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OPERÉ, Fernando. Historias de la frontera: el cautiverio en la América hispánica. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2001.

Gabriel Passetti
Mestrando - História Social USP - Bolsista Fapesp
passetti@klepsidra.net



           Fernando Operé, diretor do Latin American Studies Program da Universidade da Virgínia, nos EUA, é lingüista especialista nos relatos das fronteiras coloniais americanas, tendo publicado, entre outras obras, este Historias de la frontera: el cautiverio en la América hispánica.


            O autor se vincula à história cultural, procurando identificar a importância dos relatos de ex-cativos para a construção de imagens sobre os indígenas nos períodos pré e pós colonial. Dialogando com seus colegas norte-americanos, não poderia deixar de comentar o historiador tido como o “pai” dos estudos da fronteira naquele país, Frederick Jackson Turner[1], sem, no entanto, se ater longamente à discussão sobre a suposta fronteira livre e aberta. Seu objeto é a América espanhola, portanto os casos e a especificidade brasileira são pouco trabalhados por fugirem do padrão hispânico e seu par norte-americano.


            O enfoque da pesquisa recai sobre o “outro” lado da fronteira – os indígenas, desconsiderado, tido como incompreensível ou generalizado pela historiografia tradicional. Acompanhando uma nova historiografia[2], compreende-se a dita “fronteira” como um centro nebuloso de encontro de culturas, zona de disputas e conflitos, mas também de interações e contatos que possibilitam o surgimento de novas relações sociais, culturais, políticas e comerciais. Fruto desta fronteira são os mestiços, dentre os quais se destaca o papel dos gauchos pampeanos.

            Nesta região de conflitos e contatos, disputas e alianças, Opere identifica figuras emblemáticas, símbolos das novas relações – os cativos. Protagonistas e vítimas das novas relações sociais e culturais estabelecidas pelos avanços fronteiriços, estas figuras foram em grande parte responsáveis pela construção de determinadas imagens sobre os povos do “outro lado”.


            Alguns casos emblemáticos marcaram as principais regiões fronteiriças das Américas – Hans Staden[3], Cabeza de Vaca[4], Santiago Avendaño[5], por exemplo – mas os casos incógnitos e praticamente desconhecidos dos cativos que não publicaram memórias são tidos, por Operé, como especialmente esclarecedores, pois ampliam a gama de possibilidades e ações vividas por homens e mulheres forçados à adaptação à uma nova realidade – sejam brancos entre índios ou vice-versa.

            Geralmente, durante invasões e batalhas, os homens eram mortos e as mulheres e crianças eram raptadas. Sobre estas pessoas recaía a necessidade de uma opção de vida caracterizada pela cooperação ou pela resistência. Operé destaca que um número considerável de pessoas raptadas optou pela convivência pacífica, pois se adaptou, se apaixonou, criou laços familiares ou sentiu pouca mudança cotidiana na nova realidade “do outro lado”.


            Aqueles que optavam pela resistência podiam ser rapidamente trocados por cativos que viviam entre os seus (cativos brancos trocados por índios presos e vice-versa) ou então enfrentavam a dura opção pela fuga, muitas vezes mal-sucedida.


Os relatos e memórias ex-cativos fornecem interessantes fontes de estudo para o historiador, mas seus relatos estão divididos desigualmente entre o Norte e o Sul da América, com uma grande predominância no primeiro e casos raros no segundo. Segundo Fernando Operé, trata-se de um caso de diferença religiosa, pois protestantes estariam interessados em difundir suas “estadas no Inferno”, em um processo de demonização do indígena, enquanto que católicos, mais interessados na catequização, pouco se interessaram pelos casos em que houve um fracasso na cristianização dos indígenas.


            Esta interessante interpretação do autor certamente identificou um aspecto crucial na construção das imagens sobre os indígenas nas diferentes regiões das Américas, porém desconsiderou as transformações ocorridas no período pós-colonial e as tensões geradas pelas resistências nativas e pelas concorrências indígenas nos diversos campos comerciais e políticas. Ultrapassado o conturbado período das independências políticas, diversos grupos em luta pelos Estados declararam guerra aos indígenas que ainda viviam no que se considerava “a barbárie”. Sob esta hostil imagem, foram agregados grupos que resistiam pela guerra, outros que conviviam relativamente pacificamente, integrados aos mercados do interior, e outros praticamente desconectados das sociedades brancas pela distância geográfica.


            Operé desconsidera que, transformados em bárbaros, sanguinários e incivilizáveis, os indígenas de diferentes pontos das Américas puderam ser atacados e exterminados pelas forças oficiais, legitimadas por um discurso que declarava a falência dos projetos civilizacionais e urgia pela ordem e pelo progresso da América Latina. Católicos ou protestantes, durante os processos de consolidação dos Estados Nacionais, parte das elites brancas das Américas optou pela submissão física ou social e pela distância geográfica e/ou econômica dos indígenas que ainda resistiam. A integração foi pensada e proposta somente para os grupos já “civilizados” (principalmente pelos jesuítas), aos quais se designou um papel social secundário, subalterno e pacífico.


            Interessante notar as informações que os governos procuraram retirar dos ex-cativos, o tratamento dado pelos editores e as opções de vida proporcionadas pela experiência com os indígenas. Nos países latino-americanos, durante o século XIX, os militares da fronteira procuraram apenas identificar aspectos práticos referentes aos indígenas – localização dos principais grupos, organizações de eventuais ataques – e não se preocuparam na identificação das características sociais e culturais daqueles povos. O mesmo desprestígio também é visto no caso dos editores, interessados em publicar somente as “aventuras” e as “atrocidades” e não os relatos dos convívios cotidianos e das relações pacíficas entre cativos e nativos.


            O caso de Santiago Avendaño, descrito por Operé, é bastante esclarecedor. Cativo durante sete anos entre os indígenas pampeanos, conseguiu fugir e foi preso pelo governador de Buenos Aires, Juan Manuel de Rosas, então em uma aliança implícita com alguns importantes grupos indígenas.  Avendaño saiu da prisão apenas com o fim do regime de Rosas, em 1952, e conseguiu publicar somente parte de seu relato. O todo, tido como perdido, foi localizado em um arquivo e publicado em 1999. Durante as décadas de 1860 e 1870, o ex-cativo se tornou o responsável pela negociação entre governo e lideranças indígenas, tendo se tornado também secretário de um importante cacique. Durante uma das diversas guerras civis e levantes político-militares do período (1871), foi morto ao lado do cacique que secretariava.


            O cativeiro era uma realidade para a população das zonas fronteiriças e suas principais vítimas brancas eram os empregados mais pobres das fazendas, sendo os líderes indígenas os focos no caso de cativeiro promovido por brancos. Quem quer que fosse raptado, sua vida era definitivamente transformada, pois era vivenciada uma nova realidade sob uma condição social geralmente de inferioridade.


            Fernando Operé identificou de maneira bastante eficaz as intersecções entre os relatos de ex-cativos e a ficção produzida no período. No século XIX, a literatura argentina produziu diversas obras que relataram direta ou indiretamente casos de cativeiro. A fonte inspiradora foi o poema épico La Araucana, de D. Alondo de Ercilla, de 1574. Alguns dos mitos por ele levantados são repetidos em obras que alcançaram grandes públicos e contribuíram decisivamente para a consolidação de imaginários sociais sobre os indígenas, como La Cautiva (1837), de Esteban Echeverría e Martín Fierro (1872), de José Hernandez. Enquanto no primeiro caso se destaca a oposição entre a pureza da mulher branca e a barbárie dos indígenas, criticando-se a miscigenação, o segundo caso aborda exatamente a cultura mestiça dos gauchos, defendendo – em especial na segunda parte, publicada em 1878, quando grande parte das resistências indígenas já estava desbaratada – a “civilização” dos indígenas e sua utilização prática como mão-de-obra. Para Hernandez, também não há possibilidade para permanência dos indígenas, mas há campo para a mestiçagem e a integração através do trabalho e do cristianismo.


            Para Operé, houve uma relação não linear entre os relatos dos ex-cativos e a literatura de fronteira, pois os primeiros foram, na América Latina, desprestigiados, enquanto os segundos procuraram construir mitos nacionais que excluíam os povos nativos e pouco se ativeram aos relatos sobre as aproximações e os distanciamentos proporcionados pela fronteira, os interesses e conflitos proporcionados por brancos e indígenas.



Além da literatura, as artes plásticas também tiveram uma participação ativa na construção do imaginário
do indígena selvagem, como neste La vuelta del malón, do argentino Angel Della Valle, de 1892.

     Mais interessantes e cativantes, os escritos literários encontraram vasto mercado editorial e influenciaram decisivamente para a construção de imaginários nacionais que identificaram os indígenas como bárbaros, sanguinários e incivilizáveis, enquanto que os relatos dos ex-cativos, apresentando realidades não tão opostas entre as vidas de cada lado da fronteira, defensores de tradições e culturas indígenas, foram relegados.

        Em um período histórico marcado pela oposição “civilização e barbárie”, não se encaixavam os relatos que humanizavam os indígenas. Negligenciados, segregados e atacados, apenas na virada do século XIX para o século XX, com o fortalecimento do romantismo e a destruição dos principais focos de resistência, os indígenas passaram a ser identificados como “bons”, “pacíficos” e “a alma da Nação”. Como diria o velho ditado norte-americano, “índio bom é índio morto”. Depois de morto, se tornou herói romântico.



[1] Em 1893, Turner escreveu o ensaio “O significado da fronteira na História Americana” e transformou os estudos sobre fronteira nos EUA, pois analisou a expansão para o Oeste a partir de uma nova perspectiva, inserindo-a na formação do chamado “espírito norte-americano”, ultrapassando e ressignificando as tradições européias trazidas pelos “pais peregrinos”. KNAUSS, Paulo (org). Quatro ensaios de história dos Estados Unidos da América, de Frederick Jackson Turner. Niterói: EdUFF, 2004.

[2] PRATT, Mary Louise. Os olhos do Império: relatos de viagem e transculturação. Bauru: Edusc, 1999.

[3] STADEN, Hans. A verdadeira história dos selvagens nus e ferozes devoradores de homens, encontrados no novo mundo, a América, e desconhecidos antes e depois do nascimento de Cristo na terra de Hessen, até os últimos dois anos passados, quando o próprio Hans Staden de Homberg, em Hessen, os conheceu, e agora os traz ao conhecimento do público por meio da impressão deste livro. Rio de Janeiro: Dantes Livraria Editora, 1998.

[4] CABEZA DE VACA, Alvar Nuñez. Naufrágios & Comentários. Porto Alegre: L&PM, 1999.

[5] HUX, Meinrado (org). Memórias del ex cautivo Santiago Avendaño. Buenos Aires: El Elefante Blanco, 1999.






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Historias de la frontera, de Fernando Operé
Os olhos do Império, de Mary Louise Pratt Naufrágios, de Alvar Nuñez Cabeza de Vaca
Viagem ao Brasil, de Hans Staden




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