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A vida militar romana a partir de alguns
documentos epigráficos


Pedro Paulo A. Funari[1]
ppfunari@uol.com.br
Prof. Dr. Departamento de História - Unicamp


 

            A História se faz com documentos e a tradução e o estudo dos documentos constitui tarefa importante na pesquisa histórica. Mas, como traduzir? Isso dependerá da postura epistemológica do tradutor, dos objetivos a serem atingidos pelo estudo da linguagem. No interior da Lingüística, tem havido crescente preocupação com questões relativas à identidade, interação, narrativa e ideologia da linguagem, de forma a relacionar os estudos lingüísticos às outras disciplinas. O interesse em capturar os liames, às vezes tênues, entre processos e estruturas institucionais mais amplas e os detalhes textuais dos contatos diários produziu uma gama de projetos que começam por preocupar-se com a definição teórica da própria abordagem. A pergunta que se faz é “como o estudo da linguagem pode contribuir para a compreensão deste fenômeno sócio-cultural específico (e.g. formação de identidade, nacionalismo, globalização)?”. Este tipo de questões considera a língua como um instrumento para ter acesso a processos sociais complexos. O lingüista estuda temas também perscrutados por antropólogos ou historiadores, como os processos de construção e transformação de identidades. As características dessa postura são as seguintes:

 

Objetivos: o uso das práticas lingüísticas para documentar e analisar a reprodução e transformação das pessoas, instituições e comunidades, no tempo e no espaço;

A língua como objeto: uma expressão recheada com valores ideológicos e outros;

Unidades de análise preferidas: prática da língua, contextos de participação, identidades;

Questões teóricas: liames micro-macro (encontros corriqueiros), heteroglossia, integração de diferentes fontes semióticas, intertexualidade, formação e negociação de identidades, narratividades e ideologias da linguagem;

Métodos preferidos de coleta de dados: análise sócio-histórica, documentação audiovisual de encontros específicos, com particular atenção para a momentânea negociação de identidades, instituições e comunidades.

 

            A partir destes pressupostos[2], pode estudar-se a elaboração de discursos como o castrense e propor uma tradução que tente dar conta da construção e negociação de identidade própria e específica. Para isso, apresento dois documentos epigráficos provenientes de Vindolanda, na Bretanha romana, acampamento militar ao norte da província romana. Representam bem a expressão latina militar de início do segundo século d.C. O latim vulgar, já há algumas décadas, como atestado pelas inscrições parietais pompeianas, apresentava características muito particulares, em clara direção às línguas românicas, tanto no vocabulário, como na sua sintaxe. O latim, contudo, além de manter-se como língua erudita, encontrou no exército romano a instituição mais propícia à propagação de uma língua de comunicação. O latim militar não se preocupava com o conhecimento literário, como era o caso do latim erudito, nem tampouco era uma língua materna. Devia servir como elemento comum, uma koiné, para a mais importante instituição para a manutenção do domínio romano, o exército. Tal língua aparece bem nas tabuinhas recolhidas aqui.

 

            A primeira é uma littera commendaticia, ou carta de recomendação que retrata bem com a administração romana, de caráter militar, fundava-se em relações pessoais e, portanto, na recomendação, na concessão de um favor (subscribere, como aparece, tardiamente, em Tertuliano, Idol.13). A cidade de Luguualium  (atual Carlisle) estava sob o comando de um militar (centurio regionarius), Ânio Eqüestre e, na carta, Cláudio Caro indica o amigo Brigônio, sem que, no entanto, mencione qualquer mérito do protegido. Como argumento, afirma que ficarão devedores, tanto o recomendante como o recomendado e deverão - está implícito - retribuir o favor concedido.

 

            A segunda é uma carta de dois comandantes, Niger e Broco, ao colega estacionado em Vindolanda, Cereal. Niger parece ter sido praefectus em Bremetennacum e Broco em Briga, acampamentos distantes um do outro. Enquanto na carta anterior o oficial superior era chamado de ‘senhor’ (domine), nesta, como são todos comandantes, usam ‘irmão’ (frater), para indicar o companheirismo dos militares e, ao final da carta, adicionam ‘senhor’ para indicar que, apesar de colegas, Cereal era o comandante de sua unidade (dominus). O tema a ser tratado no encontro de Cereal com o governador (consularis) não está explicitado, o que pode ser explicado pelo caráter sigiloso das conversas entre os militares, de modo a evitar que informações confidenciais pudessem chegar às mãos de outras pessoas, inclusive de potenciais inimigos. Qual o objetivo da carta, então? Trata-se do apoio político dos dois colegas à sua conversa com o governador, expresso nos votos conjuntos de rezarem pelo colega.

            

            Flávio Cereal era prefeito da oitava coorte dos batavos, enquanto Cláudio Caro pode ser desconhecido ou ser identificado como Júlio (não Cláudio) Caro, mencionado em inscrição em Cirene como ex prouincia narbonensi, praefectus cohortis ii Asturum. Brigônio é um nome celta (provavelmente, derivado da raiz brig, ‘colina’, ‘aldeia’, como em Conimbriga e, neste caso, o nome seria algo como ‘aldeão’). Ânio Eqüestre era centurio legionarius (esta é a mais antiga atestação deste cargo militar romano), originalmente na legio IX Hispana, que servia em Eburacum (York), tendo sido antes, com probabilidade, centurião auxiliar da cohors uiii Batauorum.  Níger parece ter sido praefectus em Brementennacum, talvez no comando da ala ii Asturum. Broco, nome de possível origem itálica, deve ser C. Aelius Brocchus que dedicou um altar a Diana em Arrabona, na Panônia, quando era prefeito da cavalaria (CIL III 4360). Os comandantes são, portanto, homens que atuaram em diversas partes do império e, como era usual, no comando de tropas de variadas origens étnicas. Brigônio, por sua parte, parece ser um habitante local bem integrado ao exército romano. O latim utilizado, portanto, era a língua de comunicação militar, com o uso de jargão profissional (como a referência aos oficiais da mesma patente com o termo frater, ‘irmão’), de fórmulas de comunicação oficial militar esteriotipadas (como opto + inf. , que se usa de praxe).

 

            Como manter esse registro castrense e esse caráter de língua de comunicação do latim das cartas aqui apresentadas? Parece-me que convém manter uma linguagem portuguesa distanciada do quotidiano falado, com frases um tanto tortas ou empoladas (como ‘serei colocado como devedor’).

 

Carta de recomendação (Vin.Tab. 22, c. 100 d.C.)

 



Claudius Karus Ceriali suo salutem.

Brigonius petit a me, domine, ut eum tibi commendaret. Rogo ergo, domine, si quot a te petierit ut uelis ei subscribere. Annio Equestri centurioni regionario Luguualio rogo ut eum commendare digneris eius meoque nomine debetorem me tibi obligaturus. Opto te felicissimum bene ualere. Vale, frater.

 

Cláudio Caro para seu Cereal, saudações.

Brigônio pediu-me, senhor, que o recomendasse para ti. Peço, assim, senhor, que, se te pedir algo, dê a ele sua aprovação. Peço que o considere digno de recomendação a Ânio Eqüestre, centurião encarregado da região de Luguválio e, desse modo, serei colocado como devedor em meu nome e em nome dele. Espero que estejas muito bem e em boa saúde. Saudações, irmão”.

 

Saudação de um colega (Vin.Tab. 21, 103 d.C.)

 


Niger et Brocchus Ceriali suo salutem.

Optamus, frater, it quot acturus es felicissimum sit. Erit autem, quom et uotis nostris conueniat hoc pro te precari et tu sis dignissimus. Consulari nostro utique maturius ocurres.

Optamus, frater domine, te bene ualere in honore esse.

 

“Níger e Broco para seu Cereal, saudações.

Esperamos, irmão, que o que estás por fazer tenha o melhor êxito. Será, na verdade, pois está de acordo com nossos votos de rezar por ti e tu es o mais digno. Encontrarás nosso governador o quanto antes.

Esperamos, irmão e senhor, que estejas em boa saúde e bem quisto ”.




[1] Pedro Paulo A. Funari é professor da Universidade Estadual de Campinas, coordenador associado do Núcleo de Estudos Estratégicos da UNICAMP, pesquisa “O abastecimento militar romano durante o Principado”, com apoio do CNPq e FAPESP.
[2] Cf. Alessandro Duranti, Language as culture in U.S. Anthropology, Current Anthropology, 44,3,2003, 323-347, especialmente, páginas 332-333.




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