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Alice na Crise dos “Ismos” – um diálogo histórico-literário

Alex da Silva Martire
pagao@hotmail.com
5º ano - História/USP
 
 

Lewis Carroll


Inglaterra. Reinado de Guilherme IV. Presbitério de Daresbury, em Cheshire. Em 27 de Janeiro de 1832 veio à luz Charles Lutwidge Dodgson, filho do pároco Charles Dodgson com sua prima Frances Jane Lutwidge. O menino foi o terceiro dos onze filhos que o casal viria a ter, e “se essa consangüinidade merece algum crédito pelo gênio criativo de Lewis Carroll, talvez também seja a culpada pela gagueira endêmica de Charles e da maioria de seus irmãos”[1]. Gagueira que acompanhou Charles até o fim da vida, em 1898; e que foi responsável pela criação da personagem da ave Dodo no “País das Maravilhas”, pois o matemático sempre gaguejava o início de seu sobrenome Dodgson. Quanto ao caráter de gênio que muitos autores e leitores atribuem a Lewis Carroll – um pseudônimo derivado de seu nome próprio – não será discutido neste trabalho, pois, ao meu ver, Norbert Elias já desmistificou bastante esse adjetivo em seu trabalho Mozart: sociologia de um gênio.

Cabe porém, aqui, em poucas linhas, como Lewis Carroll conheceu a menina que seria sua inspiração para a escrita das histórias de Alice. Charles Lutwidge Dodgson estudou na famosa Christ Church de Oxford desde sua infância. Destacou-se em letras latinas e gregas e na matemática. Seu empenho foi tamanho que, em 1855, Charles tornou-se professor de Matemática na Christ Church, contando com apenas 24 anos! Mesmo ano em que tomaria posse da reitoria do colégio aquele homem que mudaria – e muito! – os caminhos que a literatura infantil teria desde então: Henry Liddell, pai de Alice Liddell (a Alice das histórias) e suas irmãs. A primeira vez que Lewis conheceu Alice foi em 1856, quando a menina contava com 4 anos de idade. Ficou encantado! E, deixando-se de lado as questões sobre uma possível pedofilia de Carroll, o homem passou a fotografar toda a família Liddell (retratando a nudez das pequenas irmãs), além de outros amigos – um hobby que colocou Charles Dodgson entre os maiores fotógrafos da Era Vitoriana. Foi com esse estreitamento de relações com a família do reitor que, em 1862, Lewis levou as irmãs para um passeio de barco no lago próximo ao colégio. Famigeradas ondas de água doce que herdariam ao mundo ocidental um de seus livros mais citados (ficando atrás apenas da Bíblia e de Shakespeare)! O próprio Carroll transformou em versos esse dia de verão no prefácio de Alice no País das Maravilhas: “Juntos na tarde dourada / Suavemente a deslizar, / Nossos remos, sem destreza, / Dois bracinhos a manejar, / Pequeninas mãos que fingem / Nossa direção guiar. / As Três cruéis! Nesta hora, / Sob este sonho de tempo, / Implorarem por histórias / Com o mínimo de alento! / Mas que pode a pobre voz / Contra três línguas sedentas? / Proclama Prima o edito / ‘Comece!’, diz sobranceira. / Mais gentil, Secunda espera: / ‘Que não contenha asneira!’ / Tertia a cada minuto / Detém o conto, faceira. / E de repente o silêncio, / Com os passos da ilusão / Perseguem a criança-sonho / Pelas terras da invenção, / Falando a seres bizarros... / Uma verdade, outra não. / E assim que a história secava / As fontes da fantasia, / Em vão tentava o cansado / Desfazer o que tecia, / ‘Mais, só depois...’ ‘É depois!’ / Gritavam com alegria / Forjou-se assim, lentamente, / O País das Maravilhas, / Está pronto, para a casa / Já foi virada a quilha / Pela alegre equipagem / Sob um sol que já não brilha. / Com mão gentil, entre os sonhos, / Alice! Guarda este conto / Na memória da infância, / Sob seu místico manto, / Grinalda que um peregrino / Colheu em terras de encanto.”[2]

                Esse agradável passeio rendeu o primeiro esboço da história de Alice. Escrito de próprio punho, o autor entregou a Alice, em 1864, As aventuras de Alice sob a terra -  um ano e meio depois do rompimento de Carroll com a família Liddell (as razões não foram bem explicadas até agora, mas a mamãe Liddell achou que seria melhor Charles parar de visitar as meninas). O caderno passou pelas mãos de várias pessoas em visita à reitoria até que o romancista Henry Kingsley insistiu com a sra. Liddell para que a obra fosse publicada. Charles procurou um ilustrador para sua história – que havia ampliado para ir ao prelo - e, finalmente, em 1865, foi publicada As aventuras de Alice no País das Maravilhas. A obra alcançou rapidamente o seu merecido sucesso. Foi publicada sem o rótulo de “infantil”, fato que muitos adultos comprovavam. Seis anos depois foi publicada a seqüência do “Pais das Maravilhas”, Através do espelho e o que Alice encontrou lá. A continuação da primeira história talvez seja mais conhecida na Inglaterra do que nos demais países, mas a realidade é que ela existe e, na minha opinião, é tão mais complexa do que o “País das Maravilhas”, chegando até mesmo a enfadar o leitor.
                Mas é da Alice no País das Maravilhas que tratarei neste trabalho.



Alice na Crise dos “Ismos”


          Em pleno século XXI é possível que os historiadores leiam Alice no País das Maravilhas e nela descubram semelhanças com a atual crise dos “ismos” que não só a Teoria da História, mas todas as áreas de pesquisas, encontram-se: num navio à deriva, sem destino certo – citando a metáfora feita por John Lewis Gaddis em seu livro Paisagens da História[3]. O que tem tirado o sono (ou talvez acomodado os historiadores em um estado de hibernação) dos teóricos de História é que justamente não temos uma teoria atualmente! Mas o que é uma Teoria? A resposta mais objetiva seria: é o que dá sentido às coisas; reúne as coisas numa direção geral. Ainda mais: toda teoria é social (pois pertence ao mundo, e tenta entender como ele funciona). E não há uma teoria que não seja prospectiva ou não resulte de uma ação sobre o mundo. A Teoria da História, em si, é ambígua, pois compreende “duas histórias” que são impossíveis de serem separadas: a história acontecimento e a história conhecimento. Outra coisa que deve preocupar a nós historiadores é que, desde o início do século XX até hoje, há uma tendência incrível de dissociar a Teoria do Método. “Ora, mas isso é impossível!” – poderiam responder os mais ingênuos, porém, para opor-se a esta exclamação basta que façamos uma pequena viagem à livraria mais próxima: veremos uma enxurrada de obras metodológicas e – com sorte – encontraremos algum livro que, devido ao esforço sobre-humano de seu autor, seja (atualmente) teórico. 

Há uma explicação para essa “carência de teoria”. O (na minha visão) lamentável século XX trouxe consigo todo o pesado fardo dos séculos antecessores; resultado: esse século pode ser denominado de “século das mortes”, pois, nele, além dos conhecidos genocídios vindos das guerras, houve também as “mortes” da intelectualidade, do progresso, da crença religiosa, dos deuses, das auto-estimas pessoais e todas as transcendências foram exterminadas uma a uma. O fim de tudo chegou a tal ponto que não nos resta outra opção além de dizermos que estamos numa “Crise da Teoria”, porque nossa capacidade de transcender o presente está em crise; o cognitivo, o ético e o estético – que são interligados – encontram-se fragmentados (logo, em crise); por fim, há a crise das grandes narrativas: não nos resta mais nada a não ser nos voltarmos à nostalgia. O que fazer? “Devemos levantar as mãos ao céu e pedir ajuda a Deus?” Mas Nietzsche O matou! “Devemos levar tão a sério o fim de tudo que o século passado causou e, assim, suicidarmo-nos em massa?” Essa não é a melhor solução! (até mesmo porque, certamente, alguém conseguiria lucrar sobre isso – vendendo uma maneira “mais fácil” de se matar). Retorno à questão sobre o que fazer. Olhemos o passado e notaremos que isso já ocorreu em outras épocas da História dos homens. O que eles fizeram? Olharam para o próprio umbigo. Fecharam-se em si mesmos. Tentaram entender, primeiramente, como eles pensam, funcionam, trabalham, para, depois, tentar dar respostas a questões de maior grandeza. E é justamente isso o que ocorre atualmente no campo da Teoria da História! Hoje queremos primeiro entender-nos. E é necessário! Pois jamais resolveremos os demais problemas se, antes, não conseguirmos resolver os nossos próprios dilemas. Como todo tratamento psicanalítico, essa busca dos historiadores gera efeitos colaterais: uma crise existencial dolorosa. Qual aluno do curso de História nunca se perguntou: “O que faço aqui?”, “O que é História?”, os mais realistas se perguntarão se esta profissão é rentável (e quando descobrem a resposta abandonam o curso...). E escutamos de nossos professores: “A questão não é o que é História, mas, sim, para quem é a História”. Então os professores cruzam os dedos, torcendo para que algum aluno “iluminado” possa dar uma resposta segura a tantas questões problemáticas e, quiçá, resolva nosso dilema da falta de sentido, da falta de uma Teoria. Até que chegue o dia em que conheçamos esse Messias, cabe, neste trabalho, mais algumas considerações sobre o panorama atual em que se encontra o pensamento historiográfico.

Uma pergunta não pode ser calada hoje em dia: o Relativismo nos colocou um muro diante de nossos olhos com a seguinte inscrição: “O que é a verdade?” É uma questão que incomoda tanto que, para se ter uma idéia, a própria formulação dessa pergunta pode fazer com que respondamos: “Esse muro é verdadeiro?”. Atualmente os historiadores constroem uma verdade por meio de evidências. Essa construção envolve pensamentos, símbolos, signos, ícones, abstrações, nomeações, interpretações, compreensões, definições, buscas, narratividades etc.

A tendência contemporânea da Teoria da História é a aproximação das ciências naturais e exatas (Teoria do Caos), é a utilização da Hermenêutica contemporânea para tentarmos responder o que é ou não válido na História: como nos demonstra John Lewis Gaddis em seu capítulo “Causa, contingência e contrafactuais” na obra acima citada.

Muitas analogias com essa Crise dos “ismos” em que vivemos atualmente podem ser feitas com o auxílio do texto literário de Alice no País das Maravilhas (que é o tema deste trabalho).

 

 

Descendo pela Toca do Coelho


A maior parte dos filósofos do século XX concordava que era necessário retirar todas as transcendências da História. Retiraram. Sobrou apenas a Linguagem. Hoje toda a teoria do conhecimento gira em torno da linguagem: como o homem constrói o pensamento, o sentido (ou seja, utilizam a Hermenêutica). O homem é um ser mais dominado pela linguagem do que dominador dela. Então surge outro problema para os historiadores: se tudo é fabricado, há interferências nas concepções que a História tem; e se todo o tipo de linguagem é uma abstração, logo o mundo é visto através da abstração, e com o mundo visto através de abstrações é que o historiador constrói o passado.

Abstrações, (re)construções de imagens, linguagem, é justamente com essas características que a Alice no País das Maravilhas trabalha. Para conseguir desconstruir a lógica do mundo em que vivemos e poder construir uma outra “realidade” Lewis Carroll teve de inovar: criou uma definição (como trata o capítulo “Os tecelões de palavras / Os fabricantes de mundos” de Neil Postman, no livro O Fim da Educação). A essa definição, de um novo mundo, chamou nonsense. Literalmente “sem sentido”, “absurdo”. Lewis Carroll é o “pai do nonsense”. O País das Maravilhas é um lugar de absurdos, de contrariedades, ilógico – fazendo questão de deixar claro que essas anormalidades só são anormalidades do ponto de vista do leitor, da visão de quem não vive no País das Maravilhas. Obviamente, a definição de nonsense já existia nas mentes humanas, porém, não possuía um “nome”, algo que a fizesse tomar um lugar na abstração que é o nosso pensamento. E Lewis Carroll foi o responsável em dar “formato” para o que se denominou nonsense em literatura. Tendo feita essa ressalva, e permanecendo com ela em nossas mentes, vamos analisar alguns excertos de Alice no País das Maravilhas que podem muito bem dialogar com a nossa atual crise dos “ismos”.

 

Logo no início da obra observamos uma Alice que observa a irmã lendo. A menina nota que não há figuras nem diálogos no livro (que depois descobrimos se tratar de um livro de História) e pensa consigo mesma: “E de que serve um livro sem desenhos ou diálogos?”[4] O pragmatismo de Alice é típico de uma criança (embora haja muitos adultos que tenham o mesmo pensamento!). Ela não vê utilidade em algo que não seja prático, assim como as questões de utilidade que a História enfrenta atualmente. A menina pensa até o momento em que sua atenção é desviada para um certo Coelho Branco que corre ali por perto, apressado, sempre dizendo: “Estou atrasado! É tarde!” Alice segue o animalzinho e adentra sua toca, caindo num poço quase sem fundo, para, enfim, parar no País das Maravilhas. Enquanto cai lentamente, Alice tem tempo para indagar sobre a sua situação, e para isso usa a abstração matemática: “Gostaria de saber quantos quilômetros já caí a essa altura. Devo estar chegando perto do centro da Terra. Deixe-me ver: isso seria seis mil e quinhentos quilômetros para baixo, acho...” A garota abusa do senso lógico ao mencionar, em seguida: “E se eu atravessar a Terra inteira! Como não vou parecer engraçada saindo entre as pessoas que caminham com as cabeças para baixo!”[5] Ao terminar sua queda encontra o saguão com a pequena porta trancada. Alice entra, então, num problema metafórico: ela é muito alta para uma porta tão baixa, ela deseja possuir a forma de um telescópio para, aí sim, atravessar a fechadura e deliciar-se no magnífico jardim que observa estar do outro lado. Ora, a definição de metáfora é explicada por Hayden White em seu capítulo “O texto histórico como artefato literário”, na obra Trópicos do Discurso:

 

“A metáfora não imagina a coisa que ela procura caracterizar; ela fornece diretrizes que facultam encontrar o conjunto de imagens que se pretende associar àquela coisa. Funciona como um símbolo, e não como um signo: vale dizer, ela não nos fornece uma descrição ou um ícone da coisa que representa, porém nos diz que imagens procurar em nossa experiência culturalmente codificada a fim de determinar de que modo nos devemos sentir em relação à coisa representada.”[6]

 

A explicação de Hayden White parece, às vezes, também pertencer ao País das Maravilhas...

Porém, o que ele quis dizer, associando-se ao texto de Alice, é que a menina só desejou ser um telescópio porque sabia o que é um telescópio, sabia que este objeto é estreito e, sendo assim, conseguiria passar pelo buraco da fechadura. Em sua mente estava a praticidade, a utilização de um telescópio, e por isso pensou nele. Um exemplo da consciência, da racionalidade de Alice vem um pouco depois quando, após beber o líquido da garrafa que se achava sobre uma mesa do saguão e diminuir de tamanho, ela encontra um bolo ali próximo e resolve comê-lo para conhecer sua reação: “Se me tornar maior, vou poder alcançar a chave [que abria a portinha para o jardim], e se me tornar ainda menor, posso passar por debaixo da porta.”[7] Alice transporta, dessa maneira, a lógica de seu mundo conhecido para o nonsense que representa aquele País das Maravilhas.

No Capítulo II, a primeira frase da garota é interessante: “Muito esquisitíssimo!”[8] Isso nos leva a recordar as palavras de Neil Postman, no livro já citado, acerca da importância da nomeação:

 

“Assim somos ajudados incomensuravelmente em nossas avaliações do mundo por nossa língua, que nos supre de nomes para acontecimentos que nos confrontam e, quando os designamos, nos diz o que devemos esperar e como nos prepararmos para a ação.

A nomeação das coisas é, sem dúvida, uma abstração de ordem mais elevada e de importância crucial. Quando nomeamos um evento e o categorizamos como uma “coisa”, criamos um mapa vívido e mais ou menos permanente de como é o mundo.”[9]

 

No mesmo capítulo, “ouvimos” da própria boca de Alice aquilo que, para mim, é a questão-chave de Alice no País das Maravilhas, sendo lembrado constantemente até o fim de suas páginas: a busca de uma identidade: “Meu Deus, meu Deus! Como tudo é esquisito hoje! E ontem tudo era exatamente como de costume. Será que fui eu que mudei à noite? Deixe-me pensar: eu era a mesma quando me levantei hoje de manhã? Estou quase achando que posso me lembrar de me sentir um pouco diferente. Mas eu não sou a mesma, a próxima pergunta é: ‘Quem é que eu sou?’. Ah, essa é a grande charada!”[10] Essa é a charada que envolve a crise dos “ismos” na História, pequena Alice! O questionamento da própria identidade, e a busca de uma verdade preocupam os teóricos. A hermenêutica contemporânea associada à teoria da narratividade vem tentando dar uma resposta à charada. A saída de seu mundo conhecido para a entrada num outro mundo, parcialmente desconhecido (afinal, todos os seres do País das Maravilhas também existem na nossa realidade – com a diferença de que não falam), leva Alice a perder sua personalidade, sua identidade; a menina passa a viver conforme as regras do País das Maravilhas, e quem é ela nesse país? Ora, é a pergunta que a Lagarta faz no Capítulo V: “Quem é você?” A resposta de Alice ilustra o que acabei de mencionar: “Eu... eu... no momento não sei, minha senhora... pelo menos sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então. (...) Receio não poder expressar mais claramente pois, para começo de conversa, não entendo a mim mesma.”[11] A confusão de Alice sobre si mesma dá cores para o entendimento do ofício do historiador ao ter de escrever uma biografia, como nos diz Gaddis no capítulo “Moléculas com mentes próprias” do livro Paisagens da História:

 

“Um biógrafo deve ver as coisas através das percepções de uma outra pessoa – assumir o controle de uma outra mente, e então falar. Você tem de dominar a sua diferença para poder fazê-lo; do contrário, a sua biografia refletirá o que está na sua cabeça, em vez de seu biografado. Porém, mais cedo ou mais tarde, você tem que se distanciar e recuperar a sua identidade; senão faltará à biografia profundidade analítica e perspectiva comparativa.”[12]

 

Querendo ou não, é justamente isso que faço neste exato momento ao escrever meu trabalho: tento “biografar” Alice para exemplificar as concepções de conhecimento e de História no contexto da crise dos “ismos”. Como historiador, sou um ser que observa os acontecimentos tendo como ponto de referência uma “visão de helicóptero”: tenho de ver tudo, e para isso sobrevôo os fatos; ao aterrissar, escrevo a minha interpretação do que assisti. Mas, como tratam os textos de Postman, Gaddis e White, eu tenho autoconsciência de que também participo deste mundo que observo. Observo Lewis Carroll e por meio dele vejo Alice. Observo Alice e por meio dela vejo o País das Maravilhas. Observo Lewis Carroll e Alice e por meio de ambos vejo um autor e sua obra. Por fim, observo a mim mesmo e por meio da Linguagem expresso ao leitor aquilo que eu vi. Complicado? Não mais do que a personagem da Duquesa, no Capítulo IX, ao tentar definir a moral, para Alice, existente num vegetal: “Concordo plenamente com você, e a moral disso é... ‘Seja o que parece ser’... ou, se você quer que eu fale de forma mais simples... ‘Nunca imagine que você não é senão o que poderia parecer aos outros que o que você foi ou poderia ter sido não era senão o que você tinha sido que lhes teria parecido diferente’.”[13]

Por fim, nesta minha breve análise comparativa de textos, adentro o Capítulo VII. O famigerado capítulo do “Chá muito louco”! O Chapeleiro, a Lebre de Março e o Arganaz estão no jardim, sentados à mesa repleta de bules de chá e xícaras, além de outros alimentos. Alice, apesar de não ser convidada para a confraternização, toma o seu lugar. É o dialogo sobre o Tempo que quero ressaltar aqui. Após tomar conhecimento de que a charada proposta logo no início do encontro não tinha solução, a menina, indignada, diz ao Chapeleiro: “Acho que você poderia aproveitar melhor o seu tempo em vez  de desperdiçá-lo propondo charadas que não têm resposta” E o Chapeleiro retruca: “Se você conhecesse o Tempo como conheço, não falaria em desperdiçá-lo, como se fosse uma coisa. É um senhor.” Quando Alice diz que não entendeu a resposta escuta um desdenhoso: “Acho que você nunca falou com o Tempo!”. “Talvez não – responde a garota – mas sei que tenho de bater o tempo, quando estudo música.” “Ah! Isso explica tudo – fala o Chapeleiro – Ele não suporta ser batido. Agora, se você mantivesse boas relações com o Tempo, ele faria quase tudo o que você quisesse com o relógio.”[14]

O Tempo é uma questão que fascina os historiadores. O texto já mencionado de John Lewis Gaddis (“Causa, contingência e contrafactuais”, em Paisagens da História) preocupa-se com essa definição de tempo para o trabalho do historiador, diz ele:


“Não há regras precisas que digam onde os historiadores devam parar ao pesquisar as causas de qualquer evento histórico. Mas existe o que poderíamos chamar de um princípio de importância reduzida: quanto maior for o tempo que separa uma causa de uma conseqüência, menos relevante presume-se que seja a causa.”[15]

 

Em Alice no País das Maravilhas o Tempo parece estacionar: não há uma única menção a fenômenos meteorológicos ou às horas, com exceção desse capítulo do chá, no qual sempre o relógio marca a hora do chá britânica, ou seja, seis da tarde. Manhã, tarde, noite? Tanto faz, porque, no fim do livro, descobrimos que tudo não passava de um sonho de Alice.

 

 

Mais algumas palavras...


Gostaria de ressaltar outros dois pontos que relacionam Alice no País das Maravilhas com a atual concepção e conhecimento de História: Teoria do Caos e Psicologia.

Com a aproximação da História com as ciências “exatas” e naturais levamos para o campo cognitivo histórico a ciência da imprevisibilidade surgida na década de 1980, a denominada Teoria do Caos. Essa teoria pode ser enxergada nos livros de Alice. Apesar do nonsense, de tudo parecer desconexo, tudo estar num caos, vemos que existe, sim, uma ordem por trás dessa aparente desordem. O País das Maravilhas tem regras, máximas próprias que não podem ser mascaradas ou esquecidas. Pelos olhos da Alice (e de seus leitores) o mundo maravilhoso que existe abaixo da toca do Coelho é confuso, mas, para os moradores deste mundo, tudo está em perfeita ordem! E, assim como o nosso mundo (ou o mundo “verdadeiro” de Alice, se desejar), o País das Maravilhas está sujeito à imprevisibilidade.

Sobre a Psicologia, podemos dizer que a cada dia ela se torna mais uma “companheira” da História; tomo a liberdade de colocar aqui as palavras de Peter Burke acerca do assunto:

 

“A teoria psicológica pode ser de grande valia aos historiadores, no mínimo, de três maneiras diferentes. Em primeiro lugar, por libertá-los das premissas do ‘senso comum’ acerca da natureza humana, premissas essas que adquirem mais poder por não serem reconhecidas, senão por serem inconscientes, na acepção freudiana do termo. (...) Em segundo lugar, a teoria psicológica tem uma contribuição a fazer ao processo da crítica das fontes. (...) Em terceiro lugar, os psicólogos têm a contribuir com o debate sobre a relação entre indivíduo e sociedade (...).”[16]

 

Alice no País das Maravilhas fornece um amplo e rico material para a pesquisa psicológica (mas que não será tratado aqui por não me sentir seguro o bastante para adentrar em outra área de estudos sem a metodologia e teoria corretas).

 

 

Acordando sobre a grama


       (In)Felizmente, as imagens mais marcantes de Alice no País das Maravilhas  nas memórias das pessoas devem seus agradecimentos ao longa-metragem lançado pela Disney em 1951. A Disney deu a sua versão da história (lembremos sempre do Relativismo!) juntando o País das Maravilhas com Através do Espelho, resultado: o conteúdo passado às pessoas – e do qual todas se lembram justamente por causa do filme – foi distorcido. As duas cenas presentes no Alice no País das Maravilhas da Disney que fazem parte do segundo livro são: os gêmeos Tweedledum e Tweedledee com sua história sobre a Morsa e o Carpinteiro; e o jardim das flores que falam e cantam. Mas, desgraçadamente, aquilo que todos lembram do filme não existe sequer em algum dos livros! É o famigerado diálogo entre Alice e o Chapeleiro sobre o “des-aniversário”! Essa expressão saiu das mentes brilhantes que trabalhavam (?) na Disney...

Ainda conversando sobre o desenho de 1951, fiz uma pesquisa simples entre meus amigos mais próximos, perguntando: “Qual a imagem mais marcante de Alice no País das Maravilhas para você?” As respostas foram as mais variadas: a menina encolhendo, o mar de lágrimas, confusão, chatice, Alice caindo na toca do Coelho, o Coelho Branco, o “des-aniversário”, portas, chaves, trilhas, lógica matemática, compreensão da realidade... e ouvi também dois: “Homem-de-lata”!

Distorcidas ou não, as interpretações de Alice no país das Maravilhas fazem parte da vida das pessoas. Não só das pessoas “comuns”, mas também de inúmeros frutos que nasceram das histórias de Alice: o nonsense presente nos desenhos animados tais como “The Simpsons”, nas histórias em quadrinhos encontramos o Chapeleiro Maluco em “Batman”, os livros infantis nunca mais foram os mesmos (basta comparar com as histórias antecessoras de Alice como, por exemplo, os contos dos Irmãos Grimm), e o cinema atual também se curvou ao conteúdo das histórias carrollianas – temos como exemplo “Matrix” (1999) e o filme novo da “Alice no País das Maravilhas” que será produzido Marilyn Mason (em uma versão horror). Seriam necessárias inúmeras linhas para listar todas as influências que Lewis Carroll tem em nossa contemporaneidade.

Enfim, Lewis Carroll escreveu uma ficção literária que ainda hoje dá (e dará) muito trabalho aos historiadores. Muitos ainda estudarão as diversas interpretações do nonsense[17].

 

 

 

Bibliografia


BURKE, Peter, História e teoria social. São Paulo: UNESP, 2002.

 

CARROLL, Lewis, Alice no país das Maravilhas. Porto Alegre: L&PM, 2002.

 

COHEN, Morton N., Lewis Carroll: uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 1998.

 

GADDIS, John Lewis, Paisagens da História: como os historiadores mapeiam o passado. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

 

MARROU, H. –I., Do conhecimento histórico, São Paulo: Martins Fontes, 1975.

 

POSTMAN, Neil, O fim da educação: redefinindo o valor da escola. Graphia, 2002.

 

WHITE, Hayden, Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Edusp, 1994.

 


[1] Morton N. Cohen, Lewis Carroll: uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 24.

[2] Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Porto Alegre: L&PM, 2002, pp. 3 e 4. Grifos meus.

[3] John Lewis Gaddis, Paisagens da História: como os historiadores mapeiam o passado. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2002, p.108.

[4] Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 11.

[5] Ibidem, p. 14.

[6] Página 108.

[7] Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 21.

[8] Ibidem, p. 23.

[9] Neil Postman, O fim da educação: redefinindo o valor da escola. Editora Graphia, 2002, p.175.

[10] Página 26.

[11] Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Porto Alegre: L&PM, 2002, pp. 60-61.

[12] Página 131. Sobre biografias podemos ainda citar um trecho de H. I. Marrow, Do conhecimento histórico: “Vemos uns, por exemplo, condenar a biografia, como um género fundamentalmente anti- ou an-histórico, enquanto outros a converteriam, pelo contrário, quase num género histórico por excelência (compreendendo-a como uma visão reunida de toda uma época ou mesmo de uma civilização, apreendida através de um dos maiores dos seus filhos)”. São Paulo: Martins Fontes, 1975, p. 27.

[13] Página 123.

[14] Páginas 94-95.

[15] Página 113.

[16] Peter Burke, História e teoria social. São Paulo: Editora UNESP, 2002, pp. 161-63.

[17] Tentei fazer um levantamento estatístico de quantas vezes a Alice do desenho da Disney diz essa palavra; desisti no meio do caminho... quase todas as falas da menina iniciam-se ou encerram-se com “nonsense”.





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Mozart: sociologia de um gênio, de Norbert Elias
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