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Os usos do patrimônio
três fazendas cafeeiras paulistas do século XIX


Maria Cecilia Winter
Bacharel em História - USP
mcwinter@gmail.com

Introdução Os usos do patrimônio Os estudos sobre as fazendas de café
Fazenda Pau D'Alho Fazenda do Resgate Fazenda do Pinhal
Considerações finais
Fontes documentais Bibliografia

9. Fazenda do Pinhal      

            A Fazenda do Pinhal se localiza no Oeste Paulista, no município de São Carlos, nos antigos Campos de Araraquara. As terras da sesmaria do Pinhal foram adquiridas por Carlos Bartolomeu de Arruda Botelho em 1786, mas a demarcação das terras e o início das construções só se deram em 1831, quando já estava sob a administração do tenente-coronel Carlos José Botelho. As primeiras plantações de café vieram no final da mesma década, quando foram plantados cinco mil pés de café. Nesta época ainda foram ampliadas a sede e a senzala, acrescentados os terreiros, a tulha e equipamentos indispensáveis a uma fazenda de café.


Vista geral da casa
          Desde sua criação a Fazenda já passou por oito gerações, sem nunca sair da família Arruda Botelho. A casa sofreu acréscimos em continuação à planta original. Esses acréscimos tiveram como razão principal a alteração do programa de necessidades, visando mais conforto à família. Por exemplo, foram feitos banheiros, nova cozinha e mais quartos.

            Foi o esforço de um desses herdeiros, Modesto Carvalhosa, casado com Helena Carvalhosa, que levou a abertura do processo de tombamento no CONDEPHAAT e posteriormente no IPHAN. Em 21 de setembro de 1979, “na qualidade de co-proprietário da área remanescente onde se localiza a sede da antiga Fazenda do Pinhal (...) vem o requerente, juntamente com outros condôminos, (...) submeter ao alto critério desse Egrégio conselho verificar da oportunidade do tombamento do referido conjunto de 45 hectares onde se encontram localizadas as referidas benfeitorias arquitetônicas e paisagísticas, tendo em vista o seu valor histórico.”[124]

            As benfeitorias as quais Carvalhosa se referia eram a sede da Fazenda, a senzala, a tulha de café, os terreiros de café, o pomar murado, a mangueira e as cocheiras. Os fatores apontados para o tombamento incluem o fato da Fazenda estar ligada à fundação da cidade de São Carlos e do mobiliário, dos quadros, da capela e da tulha serem originais. Ele ainda menciona que as benfeitorias estavam sendo restauradas desde 1978 e pede orientação do órgão nos trabalhos de restauração.

            Em outubro de 1979, o arquiteto José Pedro de Oliveira Costa apresenta o primeiro parecer favorável ao tombamento, dizendo que “a expressividade das edificações caracterizavam muito bem uma época importante de nossa cultura rural, ainda mais se considerarmos o seu bom estado de conservação. Se algumas modificações indesejáveis foram introduzidas ao longo da sua história elas podem facilmente ser corrigidas, sendo essa inclusive a vontade manifesta dos proprietários”[125]. O parecer aponta para o fato do conjunto se manter inteiro, preservando a relação entre a casa e os espaços externos, que deviam ser incluídos no tombamento.

            Outro parecer apresentado é o de Murilo Marx que afirma que as fotos e croquis atestam o interesse documental da fazenda, mas para a abertura do processo era necessário uma pesquisa histórica da propriedade e seu papel na região[126]. Aqui temos a manifestação de uma inovação importante no trabalho de abertura de processos, já que apenas as fotos e elementos arquitetônicos não bastaram para garantir a abertura do processo, como aconteceu com as outras Fazendas no final dos anos 60.

            O pedido de Marx certamente ainda não fazia parte das práticas cotidianas do órgão, já que o Conselho consultivo se declara favorável à abertura do processo em fevereiro de 1980, mesmo antes da realização da pesquisa. A preocupação passa a ser o mobiliário e maquinário da casa, buscando determinar o que era e o que não era original.

Uma lista em que constam todos os móveis e sua distribuição pela casa é feita por José Pedro de Oliveira Costa em outubro de 1980. Nela o arquiteto afirma que “as alfaias são praticamente todas modernas, tendo nada restado do século passado. (...) Difícil também a tarefa de selecionar os móveis, pois estando eles sendo restaurados, aos poucos, vão ressurgindo na sua beleza original”[127]. É curioso notarmos que a palavra original se refere ao que era do período do Conde, como se o fato de ter pertencido ao Conde lhe garantisse atribuições que seriam reconhecidas por um olhar especializado e resgatadas por um restauro.

            Como vemos a pesquisa histórica é mencionada, mas fica esquecida, o que prevalece é a busca por características de valor imanente nos objetos. Aqui percebemos como mudanças na política de tombamentos começavam a ser introduzidas, mas ainda não tinham muito respaldo no corpo técnico do CONDEPHAAT. A falta da pesquisa histórica só é notada no final de 1980, quando Aldo Nilo Losso, Diretor de Divisão da Secretaria Executiva do CONDEPHAAT, solicita a pesquisa à historiadora Julita Scarano e diz ser “lamentável que até essa data não se providenciasse as competentes notificações e providencias em resposta ao signatário da petição inicial”[128], isto é, o pedido de uma pesquisa histórica feito por Murilo Marx.

            A resenha histórica no entanto só foi encaminhada em junho de 1981, pela historiadora Heloisa Barbosa da Silva. Nela é narrada a ocupação das terras dos campos de Araraquara, a aquisição das sesmarias e a formação da Fazenda, destacando o período do Conde e sua ligação com a fundação da cidade de São Carlos. Segundo a autora, depois da morte da Condessa, a “casa fica em estado de abandono, no seu interior, a sala de jantar arreou-se e a senzala entrou em processo de ruína”.

Vista geral da fazenda

          O abandono só teria acabado em 1955, quando Augusto de Arruda Botelho passou a cuidar da Fazenda e restaurou boa parte dos prédios. Outros melhoramentos teriam sido executados por Samuel Junqueira Franco em 1959.

Barbosa da Silva também aponta para o fato de desde 1967 as terras da Fazenda se encontrarem divididas entre os 39 herdeiros, mas a sede era comum a todos. Em 1971 foi instituído um condomínio nos dezoito alqueires da sede, que foi presidido por Bento Bueno Neto até 1978, por Carvalhosa de 1978 a 1980 e se encontrava a cargo de José Vieiras Neto no momento em que a resenha foi encaminhada.

O processo ainda conta com mais dois pareceres. O primeiro, de fevereiro de 1981 é do conselheiro Edgard Carone, que afirma ser “totalmente favorável ao ponto de vista do arquiteto José Pedro de Oliveira Costa, que o tombamento deveria abranger todos os 45,01 hectares que o imóvel possui hoje de forma a se garantir a não descaracterização da área envoltória.”[129]O outro, de junho de 1981, é de autoria do arquiteto Clóvis Lerner, que achava difícil a isenção dada a rara beleza do conjunto. O parecer de Lerner aponta, no entanto, para as reformas e modificações que aconteceram principalmente na casa e na senzala. Segundo ele, “um dos blocos da velha senzala, originalmente edificada de pau a pique, é por volta de 1926 reerguida em tijolos, e recebe então, o nome de casas operárias”.          

            Em reunião do colegiado em setembro de 1981 são aprovados os pareceres dos conselheiros e é elaborada a Resolução de tombamento a ser submetida à apreciação do Secretário da Cultura, Antonio Henrique da Cunha Bueno. Em 16 de dezembro de 1981, a Resolução é assinada pelo secretário e ficam tombadas as seguintes benfeitorias: sede, senzala, tulha, terreiros de café, pomar, cocheiras e mangueiras, e os móveis da casa arrolados no processo.[130]
A tulha de café, integrante do núcleo original da fazenda

Apenas alguns anos depois do tombamento no CONDEPHAAT, Carvalhosa apresentou o mesmo pedido ao IPHAN. Em 25 de novembro de 1985, o pedido é encaminhado a Antonio Luiz Dias de Andrade, juntamente com o dossiê formado pela documentação do CONDEPHAAT, para ele dar um “parecer técnico quanto à representatividade do imóvel em relação a outros de mesmo programa e quanto a conveniência de se incluir os bens móveis na proteção pretendida.”[131]

            O parecer de Dias de Andrade aponta que o imóvel já está tombado pelo órgão estadual e que completaria o quadro para os estudos sobre o café proposto por Saia em seus artigos, já que a Fazenda do Pinhal se situa entre aquelas unidades características do segundo período, assim “como merece consideração o raro zelo demonstrado pelos proprietários na preservação criteriosa do bem cultural, revelando no empenho dos cuidados compreensíveis em recompor não apenas os antigos espaços, mas também as referências a um estilo de vida perdido nas lembranças e nas tradições familiares.[132]

     Se no caso do tombamento regional a sua ligação com a fundação da cidade de São Carlos foi o bastante para garantir o tombamento, agora era necessária uma justificativa que garantisse o interesse Nacional do bem. Para isso novamente é usado o texto de Saia, essa escolha pode se dever ao óbvio prestígio do arquiteto dentro da instituição, mas também aponta como os estudos na área não tinham avançado muito.

     No começo do ano seguinte Dias de Andrade encaminha as informações fornecidas pela historiadora do CONDEPHAAT, Ana Luiza Martins. Ela menciona a pesquisa histórica feita por Heloisa Barbosa da Silva e a avaliação arquitetônica de Clovis Lerner. No seu texto, Martins, concorda que a Fazenda seja um modelo de fazenda de café do centro oeste paulista do segundo período da trajetória cafeeira pelo estado, mas acha que é necessária uma “análise mais abrangente que contemple, mais do que o exemplar em si, sua carga de significação e representatividade no processo histórico mais amplo.” [133]

            A autora menciona a importância da Fazenda como testemunha de um período de mudanças, no qual o homem da lavoura teve que se tornar um agente do capitalismo comercial e financeiro. “O Pinhal atravessou o século e se coloca com correção como um suporte muito rico de representação onde estão presentes todos os elementos inicialmente do mundo agrário, a seguir da crise escravista para finalmente representar o fulcro da diversificação do capital na região”.[134]

            Após mais um parecer favorável em março de 1986, o de Helena de Mendes dos Santos, arquiteta do setor de tombamento do IPHAN, a Fazenda do Pinhal passa constar na lista de estudos para futuros tombamentos.  A rapidez dessa seleção é justificada pelo “incontestável mérito para tombamento.”[135]

            Em agosto de 1986, o parecer de José Mindlin, reforça essa postura de acelerar o processo, já que “poucos casos de tombamento, ao meu ver, são de decisão tão fácil quanto esse processo.” Mindlin ressalta o fato de o tombamento ter sido solicitado pelo proprietário, que dava um exemplo a ser seguido por proprietários de imóveis de significação histórica ou artística.

Nessa época Carvalhosa integrava o Conselho Consultivo do IPHAN, mas Mindlin aponta que  “ao apresentar a solicitação de tombamento a SPHAN não imaginava que viesse a fazer parte do seu Conselho Consultivo”. Numa reunião do conselho do dia 12 agosto de 1986, na qual foi lido o parecer de Mindlin, Carvalhosa lamentou a coincidência de estar integrando o conselho no momento de apreciação de tombamento da fazenda e declarou que se absteria de votar, esclarecendo que a “solicitação por ele encaminhada a SPHAN visa preservar uma propriedade que, em 1986, comemora 200 anos nas mãos da mesma família.”[136]

Segundo Maria Cecília Londres Fonseca, nos anos depois da saída de Rodrigo Melo Franco o número de solicitação de tombamento de pessoas externas ao IPHAN, como é o caso da Fazenda do Pinhal, cresceu significativamente[137]. Porém, o maior número de tombamentos aprovados continuava sendo os que partiam de algum agente institucional. Nesse sentido que a presença de Modesto Carvalhosa no Conselho pode ajudar a explicar a rapidez no andamento do processo da Fazenda do Pinhal. Não por influenciar os outros conselheiros, mas por estar familiarizado com os critérios técnicos , ciente e envolvido no processo, podendo contribuir da melhor forma possível.

O processo caminhava rapidamente e em julho de 1986 são delimitadas para tombamento as mesmas áreas que foram tombadas pelo CONDEPHAAT. Também fica decidida a inscrição nos três Livros, apontado que o tombamento deverá ser feito pelo “excepcional valor histórico, artístico e paisagístico que esse conjunto apresenta, exemplar característico das fazendas do segundo quarto do século passado, quando a cultura do café extravasou o vale do Paraíba e se espalhou pelo oeste de São Paulo”.[138]

Seguindo as normas do IPHAN, os proprietários são informados e têm um prazo de 15 dias para aceitarem ou repugnarem a iniciativa de tombamento. Carvalhosa recebe a carta no dia 05 de agosto e responde no dia seguinte, manifestando anuência ao tombamento em questão. O processo teria sido ainda mais rápido se um dos herdeiros, João Ataliba de Arruda Botelho, não tivesse se declarado “literalmente contra o tombamento da Fazenda do Pinhal, por razões que não me cabe nesse momento explicar, mas que poderei fazer se necessário e consultado em outra ocasião.”[139]

            Após esse fato é pedido, em novembro, ao conselheiro José Mindlin que faça uma apreciação da impugnação do tombamento da Fazenda. A resposta só vem no ano seguinte, quando Mindlin diz que  não pode apreciar já que o herdeiro não manifestou razões, mas chama a atenção para o fato de que apenas ele, detentor de parcela muito reduzida da propriedade, se opôs ao tombamento. Desta forma o  tombamento prevalece e em julho de 1987 é pedida a homologação ao Ministro de Estado da Cultura, Celso Monteiro Furtado, que o faz no mesmo dia.

            A Fazenda do Pinhal é inscrita no Livro Histórico, no Livro de Belas Artes e no Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, no dia 14 de outubro de 1987, “Obra: Fazenda do Pinhal, incluindo vegetação e benfeitorias, tais como sede da faz. senzala, tulha, terreiro de café, cocheiras e pomar murado. Natureza da obra: Arquitetura rural”.

            Se a Pau d'Alho e a do Resgate estavam em sintonia com as Normas de Quito, abrindo suas portas para o turismo,  no Pinhal isso foi levado às últimas conseqüências. Depois de quase dez anos de restaurações, passou a funcionar na Fazenda, uma pousada. Com já afirmava o ítem 6 das Normas, “as obras de restauração nem sempre são suficientes, por si só, para que um monumento possa ser explorado e passe a fazer parte do equipamento turístico da região. Podem ser necessárias outras obras de infra-estrutura, tais como um caminho que facilite o acesso ao monumento ou um albergue que aloje os visitantes ao término de uma jornada de viagem.”[140]

            Visando criar essa infra-estrutura, o Compromisso de Salvador, de 1971, já sugeria que “os órgãos responsáveis pela política de turismo estudem medidas que facilitem a implantação de pousadas, com utilização preferencial de imóveis tombados.”[141]Segundo Maria Ângela Bortolucci, nos últimos anos estaria crescendo a valorização turística das fazendas de café, “levando seus proprietários a uma certa euforia e, por conseqüência, a cometer equívocos terríveis no tratamento, na conservação e na manutenção deste patrimônio, dando margem para muitas invenções e falsificações – cria-se em algumas situações um verdadeiro cenário para o turista ver.”[142]

            Não acreditamos que esse seja o caso da Fazenda do Pinhal, onde o turismo cultural sempre se apresentou como um mecanismo de conservação da Fazenda do Pinhal, e não o contrário, isso é, o uso do patrimônio para explorar o turismo. Outro ponto que demonstra o interesse em preservar a Fazenda e também foi recomendado pela Conferência Geral da Unesco de 1978, é a fundação de uma associação de caráter não lucrativo, no caso, a associação Pró-Casa do Pinhal, fundada em 1990. A associação possibilita o recebimento de doações de empresas e de pessoas físicas através da Lei Rouanet, possibilitando obras de restauro e manutenção, organização de “workshops”, de encontros, como a Semana do Pinhal e a publicação on-line do jornal Sesmaria do Pinhal.


No salão da Fazenda, localizado na antiga senzala,
são realizados eventos de negócios atualmente.

A capela está reservada aos eventos religiosos.
            No entanto, devemos apontar que a instalação de uma pousada não se faz sem alguns problemas. O primeiro deles é sobre o uso do imóvel e do acervo e o acesso a ele. No “site” da Fazenda é mencionado que eles possuem serviços para eventos empresariais,  como encontros de negócios, convenções, almoços, treinamentos, lançamentos de produtos e seminários; e sociais, como casamentos, bodas, aniversários, reuniões de família, almoços ou jantares. Esses eventos  ocorrem no salão, com 240m², situado nas dependências da antiga senzala. Na Capela são realizados cerimônias religiosas e casamentos. Por motivos de conservação do imóvel o número de pessoas que pode comparecer a esses eventos é restrito.

            No entanto, como vimos no processo do CONDEPHAAT, ficavam “igualmente preservados os bens móveis cujo arrolamento consta da instrução do processo de tombamento.”[143]
           Dos quinze quartos para hospedagem, três deles se localizam na casa, inclusive o quarto que a Condessa ocupou depois de viúva. Nesse caso os objetos não estão musealizados; eles têm sua proteção garantida por lei, mas não efetivamente por uma política institucional que garanta a passagem do útil para o semióforo, como já apontamos na introdução desse trabalho.

            Sobre o problema de salvaguarda gerado pelo uso funcional dos objetos, poderiam argumentar que ele pode ser minimizado e que a conservação é uma questão de destruição programada, já que nada vai durar para sempre.

Vista com quarto para hóspedes, com mobiliário tombado.

          Porém, no caso da pousada a questão fica mais complicada ainda, já os objetos não podem ser utilizados por todos. O acesso se restringe aos proprietários e aos hospedes que pagam pela estadia. Num processo de musealização temos, além da garantia da passagem para o semióforo, a transformação do objeto em um bem público, no sentido de apropriação pública do seu significado, mesmo que ele continue sendo propriedade particular. No caso da Fazenda temos uma distinção desse uso, já que os grupos escolares e visitantes de fora têm acesso apenas ao semióforo e os donos e hóspedes podem usar os objetos funcionalmente.

            No nosso ponto de vista, o segundo problema é sobre o discurso que se faz sobre a Fazenda, tanto para atrair os hóspedes, como nas visitas guiadas, tendo em vista que a Fazenda recebe alunos do ensino fundamental e médio da rede escolar. No ano de 2003, até novembro, 5.125 visitantes já haviam passado pela Fazenda do Pinhal.


Vista do terreiro e das senzalas da janela
da casa, disposição favorecia o controle.

            No “site” da Fazenda temos o seguinte texto, “os enormes terreiros de café onde escravos e colonos trabalharam, ficam entre a Casa Grande e a Senzala. É para os olhos um portal aonde a história do Brasil se reflete, criando a possibilidade mágica de se transportar para o tempo dos carros de boi e carruagens, quando a Fazenda vivia o auge da época do café: o lugar perfeito para se assistir a um fim de tarde e a uma noite estrelada.”

            A fazenda é apresentada como um espaço que ficou congelado no passado, como se o que é visto fosse o “passado materializado” nos objetos e não parte de uma construção histórica.

               Temos mais uma vez o fetiche do bem tombado e nessa volta ao passado ficam registrados apenas os momentos da elite, já que ninguém gostaria de voltar ao século XIX como escravo. Por isso que a senzala, mesmo tombada, acaba ficando de fora do discurso sobre a fazenda, quanto a isso é significativo que o nome da Associação seja Casa do Pinhal e não Fazenda do Pinhal.

            No “site” também temos apresentados as possibilidades de visitas escolares. Temos uma visita  básica, que inclui a casa grande, a senzala, o prédio do antigo engenho, os terreiros e o pomar; e uma visita que leva o dia inteiro e inclui a tulha. Todas a visitas são acompanhadas por um monitor da Fazenda, o que demonstra interesse e preocupação com a questão da ação educativa. Porém, o roteiro utilizado nas visitas, é totalmente centrado na casa grande e na vida do Conde. E apesar de contar com “uma pesquisa sobre os aspectos históricos e culturais envolvidos naquele ambiente, bem como a sua adaptação ao perfil diferenciado de visitantes que a Fazenda recebe”[144] continua com a idéia de que o aluno tem contato direto com a época, “podendo perceber o momento vivido, com a “realidade” que só pode se oferecida pelas fontes visuais”[145].


Casa Grande da Fazenda do Pinhal, o grande destaque turístico. 



Continuação: Considerações Finais


[124] CONDEPHAAT, Processo n. 02172/79 (Fazenda do Pinhal), p. 04.

[125] Informação 08/79. In: CONDEPHAAT, Processo n. 02172/79 (Fazenda do Pinhal), p. 18.

[126] Carta de 15 de nov de 1979. In: CONDEPHAAT, Processo n. 02172/79 (Fazenda do Pinhal), p. 20.

[127] Carta de 29 de outubro de 1980. In: CONDEPHAAT, Processo n. 02172/79 (Fazenda do Pinhal).

[128] Carta de 05 de dezembro de 1980. In: CONDEPHAAT, Processo n. 02172/79 (Fazenda do Pinhal).

[129] Parecer de 05 de fevereiro de 1981. In: CONDEPHAAT, Processo n. 02172/79 (Fazenda do Pinhal).

[130]Resolução 48. In: CONDEPHAAT, Processo n. 02172/79 (Fazenda do Pinhal), p. 222.

[131] Ofício n. 120/85. In: IPHAN, Processo n. 1.183 T 85 (Fazenda do Pinhal).

[132] Ofício n. 323/85. In: IPHAN, Processo n. 1.183 T 85 (Fazenda do Pinhal).

[133] Ofício 011/86. In: IPHAN, Processo n. 1.183 T 85 (Fazenda do Pinhal).

[134] Ofício 011/86. In: In: IPHAN, Processo n. 1.183 T 85 (Fazenda do Pinhal).

[135] Informação 102. In: In: IPHAN, Processo n. 1.183 T 85 (Fazenda do Pinhal).

[136] IPHAN, Processo n. 1.183 T 85 (Fazenda do Pinhal), p. 189.

[137] FONSECA, M. C. L., op. cit.,  p. 210.

[138] Informação 108/86. In: IPHAN, Processo n. 1.183 T 85 (Fazenda do Pinhal).

[139] Carta de 06 de agosto de 1986. In: IPHAN, Processo n. 1.183 T 85 (Fazenda do Pinhal).

[140] CURY, I. (org.)., op. cit., p. 115.

[141] Ibidem, p. 145.

[142] BORTOLUCCI,  M. A. P. C. S. Editorial. Sesmaria do Pinhal, São Carlos, ano 01 n. 2, dez. 2003. Disponível em: <http://www.fazendapinhal.com.br/jornal/n02/editorial.htm>. Acesso em: maio de 2004.

[143] Resolução n. 48. In: CONDEPHAAT, Processo n. 02172/79 (Fazenda do Pinhal), p. 222.

[144] CARVALHOSA, M. Fazenda Pinhal e Turismo Cultural, 1999, mimeo, p. 71.

[145] SARDELLA, M. Acervo da Casa Pinhal e sua adequação pedagógica para o estudo do meio, mimeo, 1999, p. 63.




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