www.klepsidra.net

Os usos do patrimônio
três fazendas cafeeiras paulistas do século XIX


Maria Cecilia Winter
Bacharel em História - USP
mcwinter@gmail.com

Introdução Os usos do patrimônio Os estudos sobre as fazendas de café
Fazenda Pau D'Alho Fazenda do Resgate Fazenda do Pinhal
Considerações finais
Fontes documentais Bibliografia


6. Fazenda Pau d'Alho

            A Fazenda Pau d’Alho está localizada na região Norte do Estado de São Paulo, no vale do Rio Paraíba, Município de São José do Barreiro. Ela foi fundada por João Ferreira de Souza e provavelmente começou a ser edificada por volta de 1817, já que nessa data os viajantes Spix e Martius passaram pelo local e não mencionaram a existência de nenhuma construção no relato de viajem que foi publicado com o título “Viagens pelo Brasil”.

Já em 1822, o viajante e naturalista francês Saint-Hilaire registrou grandes plantações de café e a "única (fazenda) em que a casa do fazendeiro apresenta sobrado."[80] Neste ano a fazenda ainda recebeu a visita de D. Pedro, ainda príncipe regente. No começo produzia milho, arroz e aguardente, mas a plantação de café cresceu rapidamente e em 1836 já contava com 150 escravos.  João Ferreira de Souza morreu em 1858, época em que já se encontravam prontos todos os aparatos para o funcionamento, com as tulhas, terreiros, senzalas, monjolos, serrarias, etc. A Fazenda foi herdada por sua filha Maria Ferreira Ayrosa e depois, em 1884, por seu neto, Comendador Zebedeu Antonio Ayrosa, que faleceu em 1902. Até a época do tombamento a Fazenda era propriedade da família Ayrosa.


Vista da Casa Grande


           
A Fazenda Pau d'Alho esteve presente na maior parte dos momentos da tentativa de valorização do patrimônio rural descritos no capítulo 2 da primeira parte. Em 1942 foi feita a primeira documentação do imóvel pelo fotógrafo Germano Graeser. Em 1944 foi citada por Saia nas “Notas sobre a arquitetura rural paulista”, que disse ser merecedora de destaque por ser “a mais antiga” e por expressar uma “organização espacial inteiramente determinada pela monocultura, e ainda, pela experiência do enunciado plástico”.[81] Em 1954 teve sua maquete exposta na mostra do IV Centenário. Seu tombamento, entretanto só se deu no final da década de 1960, mais precisamente no dia 19 de fevereiro de 1968.

            Podemos dizer que até então o interesse pelo mundo rural paulista se concentrava nas casas bandeiristas. O processo de tombamento da Fazenda Pau d'Alho tem inicio no final da década de 1950, quando a atenção se desvia para os bens dos “outros ciclos econômicos paulistas”. Como não poderia deixar de ser, quem faz o pedido oficial de tombamento é Luiz Saia, então chefe do 4o Distrito do IPHAN que escreve para Rodrigo Melo Franco: “Solicito vossas providencias no sentido de ser efetuado o tombamento da Fazenda Pau d'Alho, no município de São Jose do Barreiro cujo proprietário é o Sr. Zebedeu Ayrosa. A documentação fotográfica da referida fazenda se encontra nos arquivos dessa Diretoria.”[82]

            Alguns dias depois Rodrigo Melo Franco pede “indicação mais precisa do bem a tombar, isto é, se compreende apenas a casa de residência da fazenda ou se abrange o conjunto de edificações e benfeitorias, ou mesmo se abarca todo o conjunto paisagístico da sede.”[83]

             Ainda em abril de 1958 Saia responde para Rodrigo Melo Franco sustentando claramente sua opinião: “no entender dessa chefia deve ser tombado o conjunto paisagístico da sede da fazenda, isto é, aquelas edificações e agenciamentos indicados no levantamento”. Ele ainda lembra da urgência do tombamento: “Algumas construções já foram atingidas parcialmente; outras poderão sê-lo mais profunda e irremediavelmente se o tombamento for protelado.”[84]

            Em meados de 1959, Paulo Thedim Barreto, chefe da seção de arte, escreve parecer concordando com Saia, inclusive citando suas “Notas sobre a arquitetura rural paulista”. Para Barreto o tombamento devia abranger a residência, o jardim, o terreiro de café, a senzala, os depósitos, as cavalariças, etc. E ainda uma área de 200 metros de raio, para proteger a paisagem.

            Depois disso, a Divisão de Estudos e Tombamentos (DET) dá seu parecer favorável ao tombamento e em 10 de julho de 1959 Rodrigo Melo Franco pede que o proprietário, Zebedeu Ayrosa seja procurado e notificado do “tombamento da Casa da fazenda Pau D'Alho, compreendendo todas as edificações de suas dependências”.

            As justificativas para o tombamento apontavam para a necessidade do tombamento do conjunto, já que a Pau d'Alho seria “a primeira ou uma das primeiras sedes de fazenda de monocultura de café” em São Paulo e teria entre suas características, o aproveitamento dos acidentes do terreno para dispositivos arquitetônicos de funcionamento específico; a residência ligada com a parte destinada ao trabalho, de um modo quase direto: residência-terreno de café; as cocheiras, depósitos, casas de escravos, etc. que se dispõem de maneira que a condição topográfica prevaleça seguramente; relações entre residência-senzala e senzala-trabalho, e, finalmente, tudo isto resolvido de modo particularmente feliz, resultando invulgar beleza de conjunto”.[85]

Nessa época temos um intervalo de quase 8 anos no processo. Sem obter resposta da primeira notificação, Rodrigo Melo Franco escreve para Saia em fevereiro de 1967, pedindo para ele informar Ayrosa. Desta vez a resposta é obtida, mas apenas um ano depois, em janeiro de 1968. Desta forma e “a vista da ciência do interessado” é determinado que “inscreva-se no Livro do Tombo Histórico”, o que é feito em 19 de fevereiro de 1968.

Como vimos depois da publicação das Normas de Quito de 1967, o assunto em evidência passou a ser a importância da utilização dos bens tombados, com especial interesse para os monumentos em função do turismo. Também devemos lembrar que nesse período o IPHAN sofreu uma reforma da legislação e uma mudança na direção, assumindo Renato Soeiro, que tenta manter as políticas de Rodrigo Melo Franco e procura seguir as tendências internacionais de políticas do patrimônio. Esses fatos influenciam diretamente o destino da Fazenda Pau d’Alho e sua utilização.

            Já em 1969 começam as negociações para firmar um convênio entre o IPHAN e o Instituto Brasileiro do Café (IBC), para fins da criação e instalação do Museu Nacional do Café, na antiga sede da fazenda. Em abril de 1969 Luis Saia escreve para Caio Alcântara Machado, então presidente do IBC, detalhando o projeto do Museu Nacional do Café e do convênio, que “teria como substância principal a compra por parte do IBC, da sede em questão e da área envoltória; a DPHAN restauraria o imóvel e projetaria a recomposição paisagística da área envoltória; a montagem do museu, a aquisição de peças, administração etc, bem como todas as iniciativas destinadas, no futuro, a valorização e promoção do empreendimento seriam objeto de decisão e responsabilidade conjunta do IBC-DPHAN”.[86]

            Além do fato de ser a mais antiga, a Pau d'Alho ainda preenchia outro requisito fundamental para o projeto, a localização. Estando entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, possibilitaria o desfrute turístico para os habitantes de ambos, atendendo perfeitamente recomendações das Normas de Quito. Aquisição da Fazenda pelo IBC se dá em 1971, mesmo ano do  I Encontro de Governadores para Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Natural do Brasil, em Salvador no qual a questão do uso dos bens tombados voltava a ser discutida e aparecia com destaque.

Os escritos de Saia são diretamente influenciados por essas discussões, buscando agir em conformidade com os termos do Compromisso de Salvador e se tornando defensor da necessidade de usar adequadamente os imóveis de valor histórico e artístico. No artigo “Notas sobre o IPHAN” de 1973, ele elogia o que chama de fase heróica do IPHAN e diz que o trabalho de Rodrigo Melo Franco foi válido por salvar edifícios antigos do perecimento completo, mas aponta como as soluções e usos foram inadequados. Agora os ensaios “que (a repartição) realizou anteriormente tendem a ganhar formas sistemáticas e resultados mais completos.”[87]

No acordo entre o IPHAN e o IBC a inauguração do Museu foi marcada para 1972, junto com as comemorações do centenário da Independência. Entretanto, Saia escreve um artigo intitulado Notas preliminares sobre a fazenda Pau d'Alho (história, restauração e projeto de aproveitamento) em  1975, apontando nova efeméride para a inauguração, 24 de agosto de 1975, data de aniversário da passagem do príncipe pelo local. Nesse artigo temos novamente reforçada a idéia da utilização e a importância do turismo. Segundo Saia o “emprego da palavra utilizar foi proposital pois a intenção que preside todo o projeto é de convertê-lo em objeto de uso e desfrute. De uso local e fonte de estudo, e desfrute para o turismo de dupla finalidade, de recreio e de dar ao brasileiro oportunidade de conhecer melhor os 150 anos de vida nacional que tanto estiveram de alguma forma influenciados pela economia do café”[88]

Esse artigo é uma fonte fundamental para entendermos o projeto do Museu Nacional do Café, quais as idéias do uso do patrimônio e inclusive o que se entendia por museu na época. Segundo Saia o imóvel foi encontrado em estado de extrema ruína, porém nas partes que haviam sido demolidas foram encontrados testemunhos suficientes para o estudo de sua recomposição. O que se deu foi uma verdadeira reconstrução da Fazenda.


 Reconstituição da Fazenda Pau d’Alho
Foto L.Saia in: Notas preliminares sobre a fazenda Pau d'Alho, p. 611

Segundo informações do processo de tombamento “as obras de restauração foram iniciadas no ano de 1968. No início dos trabalhos de recuperação a fazenda se encontrava em precário estado de conservação, constando-se a ausência das dependências da tulha, senzala, casa do administrador e serraria. A recomposição dessas dependências tiveram por base a documentação fotográfica e o levantamento métrico realizado em 1942 e 1954.”[89]Saia chega a se referir ao trabalho como “interpretação”, mas realmente acreditava que estava resgatando uma originalidade perdida.

Nessa concepção de restauração vemos como o patrimônio é encarado como possuidor de características imanentes, como se a identidade, o valor e a chave para a interpretação do bem estivesse na sua materialidade.  Por isso é tanta a preocupação com os materiais e as técnicas construtivas nos artigos desenvolvidos pela maioria dos arquitetos técnicos do IPHAN, bastava recuperar a materialidade que todo o valor histórico e estético “viria a tona” automaticamente, como se estivesse escondido por baixo da ruína, esperando para ser “resgatado”.

A documentação empreendida pelo IPHAN também seguia nesse sentido e Saia aponta que as 25 fotos tiradas por Germano Greses em 1942 eram “tão completo que dispensou outros dados, de história e de informação gráfica, para o reconhecimento do seu valor documentário e arquitetônico, suficientes para apontá-lo como peça a ser tombada”.[90]

A idéia de museu defendida por Saia, no entanto, trazia novidades. Segundo ele era preciso superar a idéia de museu como depósito de velharia e investir na idéia do Museu Nacional do Café como um Centro de Estudo, no qual o principal propósito seria, “de acordo com o plano de aproveitamento da Fazenda Pau d’Alho, a reunião de todo documentário do café, que para isso deve ser microfilmado, esteja o documento onde estiver, seja ele de quem for.”[91]

O museu passa a ser encarado como lugar de estudos e conhecimentos, mas devemos prestar atenção em qual era a fonte desse conhecimento e qual o papel do acervo material nesse “novo” museu. Aqui podemos perceber como a idéia de museu dos órgãos de patrimônio, apesar de superar o conceito de depósito, ainda estava distante das discussões que ocorriam no âmbito da museologia, uma vez que o Seminário do Rio de Janeiro de 1958 já salientava “que o objeto é o cerne do museu, e que todos os recursos que podem servir para reforçar sua mensagem devem ser utilizados de maneira que a relação entre sujeito e objeto se produza de maneira harmoniosa”.[92]



Cenários com objetos recolhidos para a implantação do Museu Nacional do Café
           Como vimos o trabalho de microfilmagem permanente de documentos referentes ao café seria a base do conhecimento, logo o papel do acervo de objetos não era de fonte de informação. Temos uma falta “confiabilidade da cultura material, apresentada então, como um documento de segunda categoria, incompleto e limitado, quando comparado à fonte escrita”[93]. O uso que se faz do objeto é o metafórico, apenas como “ilustração” de problemas propostos e informados por outras fontes.

            É em torno dessa perspectiva de montar um cenário, que como vimos já tinha sido utilizada na Casa Bandeirista do Butantã nas comemorações do IV Centenário de São Paulo, que giram as preocupações do “povoamento do edifício com peças da época”. No processo de tombamento do IPHAN temos uma carta de Ernani da Silva Bruno então diretor do Museu da Casa Brasileira que nos uma idéia de como foi a busca por esse acervo[94].


Notar o bilhete que caracteriza a passagem para o semíoforo
             Silva Bruno responde a uma solicitação de Saia, que pedia o envio de informações sobre o mobiliário do século XIX, dizendo que haviam registrado pouca coisa até o momento, já que os inventários e testamentos consultados iam até fins do século XVII e sugerindo a pesquisa na descrição dos viajantes.

           Essa estratégia é adotada e são consultados ainda os inventários de outras fazendas da região. Com essa documentação foi realizada uma busca, na qual foi localizado o retrato que o Imperador Pedro I enviou de presente a João Ferreira de Souza, e a obtenção, por empréstimo ou por compra, das  peças que seriam “vitalizadas pelas informações contidas no seu Centro de Estudos”[95].

            A coleta de acervo chegou a recolher algumas peças, mas o fato é que o Museu Nacional do Café nunca saiu do papel. Em 1976 ainda não estava em funcionamento e Fernando de Baptista Martins, diretor de finanças do IBC, afirma que a participação do órgão no projeto “ não se compreende dentro das suas atividades finalistícas”[96] e assim propunha a doação da Fazenda para o IPHAN que ficaria com o encargo de ali instalar o Museu Nacional do Café.

            O diretor do IPHAN, Renato Soeiro, aceita a proposta de doação e informa o ministro da Educação e Cultura, Ney de Aminthas Braga, em 14 dezembro de 1976, que o processo de doação se dará através do Ministério da Indústria e do Comércio. Os planos para a instalação do Museu ainda estavam em pé e na portaria 230 de 26 de março de 1976, na qual o MEC aprova o novo regimento interno do IPHAN, ele aparece entre os museus e casas históricas, citados no artigo 4.

            Em dezembro de 1977 aparece um anteprojeto de lei que autoriza a doação da propriedade e a Fazenda passa a ficar sob custódia do IPHAN, mas esta lei nunca chegou a ser sancionada. A questão da doação e do Museu Nacional do Café só voltam a ser discutida na década de 1980, porém sobre um outro viés.

            Nos anos 80 começam a surgir críticas ao modelo que pretendia ser implantado na Fazenda Pau d'Alho, essas críticas partem de dentro da Fundação pró-Memória, que como vimos, discordava das políticas empreendias pelo IPHAN até então. Em 1982 foram tomadas as últimas providências para que o IBC cedesse, em comodato, o imóvel à fundação. Foram apresentadas algumas alterações ao projeto inicial e a Fazenda passaria a ser um lugar para receber estudantes que tendo concluído cursos de mestrado e doutorado, necessitassem de local apropriado para preparar e redigir seus trabalhos e teses.

            Segundo comunicado redigido por Antonio Luiz Dias de Andrade, então diretor da nona seção do IPHAN, “no monumento, estariam, ainda, abrigados acervos pertinentes às atividades de produção e cultivo de café, tais como instrumentos de trabalho, máquinas e equipamentos de beneficiar, mobiliário, etc, didaticamente organizados e exposição de documentos, visando, em conjunto, oferecer aos visitantes referências básicas para a compreensão do processo histórico de formação e desenvolvimento sócio-cultural, havidos por força das atividades econômicas na região.”[97]

            Podemos dizer que esse projeto não era muito distante do original e talvez por isso também não tenha sido implantado. No final da década de 1986 as críticas ao projeto ganham força dentro de um grupo de trabalho coordenado por Judith Cortesão. Sobre esse trabalho é publicado um artigo na Folha de São Paulo em 1986, no qual são criticadas a restauração da Fazenda e as modalidades de sua ocupação[98]. Segundo Gabriel Bolaffi, a utilização dos bens para abrigar museus, era uma conseqüência natural da mentalidade que via o monumento destituído de interferências construtivas posteriores à obra original. Para ele, o Brasil estava estagnado nessa área, já que essa tendência havia mudado depois carta de Veneza de 1964. Era necessário um aproveitamento da Fazenda Pau d'Alho com programas mais contemporâneos.

            É justamente a coordenadora do grupo de trabalho, Judith Cortesão, que havia proposto em 1984 a implantação do museu Terra-Homem, iniciativa voltada para o patrimônio natural, que teria como primeiro passo  a transformação da Fazenda Pau d'Alho em sede autônoma da Fundação Pró-memória, o que possibilitaria o pedido de verbas ao Banco Mundial. Já em 1986, talvez sob influência das críticas de Bolaffi, a proposta aparece como Projeto Terra-Homem e não mais como museu.

            Novamente podemos perceber a distância entre os movimentos da área de museologia e a idéia que os órgãos do patrimônio tinha de museu. A troca de nome de “Museu” para “Projeto” demonstra o desconhecimento do movimento pela Nova Museologia e Ecomuseus, que procuravam “integrar todos os meios de desenvolvimento, estender suas atribuições e funções tradicionais de identificação, de conservação e de educação (...) para melhor inserir sua ação naquelas ligadas ao meio humano e físico.”[99]  

            Esse projeto falava do uso adequado dos recursos naturais ali existentes, indo de encontro com as discussões sobre o patrimônio natural, tão em voga na época. Para esse uso adequado seria necessária uma “redefinição cultural da relação terra-homem (...) que recupere e ou corrija – quando -possível- os erros do passado e, acima de tudo, viabilizem a prospecção e diagnósticos seguros para um direcionamento futuro da situação de conurbação Rio- São Paulo, inclusive servindo como modelo para outras regiões.”[100]A verba para o projeto foi aprovada em 1986, mas o Terra-Homem, assim como o Museu Nacional do Café, nunca chegou a existir.


Vista exterior das senzalas

            O caso da Fazenda Pau d'Alho é muito interessante para analisarmos como as senzalas foram inseridas no processo de tombamento e nos projetos de aproveitamento do bem.  Saia sempre defendeu em seu artigos a importância do sistema cafeeiro presente na arquitetura da Fazenda, uma inovação que teria aparecido pela primeira vez na Pau d'Alho. Porém, no final do processo apenas a sede da fazenda aparece inscrita no livro histórico, como vemos no texto do diário oficial “Fica inscrito no livro de Tombo histórico. Obra: casa da Fazenda Pau d'Alho. Natureza da obra: Arquitetura rural.” Assim, a Fazenda que é fruto do sistema escravista, tem apenas uma parte desse sistema protegido por lei, como vimos os interesse giravam em torno do patrimônio da elite.

            As senzalas foram uma das partes reconstruídas pelo projeto de restauração e no Museu Nacional do Café, era vista como o lugar ideal para abrigar o  Centro de Estudos, sendo portanto o núcleo do projeto de documentação, assim “a extensa construção que constituía a senzala conservará seu aspecto externo intacto, mas seu interior será distribuído de outra forma.”[101] Já em 1982 as mudanças no projeto prevêem que as senzalas sejam ocupadas com a hospedagem de pesquisadores bolsistas que estivessem redigindo seus trabalhos e teses.
Vista interior das senzalas
com divisões internas

          Na busca por acervo apenas os móveis, vestimentas, utensílios e alfaias dos senhores são mencionados. O escravo se fazia presente apenas no aspecto do trabalho, já que buscavam-se também pilões e monjolos. Entretanto, em nenhum momento se fala em peças do cotidiano escravo ou do controle social tão patente pela própria distribuição das construções na fazenda. Saia chega a mencionar a inovação da solução de distribuição e do “partido não só o da morada de “sobrado” e seus alpendres, seu prolongo e suas divisões internas, ou a senzala formada por uma bateria de compartimentos, ou das casas de serviços com seus puxados para engenhos ou moinhos e para a casa de escolha, ou das tulhas e outros depósitos, ou ainda dessas unidades como agenciamento mútuo, mas também disso tudo com a paisagem, com os regos de água e os muros divisórios, seus desníveis e seus horizontes, suas circulações e seus serviços, esse partido é, por ventura, a criação mais visível, posto que aglutina espaço e tempo, as construções e os vazios dessas construções, a mata, as plantações, a água, a distribuição em planta e o aproveitamento das diferentes cotas, arregimentando numa única solução global, as soluções de morar, de trabalhar e de produzir.”[102]

         Essa descrição leva em conta o sistema de produção, no qual o escravo aparece como força de trabalho e não como agente social. Desta forma, fica de lado, o que no nosso entender é o mais importante da localização estratégica da senzala, que é o controle social dos escravos, já que da casa se tem uma visibilidade excepcional do terreno de café e da senzala.

Porão que seria lugar de tortura dos escravos

Outro fato não mencionado são as divisões internas, que constituiriam um forte indício material da existência de famílias escravas, a capacidade de criar uma sociabilidade própria e as complexas relações de parentesco no cativeiro, são alguns pontos que contribuíram para a legitimidade e solidez da sociedade escravista no Brasil.

No inventário de Maria Ferreira Ayrosa de 1884 se encontra a descrição da fazenda “a casa de morada da fazenda com todas as suas dependências, tulhas paióis, senzalas, muros, terreiros, regos de águas, moinhos, engenhos, hortas, pomar e mais benfeitorias.”[103] Não fornece muitos detalhes, mas como vemos a palavra senzala aparece no plural. Já no inventário da fazenda Barreiro de 1874, que segundo Saia foi construída pelo mesmo mestre de obras, temos a descrição de “onze lances de casas cobertas de telhas de moradia dos pretos, inclusive dois lances assoalhados”.[104]

Hoje em dia a única parte ocupada da Fazenda é a casa, que abriga um cenário do acervo recolhido. No discurso de apresentação é mencionado que as senzalas não possuíam as divisões internas, que foram conseqüência da chegada dos imigrantes. Os porões sem iluminação da casa são apresentados como o lugar das torturas e dos castigos físicos. Como já afirmamos não pretendemos dizer que isso não existia, nem reabilitar a escravidão, apenas apontar como é essa imagem distorcida da família e do cotidiano escravo, não nos permite ver as complexidades da relação senhor – escravo, principalmente na segunda metade do século XIX, e assim não podemos ter uma compreensão crítica não só da escravidão, mas do sistema escravista como um todo.


Continuação: Fazenda do Resgate


[80] SAINT-HILLAIRE. Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e São Paulo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932, p. 210.

[81] SAIA, L. Morada Paulista, p. 55.

[82] Ofício 26-58 24 de março de 1958. In: IPHAN, processo n. 577 T 58 (Fazenda Pau d'Alho).

[83] Ofício 459 01 de abril de 1958. In: IPHAN, processo n. 577 T 58 (Fazenda Pau d'Alho).

[84] Ofício 32-58 de 28 de abril de 1958. In: IPHAN, processo n. 577 T 58 (Fazenda Pau d'Alho).

[85] Parecer de Luis Saia. In: IPHAN, processo n. 577 T 58 (Fazenda Pau d'Alho).

[86]  Ofício 40-69 de 9 de abril de 1969. In: IPHAN, processo n. 577 T 58 (Fazenda Pau d'Alho).

[87] SAIA, L. apud: TRINDADE, J. B. Pau D'Alho: quase roteiro. Revista de História, São Paulo n. 102, 1975, pg. 798.

[88] SAIA, L. Notas preliminares sobre a fazenda Pau D'Alho (história, restauração e projeto de aproveitamento), p. 647.

[89] Ofício n. 193 de 15.08.1975. In: IPHAN, processo n. 577 T 58 (Fazenda Pau d'Alho).

[90] SAIA, L. Notas preliminares sobre a fazenda Pau D'Alho (história, restauração e projeto de aproveitamento), p. 582.

[91] Ibidem, p, 589.

[92] CRESPO TORAL, H. In: ARAÚJO, M.; BRUNO, M. C. O. (Orgs.).op. cit., p. 09.

[93] REDE, M. op. cit., p. 275.

[94] Ofício n. 7/74 do Museu da Casa Brasileira. In: IPHAN, processo n. 577 T 58 (Fazenda Pau d'Alho).

[95] SAIA, L. Notas preliminares sobre a fazenda Pau D'Alho (história, restauração e projeto de aproveitamento), p. 626

[96] Ofício n. 333-76. In: IPHAN, processo n. 577 T 58 (Fazenda Pau d'Alho). 

[97] Comunicado n. 182/82. In: IPHAN, processo n. 577 T 58 (Fazenda Pau d'Alho).

[98] BOLAFFI, G. Preservação e utilização do patrimônio histórico. Folha de S. Paulo, São Paulo, 14 nov. 1986.

[99] ARAÚJO, M.; BRUNO, M. C. O. (Orgs.). op. cit., p, 30.

[100] Carta de julho de 1987. In: IPHAN, processo n. 577 T 58 (Fazenda Pau d'Alho).

[101] SAIA, L. Notas preliminares sobre a fazenda Pau D'Alho (história, restauração e projeto de aproveitamento), p. 628.

[102] Ibidem, p. 613.

[103] Ibidem, p. 607.

[104] Ibidem, p. 603




Saiba mais sobre as fazendas do café e a estrutura social escravista.
Compre livros a partir destes links e ajude Klepsidra a permanecer no ar de graça.




Fazendas solares da região cafeeira no Brasil Imperial, de Fernando T. F. Pires
Feitores do corpo, missionários da mente, de Rafael de Bivar Marquese
Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre
Velhas fazendas: arquitetura e cotidiano em Araraquara (1830 - 1930), de Vladimir Benincasa




Este texto é de total responsabilidade de sua autora e se destina à divulgação científica.
Utilize-o apenas como fonte de consulta.
Copyright Klepsidra - Revista Virtual de História