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Na Senzala, uma flor


Olívia Pavani Naveira
Bacharel em História - USP
olivia@klepsidra.net

 “Na Senzala Uma Flor – Esperanças e recordações na Formação da Família Escrava. Brasil Sudeste, Século XIX” livro publicado em 1999 pela editora Nova Fronteira, (Rio de Janeiro, 288 pg.) pode ser considerado como o resultado de um longo processo de pesquisa histórica que acompanha  o autor, Robert Slenes, professor de História da Unicamp, desde a sua tese de  doutorado. Dividido em quatro capítulos, apêndices e bibliografia, o livro revela algumas das principais trajetórias de pesquisa do autor, que tem uma importância relevante na historiografia brasileira desde os seus primeiros trabalhos com demografia escrava. Desses estudos, podemos observar alguns de seus resultados e reflexões no segundo capítulo do livro, cujo o título é : “Companheiros de Escravidão: a demografia da família escrava em Campinas e no Sudeste”.

 

Entre os importantes elementos que constituem a pesquisa do  livro destaca-se não apenas o texto escrito, que possui em si uma clareza e organização destacáveis, mas também a inclusão de mapa e de imagens iconográficas fundamentais para o entendimento e análise da temática escolhida. Fica registrado, inclusive, o pedido para que na próxima edição as iconografias ganhem um tratamento especial de modo que a identificação de seus elementos pictóricos se tornem mais claros. Destaca-se o pedido para que as imagens sejam reproduzidas a partir do seu original colorido.

 

Entre os quatro capítulos que compõem o livro, o primeiro deles merece um comentário especial. Desligando-se um pouco, mas sem perder de vista a proposta de análise  do livro, no Capítulo 1 “Histórias da Família Escrava” o autor refaz, em 27 páginas divididas em dois subtítulos, os principais caminhos traçados pela historiografia brasileira desde os primeiros escritos abolicionistas. Temos uma revisão sobre a produção brasileira, em  comparação e análise  com os estudos que estavam sendo realizados pela historiografia  norte-americana.  Um importante auxilio para os estudantes que estão iniciando seus estudos sobre História do Brasil e ao público leitor em geral, que assim, têm a oportunidade de se situarem melhor no universo de discussões teóricas em que o livro encontra-se incluso.

 

De uma forma geral, propõe-se em “Na Senzala Uma Flor” uma  análise  que alinha-se a tendências de estudos da História do Brasil, datadas principalmente a partir de 1988. Considerado um marco nos estudos sob escravidão, o centenário da Abolição marcou para os historiadores, um momento em que novas propostas e paradigmas passaram a ser estruturalmente  reformuladas e postas em prática.

 

Nas próprias palavras de Slenes, Gilberto Freyre e a historiografia  dos anos 60 e 70 deixaram o escravizado sem ao menos a capacidade de almejar a formação de famílias estáveis. Em 1933, com Casa Grande e Senzala, temos Gilberto Freyre a analisar que  “negro foi patogênico, mas a serviço do branco”[1].

 

 

 Revendo uma série de conceitos construídos pela historiografia brasileira, Slenes  desenvolve a temática a respeito da família escrava, alinhando-se a novas discussões teóricas e pontos de vista interpretativos. Em debate com autores contemporâneos como Hebe Maria Matos , em especial com o livro “Das cores do Silêncio. Os Significados da Liberdade no Sudeste Escravista”[2], Manolo Florentino e José Roberto Góes com o livro “A Paz das Senzalas – Famílias escravas e tráfico atlântico, Rio de Janeiro, c. 1790 – c.1850”[3] o autor defende que a família cativa “(...) não se reduzia a estratégias e projetos centrados em laços de parentesco. (...) expressava um mundo mais amplo que os escravos criaram a partir de suas “esperanças e recordações” (...) ela [a família escrava] era apenas uma das instâncias culturais importantes que contribuíram, nas regiões de plantation do Sudeste, para a formação de uma identidade nas senzalas, conscientemente antagônicas à dos senhores e compartilhadas por uma grande parte dos cativos. ”[4]

 

 Para Slenes, o que há em comum entre a sua proposta e a dos três autores citados acima, é a busca por um entendimento da constituição do sistema escravista a partir da luta de classe, “vendo os escravos como agentes históricos que frustam a tentativa dos senhores – indiscutivelmente a parte mais poderosa na contenda -  de impor um cativeiro “perfeito”.” [5]

 

Vale dizer, que parte dessa discussão já havia sido iniciada com Góes em seu livro “O Cativeiro Imperfeito – um estudo sobre a escravidão no Rio de Janeiro na primeira metade do séc. XIX” publicado em 1993. Neste,  o autor discute a recusa do postulado de que o escravo foi sempre um obstáculo à recriação no tempo das formas fundamentais do cativeiro, incluindo-se na proposta de um novo postulado “(...) o cativeiro era uma sociedade que , da mesma forma que as demais, produzia suas partes fundamentais – senhores e escravos- como elementos à sua recriação no tempo, e não como obstáculos. De outra forma, aliás, não se compreende a duração e a estabilidade da escravidão brasileira”. O autor propõem a  debruçar-se na busca pelo processo mediante o qual se produziu o escravo no Brasil – A produção social do escravo.

 

O escravo, seria um homem escravizado e não um “cadáver moral” como havia afirmado Joaquim Nabuco , ou um boi como muitas vezes foi comparado por viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil durante o século XIX.  Contesta-se assim as propostas formuladas por historiadores como Jacob Gorender[6] em que se supunha que a sociedade senhorial escravista buscava apropriar-se da subjetividade do escravo , “onde quaisquer atos impregnados da humanidade escrava ( todos , evidente) possuam um significado de resistência ao cativeiro.”[7]

 

            Como dava-se a produção social do escravo? A partir dos estudos a respeito dos processos que alimentaram a existência da escravidão no Brasil[8]  o escravo, até a extinção do tráfico em 1850, era predominantemente um estrangeiro vindo muitas vezes já adulto para o Brasil.  Sua produção social não seria dada diretamente pela linhagem ou por formas diretas de parentesco estruturadas no Brasil.

 

            Da onde e como submergiam as relações entre escravos e senhores que constituíam  o cativeiro e portanto a existência efetiva de escravos e senhores? O estudo proposto por Slenes busca  formular algumas respostas e novas perguntas para a questão. A partir dos seus estudos sobre demografia, endossado por outros autores[9], Slenes confirma a existência de famílias cativas no Brasil, assim como suas relações de compadrio, associadas principalmente ao batizado das crianças nascidas no cativeiro.

 

Para Slenes criava-se, nas relações estabelecidas pelos escravos, uma consciência cativa que essa “família escrava ambígua” engendrava e transmitia a partir de experiências e memórias compartilhadas.  Fato esse que , segundo o historiador, era  no fundo parte desestabilizadora do sistema escravista. 

 

Na visão de Slenes, Manolo Florentino e José Góes no livro “A Paz das Senzalas” afirmam que a família escrava deveria ser considerada como um pilar do próprio escravismo. A família escrava refletia um pacto de paz entre escravos e senhores e reiterava as tensões étnicas introduzidas pelo tráfico. Já em relação ao trabalho de Mattos em “Das Cores do Silêncio”, Slenes  comenta, com todas as ressalvas a respeito do recorte cronológico adotado por Hebe,  que para a autora, a família escrava incentivava a competição por recursos e estratégias de aproximação ao mundo dos livres, enfraquecendo os laços de comunidade dentro da senzala e a resistência coordenada ao sistema.

 

Independente da posição que se adote, a partir desses estudos não  apenas as questões a respeito das famílias escravas ganham uma importante fonte para debates e pesquisas futuras, como também vemos surgir  novas propostas de debates para temas como moradia escrava, cultura africana no período da escravidão nas Américas ( principalmente séculos XVII, XVIII, XIX) e as discussões a respeito das  permanências e miscigenações das raízes africanas no cotidiano  escravo.

 

Vale a pena ler os dois últimos capítulos em que o autor discute , após  análise e discussão de todas as fontes que ele consegue agregar, os significados simbólicos que os escravos atribuíam ao  fogo existente em suas moradias e sua importância no contexto cotidiano da família escrava. Não só a existência da família escrava é comprovada a partir dos dados demográficos e de uma  análise comparativa com a leitura nas “entrelinhas” dos relatos dos observadores brancos , como também chega-se a compreender melhor as heranças e os significados simbólicos que o ato de casar e ter filhos poderia representar para os escravos. Eram o escravos casados  que, em geral,  tinham direito a um fogo separado dos outros escravos da fazenda.

 

Os relatos dos viajantes, usados na análise de maneira crítica e contextualizada,  constituem mais um dos elementos que ajudaram o autor na busca pela reconstituição  da cosmologia africana existente entre os grupos escravos que viviam no sudeste brasileiro no século XIX.  Baseado em posições historiográficas combativas e renovadoras em relação às bases argumentativas de Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Rogê Bastide, entre outros, Slenes busca retratar a cosmologia escrava constituída nas senzalas a partir do embate e negociação realizado entre o senhor e o escravo, resgatando a cosmologia africana existentes entre os grupos etno-lingüísticos formados pelos  Bakongo ( mpangu, nsund) Ovimbundo, Mbundu, e também os Herero e Ovambo. Grupos estes, segundo Miller[10] , “não teriam apenas exportado escravos vindo do interior do continente mas teriam nessas próprias regiões ( Benguela, Luanda e Antigo Congo) negociado  populações nela mesma originária,”[11] o que facilita a identificação da origem cultural  desses homens escravizados.

 

Essa  discussão se amplia,  porque provavelmente, os principais grupos escravizados ou das áreas de venda de escravos, já haviam tomado contato com  o catolicismo, como discute Marina de Mello em Souza num artigo recente, publicado em 2001, intitulado “História, mito e identidade nas festas de reis negros no Brasil – séculos XVIII e XIX”[12].

 

É a partir da afirmação feita por um viajante europeu , Charles Ribeyrolles, em 1859, que diz:  “A fome macilenta não entra na habitação do escravo (...) Mas nela não há famílias, apenas ninhadas. (...) O trabalho,  para ele,  é aflição e suor, é a servidão. Por que manteria a mãe seu cubículo e filhos limpos? Os filhos podem lhe ser tomados a qualquer momento, como os pintos ou os cabritos da fazenda, e ela mesma não passa de um semovente. (...) Nos cubículos dos negros, jamais vi uma flor: é que lá não existem esperanças nem recordações. ”[13] que Slenes afirma ter buscado inspiração não só para o título de sua obra, como também para grande parte de sua contestação a respeito do conceito implícito na frase.

 

Cabe a nós e aos próximos estudos advindos dessas discussões, reorganizarmos parte dessas idéias e propostas, em busca de confirmações e refutações a respeito desse debate, que engloba tantos pontos de vista. Reflexões que nos levam a redimencionar   tanto nossas opiniões em relação  a um passado compartilhado,  quanto em relação ao presente vivido.



[1] Slenes, Robert. “ Na Senzala Uma Flor – Esperanças e recordações na Formação da Família Escrava”  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999 pg 29.

[2] Matos,  Hebe Maria de , “Das Cores do Silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista, Brasil Século XIX”, Rio de Janeiro: Nova Fronteira , 1998

[3] Florentino e Góes, Manolo e José Roberto. “A Paz das Senzalas: famílias escravas e trafico atlântico, Rio de Janeiro, c.1790 - c.1850 ” , Rio de Janeiro: Civilização Brasileira 1997.

[4] Slenes, Robert. “ Na Senzala Uma Flor – Esperanças e recordações na Formação da Família Escrava”  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999

[5] Slenes, Robert. “ Na Senzala Uma Flor – Esperanças e recordações na Formação da Família Escrava”  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999 pg 17

[6] Gorender, Jackob. “A Escravidão Reabilitada ”,  São Paulo , Ática , 1991.

[7] Goes, José Roberto. “O Cativeiro Imperfeito: um estudo sobre a escravidão no Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX ” , Vitória – ES : Lineart, 1993.

[8] Vide Manolo Florentino . “Em Costa Negras”

[9] vide Goes, José Roberto. “O Cativeiro Imperfeito: um estudo sobre a escravidão no Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX ” , Vitória – ES : Lineart, 1993. ; Faria,  Sheila de Castro. “A Colônia em Movimento – Fortuna e Família no Cotidiano Colonial” , Rio de Janeiro: Nova Fronteira , 1997.

 

[10] Citação feita por Slenes em relação à obra de Miller

[11] Slenes, Robert. “ Na Senzala Uma Flor – Esperanças e recordações na Formação da Família Escrava”  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999

[12] in “Festa : Cultura & Sociabilidade na América Portuguesa, Volume I/ István  Jancsó, Iris Kantor (orgs.). – São Paulo : Hucitec : Editora da Universidade de São Paulo: Fapesp: Imprensa Oficial, 2001.” Pg 249.

[13] Slenes, Robert. “ Na Senzala Uma Flor – Esperanças e recordações na Formação da Família Escrava”  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999 -  Epígrafe- Contraponto





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Na senzala, uma flor, de
Robert Slenes
A escravidão reabilitada, de
Jacob Gorender
Em costas negras, de
Manolo Florentino
Festa, cultura e sociabilidade
na América Portuguesa, org.
István Jancsó e Iris Kantor




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