Dossiê:
Darcy Ribeiro
Daniel Dias Rodrigues, Leopoldo Doray de Magalhães, Mauro Gonçalves e Rodrigo da Silva
2º Ano - História/USP
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Introdução

 

Rodrigo da Silva


"Gostaria de ficar na memória das pessoas pedindo que sejam mais brasileiras. Digam que me amam porque eu amo vocês. Eu quero é agora."
 
 

Quando demos nossos primeiros passos nesta empreitada pouco sabíamos do homem, menos ainda de sua obra: antropólogo, político e romancista, autor de "Maíra" e nada mais. Foi quando se desvelou um intelectual que só permite como comparativo um gigante, homem polivalente, complexo, humano, irreverente, desafiador e polêmico. Com relação a si e às suas idéias só existem duas opções: amar ou odiar. Com grande risco optamos pela primeira alternativa, ou talvez apenas nos resignamos à atração, à sedução que Darcy cultivou como rara qualidade. Com risco, e ainda não estamos bem certos se nos defendemos adequadamente da tentação, pois não cremos ser ético ou seguro se identificar tanto com as idéias e a pessoa. Contudo, fizemos o esforço de procurar as falhas.

Estranhamente seguimos o caminho inverso da história pessoal de Darcy: começamos conhecendo suas obras de maturidade e fomos retrocedendo até chegar aos seus Diários Índios.

Mesmo o termo "maturidade" hoje nos parece dúbio: as idéias sem dúvida ficaram mais consistentes, a massa de informações cresceu substancialmente, mas por outro lado nenhuma fase de Darcy é tão irreverente e até mesmo caótica: em nenhum momento esteve com a língua tão solta. A expectativa da morte com certeza lhe proporcionou um acréscimo não só de ironia e de humor mas também de disposição para escrever, como nunca o fez. É neste contexto que nasce O Povo Brasileiro, uma curiosa ironia que este livro, trabalho de um profundo amor e devoção, nasça da agonia de alguém.

No entendimento da obra citada e do pensamento do autor escolhemos um caminho específico, o único que achamos condizente e suficiente para tal, que foi o de olhar as questões pelos olhos de Darcy. Sem dúvida esta tarefa não está (nem poderia estar) completa, pois jamais se penetra totalmente nas idéias do outro, mas este foi o esforço maior a que nos propusemos. Isto nos levou pelas trilhas incertas da antropologia, ciência pouco familiar para nosso parco conhecimento.
 

Tivemos de compreender conceitos que nos eram estranhos, como "etnia", "aculturação", "transfiguração étnica" e tantos outros nos obrigou por vezes a percorrer outros caminhos de essência auxiliar, instrumental. Da mesma forma fomos obrigados a conhecer um pouco mais acerca das sociedades indígenas, dada as metáforas que o autor constrói a partir de sua vivência entre estas.  Era a forma de compreender o que chamava de "socialismo com este talento indígena da convivência". Se não fomos felizes no resultado efetivamente estivemos felizes no processo de olhar pelos olhos de Darcy. Recebemos durante toda a pesquisa ajuda substancial do próprio autor. Darcy, receoso de que a morte física também lhe decretasse a morte intelectual e histórica, se pôs a estudar sua trajetória intelectual e humana. Desse processo nasceram Confissões, Testemunho e Mestiço é que é bom (em formato de entrevista), livros que foram caminho certo durante todo o processo, mesmo quando duvidávamos dos próprios. 

Confissões (1997)

O fato de ser pouco estudado, ainda, em um primeiro momento nos assustou. Infelizmente Darcy ainda (nesta palavra repetida reside nossa confiança de que não demorará muito para que o quadro se inverta) não figura nos estudos da historiografia nacional, mesmo nos mais recentes. O que era medo passou a ser desafio e finalmente prazer, nos obrigou a perscrutar parte razoável de sua obra: livros, artigos, discursos, romances, diários, apresentações de livros, e mais, raros e dispersos trabalhos avaliando sua obra, entretanto nestes encontramos confirmações para as nossas vacilantes análises. Outra fonte preciosa, a que nos deu a primeira pista, foi a FUNDAR (Fundação Darcy Ribeiro do Rio de Janeiro) que pela sua página na Internet nos forneceu a bibliografia completa de Darcy em língua portuguesa e estrangeira. Nesta mesma trilha utilizamos as páginas do PDT (partido pelo qual foi senador), do Senado Federal, do O Estado de São Paulo, das Revistas Veja e Isto É, do Jornal O Globo, do Proyecto Ensayo Americano (que abriga estudos acerca de diversos pensadores latino-americanos) e várias outras.

Empregamos ainda quatro registros audiovisuais: o programa Roda Viva com Darcy Ribeiro, o documentário "Terra dos Índios" com depoimentos do autor, o documentário "Xingu", sobre o Parque Nacional Indígena do Xingu e o modo de vida indígena e por fim "Jango", outro documentário que narra o momento histórico vivido pelo personagem título.

Cabe aqui uma ligeira explicação, pois o trabalho teria como objetivo o entendimento do capítulo "Os Brasis na História" do livro "O Povo Brasileiro. Este capítulo e posteriormente o livro nada mais são do que a ponta do "iceberg" que foi ou é Darcy Ribeiro, dono de uma coerência ímpar seria impossível compreender um mínimo aceitável destes sem fazer o que fizemos, e ainda é pouco, seria sobretudo um desrespeito com a obra do autor e com a complexidade que fez questão de cultivar apesar de sua escrita envolvente, desleixada por vezes, sempre irreverente. Não podíamos cometer tal falha, pois além do mais acreditávamos, e ainda acreditamos, que todos deveriam ter o direito de conhecer Darcy de forma mais ampla.

Estas laudas estão divididas em textos temáticos estudando cada um dos aspectos que julgamos mais relevantes: sua biografia, o capítulo e o livro como exigências, suas características, suas peles, suas teorias em torno da gestação étnica, sua obra, suas influências e suas discussões historiográficas como opção de caminho.

Devemos avisar ainda que para entender Darcy é necessário primeiro se despir, deixar para trás os "esquemas prontos", as "teorias puras", sem perder os conceitos. O autor é escorregadio, quando se pensa tê-lo aprisionado ele se furta. Portanto, não espere dele um "marxista", um "neo-evolucionista" ou coisa que o valha, ele é tudo sem ser nada puramente, sabemos que isto é um tanto (para não dizer extremamente) vago, parece mesmo sandice por vezes mas não foi de maneira gratuita que Antonio Candido o chamou de "uma das inteligências mais autônomas da América Latina". E este coro engrossou com os depoimentos de Oscar Niemeyer, Anísio Teixeira, Carlos Drummond de Andrade, Antonio Houaiss, Antonio Callado, Zuenir Ventura, Alfredo Bosi e tantos outros.

Felizmente ou infelizmente, cremos ser o primeiro caso, Darcy nos imprimiu uma marca indelével, cumpriu sua tarefa de "influenciar", não seríamos justos nem honestos com nenhuma das partes se não o disséssemos. Por fim nos resta desejar, como diria Professor Darcy Ribeiro (ou simplesmente Professor, como gostava de ser chamado), que a leitura deste curto trabalho seja ao leitor tão "gozoso" quanto nos foi a pesquisa e a redação.
 
 

Biografia

Mauro Gonçalves


Darcy Ribeiro nasceu em Montes Claro, norte de Minas Gerais em 1922, num clima bucólico, rodeado de arvoredos, plantações, carros de bois e fazendas. Foi o segundo de três filhos, e perdeu o pai ao três anos. Sobre isso diz: "Felizmente, pois não fui domesticado". Talvez por isso não tenha deixado filhos: "Não tive a quem domesticar".

Sempre brincalhão e irreverente, descobre a leitura aos quatorze anos, e dizia que esta era a carne de seu espírito. Em 1939 vai para a Bahia estudar medicina por vontade de sua mãe, uma professora primária. Não se adaptando à carreira, começa a freqüentar a faculdade de Filosofia. Toma gosto por Carlos Drummond, Jorge Amado e outros autores da segunda geração modernista. Descobre Marx, Freud e Schopenhauer. Estes lhe deram um novo discurso e aos poucos iam refazendo suas idéias. Não demora muito, e recebe uma bolsa de estudos de um sociólogo norte-americano - Donald Pierson - para a escola de Sociologia e política de São Paulo, da qual sairia profissionalizado. Nesse meio tempo é surpreendido pela convocação para o Exército, mas acaba se salvando por motivos de saúde.

Chegando em São Paulo, torna-se militante em tempo integral. Conhece Caio Prado Júnior, Oswald e Mário de Andrade e Monteiro Lobato. Ao se formar, é recomendado ao Marechal Rondon para o cargo de etnólogo, e a partir daí mete-se na selva com os índios. Quando perguntado do por quê disso, respondia que era pelo encantamento pelo Pantanal, pela Amazônia e pela humanidade índia, que segundo ele é essencial.

Darcy teve duas visões em relação aos indígenas. A primeira acadêmica: via o índio como objeto de estudo. A segunda visão focalizava-os como gente: "Aprendi a olhar os índios com os olhos deles mesmos". Participou do serviço de proteção ao índio, ajudando nos serviços do Parque Indígena do Xingu, fundando o Museu do Índio. Outro projeto de Darcy foi a UNB (Universidade de Brasília). Aqui, empolgou a intelectualidade com suas opiniões de reforma universitária. Dizia criticamente que o ensino superior em gestão era elitista e burocrata. Tais críticas tiveram enorme repercussão, porém surge a ditadura que sangra a UNB e empobrece a vida inteligente brasileira. A respeito, afirmou que " A UNB foi avassalada, estando a meio caminho de sua edificação".

Foi chefe da Casa Civil de Jango, mas com a ditadura se exila no Uruguai. Lá é nomeado professor de antropologia e dirige seminários sobre reformas das Universidades. Escreve as primeiras versões de O Povo Brasileiro e Maíra, um dos seus romances. Volta para o Brasil, é preso, julgado e absolvido. Segue-se então seu segundo exílio, agora na Venezuela, onde se fez professor de antropologia. Nesse meio tempo Salvador Allende (socialista libertário) vence as eleições no Chile e Darcy segue para lá para trabalhar ao seu lado como acessor.

Darcy Ribeiro e Leonel Brizola durante campanha eleitoral
Não demora muito, e Darcy é em seguida convidado a pensar e a ajudar a Revolução Peruana ao lado de Velasco Alvarado. Depois de um tempo sai de férias e vai a Portugal, onde descobre um câncer pulmonar. Operado, se cura. Darcy retorna ao Brasil e preside simpósios sobre indígenas. Publica o romance Maíra e dá conferências em outros países (México, Portugal). Publica diversos artigos e ensaios e jornais e revistas.

Em 1979 é anistiado e torna-se professor titular da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Torna-se secretário da cultura de Leonel Brizola, criando o sambódromo no Rio de Janeiro e um ambicioso projeto de educação, o CIEPs , "escolões" de tempo integral. Porém, o projeto é abandonado. Elege-se senador em 1990 e morre em 1997. Enfim, dedicou-se sempre à salvação dos índios, à preservação da natureza, por uma educação democrática e pela felicidade do povo.

As Peles de Darcy
(A produção intelectual concatenada com a trajetória pessoal)

Daniel Dias Rodrigues
A análise que se segue é baseada essencialmente no discurso que o autor estudado proferiu na Universidade de Copenhague, Dinamarca. Falar em Darcy Ribeiro é falar em Diversidade e Unidade. Marcas de sua carreira, como foi dito durante a saudação solene no salão de atos da Universidade de Copenhague, quando foi conferido a Darcy Ribeiro o título honorífico de Doutor Honoris Causa. Diversidade na medida em que viveu muitas vidas em uma só. Por essa característica Antônio Cândido declararia à Folha de São Paulo "Darcy Ribeiro é um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. Não apenas pela alta qualidade do seu trabalho e da sua produção de antropólogo, de educador e de escritor, mas também pela incrível capacidade de viver muitas vidas numa só, enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma".

E Unidade devido à sua incessante luta pelos direitos humanos. Cada vida que viveu foi vivida intensamente, e para cada bandeira que ergueu, lutou arduamente. A essas vidas o gênio de Darcy deu o nome de "peles" (ninguém melhor do que ele próprio para compreender Darcy), comparando-se às cobras, "não por serpentário ou venenoso, mas tão só porque, eu e elas, mudamos de pele, de vez em quando". Diria eu que ele nunca mudou de pele, mas as sobrepôs umas as outras, pois jamais abandonou alguma delas.

Para compreender as "peles" de Darcy, é preciso conhecer sua motivação única: o gênero humano. "De todas as coisas desse mundo tão variado - diz ele - a única que me exalta, me afeta, me mobiliza , é o gênero humano".
 

O filho da professora primária

Filho de Mestra Fininha, em Montes Claros, Darcy Ribeiro narra um episódio de quando era menino. Havia roubado um pacote de um quilo de azul de metileno e atirado o mesmo no reservatório de água da cidade para vê-lo azular. Darcy narra esse episódio para explicar a si mesmo e às suas vidas. Ele prossegue: "Levei uma surra danada, mas não me corrigi. Continuo fazendo bobagens e desafiando esse mundo, só pelo gosto de vê-lo variar". Disto e do que já foi dito anteriormente, podemos visualizar um homem atípico, como disse o professor Alfredo Bosi. Tratava-se de um espírito inquieto, que não só gostava de mudanças mas também as provocava, e talvez por isso fosse um homem "plural", diverso. E que era sobretudo um apaixonado pelas gentes. Essa paixão explica seu interesse pelos índios, e que certamente o conduz à sua segunda pele, a de antropólogo.
 

O etnólogo indigenista
 

Darcy entre os índios Kadiweu
Vestido nesta pele Darcy viveu dez anos nas aldeias indígenas do Pantanal e da Amazônia, chegando a casar-se com uma índia. Interessado pelos povos índios almejava entender "aquela humanidade em flor", e o seu "veemente desejo de beleza". Da capacidade de conviver harmoniosamente uns com os outros que pôde constatar terem os índios, Darcy, chegou ao seu próprio socialismo: "Quando digo que sou socialista, o socialismo que sonho é o de uma civilização avançada, com este talento índio da convivência e da solidariedade".

Mas esses anos se findam e Darcy deixa a etnologia de campo (apenas a de campo, pois suas peles, como foi dito anteriormente, ele nunca as abandona) para encarnar mais uma pele e para erguer mais uma bandeira: a pele de educador.

O educador

Durante os primeiros anos em que encarnou a pele de educador, Darcy lembra-se: "Minha ignorância e ousadia eram tamanhas, que o meu mestre, Anísio Teixeira, dizia de mim que eu tinha a coragem dos inscientes". Como ele mesmo diz, não se deu mal. Como é sabido, foi ministro da educação, fundou universidades, entre elas a de Brasília, construiu os CIEPs etc. Se entregou à educação mais por ímpeto de paixão do que por sabedoria pedagógica, mas posteriormente tornou-se conhecedor da necessidade de dominar o saber humano para colocá-lo a serviço do desenvolvimento nacional como principal acelerador da história. Deste conhecimento, desta consciência que permeia toda a sua vida adulta, como cidadão e como ser dotado de direitos e investido de deveres, Darcy diz:

"Um intelectual dinamarquês pode legitimamente dedicar-se ao que bem quiser, indiferente à ordem social, porque a Dinamarca deu certo. Seu povo realiza bem suas melhores potencialidades dentro da civilização a que pertence. O Brasil não deu certo. Ainda não deu. Nossos intelectuais, por isso mesmo são ungidos a tomar posição política". Esta consciência o conduziria à vida política.
 

O político

Para Darcy, o Brasil não deu certo por causa de uma grave enfermidade nacional, que é a desigualdade social e a insensibilidade diante do sofrimento dos pobres. Insensibilidade essa da classe dominante, descendentes de senhores de escravos e indiferentes a seu destino. Darcy Ribeiro fez política movido por uma motivação essencialmente ética. Para lutar contra essa desigualdade e indiferença. Aqui vemos a importância de conhecer as motivações de Darcy. Como espírito inquieto, jamais seria indiferente à desigualdade. Como apaixonado pelo gênero humano, explica seu engajamento político: "Jovem, ainda na universidade, me fiz estudante comunista, porque esse foi o modo que encontrei de me preocupar com o destino humano, de me comover com o sofrimento de qualquer povo, em qualquer lugar da Terra".

Darcy entrou para a política quando viu o Presidente Getúlio Vargas suicidar-se, fugindo da campanha de desmoralização promovida pela imprensa e custeada pelos grupos mais ricos. Fez isso também para causar revolta nos grupos dominantes, pois se identificava com os trabalhadores. Acabou então por se definir socialista no sentido trabalhista, lutando por melhor remuneração do trabalho, pela educação e para que o Estado cumprisse seus deveres de assistência às camadas carentes da população.

Por duas vezes ministro de estado, lutou por reformas sociais, dentre elas a reforma agrária. Entretanto, fracassou, e foi exilado por muitos anos, vivendo em diversos países do mundo. Dando início à sua pele de exilado político.
 

O proscrito

Foi vendo o Brasil em conjunto, isto é, de fora, que, por meio de comparações, tentou compreender as causas do desempenho medíocre do Brasil na Civilização Industrial. Com os Estudos de Antropologia da Civilização (Conjunto de seis volumes com quase duas mil páginas, sete contando O Povo Brasileiro), propõe uma teoria explicativa das causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos. Mas foi também durante o exílio que desenvolveu nova pele, a de romancista.
 

O romancista
 

Quando foi estudante de medicina, Darcy era reprovado ano após ano. Afinal, preocupado apenas com a literatura, não estudava o que devia.. Foi por aqueles anos que chegou próximo do suicídio. Mais tarde, ocupado da etnologia indígena, afastou-se da literatura para somente retomá-la no exílio. Começou bem, com sua obra mais famosa Maíra, que depois recebeu o prefácio do professor Alfredo Bosi. Seguiram-se a ela O mulo, Utopia Selvagem e Migo, sendo que as duas últimas são novelas. A obra literária de Darcy Ribeiro só poderia ter sido escrita por um indigenista como foi. Em Maíra, revive as emoções dos anos em que conviveu com os índios, seu tema é a dor e o gozo dos índios. O mulo mais comove do que revolta, pois trata da indiferença dos proprietários de terra com as gentes subordinadas.

Utopia Selvagem é uma alegoria satírica da busca da identidade dos brasileiros. Já Migo é uma autobiografia inventada, mais confessional do que seus ensaios, explicitamente autobiográficos. Aqui terminam suas peles.


O Mulo (1981)

Diários Índios
( as características de Darcy Ribeiro )

Rodrigo da Silva

 
Sua escrita leve e solta, quase um eterno ensaio, carrega o leitor pelas páginas de seus livros, muitos é bom que se diga, jamais dispensáveis. Cada linha cumpre sua missão que nas palavras do próprio autor é a de "dizer a que veio", de "combater a indoutrinação direitista", e isto não é pouco, Portanto, avisemos aqui que, ao ler Darcy Ribeiro, jamais se perca esta dimensão: a de intelectual não só engajado como possuidor de um projeto nacional o qual quer divulgar, espalhar, imprimir em cada brasileiro. Feita esta advertência, descortina-se um pensador refinado, que para Anísio Teixeira "era a inteligência mais autônoma da América Latina". Contudo, esta breve análise não se pode ater a simples apreciações, ainda que estas venham de personalidades como Drummond, Niemeyer e García Márquez, pois assim cometeremos o pequeno atrevimento de perscrutar as idéias, as filiações, as originalidades, o estilo de Darcy.

Vale lembrar, como início deste caminho, que a marca do antropólogo se fez presente em tudo o que escreveu, ao ver o mundo tentando penetrar nos olhos do "outro" e seguindo, assim, na busca incessante das angústias, das alegrias e da lógica dos povos. Nesta trilha se embrenhou por dez anos entre os índios brasileiros, procurando neste tempo ser o menos "Darcy" possível e ser assim muito mais os Urubu-Kaapor, os Kadiweu e tantos outros. Compreendendo a partir do cerne destas culturas o mundo, assumiu inevitavelmente uma grande parcela desta filosofia indígena, deste "modus vivendi". Portanto, quando diz que seu "socialismo é com este talento índio da convivência", a única forma de compreender o que esta querendo dizer é seguindo o mesmo caminho de Darcy e procurar conhecer ao menos ligeiramente esta sociedade para descortinar a idéia precisa. Estas analogias com as sociedades indígenas são uma marca registrada do autor, que sempre recorre às comparações com uma beleza ímpar, colocando-as como exemplo.

Por vezes esta posição de se negar a enquadrar suas idéias em esquemas pré-concebidos causava desconforto, gerando a eterna discussão sobre sua natureza ideológica; aos marxistas ele jamais o foi, aos olhos dos outros, "comunista"; para si próprio "um herdeiro de Marx, um seguidor, contudo sem nunca ser comunista, nem ao menos marxista". Apesar disto, sempre se utilizou de conceitos marxistas na construção de suas teorias, mesmo fazendo o que chamava de "calibragem": empregava a dialética no entendimento da construção da nação brasileira e também da América Latina, assim como as idéias à cerca da "revolução". Sem nos aprofundarmos demasiadamente no tema, já que isto poderia por si só render um belo estudo, lembraremos algumas das aplicações destas teorias por ele. No Brasil as categorias de classes sociais não deveriam ser aplicadas como até então pois, ao contrário da Europa, jamais tivemos aristocracia feudal, burguesia progressista ou operariado revolucionário. A estratificação social do país seria bastante diversa. Estas afirmações sem dúvida se remetem em grande parte a Florestan Fernandes, seu companheiro da USP. A revolução, tão esperada como modificadora e estopim da evolução social, para ele só serviria se "fosse pacífica e democrática", um contra-senso para os marxistas.

Através destes dois exemplos podemos realmente aferir a originalidade de Darcy. Mesmo sua trajetória como antropólogo se deu de forma pouco usual: enquanto seus parceiros se debruçavam sobre indígenas apenas dois ou três meses por ano e passavam o resto de suas vidas em escritórios, ele fez questão de seguir contrariamente a esta corrente. Se alinhou às idéias dos "neo-evolucionistas", intelectuais variados como Gordon Childe, Leslie White, J. Steward e R. Redfield, cientistas que se dedicaram ao novo entendimento da formação da humanidade, das culturas, dos povos, e sobretudo dos novos Povos-Nações, nascidos do processo de expansão colonizadora desencadeado entre os séculos XV e XVI pelos europeus e em contínuo movimento, ao menos até o presente momento. Seus Estudos da Antropologia das Civilizações nascem desta influência e filiação, e vale lembrar que o último volume destes estudos e sua obra de maturidade é nada menos do que O Povo Brasileiro: Formação e o Sentido do Brasil, obra inspiradora deste trabalho presente.

Ao escrever este livro, Darcy se sente muito à vontade, não só pela longa existência sempre metido nos assuntos nacionais e senhor de vários "fazimentos", mas também pelo profundo conhecimento que tinha da historiografia nacional, desde seus tempos de bolsista na Escola de Sociologia e Política, quando teve de se familiarizar com os grandes autores nacionais, até a convivência com muitos deles. Estudou as obras de Von Martius, Capistrano de Abreu, Paulo Prado, Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Sylvio Romero, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, Caio Prado Jr., Monteiro Lobato, Mário de Andrade e tantos outros que fariam desta lista um capítulo. Portanto, quando escreve e/ou questiona estes autores, o faz com propriedade.

Sua escrita é bastante curiosa e irreverente, o que nos lembra de passagem Gilberto Freyre, por conta dos termos pouco usuais que emprega, que poderiam ser até considerados "chulos": "Esse é o caso do culto a Iemanjá, que em poucos anos transformou-se completamente. Essa entidade negra, que se cultuava a 2 de Fevereiro na Bahia e a 8 de Março em São Paulo, foi arrastado pelos negros do Rio de Janeiro para 31 de Dezembro. Com isso aposentamos o velho e ridículo Papai Noel, barbado, comendo fritas européias secas, arrastado num carro puxado por veados. Em seu lugar, surge, depois da Grécia, a primeira santa que fode. A Iemanjá não se vai pedir a cura do câncer ou da Aids, pede-se um amante carinhoso e que o marido não bata tanto." Além disso, usa a ironia como arma para desarticular as idéias e as posições que julga erradas, equivocadas, preconceituosas. Como ilustração desta ironia típica de Darcy, transcrevemos aqui um pequeno fragmento de Ensaios Insólitos: "Uma terceira obviedade que vocês conhecem bem, por ser patente, é que os negros são inferiores aos brancos. Basta olhar! Eles fazem um esforço danado para ganhar a vida, mas não ascendem como a gente. Sua situação é de uma inferioridade social e cultural tão visível, tão evidente, que é óbvia. Pois não é assim, dizem os cientistas."

É ainda extremamente emocional, pois se nota o estado emocional com o qual Darcy escreveu cada capítulo. Alguns são violentos, fortes, apaixonados; outros mais mornos, menos radicais, e por fim alguns baseados inegavelmente nas saudades e quase poéticos. Pode-se com um pouco de atrevimento alegar que esta oscilação de temperamento presente sobretudo em O Povo Brasileiro é uma das ferramentas de Darcy usada de maneira proposital e não acidental. Esta noção de intencionalidade deve também estar presente no entendimento de cada termo que Darcy utiliza. Afinal, ele não se equivoca no emprego das palavras ou percorre "caminhos à toa". Quando utiliza um termo e no momento seguinte o altera, não é por razão de estilística. Enquanto antropólogo, sabe do valor dos conceitos, das idéias contidas em uma única palavra; assim, quando chama o processo pelo qual os indígenas estão passando de "transfiguração étnica" e não de "aculturação", sabe exatamente o que esta expressando. O mesmo se dá quando chama o acontecimento de 22 de Abril de 1500 de "invasão", e não de "descoberta" ou "achamento" do Brasil.

Crítico feroz da elite brasileira, dos EUA, da mídia que "emburrece sem nenhuma responsabilidade", jamais perde de vista a democracia, que em sua opinião é o bem supremo de um povo. Evita pregar soluções extremadas, armas e coisas do tipo para obtê-la, tendo um profundo respeito pela diversidade - qualidade negada aos brasileiros: "aqui o que há é o direito à igualdade ( ou seja, as pessoas só são aceitas à medida que se aproximam do "padrão branco da sociedade" ) e não à diferença". Em cada linha destila e distribui sua esperança, sua fé irredutível nesta nação e sobretudo no seu povo, "humanidade em flor"; acredita piamente na conscientização dos brasileiros, fator este que levará à revolução ( democrática e pacífica ) que reabilitará o verdadeiro povo desta terra. Defende estas posições sem ser ufanista, pois não mascara, oculta ou tenta justificar as mazelas nacionais: trata os problemas, as desigualdades e injustiças com a mesma seriedade com que trata da formação da nacionalidade.

Outra constante em sua obra é a presença do nacionalismo, herança de sua admiração por Vargas. Todo o patriotismo que demonstra, a paixão pelos temas nacionais e a compulsão pela brasilidade são frutos desta marca, algo que lhe custou muito e foi um dos elementos que constantemente lhe provocava desavenças sobretudo com os intelectuais filiados à USP (local que nunca morreu de amores pelo nacionalismo: criada em um momento imediatamente posterior à derrota paulista na Revolução de 32, surgiu na Universidade uma verdadeira ojeriza ao nacionalismo varguista). Em contrapartida constantemente Darcy afirmava que faltava nacionalismo à USP. O outro elemento que era motivo de diferenças foi justamente sua atração pelos já mencionados "neo-evolucionistas". Como sabemos, a tradição da USP está intimamente ligada ao estruturalismo de Lévi-Strauss, Fernand Braudel e vários outros professores, especialmente os da missão francesa. Assim, o evolucionismo aplicado por Darcy nunca foi bem visto pelos acadêmicos uspianos.

Podemos dizer que, resumidamente, Darcy se configurou como um intelectual atípico, complexo e cheio de nuanças, mas, como diria o Professor Alfredo Bosi, sem ser "jamais marginal". Mesmo com toda a polêmica Darcy sempre fez questão de se manter no papel de protagonista.
 


Noções de coisas
(Filiações e discussões historiográficas da obra darcyniana)

Rodrigo da Silva

 
Buscar as filiações dentro da obra e do pensamento de um intelectual tão complexo quanto Darcy é naturalmente um trabalho exaustivo e incompleto, pois jamais se esgota o assunto. Contudo, o caminho é necessário e mais do imprescindível para o entendimento global do autor. No caso de Darcy isto é facilitado em parte pela coerência que guarda em si. Grande conhecedor da historiografia brasileira, Darcy, apesar das rupturas que eventualmente faz, carrega e resgata as idéias de vários autores com grande propriedade e familiaridade, Para que este trabalho fique mais conciso e de exemplificação mais fácil, nos ateremos principalmente a O povo brasileiro: formação e o sentido do Brasil, sem contudo deixar de levar em consideração e empregar eventualmente outras obras, objetivando unicamente a clareza da argumentação. Avisamos ainda que aqui não nos aprofundaremos na questão racial, pois esta merecerá um capítulo a parte e portanto de tratamento mais amplo e cuidado.
As grandes discussões de Darcy são com as idéias da chamada "geração de 30", e isto se deve não só pela importância e pela marca que se imprimiu por este grupo. Não custa lembrar Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Roberto Simonsen na historiografia brasileira, mas também à proximidade, o convívio que o autor teve com estes, sobretudo Sérgio e Caio. Além deste primeiro grupo, podemos citar também a grande influência de Florestan Fernandes, principalmente nas idéias com relação à estrutura da sociedade brasileira, à luta de classes e à revolução burguesa; e ainda o conhecimento da obra de outros "membros" da "Escola Sociológica Paulista" como Fernando Henrique Cardoso e Otávio Ianni; e as teorias da mesma acerca das relações entre brancos e negros no Brasil.
A terceira fonte das idéias e discussões é um tanto mais variada e menos concisa que as anteriores, nos levando a autores como Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, Antonio Candido, Calógeras, Afonso Taunay, Capistrano de Abreu, Celso Furtado e Jaime Cortesão. Seguindo ainda na identificação das fontes de Darcy, é importante lembrar que, mesmo não sendo citadas literalmente na obra ou ainda com menor importância, são de conhecimento do autor os trabalhos de Oliveira Vianna, Eduardo Prado, Von Martius, Saint Hilaire, Jacob Gorender, Nina Rodrigues, José Honório Rodrigues e outros tantos. Por fim, a grande influência antropológica se instala nas obras do arqueólogo Gordon Childe, dos antropólogos Robert Redfield, Julian Steward e Curt Nimuendaju. Com exceção do último, estes são tidos como "neo-evolucionistas", estudiosos da formação e da evolução da humanidade, sobretudo da criação dos novos povos e suas culturas.

Iniciando por Gilberto Freyre, é curioso acrescentar que, na versão venezuelana de Casa Grande e Senzala, o prefácio é assinado por Darcy, que, entre a afirmação do estilo "galhofeiro e exuberante" do livro e seu caráter único e generoso, alega categoricamente: "Com efeito Casa Grande e Senzala é o maior dos livros brasileiros e o mais brasileiro dos ensaios que escrevemos.......Creio que poderíamos passar sem qualquer dos nossos ensaios e romances, ainda que fosse o que melhor se escreveu no Brasil. Mas não passaríamos sem Casa Grande e Senzala, sem sermos outros.". Esta é a grande marca da relação de Darcy para com a obra de Gilberto Freyre: a dubiedade. É constante a utilização do trabalho de Freyre por Darcy, pois lhe agrada por demais o estilo do autor de Sobrados e Mucambos, a escrita leve, "generosa" e irreverente (como a sua) que desvela a sociedade patriarcal brasileira e faz-se fonte insubstituível para a compreensão da formação do país e de seu povo. Ainda no terreno das concordâncias, Darcy se junta a ele para afirmar o ambiente de "sensualidade" espargido pela colônia e a liberalidade no trato destas coisas. Contudo, as diferenças começam na constatação dos exageros impostos por Freyre. Além disso, por vezes o estilo se impõe perante à ciência. Mas a maior divergência, como não poderia deixar de ser, pelo histórico de Darcy, se instala na famosa "democracia racial" disseminada no pensamento de Freyre. Para Darcy, o racismo brasileiro, tão distinto dos outros exemplos americanos, não atinge a origem racial das pessoas, mas a cor de sua pele, diminuindo à medida que as mesmas se "embranquecem" na tez ou na atitude. A realidade está muito distante do ideal de Gilberto.

Em Sérgio Buarque de Holanda, ele buscou primeiramente uma fonte sobre os hábitos e as relações entre colonizadores e indígenas, confronto de "dois mundos heterogêneos" que só poderia resultar no massacre de alguma das partes - efetivamente a indígena. Mais importante ainda são as informações que Darcy busca na obra de seu antigo incentivador sobre a formação etno-histórica dos povos da região Centro-Sul (o termo não é totalmente exato; mais correto seria dizer que é a região que hoje abarca os estados de Minas Gerais ao Rio Grande do Sul) e é sobre elas que ele constrói parte de suas idéias acerca dos ditos "Brasis caipira e sulinos". À certa altura escreve: "Às vezes se diz que nossa maior característica é a cordialidade, que faria de nós um povo por excelência gentil e pacífico. Será assim?". Esta passagem não deixa de ser curiosa. Primeiro, por saber que o conceito de "homem cordial" de Sérgio Buarque não é o mesmo aí descrito. Para ele, o cordial provem do fato de agir com o coração (do seu radical latino "cordi") e não com a razão, ou seja, não tem nada a ver com um espírito "gentil e pacífico". Contudo, não nos parece que a alegação foi feita acidentalmente, pois não seria condizente com o estilo e a sapiência de Darcy. Mais adiante ele retomará o assunto, criticando as idéias de Sérgio à respeito das características do brasileiro: desleixado, ocioso, desordeiro, anárquico, autoritário, mandonista, indolente, aventureiro, etc. Para Darcy, nem todas estes aspectos são verdadeiros, e mesmo os que são nos garantiram a sobrevivência em um ambiente tão adverso quanto o daqui vieram acompanhados da coragem, da vitalidade, da ousadia e da criatividade. Seria um equivoco atribuir aos lusitanos, e não ao nosso processo histórico, a causa destas falhas. Muito pior teria sido, tanto para ele quanto para Sérgio, se ao contrário tivéssemos herdado peculiaridades como o servilismo, a rigidez, a sisudez, a humildade. Além disso, como Sérgio Buarque compara o lusitano (semeador) ao espanhol (ladrilhador) em seu Raízes do Brasil, Darcy compara os povos ibéricos aos "anglos", afirmando que esta sim é a comparação mais correta. Ao contrário dos primeiros, que aqui tiveram de criar uma "nova humanidade" miscigenada, os ingleses nada mais fizeram na América do que reproduzir o seu mundo (povos transplantados).

Em Caio Prado Jr. ele busca sobretudo as idéias sobre a formação econômica do Brasil e também sua colonização. Para mostrar isso, nada melhor do que compararmos alguns fragmentos dos livros de Darcy e de Caio, para que a relação fique mais visível.

Ao falar sobre a distribuição dos povoamentos pelo país, Darcy afirma: "constituíam, em 1960 (ainda), uma rede de centenas de núcleos urbanos distribuídos por todo o país na forma de constelações articuladas aos centros metropolitanos nacionais e regionais.". Sobre o mesmo assunto Caio Prado já havia dito: "o que vamos encontrar então é uma nebulosa mais ou menos separados e isolados uns dos outros, e disseminados por uma área que não é inferior a dois milhões de quilômetros quadrados, isto é, que forma todo o miolo do que hoje constitui o território brasileiro....".

Mais próximas e visíveis estão as influências no tocante ao "sentido da colonização". Vejamos o que nos diz Caio e logo em seguida Darcy: "Nestas condições, "colonização", ainda era entendida como antes se praticava; fala-se em colonização, mas o que o termo envolve não é mais do que o estabelecimento de feitorias..." e mais adiante "é este o verdadeiro sentido da colonização tropical, da qual o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução histórica dos trópicos americanos." Agora comparemos com os fragmentos de O Povo Brasileiro: "Este caráter internacional do empreendimento faz do Brasil, ainda hoje, menos uma sociedade do que uma feitoria...." e bem adiante, no encerramento do livro, "O Brasil foi regido primeiro como uma feitoria escravista exoticamente tropical, habitada por índios nativos e negros importados.". Poderíamos ainda traçar paralelos entre as idéias de ambos com relação à visão do território: para o índio "o luxo de viver, enquanto para o português esta era sua arena de ganhos", o local do objetivo único de "explorar e especular". Como se vê, apesar de curiosamente Caio Prado Jr., seu companheiro no "Partidão", ser dos autores da geração de 30 o único a não ser citado nominalmente, se faz presente na obra pelas idéias, e mais, muito fortemente. Outro representante deste período da historiografia, Roberto Simonsen, seu antigo professor, é eventualmente utilizado e questionado (com relação ao número de escravos que entraram no Brasil, pequeno demais na visão de Darcy), mas não constitui parte importante na obra.

O segundo grupo mencionado, constituído por Florestan Fernandes, Otávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso, são empregados na construção das idéias de Darcy sobre a escravidão no Brasil e as relações sociais resultantes deste processo. Utiliza também obras de Ianni a respeito do processo migratório que trouxe para o Brasil no final do século passado e início do presente milhões de europeus, e as idéias de FHC sobre o empresariado nacional. Apesar disto, a maior filiação de Darcy é às idéias de Florestam sobre a estrutura social do Brasil e à aplicação da teoria marxista no estudo de sua história. Assim, como já dissemos, as idéias sobre a formação de classes e sobre a revolução deveriam ser adaptadas à realidade nacional graças a sua peculiaridade. Contudo, isto não elimina a constatação de que houve e há no Brasil conflitos de classe - para Darcy, a maioria de nossos conflitos são históricos -, e que uma revolução está em curso, porém pacífica e democrática. Por fim, não poderíamos nos esquecer de comentar que Darcy resgata os estudos de Oracy Nogueira, primeiro sociólogo a negar o "mito da democracia racial brasileira" e se junta a Florestan na tarefa de desmonte da mesma. Na construção de suas idéias sobre a escravidão no Brasil e o relacionamento entre senhores e escravos, Darcy nos leva ainda às obras de Jacob Gorender e Clovis Moura, afirmando a tensão do sistema, um exemplo típico das lutas de classe aqui ocorridas.

O próximo grupo a ser visto na obra de Darcy, pelo aspecto diversificado, será abordado cronologicamente, tanto quanto possível. Assim, somente como ligeiro comentário, vale citar que o autor conhecia e empregava vez por outra a obra de Von Martius para descrição da sociedade na época do Império. Entretanto, o mais intrigante é o fato da antropologia empregada na construção de sua teoria acerca da formação étnica do povo brasileiro aproximá-lo do cientificismo do naturalista e também de Euclides da Cunha. É óbvio que a natureza das ciências sociais está muito ligada à este momento histórico, o do pensamento cientificista, até por uma questão de nascença que esta marca ainda se faz presente. Com isso, não estamos afirmando que Darcy seja "cientificista", até mesmo por que suas idéias não abordam exageradamente os aspectos biológicos da formação dos brasileiros. Ao contrário, apesar de defini-los como "etnia", ele o faz baseando-se muito mais nos aspectos culturais dos povos. Vale lembrar que o conceito de "etnia" abarca condições biológicas e culturais. Euclides da Cunha é resgatado ainda ao construir sua descrição do "Brasil Sertanejo". Afirma o jornalista: "nas condições climáticas dos sertões cobertos de pastos pobres e com extensas áreas sujeitas a secas periódicas, conformaram não só a vida mas a própria figura do homem e do gado. Darcy emprega todo o tempo esta idéia, a de que o homem se adaptou ao meio e dele ganhou a sua configuração atual. Ainda neste capítulo, diz que as características do sertão e de seu povo favorece o messianismo, movimento que encontrou seu maior expoente nos acontecimentos em torno de Antonio Conselheiro e foram narrados no livro Os Sertões por Euclides da Cunha.

Capistrano de Abreu também fornece dados valiosos para o trabalho de Darcy, e constantemente o antropólogo cita seu trabalho e discute suas idéias. Chega a abrir o já referido capítulo "O Brasil Sertanejo" com um trecho de Capistrano. Autor um pouco mais recente, Monteiro Lobato vê o Brasil pela figura do Jeca, e isto por si só, graças às características que o autor lhe atribui, seria polêmico: preguiçoso, mole, infestado de vermes, apático, ignorante, etc. A respeito, ao descrever o "Brasil Caipira", Darcy diz: "As páginas de Monteiro Lobato que revelam às camadas cultas do país a figura do Jeca Tatu, apesar de sua riqueza de observações, divulgam uma imagem verdadeira do caipira dentro de uma interpretação falsa." Com isso, ele concorda com as observações de Lobato, realmente um grande observador que penetra na alma do caipira mas esquece de estudar e divulgar as causas pelas quais o interiorano assim se faz. Vítima do latifúndio, do esquecimento, do isolamento e da marginalização, o caipira se configura desta forma.

Vale lembrar que, para Darcy, a "proletarização" deste homem e também dos negros alforriados se atrasa por conta de uma medida defendida por outro autor: Sylvio Romero, que defendera a introdução de grandes levas de brancos europeus, sobretudo alemães e italianos, como meio para desenvolver o povo e o país. "Tudo bem, porque essa gente quase toda acabou se abrasileirando belamente. Restam, porém, aqui e ali, alguns alunados apátridas que ainda não saíram do fundo do navio em que seus avós vieram." Como se vê, a visão de Darcy sobre a imigração européia é bastante particular, aceita e passa a gostar dos que se "abrasileiram", aos outros que são como gado (como disse certa vez) resta o desprezo. Inverte-se assim a lógica de Romero: são os brasileiros que atribuem aos europeus uma certa "beleza" e não estes que nos civilizam, que nos embranquecem. Ainda no estudo e na definição do "Brasil Caipira" Darcy se apoia no trabalho de Antonio Candido de Melo e Souza, "Os parceiros do Rio Bonito".

Menos explícita é a divergência com relação às idéias de Paulo Prado, e este não é citado na obra e nem mesmo podemos afirmar que Darcy conhecia seu trabalho. Mas é lícito expor uma diferença básica na obra dos dois autores. Paulo Prado defendia uma solução extremada para o desenvolvimento do país: guerra ou revolução, apenas por estes processos nosso país avançaria. Darcy também defende a revolução, contudo pacífica e democrática, desencadeada não pelas armas mas pela consciência dos brasileiros.
 


O Povo Brasileiro
(Considerações acerca de O Povo Brasileiro: Formação e o Sentido do Brasil)

Rodrigo da Silva
"Portanto, não se iluda comigo, leitor. Além de antropólogo sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um profundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que inspira a influir sobre as pessoas, que aspira a ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo.". Esta é uma forma típica de Darcy para apresentar suas idéias, e neste caso em forma de livro. Se estilo "abre logo o jogo" não tenta ludibriar o leitor, mas influenciar sim. Demonstra logo qual é o objetivo de seu trabalho e qual será o tratamento dado aos temas. Darcy é parcial e passional, mas não irresponsável. Faz ciência sobriamente e a amalgama à ideologia. Assim, sabemos de antemão que sua "pele" de político e de ideólogo se fará presente em seus estudos, e não apenas um tratamento puramente antropológico ou histórico.

O Povo Brasileiro, como ele próprio definiu, é um livro que levou trinta anos e mais quarenta dias de isolamento para ser escrito. Conhecendo a vida e obra de Darcy, sabe-se isto não é pouco. Escrito sob a forte presença da morte, ou ainda fugindo dela, o livro possui um aspecto curioso e de grande utilidade para seu entendimento: é um trabalho que, ao contrário dos de outros autores, é produzido na maturidade, inclusive a intelectual, e representa o "gran finale" de uma longa e profícua vida intelectual e política, Desta forma, não mereceu reparos do próprio autor: não houve tempo para se negar, corrigir ou se arrepender. Está cristalizado como se fosse uma fotografia do pensamento de Darcy. Como projeto, o livro se arrastou desde a década de cinqüenta, escrito e reescrito, ou simplesmente construído paulatinamente e assimilando às mudanças pelas quais o país e o mundo passou. Ganhou a honra posteriormente de ser o volume final da série de trabalhos aos quais Darcy chamou de Estudos da Antropologia da Civilização. Podemos dizer, com um pouco de atrevimento, que O Povo Brasileiro é um "livro síntese" onde o autor resgata e aplica as idéias distribuídas ao longo de sua obra. É clara a filiação a O Processo Civilizatório, As Américas e a Civilização, Os Brasileiros, O Dilema da América Latina e Os Índios e a Civilização. Contudo, O Povo Brasileiro foi idealizado como um livro completo, que não necessitasse o conhecimento dos trabalhos anteriores e nem exigisse uma final e posterior explicação. Isso o faz ser uma obra não limitada somente ao público científico. Com isto, Darcy traz conceitos antropológicos de forma mais enxuta e palatável ao público em geral, e este fator é inversamente proporcional aos outros livros dos Estudos da Antropologia da Civilização, obras estritamente acadêmicas e de leitura complexa.

Em O Povo Brasileiro, Darcy percorre a história do Brasil comparando-a com outros países americanos. Traça constantemente paralelos entre ambos e também entre o passado e o presente, sem se limitar apenas a descrever o processo formador: questiona, explica e contextualiza. Inicia a obra descrevendo o cenário no qual se desenvolveria toda a história, ao qual chama de "matrizes étnicas". Neste primeiro momento, os personagens são apenas o português e o índio. 


O povo brasileiro (1995)


As Américas e a 
Civilização (1970)


Os índios e a
Civilização (1970)

Ainda sobre estes, avança discorrendo sobre o "enfrentamento de mundos", visões, interesses e culturas diferentes que põem as duas partes em posições antagônicas, sem se esquecer de falar sobre a natureza salvacionista do Império Português, combustível da expansão e do conflito. Termina esta primeira parte do livro retomando suas idéias de O Processo Civilizatório a respeito das diferenças entre "povos testemunho, germinais e transplantados", bem como tratando da diferença entre o que chama de "barroco"(povos ibéricos) e "gótico"(anglos). Fala ainda do processo de atualização histórica sofrido pelos indígenas graças ao contato forçado com uma civilização tecnologicamente mais avançada do que a deles.

A segunda parte do livro recebe o nome de "Gestação Étnica" e trata da formação dos neobrasileiros pela mistura de índios, africanos e portugueses. Adotando a política da reprodução com nativos e negros que visava o povoamento do território, são os portugueses os grandes patrocinadores deste processo que resulta na criação de uma nova etnia, negação de todas as matrizes. De forma bastante contundente, Darcy deixa claro que o processo não é um encontro romântico, como defenderam vários outros autores. Pelo contrário, é um choque de culturas. Para dar a exata noção da dureza dos acontecimentos, emprega o termo "forja": assim como o ferro, o brasileiro é criado por um processo duro e violento. Na terceira parte do trabalho, "Processo Sociocultural", o autor segue tratando sobre os conflitos nacionais, declarados ou não, armados ou não, passados ou presentes - conflitos que colocaram os brasileiros em posições antagônicas graças às estruturas sociais do território ou ainda devido ao flagelo ao qual é submetido pela ganância de uma elite desvinculada dos interesses do povo. Descreve ainda o processo de formação das cidades, da urbanização e do racismo particular do Brasil que confunde e mistura classe e cor, fazendo-se não apenas preconceito racial, mas também social.

Em "Os Brasis na História" (trecho que merecerá um estudo particular neste trabalho), Darcy dá uma importante contribuição à tarefa de entendimento do país. Ao invés de descrevê-lo como uma massa única, procura trabalhar as peculiaridades de cada região e seu processo de formação. Assim, chama de "Brasis" o "crioulo, o caboclo, o sertanejo, o caipira e os sulinos". Contudo, não esquece de afirmar que, apesar das particularidades, todos são parte de algo maior, unido por uma cultura única, pela criação de uma nova etnia, enfim, de uma nova "humanidade" que dá liga a estas partes menores. A última parte do livro tem o estranho aspecto de profecia, chamando a isto de "dores do parto". Processo que nos conduzirá a um futuro digno e condizente com nossa originalidade e beleza, desde que tomemos o futuro em nossas mão e o conduzamos de acordo com os interesses de seu povo e não da elite nada brasileira, deitando por terra a desvinculação histórica entre Estado e povo, elite e nação.

Em todo a obra, como se pode perceber, impera o tom de denúncia, das mazelas nacionais, do atraso, do descaso, da humilhação. Apesar disto, o livro não se deixa levar por um clima de tristeza e pessimismo, pois ao mesmo tempo em que mostra a tristeza e os maus tratos, o autor retrata a beleza deste povo e sua potencialidade. Esperançoso, nunca se deixa abater, tendo completa certeza de que uma revolução está em curso em cada um de seus "Brasis" de forma pacífica e democrática.

A última questão que analisaremos aqui é o nacionalismo de Darcy, mas sem nos aprofundarmos, pois esta questão já mereceu nota no capítulo que trata das características do autor. A marca que se imprimiu no autor ainda na juventude será definitiva em sua obra, como ele mesmo definiu: "tudo o que faço é por um profundo sentimento de "patriotismo". Em O Povo Brasileiro, Darcy exala este amor à pátria por todas os poros, cada linha, cada idéia se alinha à esta condição.
 


Os brasis na história

Mauro Gonçalves
No capítulo "Os Brasis na História", Darcy Ribeiro compôs um quadro da História brasileira em 5 cenários regionais. Neles nos é dito que a identidade dos brasileiros se explica pela precocidade de sua constituição e pela flexibilidade, que permitiram uma adaptação milenar, ajustamentos locais e a sobrevivência dos ciclos produtivos. Em relação às variantes da cultura brasileira, o autor as divide em: cultura crioula, que se desenvolveu nas faixas do litoral nordestino; caipiras, áreas ocupadas pelos mamelucos paulistas; sertaneja, área que se desdobra desde o Nordeste árido até os cerrados do Centro-Oeste; cabocla, que corresponde à população amazônica e, por fim, gaúchas, nas áreas sulinas brasileiras. No geral, as faces do Brasil são produtos da expansão européia e do empreendimento agrário mercantil.
 

I. O Brasil Crioulo

Aqui, o engenho teria sido o primeiro modo de ser dos brasileiros. Surge o contato do português com o indígena e ao mesmo tempo a tentativa infeliz de escravizá-lo. A solução para o problema (o da mão-de-obra para o implemento da cana) aparece como o recrutamento do escravo negro. Com este terceiro elemento completa-se a tríade da formação social brasileira, completamente voltada para o complexo açucareiro. A polaridade básica dessa sociedade seria o senhor em seu papel de agente da exploração que, pouco a pouco, se abrasileira, e o negro, em sua sobrevivência ao duro trabalho. Sua condição de escravo tornava-o a força oposta ao sistema implantado, surgindo assim atitudes repressivas do senhor.

Do português (euro-africano) diz-se que este seria o mais capacitado a implantar um sistema econômico, pois possuía a experiência em conduzir o trabalho escravo e produzir o açúcar. O empreendimento açucareiro era estimulado pela Coroa, que atribuía privilégios e títulos ao senhor de engenho. Este, por sua vez, possuía um poder hegemônico na vida colonial que se estendia à sociedade inteira. À margem do engenho estavam os brancos e mestiços livres, uma população que se dedicava à lavoura comercial ou de subsistência; estes distribuíam-se em aldeias pelas praias e também se conduziam-se para a manutenção do sistema. Quanto aos escravos, estes lutaram pela liberdade contra os senhores e contra a sociedade. Sua resistência (em um dos seus modos) era percebida pela presença de quilombos. Acontece que, nestes quilombos, os moldes culturais eram "neobrasileiros": seu modo de ser era o mesmo da área crioula.

Com o passar do tempo, a Revolução Industrial na Inglaterra desencadeou uma era de revoluções que buscaram uma reordenação social e um rompimento com o domínio colonial, debates e reivindicações da ordem vigente surgiram , colocando em questão a propriedade fundiária e a escravidão. Nessas condições, o velho senhor tornou-se um gerenciador de suas empresas, e seus filhos tinham agora a fazenda como uma cota de ações. Por fim, Darcy Ribeiro nos diz que por todos esses caminhos ia-se uma grande população analfabeta e miserável.
 

Sobre "O Brasil Crioulo", ouça "Cantiga de Engenho". Arquivo em mp3.
 

II. Brasil Caboclo

O Brasil caboclo refere-se à Amazônia, região que se oferece ao Brasil como grande área de expansão de forma desordenada. Afinal, seus desbravadores têm ignorado a sabedoria milenar dos indígenas, dando lugar a pastagens e plantas sem consciência ecológica. Diz-se ser uma formação fundada pela emigração para a exploração dos seringais, que originalmente era a região ocupada por tribos indígenas que conheciam as técnicas da lavoura, pesca, caça e até artesanato.

Historicamente, a penetração e a exploração se fizeram com grandes empreendimentos; a exploração seria feita por lusitanos, mestiços e negros. O primeiro contato com a região deveu-se ao desejo lusitano de expulsar os invasores que ameaçavam seus territórios. Mais tarde vem o aprisionamento do índio para ser utilizado como escravo. Vendo-se em tal situação, o indígena penetrava cada vez mais na mata, impossibilitando assim seu aprisionamento. Uma solução mais eficaz, nesta tentativa de "domesticar" o índio, seria a implantação de núcleos missionários responsáveis pelo aculturamento aborígene, tendo como principal influência a religiosidade, o "medo" do Deus católico. Através desse processo é que surge uma população: da mestiçagem do branco com o índio surgiriam os caboclos da Amazônia com costumes indígenas de fala, moradia, etc. Com o passar do tempo, acontece a expulsão dos jesuítas, e a Coroa empenha-se em consolidar a ocupação amazônica. Atividades agrícolas de gêneros tropicais se iniciam e as condições da exploração provocam o extermínio indígena. A partir daí multiplicou-se uma população desculturada e mestiçada, sem identidade específica e dissolvida em caboclos.

Uma grande novidade, apesar das dificuldades de sobrevivência de alguns grupos indígenas, é que algumas tribos sobrevivem e crescem. Explica-se isto pela adaptação biótica às doenças do branco e pela proteção oficial do Estado. Atualmente, a industrialização vem promovendo oportunidades de trabalho para uma parte da população e a extração mineral proporciona novos modos de sobrevivência à região. Para finalizar esta parte, Darcy, apesar da visão otimista em relação à região, alerta para os perigos da cobiça internacional, da poluição dos rios e dos desmatamentos irracionais.
 

III. Brasil Sertanejo

Originalmente, essa região desenvolveu uma economia associada à produção de uma subcultura própria caracterizada por uma vestimenta, culinária e visão de mundo bem típicas, além de uma religiosidade propensa ao messianismo. Primeiramente o pastoreio se fazia pelos próprios senhores de engenho, mas com o tempo a atividade tornou-se especificidade de criadores. O pastoreio não se fundava na escravidão: o gado era atendido pela família do vaqueiro e seus ajudantes. As relações eram menos desigualitárias nesse sistema, o que atraía muitos mestiços à atividade. Dá-se por isso, segundo Darcy Ribeiro, um fenômeno regional "brancóide". Dessas relações, a necessidade de recuperar a apartar o gado levou à cooperação entre as pessoas, acabando por transformar a convivência entre as mesmas. Da convivência apareceram festas, bailes, casamentos, maior atividade social. No movimento de expansão, o sertão era cortado e ocupado; os homens marchavam de pouco em pouco, avançando cada vez mais para o interior. Aos poucos, os pousos iam se transformando em vilas e cidades, crescendo assim os locais de habitação urbanos.

Das secas que assolam a região, Darcy afirma que estas são um problema nacional que exigem medidas de socorro. Mas, na realidade, a solução está longe de acontecer, uma vez que a ordem oligárquica desde a época colonial conduz tal situação segundo seus interesses, fazendo da seca um negócio. A Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) só se pôs em execução depois de demonstrar que não afetaria o regime de propriedade. Sobre as relações entre o sertanejo e o patronato, diz que o primeiro possui grande respeito e lealdade pessoal e política, aderindo às restrições feitas pelo dominador despótico que é o patrão. Obedecem por pavor de serem excluídos desse nicho. Fora disso, os homens humildes do sertão emigram para outras terras, ou caem no banditismo.
 

Sobre "O Brasil Sertanejo", ouça "Marcha de rua". Arquivo em mp3.

IV. Brasil Caipira

O texto inicia falando da pobreza dos núcleos paulistas. Até mesmo os mais importantes eram arraiais de casebres de taipa, cobertos de palha. A pobreza atingia até os homens bons que integravam a Câmara, que viviam em sítios pobres, servidos pelos indígenas. Devido a essa situação, os paulistas se faziam aventureiros, disponíveis para qualquer tarefa e mais dispostos ao saque do que à produção. Os paulistas eram motivados pela ambição de enriquecer e pela vontade de participar da camada dominante, influenciando e mandando nos demais. Assim, os paulistas, a princípio, se fizeram "cativadores" de índios para utilizá-los nos trabalhos ou vendê-los para os engenhos do Nordeste. Lançaram-se às missões para pegar este índio já domesticado, ou ainda, pegar objetos de valor e gado. Com isso acabaram em se especializar como homens de guerra. O regime de trabalho era voltado para o sustento. As mulheres deveriam limpar, lavar, preparar alimentos, cuidar das crianças entre outros afazeres, enquanto os homens se voltavam aos trabalhos esporádicos, mas estes exigiam grandes energias: roçado, caça, guerra. Quando os homens nada faziam, estouravam grandes conflitos entre as famílias. Estes hábitos deram ao paulista a reputação de gente birrenta e preguiçosa.

A grande esperança do paulista era deparar com o ouro, a prata e as pedras preciosas. Isso acabou acontecendo e transfigurou toda a sociedade colonial: com a descoberta das minas, multidões vindas de todo o país e até de Portugal chegaram até elas. Ricos, remediados e pobres, todos tentavam a sorte nas minas. Inicialmente, o ouro se encontrava à flor da terra para simplesmente ser apanhado. Logo apareceram graves conflitos contra invasores e contra a Coroa. A sociedade mineira, centro da mineração, adquiriu feições peculiares com influências paulistas, européias, escravas e de outros brasileiros de outras regiões. A rede urbana ampliou-se, cresciam edifícios públicos, igrejas e a arquitetura barroca. Desenvolveu-se uma classe de ricos comerciantes, burocratas, contadores e fiscais. Desenvolveu-se ainda a literatura, a música e a política libertária. Abaixo das castas superiores estavam o mulato e o negro, que faziam serviços domésticos e trabalhos braçais. Na base da sociedade estavam os negros escravos trabalhadores das minas. Da elite letrada surgiam os projetos libertários da República, o que revelava um sentimento nativista, tendo porém este fracassado.

Com o esgotamento dos aluviões, a região entra em decadência. Mineradores se fazem fazendeiros de lavouras de subsistência e de gado, ocorrendo uma desagregação da economia e da sociedade. Reconstituem-se os núcleos de vida autárquica: conservadora, desconfiada, reservada e amarga. A população se dispersa formando os bairros rurais, trabalhando em mutirão para a execução de determinadas tarefas. Ao fim dos trabalhos, eram oferecidas festas com músicas e bebidas, ensejando uma convivência mais amena. Essa situação duraria pouco, pois logo surgiria uma nova forma de produção agro-exportadora: o plantio do café, que revitalizaria a região. As cidades voltam a crescer, o domínio da oligarquia se remonopoliza e ocorre um processo de reordenação social. O caipira apega-se à condição de parceiro financiado pelo proprietário, e o sistema das fazendas cria um novo mundo inadequado à vida não-mercantil do caipira. Este vê desaparecer as formas de compadrio e de solidariedade, com tais formas substituídas por relações comerciais.

Os latifúndios armados tornam impraticáveis a caça e a pesca. O golpe derradeiro contra o caipira foi a ampliação do mercado da carne. Agora se viam obrigados à permanecer na parceria (precária) ou seguirem novas opções, como tornarem-se posseiros, concentrarem-se em terrenos baldios ou ainda incorporarem-se à massa marginal urbana. Para a força de trabalho na cafeicultura já existiam os negros. Mas, apesar disso, havia muita carência de mão-de-obra. Com a falta desta (primeiro devido à proibição do tráfico e depois pela Abolição) introduziu-se aqui o trabalhador europeu. Com isso, a situação do trabalhador nacional acabou piorando, pois havia uma preferência pela mão-de-obra imigrante, mais qualificada. Nesses tempos, o café se desenvolve e cresce muito até chegar um período difícil que se agrava com a inflação e a crise financeira. A produção diminui e torna-se pequena, se comparada à produção de sua época áurea. O café representou um papel modernizador e integrador para o país, porém movia-se sempre para a frente, deixando para trás áreas devastadas e erodidas. A massa de estrangeiros que aqui chegavam iam se abrasileirando e deixando suas influência para este Brasil caipira.
 

Sobre "O Brasil Caipira", ouça "O cio da Terra". Arquivo em mp3.

V. Brasil Sulino

A expansão dos paulistas atingiu a região sulina, dominada por espanhóis. Tal expansão acabou por incorporar a região ao resto do Brasil. Os três componentes sociais do Brasil sulino são: o nativo de origem açoriana, o gaúcho, mestiço do espanhol ou do português com o indígena guarani; e o gringo, descendente do imigrante. O Brasil sulino surge à civilização pelas mãos jesuítas. Estes religiosos tratavam o indígena de maneira a assegurar sua existência destribalizando-os e aculturando-os. Mas eis que surgem os membros paulistas e liquidam com as missões jesuíticas.

Um fator fundamental da formação do Brasil sulino foi o desejo de Portugal em levar sua hegemonia até o rio do Prata, uma vez que o local pertencia aos espanhóis. Viu-se a Coroa em dificuldades por falta de viabilidade econômica e porque os núcleos sulinos estavam mais atraídos ao lado espanhol. A ameaça foi superada com o aparecimento do mercado da região mineira para o gado. Este deu condições de vincular a região com o Brasil. Porém, com o esgotamento das minas houve um novo rompimento. Enquanto isso, os cearenses introduzem o fabrico do charque aos rebanhos sulinos, rearticulando o Brasil sulino ao país.

O ingresso de imigrantes pós-independência teve um papel de abrasileiramento para a região. Afinal, estes ocuparam lugares desabitados entre o Brasil e as fronteiras sulinas e serviam como uma ponte para o intercâmbio entre as partes. Nasce nesse processo o caudilho (o patrão do Sul), que recebe sesmarias. O pastoreio se torna cada vez mais uma atividade racional, caracterizando-se pelo trabalho intenso e regulado por horários, dos quais o gaúcho não se adapta com facilidade. Surgem também produções agrícolas não tropicais, como a soja, e introduz-se o arrendamento pagável. Moderniza-se a paisagem rural com máquinas, irrigação e fertilizantes. Há uma diversificação da sociedade, ampliando-se um setor intermediário reforçado com profissões liberais, menos ligadas ao ruralismo. A mecanização acaba por manter marginalizada parte da população rural, agravando ainda mais a situação. O matuto, assim como o gaúcho, cai na pobreza e acaba por se misturar a este, uniformizando-se.

O terceiro grupo, o dos gringos, de origem germânica e italiana principalmente, diferencia-se do restante da população por seu bilingüismo, seus hábitos europeus, seu nível educacional mais elevado e um modo de vida confinado em pequenas propriedades policultoras. Hoje as áreas de colonização européia são aglutinadas em vilas com produção de vinhos, por exemplo. Sua expansão esbarrou no latifúndio, esgotando assim sua fronteira.
 

Sobre "O Brasil Sulino", ouça "Milonga das Sete Cidades". Arquivo em mp3.

VI. O Destino Nacional

Aqui, Darcy Ribeiro aborda o Brasil de um modo geral. Inicia dizendo que o Brasil nasceu como uma feitoria escravista, e que as aspirações do povo nunca foram levadas em conta. Só se tinha zelo pela propriedade da feitoria e pelo aumento da força de trabalho. Nunca houve aqui um conceito de povo com direitos, existindo sempre a prosperidade mercantil ao lado de uma penúria generalizada da população local. Índios e negros foram despojados de sua identidade e se viram (ou se vêem) condenados a inventar uma nova.

Darcy questiona o que alguns estrangeiros, como os árabes, consideram. Segundo Darcy, os árabes acreditam que os brasileiros são pobres por culpa própria, por sua falta de ambição, e que o fator racial é que os afunda na miséria. O pensador afirma que os problemas aqui não seriam estes, mas sim que tudo isso é culpa do que se faz no país. Termina dizendo que o grande problema do Brasil é a ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população explorada e humilhada pela minoria dominante, sempre pronta a acabar com qualquer ameaça de reforma.

Finalmente, Darcy levanta a questão: que são os brasileiros? E responde: são povos novos, em "fazimento", mestiços na carne e no espírito com a tarefa de reiventar o ser humano e criar um novo gênero de gentes diferentes. O brasileiro é um povo na busca de um destino, um povo lavado em sangue índio e negro. Enfim, somos uma nova Roma tardia e tropical que tem tudo para dar certo, segundo suas palavras.
 


Os Brasileiros: Teoria do Brasil
(idéias de Darcy acerca da gestação étnica do povo brasileiro)

Leopoldo Doray de Magalhães

 
Gestação étnica consiste do estudo das várias etnias que formam um povo, e em nosso caso é o estudo da formação do povo brasileiro. Antes de se enveredar na explanação da gestação étnica, é importante expor o conceito novo de povos, que Darcy criou nos seus Estudos de antropologia da civilização. O pensador criou um novo modo de ver a nossa civilização, quando em 1968 publicou o livro O processo civilizatório. Neste volume, ele propõe uma nova análise para a história da humanidade de 10.000 anos atrás até hoje, tentando encontrar uma explicação para a situação dos países da América Latina. Para tanto, propõe uma divisão dos povos em quatro categorias: Povos-Testemunho, Povos-Novos, Povos-Transplantados, e os Povos-Emergentes.
 
Darcy nos explica estes tipos: "Os primeiros são constituídos pelos representantes modernos de velhas civilizações autônomas sobre as quais se abateu a expansão européia. O segundo bloco, designado como os Povos Novos, é representado pelos povos americanos plasmados nos últimos séculos como um subproduto da expansão européia pela fusão e aculturação de matrizes indígenas, negras e européias. O terceiro - Povos transplantados - é integrado pelas nações constituídas pela implantação de populações européias no ultramar, com a preservação do perfil étnico, da língua e da cultura originais. Povos - Emergentes são as nações novas da África e da Ásia cujas populações ascendem de um nível tribal ou da condição de meras feitorias coloniais para a de etnias nacionais."

Teoria do Brasil (1972)
O Brasil faz parte da categoria de "Povo-Novo". Segundo Darcy, o nosso país é: "... o produto da expansão colonial européia que juntou, por atos de vontade, as matrizes que os formaram, embora só pretendessem criar empresas produtoras de artigos exportáveis para seus mercados e geradoras de lucro empresariais." e ainda: "São povos em disponibilidade, uma vez que, tendo sido desatrelados de suas matrizes, estão abertos ao novo, como gente que só tem futuro com o futuro do homem.

Uma vez explicado o conceito de Povo-Novo, vejamos como Darcy encara a gestação étnica no Brasil e também a questão da identidade nacional, racismo, democracia racial, além do papel das três raças formadoras na nossa sociedade. Em O Povo Brasileiro, Darcy explica a importância do cunhadismo para a formação da proto-célula do que viria a ser o brasileiro: "A instituição social que possibilitou a formação do povo brasileiro foi o cunhadismo, velho uso indígena de incorporar estranhos a sua comunidade. Consistia em lhe dar índia como esposa. Assim que ele assumisse, estabelecia, automaticamente, mil laços que o aparentavam com todos os membros do grupo.", e ainda afirma: "O primeiro brasileiro consciente de si foi, talvez, o mameluco, esse brasilíndio mestiço na carne e no espírito, que não podendo identificar-se com os que foram seus ancestrais americanos - que ele desprezava -, nem com os europeu - que o desprezavam -, e sendo objeto de mofa dos reinóis e dos lusitanos, via-se condenado a pretensão de ser o que não era nem sentia: o brasileiro.". Assim, se demonstra a importância do índio que, não totalmente aculturado pelos lusitanos, foi o formador daquela que viria a ser a proto-célula dos primeiros brasileiros.

Darcy também fala dos negros que, trazidos durante o período escravista, viriam a acrescentar um elemento na protocélula do nosso povo, e que, constituídos de várias tribos diferentes, não se homogeneizaram, mas sim adotaram os costumes dos brasileiros que aqui estavam, se aculturando como os índios e marcando para sempre nossa cultura: "Essa parca herança africana – meio cultural e meio racial -, associada às crenças indígenas, emprestaria entretanto à cultura brasileira, no plano ideológico, uma singular fisionomia cultural. Nessa esfera é que se destaca, por exemplo, um catolicismo popular muito mais discrepante que qualquer das heresias cristãs tão perseguidas em Portugal." Darcy encara os brasileiros como: "... uns latinos tardios de além-mar, amorenados na fusão com brancos e com pretos, deculturados das tradições de suas matrizes ancestrais, mas carregando sobrevivências delas que ajudam a nos contrastar tanto com os lusitanos.", mas se indaga: em que momento nos percebemos como brasileiros? quando a idéia de brasileiro realmente surgiu entre nos?, Ele mesmo nos responde: "Isso se dá quando milhões de pessoas passam a se ver não como oriundas dos índios de certa tribo, nem africanos tribais ou genéricos, porque daquilo haviam saído, e muito menos como portugueses metropolitanos ou crioulos, e a se sentir soltas e desafiadas a construir-se, a partir das rejeições que sofriam, com nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros".

O resultado de tanta mestiçagem, segundo Darcy, foi o fato de que o Brasil se tornou o país mais populoso da América Latina, com uma verdadeira fonte inesgotável de mão-de-obra que é continuamente ignorada e marginalizada pela elite branca que lidera o pais, cujos interesses estão voltados para o exterior, persistindo em condenar o povo brasileiro à situação de um proletariado externo, explorado pelo capital estrangeiro. A respeito disso, Darcy afirma que: "A distância mais espantosa do Brasil é a que separa e opõe os pobres dos ricos. A ela de soma, porém, a discriminação que pesa sobre os negros, mulatos e índios, sobretudo os primeiros.", ou seja: acima de tudo se encontra a desigualdade e o preconceito social. Sem parar por aí, segundo ele, as elites brancas têm uma tendência assimilacionista, ou seja, possuem como prioridade o branqueamento do brasileiro. Mas não é bem assim que acontece: "Ocorre, efetivamente, uma morenização dos brasileiros, mas ela se faz tanto pela branquização dos pretos, como pela negrização dos brancos. Desse modo devemos configurar no futuro uma população morena em cada família, por imperativo genético, terá por vezes, ocasionalmente, uma negrinha retinta ou um branquinho desbotado."

Darcy definitivamente não acredita em democracia racial. Para ele, no Brasil existe um "racismo assimilacionista" que faz com que o negro adquira os comportamentos brancos e transmita, assim, um aspecto de democracia, quando na verdade só faz com que o negro não perceba as violências sociais que sofre e das quais somente através da revolução social poderá se livrar. A respeito disso, afirma: "A forma peculiar do racismo brasileiro decorre de uma situação em que a mestiçagem não é punida mas louvada. (...) Essa situação não chega a configurar uma democracia racial, como quis Gilberto Freyre e muita gente mais, tamanha é a carga de opressão, preconceito e discriminação anti-negro que ela encerra. Não o é também, obviamente, porque a própria expectativa de que o negro desapareça pela mestiçagem é um racismo. Mas o certo é que contrasta muito, e contrasta para melhor, com as formas de preconceito propriamente racial que conduzem ao apartheid.". Ainda diz que o racismo assimilacionista praticado no Brasil é pior que o Apartheid: "(o apartheid) induz a profunda solidariedade interna do grupo discriminado, o que o capacita a lutar claramente por seus direitos sem admitir paternalismos. Nas conjunturas assimilacionistas, ao contrário, se dilui a negritude numa vasta escala de gradações, que quebra a solidariedade, reduz a combatividade, insinuando a idéia de que a ordem social é uma ordem natural, senão sagrada.", ou seja, o negro perde sua identidade sob a influência dessa força alienante.

Darcy não para aí em suas críticas à nossa "democracia racial", e continua: "As taxas de analfabetismo, de criminalidade e de mortalidade dos negros são, por isso, as mais elevadas, refletindo o fracasso da sociedade brasileira em cumprir, na prática, seu ideal professado de uma democracia que integrasse o negro na condição de cidadão indiferenciado dos demais.", e ainda: "Florestan Fernandes assinala que "enquanto não alcançar-mos esse objetivo, não teremos uma democracia racial e tampouco uma democracia. Por um paradoxo da história, o negro converteu-se em nossa era, na pedra de toque da nossa capacidade de forjar nos trópicos esse suporte da civilização moderna.". Para ele, nosso racismo tem uma característica curiosa: em vez de segregação, promove uma expectativa de miscigenação: "expectativa, na verdade, discriminatória, porquanto aspirante a que negros clareiem, em lugar de aceita-los tal qual são, mas impulsora da integração."

Darcy crítica as idéias sobre as relações inter-raciais do povo brasileiro de Gilberto Freyre: "Gilberto Freyre se enlanguece, descrevendo a atração que exercia a mulher morena sobre o português, inspirado nas lendas da moira encantada e ,até nas reminiscências de uma admiração lusitana à superioridade cultural e étnica dos seus antigos amos árabes. Essas observações podem até ser verdadeiras e são, seguradamente, atrativas como bizarrices. Ocorre, porém, que são totalmente desnecessárias para explicar um intercurso sexual que sempre se deu no mundo inteiro, onde quer que o europeu deparasse com gente de cor em ausência de mulheres brancas.". Vale lembrar que Gilberto sempre influenciou Darcy, mas nem por isso escapa de suas críticas ácidas.

Com esperança e em tom de quem adverte, Darcy diz: "Entretanto, o vigor da ideologia assimilacionista, assentada na cultura vulgar e também ensinada nas escolas, e das atitudes que começam a generalizar-se entre todos os brasileiros de orgulho por sua origem multirracial, e dos negros por sua própria ancestralidade, permitirão, provavelmente, enfrentar com êxito as tensões sociais decorrentes de uma ascensão do negro, que lhe augure uma participação igualitária na sociedade nacional. É preciso que assim seja, porque somente assim e há de superar um dos conflitos mais dramáticos que desgarra a solidariedade dos brasileiros.". Os imigrantes europeus, segundo Darcy, não se transformaram em unidades étnicas separadas - em sua maioria - mas sim em brasileiros, assim como os negros, os índios e os primeiros lusitanos: "Apesar da desproporção das contribuições - negra, em certas áreas; indígena, alemã ou japonesa, em outras -, nenhuma delas se autodefiniu como centro de lealdades étnicas extranacionais. O conjunto, plasmado com tantas contribuições, é essencialmente uno enquanto etnia nacional, não deixando lugar a que tensões eventuais se organizem em torno de unidades regionais, raciais ou culturais opostas. Uma mesma cultura a todos engloba e uma vigorosa auto-definição nacional, cada vez mais brasileira, a todos anima.", e ainda: "Essa massa de mulatos e caboclos, lusitanizados pela língua portuguesa que falavam, pela visão do mundo, foram plasmando a etnia brasileira e promovendo, simultaneamente, sua integração, na forma de um estado-nação. Estava já maduro quando recebe grandes contingentes de imigrantes europeus e japoneses, o que possibilitou ir assimilando todos eles na condição de brasileiros genéricos."

Para Darcy, o brasileiro foi vítima de várias "transfigurações étnicas", que é, em suas palavras: "... o processo através do qual os povos, enquanto entidades nacionais, nascem, se transformam e morrem.", mas mesmo assim sempre conservando as características que de início foram mantidas "larvalmente nas protocélulas étnicas luso-tupis" que nos identificam como povo novo. Aqui, vários povos sofreram transfigurações: os negros, os índios, os lusitanos e até os imigrantes europeus e japoneses, para assim formar o que somos hoje e o que seremos: um povo novo, voltado para o futuro, ainda em formação, "sem passado" mas que com certeza terá um grande futuro.

Darcy lança uma dura crítica aos que acusam os brasileiros de preguiça e indolência herdadas dos índios: "Tudo isto é duvidoso demais frente ao fato do que aqui se fez. E se fez muito, como a construção de toda uma civilização urbana nos séculos de vida colonial, incomparavelmente mais pujante e mais brilhante do que aquilo que se verificou na América do Norte, por exemplo. A questão que se põe é por que eles, tão pobres e atrasados, rezando em suas igrejas de tábua, sem destaque em qualquer área de criatividade cultural, ascenderam plenamente à civilização industrial, enquanto nós mergulhávamos no atraso."

Enfim, fala que a industrialização e as comunicação de massa estão unindo os brasileiros, tanto que "aproximam os gaúchos do sul, dos caboclos amazônicos", e afirma, cheio de esperança e orgulho, passional como lhe é característico: "Na verdade das coisas, o que somos é a nova Roma. Uma Roma tardia e Tropical. O Brasil é já a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica, de progresso auto-sustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da terra."
 
 

O Brasil como problema
(considerações acerca da obra de Darcy Ribeiro)

Rodrigo da Silva
Estudar o conjunto da obra de Darcy Ribeiro é uma tarefa complexa tanto quanto o próprio, pois implica o conhecimento de suas várias "peles" e "bandeiras", como diria Antonio Candido. A primeira constatação é de que em sua vida não há uma produção, mas produções, cada uma destinada a uma das áreas em que atuou. Mas este fator aparentemente fragmentário se dissipa no todo. Uma das grandes marcas de Darcy é a coerência; suas lutas, como ele mesmo definiria, "provinham de um profundo sentimento de patriotismo", assim sua produção cientifica e mesmo a ficcional atendem e se articulam em torno do engajamento. É isto o que dá liga em sua obra, além de outros fatores, como o estilo, a irreverência, as idéias mais amplas, etc. Para fazer um estudo minimamente mais profundo, opto por uma divisão que atenderá ao critério da temática. Poderia escolher a temporalidade, mas acredito que a primeira seja mais útil, pois abarcará mais as idéias do que o estilo – sendo este o que mais se alterou ao longo da vida, ficando efetivamente cada vez mais agressivo e irreverente.

O primeiro grande grupo da produção de Darcy é composto pelos seus trabalhos produzidos durante sua convivência com os indígenas: estudos de mitologia Kadiwéu, escritos de etnologia, diários, atlas etnográficos e estudos sobre a transfiguração étnica. Neste período, a produção é extremamente científica, herança da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e influenciada pelos seus professores, sobretudo Herbert Baldus. Neles, a admiração de Darcy pelos grandes etnologos e antropólogos se faz presente, sem deixar de ter um profundo tom de denúncia. Essa obra inicial guarda ainda a peculiaridade de não atingir somente um grupo indígena, mas vários - oportunidade que lhe foi dada pelo trabalho com Rondon no serviço de Proteção ao Índio. Assim, esta produção, ao contrário da dos outros antropólogos, foi escrita no campo de estudo, local onde passava a maior parte do tempo. Este relacionamento íntimo com Rondon também lhe legará um certo tom "positivista" que mais tarde definirá como "uma paixão de juventude". A produção indígena se concentra sobretudo na década de cinqüenta e início da década seguinte. Suas principais obras são Religião e Mitologia Kadiweu, de 1950; Notícias dos Ofaié-Xavante, de 1951; Os Índios Urubu, de 1955; Arte plumária dos índios Kaapor, (em parceria com Berta G. Ribeiro, especialista em cultura material indígena) e Culturas e línguas indígenas do Brasil, ambos de 1957, Suma etnológica brasileira, de 1985 e Diários Índios, escrito na década de cinqüenta mas publicado somente em 1997.
 

Deixamos para citar em separado a obra Uirá sai à procura de Deus, devido à importância e à influência que esta exerceu na antropologia brasileira. Narrando a história verídica de um índio que, diante da tragédia causada pelo contato com o branco, sai à procura de Deus e das respostas para o sofrimento , denuncia a degradação das sociedades indígenas pelo processo conhecido como "aculturação" - termo que Darcy rejeita, propondo "transfiguração étnica". Esta obra é ainda hoje essencial nos estudos das comunidades indígenas brasileiras e seu contato com o mundo do branco. Esta variedade tão grande de grupos indígenas estudados por Darcy provém da experiência trabalhando no Serviço de Proteção ao Índio, ocupação que lhe autorizava a estudar quantos e quaisquer grupos indígenas que quisesse, ao contrário de seus companheiros, que geralmente se concentravam em apenas um grupo. 

O segundo grande grupo de obras de Darcy se segue a sua trajetória como antropólogo de campo, tendo início em sua parceria com Anísio Teixeira e se estendendo praticamente até sua morte. 


Uirá sai á procura de
Deus (1974)

Esta produção no campo da educação teve seu ápice na criação da Universidade de Brasília e posteriormente com a publicação do livro A Universidade Necessária, resultado de um seminário de reformas universitárias que conduziu durante o exílio no Uruguai. Na criação da UnB e depois em sua defesa produziu dezenas de trabalhos, definindo o que na sua visão deveria ser a Universidade do futuro. Estas idéias se espalharam pelos países em que passou, conduzindo seminários e reformas em universidades do Uruguai, Venezuela, Peru, Chile e Argélia. A base de suas idéias sempre foi a esperança em uma escola pública (parte do credo positivista) gratuita e de boa qualidade, que formasse a criatura humana e cidadã, bem como uma universidade moderna, dinâmica, sem barreiras nem feudos, "universalizante", criativa e que conduzisse o país a uma nova época, melhor, mais justa e com papel de protagonista entre as nações. Darcy nunca aceitou que as potencialidades de um povo fossem subaproveitadas. Desta forma, suas Universidades e posteriormente seus CIEPS eram obras que visavam aproveitar e dar condição para a utilização de toda a criatividade e inteligência do povo. Sua preocupação com a educação era tão grande que mesmo na construção do Sambódromo fez com que seu parceiro Niemeyer "metesse lá duzentas salas de aula, transformando-o na maior escola de educação infantil do mundo, transformando-o em um escolódromo, pura alegria". Mesmo no fim da vida continuava produzindo nesta área, escrevendo e pensando a Universidade Virtual. No tocante educação, Darcy nunca foi ortodoxo: imaginava mil formas de disseminar educação e cultura. Neste campo, produziu o Plano orientador da Universidade de Brasília, de 1962; La Universidad Latino americana y lo Desarollo Social (publicado no Uruguai) de 1965; A Universidade Necessária, de 1967; La Universidad Latinoamericana, (publicado no Uruguai), de 1968; Propuestas acerca de la renovación (publicado na Venezuela), de 1970; Université tes sciences huamines t’Alger (publicado na Argélia), de 1972; La Universidad nueva: un proyecto (publicado na Argentina) de 1973; La Universidad Peruana (publicado no Peru), de 1974; UnB: Invenção e Descaminho, de 1978, Nossa escola é uma calamidade, de 1984; e Universidade do 3O.Milênio: Plano Orientador da Universidade Estadual Norte Fluminense, de 1993.

Como político, Darcy também produziu dezenas de trabalhos e projetos na área de educação. Dentre eles, destacamos a "Lei de Diretrizes e Bases da Educação" que hoje é conhecida como "Lei Darcy Ribeiro".

Outro grande conjunto dentro de sua obra - o único imaginado e escrito de forma projetada - foi o que chamou de Estudos da Antropologia da Civilização. A motivação nasceu em seu primeiro exílio no Uruguai, onde redigiu a primeira versão de O Povo Brasileiro, original que veio a abandonar. Em suas próprias palavras, tais estudos nasceram do desejo de entender "porque ainda não demos certo". Podemos observar nitidamente a influência que o Golpe militar de 1964 operou em sua produção: sentia-se o autor como um observador "do lado de fora", capaz, portanto de ver e perceber o que aos outros não se fazia notar. Nesta tarefa, utilizou os estudos sobre evolução de Leslie White, Vernon Gordon Childe e R. Redfield. Neo-evolucionista, propôs uma nova teoria acerca da formação dos povos e das culturas, inserida dentro dos Estudos da Antropologia da Civilização.

Um grupo menor de sua produção, mas não menos importante, são suas obras sobre a América Latina. Busca nelas a compreensão da situação de atraso e subdesenvolvimento disseminado nos povos latino-americanos, pensamentos expressos nos livros O Dilema da América Latina, As Américas e a Civilização e Configurações Histórico-Culturais dos Povos Americanos. Além disso, produziu diversos ensaios sobre o assunto - muitos reunidos no livro Ensaios Insólitos. Sempre nutriu uma grande esperança na criação de uma grande nação latino- americana, sonho de Simón Bolívar; não foi gratuitamente que Darcy foi chamado para idealizar o Memorial da América Latina, em São Paulo. Este, em sua visão, seria o "centro da América Latina, o seu parlamento e núcleo da formação de um bloco único".
 

Seus Estudos de Antropologia da Civilização, iniciados com O Processo Civilizatório, de 1968, prosseguem em Os Índios e a Civilização, de 1970, além dos que já foram acima citados e terminam no O Povo Brasileiro, de 1995, obra-síntese dos estudos que enfim aplicam ao Brasil toda a rede teórica criada ou assimilada por Darcy. Esta produção, talvez a mais longa do autor (só O Povo Brasileiro foi reescrito três vezes), começa em 1964, no Uruguai, e só vai receber seu último volume em 1995, com a publicação do referido livro. Durante todo este período, Darcy também produziu um número bastante grande de ensaios e críticas em jornais e revistas, os quais reuniu não só em Ensaios Insólitos, de 1979, como também em O Brasil como Problema, de 1995, Sobre o Óbvio, e Mestiço é que é bom, (publicado em forma de entrevista), de 1997. Nestes, faz saltar seu lado político, sem maiores preocupações com o rigor teórico e conceitual, No entanto, mais uma vez não se faz irresponsável ou contraditório.

Ensaios Insólitos (1979)

Como romancista, sua produção também atingiu uma qualidade invejável. Ele retornou a esta pele no exílio, após o insucesso nas tentativas da juventude, com o romance Maíra, de 1976. A grande marca do Darcy romancista é a interação das facetas escritor-antropólogo: jamais se sabe qual dos "darcys" está falando.

O mais certo, de acordo com o Professor Alfredo Bosi, é que sejam ambos. Darcy, assim, realiza o sonho de Antonio Cândido de ver um antropólogo escrevendo um romance sobre as culturas que estudou.  Como ilustração deste diálogo que Darcy trava entre a ciência e a arte, reproduzimos aqui um belo fragmento de Maíra: "Para mim esses mairuns já fizeram a revolução em liberdade. Não há ricos, nem pobres: quando a natureza esta sovina todos emagrecem, quando a natureza esta dadivosa todos engordam. Ninguém explora ninguém. Ninguém manda em ninguém. Não tem preço esta liberdade de trabalhar e de folgar ao gosto de cada um. Depois, a vida é variada, ninguém é burro, nem metido a besta. Para mim a Terra sem Males esta aqui mesmo, agora. Nem brigar eles brigam. Só homem e mulher na fúria momentânea das ciumeiras. Deixa essa gente em paz, Isaías. Não complique as coisas rapaz."

Maíra (1981)

Esta aí o antropólogo escrevendo pelas mãos do romancista. Não custa lembrar que, em O Povo Brasileiro, Darcy diz "que o socialismo em que acredita é com este talento indígena da convivência", e também não é casual a referência sobre a revolução em liberdade - tema sobre o qual irá dizer anos depois acreditar e esperar de forma "pacífica e democrática". Escreveu ainda O Mulo, de 1981, onde trata sobre as questões do negro e do caipira subjugados pelo patronato rural. Ele retomará o tema de forma científica em O Povo Brasileiro; Utopia Selvagem, de 1982, que é uma fábula delirante sobre o futuro do Brasil e da América Latina; Migo, de 1988; e Noções das coisas, obra dedicada ao ensino de princípios de antropologia para crianças e ilustrada por Ziraldo, de 1995. Acrescentamos aqui uma explicação do próprio Darcy sobre Utopia Selvagem que dá a exata dimensão da loucura que por vezes se embrenhava em seus escritos: "Minha terceira novela Utopia Selvagem é uma espécie de fábula brincalhona, em que, parodiando textos clássicos e caricaturando posturas ideológicas, retrato o Brasil e a América Latina.(...) O melhor da minha Utopia é uma capítulo orwelliano, que desenha o mundo do futuro regido pelas multinacionais. Impagável. Gosto também do último capítulo, escrito para ser filmado por Glauber, sobre a alucinação coletiva de um povo indígena pala força da ayahuasca, que se chama também santo daime. Nas últimas páginas, a aldeia é uma ilha que sobrevoa o mundo e trava uma guerra contra o exército, a marinha e a aeronáutica, que atiram com seus canhões sobre ela. A aldeia inteira revida cagando na mão e jogando bosta nos milicos."

Resolvemos aqui comentar em separado uma parte da produção de Darcy que geralmente é incluída na parte ficcional, que são seus estudos sobre si mesmo. Mais do que a morte física, a morte intelectual e histórica desesperava o pensador que, com medo de que ninguém o estudasse, se propôs ele mesmo a fazê-lo. Nasceram assim os livros Testemunho, de 1991; e Confissões, de 1996, obras nas quais Darcy, mais irreverente e sarcástico do que nunca, se põe a estudar sua trajetória como intelectual, homem, político, educador e sobretudo o "farrista". Sua obra, quando vista de forma completa, se mostra como um retrato fiel de Darcy, um diário de sua trajetória humana: nela há uma íntima relação entre momento e idéias. Darcy está em sua obra mais do que o óbvio poderia demonstrar. A coerência se faz presente não só no campo das idéias, mas sobretudo no das ações ligam definitivamente os dois. Isto só vem corroborar com a alegação de "livro síntese" que atribuímos ao O Povo Brasileiro. Afinal, qual dos temas e das produções discorridas aqui que não se integram e se articulam nesta obra?

Desta forma, Darcy, que já foi chamado e o "Macunaíma da Antropologia", deixa sua obra, que para muitos consiste em uma "pajelança antropológica", algo de "exótico". Entretanto, não concordamos com as afirmações. A produção e o pensamento de Darcy são "atípicos", mas jamais "exótico"; a complexidade de suas construções por vezes podem desarticular o leitor que esteja mais preso a estruturas e idéias pré-concebidas, mas é nesta característica de rompimento onde reside grande parte da beleza e do encanto de Darcy.
 
 

Épico brasileiro
(uma resenha de O Povo Brasileiro)

Rodrigo da Silva
Como podemos definir um livro como O Povo Brasileiro: Formação e o Sentido do Brasil ? Sinceramente tenho dificuldades, e estas nascem do temor de cometer injustiças. O primeiro impulso, e o mais racional, seria o de defini-lo como um livro de maturidade, escrito por um dos mais importantes intelectuais brasileiros, o mais contemporâneo de todos. Um trabalho de teoria, tanto quanto original esta possa ser. Contudo, já se sente invadir pelo segundo impulso, emocional e talvez mais suspeito.

Darcy escreveu este trabalho sob forte impulso emocional, fugindo da clínica, da dor e da morte, e mais do que isto redigiu cada linha na esperança de viver, ao menos no imaginário intelectual, a construção de um país que acreditava ainda não ter dado certo. Portanto, as construções que faz, sobretudo no início e no final do livro, são mais do que transcrição física de idéias, e sim depoimentos de um apaixonado que, na coincidência de encontrar do outro lado, no papel de leitor, se não outro apaixonado, mas ao menos alguém que nutre algum respeito por estas paragens, correrá o risco de embargar a voz. Ao contrário do que se possa pensar, não é um sentimentalismo barato, mas o depoimento de alguém que viveu uma longa vida intelectual embrenhado no objeto de seu estudo e assim nem sempre consegue manter uma distância positivista. Fica assim avisado: quem acredita que as chagas deste país estão distantes e que podemos viver e sonhar tranqüilamente, que não leia o livro, pois, para Darcy, tudo está próximo demais.

Contudo, o livro não é apenas uma obra de revisitação do passado, numa roupagem um pouco mais moderna do que Caio Prado, Sérgio Buarque e tantos outros já escreveram. Sem a menor dúvida, é um passo adiante. Não rompe totalmente, não admite totalmente, não suporta os preconceitos e fórmulas prontas, apesar de dar suas escorregadelas em defesa dos seus amados brasileiros, a humanidade em flor, morena, maior e melhor do que qualquer outra que já tenha se mostrado, a "nova Roma". Cumpre, antes, sua promessa: o livro é o resultado e a síntese de tudo o que já havia escrito, e assim se sente à vontade para teorizar sobre a formação étnica do povo brasileiro e sobre a estrutura social do país, fazendo uma reviravolta nas idéias até aqui aceitas. Discorre ainda sobre as classes sociais aqui existentes e suas lutas, bem como sobre a revolução que está por vir e será democrática e pacífica. Consegue, assim, de forma doce e cativante, incomodar a marxistas e "direitistas". Aos primeiros pelo fato de não sê-lo e aos direitistas pelo oposto.

Aos que conseguem rasgar os rótulos e jogá-los no seu devido lugar, no lixo, com certeza se não concordarem ao menos admirarão Darcy, não só pela sua criatividade mas muito pela sua coragem de buscar novos caminhos para o entendimento desta nação. Ele avança muito ao entender o Brasil pelas suas regionalidades, sem no entanto acreditar em uma incompatibilidade das mesmas ou pensar que configurem verdades diferentes. Este grande elemento unificador é seu povo, único, original, belo e oprimido. Para esta opressão que não tem mais fim, levanta o que para ele seria a causa: a desassociação do Estado dos interesses da nação, e mais, do povo.

É um livro curioso: quase não possui notas, sua leitura é leve como se fosse um romance, sem ser superficial. Dialoga com vários do interpretes do Brasil, desde o Império até períodos mais recentes, travando debates com Von Martius, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Capistrano de Abreu, Caio Prado, Monteiro Lobato, Florestan Fernandes e muitos outros. É primoroso. Algumas de suas idéias podem ser identificadas a outros autores aos quais admirava: por exemplo, a alegação de que o conceito marxista de classes, tal como aplicado para a história européia não nos servia, é abertamente de seu companheiro Florestan, assim como também o é a tentativa de criar uma teoria brasileira, original na necessidade da explicação de uma realidade diversa e inusitada .

Quando se põe a narrar a história , sobretudo n’Os Brasis na História , se mostra um pouco repetitivo, lembrando demais outros autores e chega até a cansar. Mas, se entendermos que este livro não foi escrito para a comunidade somente acadêmica (que, portanto, conhece os outros autores ), sendo uma obra que se propõe completa (com princípio, meio e fim), não possui introduções de outros livros nem espera que o leitor tenha que continuar seu entendimento em escritos paralelos, entenderemos o porquê da repetição. Este caráter que foge à esfera unicamente acadêmica é proveniente do espírito e da "pele" política de Darcy. Ele quer fazer a cabeça dos brasileiros, doutrinando-os e trazendo-os para o debate. Por isso mesmo tenta ser leve mas preciso (relevando as generalizações que ele mesmo admite ser um erro, porém necessárias para dar sentido à história ) contra a "indoutrinação direitista".

Assim , O Povo Brasileiro, parafraseando Antonio Cândido "é um livro que nasce clássico", sendo um épico da história nacional que oferece ao leitor, cientista ou não, o luxo de chorar pela construção de seu povo. Sua importância e alcance só tendem a crescer, tanto o quanto a abertura da cabeça de nossos humanistas permitir. Guarda o livro (ou Darcy, como sua última cartada ) por fim um último mérito: é esperançoso e não se admite em ficar levantando as mazelas; acredita na predestinação deste povo-nação, como gostava de chamar, ou ainda no futuro do seu carinhosamente chamado "Paisão".
 
 

Bibliografia


 
 

Obras de referência
 
 

GÓIS MONTEIRO , Norma de , Dicionário biográfico de Minas Gerais , Belo Horizonte , Assembléia Legislativa de Minas Gerais , 1994.
 
Livros
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Revistas CARTA: falas, reflexões e memórias , Informe de Distribuição Restrita do Senador Darcy Ribeiro , Brasília , Gabinete do Senador Darcy Ribeiro , Imprensa do Senado Federal , 1992 , n.2.
 
Páginas na Internet

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
www.academia.org.br/

FUNDAÇÃO DARCY RIBEIRO
www.fundar.org.br/

FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO (FUNAI)
www.funai.gov.br/

JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO
www.estado.com.br/

JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO
www.folha.com.br/

JORNAL DA TARDE
www.jt.com.br/

JORNAL O GLOBO
www.oglobo.com.br/

JORNAL DO BRASIL
www.jb.com.br/

MUSEU DO ÍNDIO
www.museudoindio.org.br/

PARTIDO DEMOCRÁTICO TRABALHISTA
www.pdt.org.br/

REVISTA BRAVO!
www.uol.com.br/bravo/

REVISTA ISTO É
www.istoe.com.br/

REVISTA VEJA
www.uol.com.br/veja/

SENADO FEDERAL
www.senado.gov.br/

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
www.unb.br/
 

Artigos de revistas

PORTO E PAULA , Regina e Júlio , Um estudo sobre Villa-Lobos , in "Revista Bravo!" , novembro de 1999.
 

Vídeos

JANGO
Direção de : Sílvio Tendler
S/D

RODA VIVA COM DARCY RIBEIRO
TV Cultura
1992(?)

TERRA DOS ÍNDIOS
Direção de : Zelito Viana
1978

XINGU
Direção de : Washington Novaes
Intervídeo e TV Manchete
1985
 

ENTREVISTA COM O PROFESSOR ALFREDO BOSI
Grupo Darcy Ribeiro
1999