quase toda a baixa idade média e avança sobre a idade moderna (DELUMEAU, p. 75; HERMANN, p. 37) , o descobrimento da América em 1492 causa uma verdadeira revolução no imaginário europeu , a terra não se resume mais às regiões da Europa , Ásia e África , este novo território necessita de uma explicação divina , talvez seja o paraíso , talvez seja o prenúncio do juízo final já que o último rincão da terra havia sido conquistado pelo cristianismo (DELUMEAU, p. 176).
 

Felipe II da Espanha, pretendente
ao trono de Portugal
Em Portugal cresce durante todo o século XIV as lendas em torno da figura de D. Afonso Henriques e a batalha de Ourique , assumindo cada vez mais um caráter divino (MEGIANE, p. 47) , isto não é um acidente mas fruto de uma tentativa de divinizar a monarquia portuguesa , não tanto quanto os “Reis Taumaturgos” mas ainda dentro deste sentido , assim Portugal é o reino escolhido por Deus para comandar a cristandade em direção a um novo tempo (MEGIANE, pp. 48, 78-81; HERMANN, p. 24).

O Portugal do início do século XVI já não apresentava a mesma vitalidade que havia lhe proporcionado o papel de vanguarda do século anterior , uma decadência econômica se instala obrigando até mesmo a abandonar antigas possessões na África (MEGIANE, p. 86; HERMANN, p. 29) , se isto já não bastasse para abalar o imaginário dos portugueses a política de casamentos com a coroa de Castela e a unificação do trono espanhol deixa Portugal em uma constante situação de risco para sua independência (MEGIANE, p. 88). Neste mesmo Portugal se mantém traços da medievalidade como o espírito cruzadístico e a identificação de um “Rei cavaleiro” convivendo com práticas modernas do antigo regime (HERMANN, p. 34) , desta forma o desejo de retomar as possessões africanas e recuperar a glória do passado manuelino , a exortação à guerra e o espírito de cruzada se juntam formando uma “mistura explosiva” que será a tônica do reinado do desejado . Ainda neste período há um crescimento considerável da circulação de livros impressos e de versões populares da Bíblia o que favorece a livre interpretação já referida (HERMANN, p. 35).

Enfim o mito que futuramente se tornaria o sebastianismo encontra o elemento que faltava , um sapateiro que colocasse no papel as idéias e as difundisse em um meio predisposto a aceitá-las . Gonçalo Annes , o Bandarra , representante da “cultura artesã apocalíptica” descrita por Jacqueline Hermann (HERMANN, pp. 49, 121) , é o elemento responsável pela transição e transmissão na esfera popular do messianismo , transitando entre cristãos novos e velhos (HERMANN, p. 46) o ilustre sapateiro assimila diversos elementos de ambas culturas para redigir suas Trovas , ao fazê-lo também cumpre o papel de intermediador entre o oral e o escrito , o que antes era cultura oral passa a existir na forma escrita , ou seja Bandarra é o grande mediador entre dois mundos : o cristão novo e o cristão velho , o oral e o escrito , o popular e o erudito (HERMANN, p. 41). Nas suas Trovas Bandarra fala sobre  três temas , a sociedade e a hierarquia quebrada , a esperança de um novo mundo e a atribuição a um rei português a missão salvadora (MEGIANE, pp. 30-31) e é este texto que circula entre o povo que tem o sapateiro como “profeta”.

Paralelo interessante de se traçar é entre Bandarra e João de Barros , ambos falam de um Portugal imperial , terra de gente gloriosa e grandes conquistas , aonde o rei é responsável pela realização da vontade divina  , apesar da natureza diversa das influências que os dois assimilaram para redigir seus textos o papel divulgador do mito é muito próximo :

João de Barros                   /                 Bandarra
Novelas de Cavalaria      /                     Trovas
Nobreza                        /                   Povo
Erudito                              /                   Popular
_______________DESEJADO_____________
___________PORTUGAL IMPERIAL_________

Graças a esta relação de diferentes esferas de divulgação do mito , mas de comunhão nos elementos e nas idealizações pôde o messianismo/milenarismo que depois se transformou em sebastianismo se instalar no imaginário tanto da “gente miúda” quanto da nobreza portuguesa.

Por fim o episódio do nascimento de D. Sebastião é bastante revelador , sua chegada de uma forma quase que milagrosa afasta mais uma vez as pretensões castelhanas , durante longas semanas forma-se em Portugal uma verdadeira corrente que , como Jacqueline Hermann diz , lhe atribui o codinome de “O Desejado”. Criado em meio de disputas políticas acirradas o jovem rei recebe uma educação  extremamente religiosa e assimila vários aspectos que formarão sua personalidade , o espírito cruzadístico , a misoginia , a obsessão pela retomada das possessões africanas ( para que então pudesse Portugal retomar seu devido lugar ) . Enfim é este caráter obsessivo , quase doentio que leva o Desejado a perder sua vida e de certa forma a independência portuguesa na batalha de Alcácer Quibir em 1578. Seu corpo jamais foi encontrado , pelo menos não para o povo português que desde então identifica o jovem rei como o seu Messias , aquele que conduzirá Portugal ao seu destino divinamente traçado , à um período de felicidade , paz e prosperidade , ou como diria Pessoa : “No mais é esperar por D. Sebastião , quer venha , quer não.”


Representação da batalha de Alcácer Quibir, onde desaparece D. Sebastião
 

Conclusão


Pintura representando D. Sebastião
quando criança
Desta pesquisa algumas conclusões afloram , outras ficam mais como dúvida , a primeira das constatações é a de que os mitos que darão corpo ao sebastianismo nascem em um período muito anterior ao século XVI , estes mitos tem duas raízes : a religião celta e a religião judaica que depois dará origem ao cristianismo. Estas linhas se encontram em Portugal e se mesclam tanto na esfera popular quanto na nobreza , assim quando nasce o Desejado podemos afirmar que já havia uma forte predisposição para sua identificação com o “Messias do reino” , era como já disse um raro momento em que o mito se torna realidade e se realiza um sonho arquétipico da humanidade.

Outra conclusão é de que na formação do sebastianismo a raiz celta teve tanta importância quanto a raiz judaica sendo portanto um erro atribuir a esta segunda um caráter predominante.

Talvez a grande conclusão seja enfim a de que o sebastianismo é um mito universal nos seus elementos e que encontrou no reino de Portugal e no seu jovem rei o espaço que necessitava para eclodir após um longo período de “incubação” no imaginário de seu povo.


 

Bibliografia

OBRAS DE REFERÊNCIA
(1)  Atlas da História do Mundo , São Paulo , Folha da Manhã , 1995.
(2)  Spalding , Tassilo Orpheu , Dicionário de Mitologia , egípcia , sumeriana , babilônica , fenícia , hurrita , hitita e celta , São Paulo , Cultrix , 1995.
(3)  A morte do rei Artur , São Paulo , Martins Fontes , 1991.

LIVROS
(1)Delumeau , Jean , Mil anos de felicidade , uma história do paraíso , São Paulo , Companhia das Letras , 1997.
(2)_________________ A civilização do renascimento , Lisboa , Editorial Estampa , 1984.
(3)Franco Jr. , Hilário , Monges , peregrinos e guerreiros - Feudo-clericalismo e religiosidade na Castela medieval , São Paulo , Hucitec , 1990.
(4)Hermann , Jacqueline , No reino do desejado - A construção do sebastianismo em Portugal ( séculos XVI e XVII ) , São Paulo , 1998.
(5)Hubert , Henri , Los Celtas y la expansión , Barcelona , Editorial Cervantes , 1942.
(6)Megiani , Ana Paula Torres , O jovem rei encantado - Aspectos da construção e personificação do mito messiânico português . Ex. da dissertação de mestrado apresentado à Faculdade de História da USP , São Paulo , 1995.
(7)Serrão , Joaquim Veríssimo , História de Portugal , vol. IV , Lisboa , Editorial Verbo , 1978