Nau dos Loucos
Rodrigo da Silva
rodrigo@klepsidra.net
Segundo Ano - História/USP
loucos.doc - 45KB

 
 
Além do mar, a oeste da Espanha,
Há uma terra chamada Cocanha;
Não há sob o céu região
Tão rica em bens e virtudes.
Mesmo o Paraíso risonho e atraente,

Não é tão maravilhoso quanto a Cocanha.
O que existe no Paraíso
Além da grama, flores e ramos?
Ali há alegria e grande prazer,
Mas come-se apenas frutas:

Lá não existe sala, quarto ou banco,
Contra a sede apenas água.
Há apenas dois homens ali,
Elias e Enoch.
Se alguém, coitado, for lá,

Não terá companhia.
Na Cocanha há comida e bebida
Sem preocupação, esforço e trabalho.
Ali come-se bem, bebe-se clarete
Ao meio dia, às 16:00 e no jantar.

Asseguro a vocês,
Nenhuma terra a iguala;
Não há sob o céu país
Tão alegre e feliz.
Lá existem muitas coisas doces;

É sempre dia, jamais noite.
Ali não há conflitos, discussões,
Ou morte, só vida eterna;
Não faltam comida ou roupa,

Nem homem nem mulher sentem raiva.
Não existem serpentes, lobo ou raposa,
Cavalo, vaca ou boi,
Carneiro, porco ou cabra,
Tampouco sujeira, Deus sabe.
Nem haras, nem estábulo;

A terra esta cheia de coisas boas.
Lá não existe mosca, pulga ou piolho
Na roupa, no campo, na cama, na casa.
Ali não tem trovão, neve ou granizo,
Tampouco verme ou serpente;

Nem tempestade, chuva ou vento, 
Nem homem ou mulher cegos, 
Tudo ali é brincadeira, alegria e satisfação;
Feliz de quem pode estar lá.
Há belos e grandes rios

De azeite, leite, mel e vinho;
A água serve apenas
Para ser olhada e para lavar.
Existem frutas de todo o tipo;
Tudo é diversão e prazer.

Existe ali uma bela abadia
De monges brancos e cinzas.
Seus quartos e salas 
Tem paredes de massa,
Carne, peixe e ricos pratos,

Os mais deliciosos que há.
É de bolo de farinha o teto
Da igreja, do claustro e da sala.
As torres são de salsichas, 
Pratos de príncipes e reis.

Ali todos podem se saciar,
Sem pecar.
Tudo é comum a jovens e velhos,
Altivos e violentos, fracos e medrosos.
O claustro é belo e leve,

Largo e comprido, agradável.
Os pilares deste claustro
São de cristal,
Suas bases e seus capitéis
São de jaspe verde e de coral vermelho.

No jardim há uma árvore
Muito bonita de se ver.
Sua raíz é gengibre e junça,
Seus brotos de zedoária,
Suas flores de noz moscada,

Sua casca, perfumada canela;
Sua fruta, saboroso cravo;
Lá não faltam cúbebas.
Existem ali rosas vermelhas
E lírios agradáveis de ver.

Lá o dia não acaba nunca, a noite não existe;
Tudo isso deve ser uma doce visão
Há quatro fontes na abadia,
De teriaga e água medicinal.
De bálsamo e de vinho com especiarias.

Dessas fontes sempre sai,
Espalhando-se pela terra,
Pedras preciosas e ouro,
Safira e pérola,
Rubi e astrion.

Esmeralda, jacinto e diamante,
Berilo, ônix e topázio,
Ametista e crisólito,
Calcedônia e hepatite.
Existem ali numerosos e variados pássaros:

Tordo, tordo canoro e rouxinol.
Cotovia e melro,
E outras aves sem nome
Que jamais deixam
De cantar alegremente dia e noite.

Os jovens monges todo dia
Depois da comida vão brincar.
Não existe ave tão rápida
Que voe melhor
Que estes monges de espírito alto

Graças às mangas e ao capuz.
Quando o abade os vê voar,
Sente grande satisfação;
Mas no meio desses exercícios
Ele os chama para a prece das vésperas.

Quando os monges não descem,
Voando mesmo mais alto,
O abade ao perceber
Que eles se afastam,
Pega uma moça.

Vira suas brancas nádegas
E bate nelas como em um tambor,
Para os monges retornarem.
Quando eles percebem,
Fazem um vôo rasante

Na direção da moça,
Beliscando suas nádegas.
Depois desses exercícios,
Entram no mosteiro sedentos
E dirigem-se ao refeitório

Em organizada procissão.
Existe lá perto uma abadia
De monjas,
A montante de um rio de leite e doce,
Onde há muita seda

...........................

E logo chegam perto delas.
Cada monge escolhe uma,
E rapidamente leva sua presa
Para a grande abadia cinza
Onde ensinam às monjas uma oração

Com pernas para cima e para baixo.
O monge que se mostrar um grande garanhão
E que souber bem manejar o capuz,
Terá sem dificuldades
Doze mulheres por ano

.............................................

Mergulhado até o pescoço.
Assim se ganha aquela terra.
Nobres e corteses senhores,
Quem vocês não deixam o mundo
Antes de ter a sorte

(fragmentos de Cocanha, poema inglês do século XIII, in Cocanha: Várias faces de uma Utopia de Hilário Franco Jr.)
 
 

CENA 1- Tarde de sábado. Na televisão, o padre Marcelo Rossi convida os telespectadores fiéis a assistirem à sua missa televisionada na manhã de domingo. Na pauta do dia, um elemento bizarro: o padre, extremando suas características, promete ensinar a "oração para emagrecer".............

CENA 2- Domingo de manhã. O jornal Folha de São Paulo tem estampada em sua capa uma matéria na qual se comunica a extinção do programa do governo federal de distribuição de cestas básicas à população carente.
 

A peça é bizarra! As cenas, se não fossem parte de uma tragédia, seriam parte de uma ópera bufa. Analisemos por partes. O programa de distribuição de cestas básicas referido atendia a aproximadamente 8,5 milhões de brasileiros, pessoas que sobrevivem nos vários bolsões de misérias espalhados pelo Brasil, mas sobretudo no Nordeste. A ração que estas famílias recebiam do governo era composta basicamente por 10 quilos de arroz, 5 de feijão, 5 de farinha de mandioca, 2 de farinha de milho, 2 de rapadura, e eventualmente mais alguma coisa. O suficiente para manter as crianças e seus pais corados.........de ódio e vergonha.
 


Família de Canidé(CE), que não receberá
mais a cestá básica do governo
A suspensão do programa foi determinada segundo os seguintes argumentos: a distribuição de ração (desculpe, cestas básicas) não soluciona o problema da fome, é apenas e tão somente um paliativo de essência assistencialista; em segundo lugar o comércio local, que impressionantemente depende de quem não tem nada para gastar, estaria sendo prejudicado pela ação do governo; e em terceiro e último lugar, o corte foi justificado pela má fé de um gigantesco número de brasileiros esgazeados que diante de tão nobre prenda (arroz, feijão, farinha de mandioca, farinha de milho e rapadura), escondiam suas fortunas pessoas, criando uma falsa imagem de pobreza e lesando toda a nação ao se apropriarem de forma indevida dos produtos.

Em 1962, atendendo à convocação do Papa João XXIII, abriram-se os trabalhos do Concílio do Vaticano II, que duraria até 1965. A preocupação de João XXIII poderia ser resumida, "grosso modo", a dois pontos: renovação e atualização da Igreja Católica e definição das prioridades de atuação no campo social. O Concílio foi além do próprio Papa, pois João XXIII morreu em 1963. No entanto, este religioso deixou duas das mais importantes encíclicas do século XX: "Mater et Magistra" de 1961, que abordava questões sociais, e "Pacem in Terris" de 1963, que se apoiava na proclamação de princípios como paz, justiça, caridade e liberdade.

Anos depois, em 1968, em Bogotá, na Colômbia, bispos da América Latina se reuniram e fizeram o que se chamou de "opção pelos pobres". A Teologia da Libertação se tornou um dos fronts da luta contra a miséria, o preconceito e a opressão. Foi um espinho na garganta de governos e governantes das Américas. Nomes como Frei Beto, Leonardo Boff, Frei Tito, Betinho (ligado à Juventude Católica) e Dom Hélder Câmara surgiram, ou se integraram, às fileiras da Teologia da Libertação. Basicamente a idéia do grupo era a seguinte: não basta esperar pelo reino de Deus no céu, é imperativo que também a terra seja comum a todos, e que nela também exista justiça, liberdade, etc. Dom Hélder, fundador da CNBB, chegou, durante o Concílio do Vaticano II, a propor ao Papa que abandonasse o Vaticano, entregasse a este e todos os seus tesouros artísticos e históricos aos cuidados da UNESCO e fosse residir em uma Igreja qualquer em Roma na qualidade de bispo da cidade. Ele próprio, em depoimento dado por Frei Beto, jamais aceitou residir no palácio Episcopal de Recife e Olinda, de onde era arcebispo: morava nos fundos de uma paróquia. Leonardo Boff, ao adotar o discurso da Teologia da Libertação e desenvolver suas teses em diversos livros, acabou se vendo frente a frente com a Santa Inquisição do nosso tempo. Não resistiu e largou o hábito, mas jamais as idéias que, favorecidas agora pela liberdade pessoal, se tornaram ainda mais fortes e cada vez menos segmentadas. Frei Tito, "persona non grata" do regime militar, pagou pela sua intransigente defesa dos pequenos: preso, torturado e exilado, se enforcou na França sem ver novamente o sol nascer para todos em seu próprio país. Já o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, sabia melhor do que ninguém que quando se tem fome é difícil escutar, aprender ou mesmo manter a dignidade. Sabia também que o fato de se entregar um prato de comida para alguém não é um ato de assistencialismo, mas sim uma ação de solidariedade e de respeito a vida.

Frei Beto é uma figura importante nos escombros da Igreja Católica séria que infelizmente tem cada vez menos espaço frente ao discurso verborrágico e "descerebrado" dos padres cantores, surfistas, carolas perdidos no tempo e acima de tudo apartados do que um dia se chamou "opção pelos pobres".

Agora somemos as duas cenas descritas sob o pano do contexto e da história.

Do que estamos falando? Para quem estamos falando?

É a Nau dos Loucos, o bestial barco que tem por tripulação criaturas bizarras, lunáticos, selenitas, enfim doidos varridos em geral. No comando da Nau, a nossa velha conhecida elite nacional, que não bastasse as antigas mazelas nacionais agora contam com o que Darcy Ribeiro chamava de "despolitização direitista".

Antonio Cândido, ao escrever a Plataforma de uma Geração, decretou: "Nossa geração tem um problema. Este problema é o medo." Podemos dizer que nem medo mais temos, pois perdemos completamente a noção de realidade, de prioridade, de valores humanos. Temos um Frei que é lido por algumas milhares de pessoas defendendo os esfomeados e do outro lado do ringue se encontra um "ícone do catolicismo moderno", uma estampa de camiseta, que reúne alguns milhões de pessoas para absolutamente nada. Há vácuo, e o nosso problema não é mais intelectual, é ético, é perceptivo.

A nossa sociedade caminha de forma extremamente estranha para a conclusão da seguinte equação: ao mesmo tempo em que se prolifera o discurso da tolerância, da igualdade, da liberdade cultural, de expressão, etc., no cotidiano se processa algo inversamente proporcional, ou seja, a multiplicidade é artefato decorativo. A miséria incomoda menos do que o excesso de peso, o flagelo ocupa menos espaço em nossas atenções do que qualquer receita de bolo.

O escritor português José Saramago disse certa vez: "Mais do que a pornografia imoral é, nos dias de hoje, admitir que alguém ainda possa morrer de fome." 

Vale refletir: Sobre o quê estamos falando? O quê vamos colocar na pauta do dia?

Talvez o problema em questão seja justamente esse, o de não saber responder as questões, e mais, baseado em algum critério, de preferência humano, solidário. Enquanto isso a vida prossegue em uma espécie de toada "non sense" na qual padres, apresentadoras de TV, notícias de jornal, miséria e propagandas se misturam sem discriminação, nos provocam os mesmos efeitos, recebemos e digerimos com a mesma emoção ou sem ela. É a verdadeira realização da letra de "Alegria, Alegria" de Caetano Veloso: Notícias nas bancas de revista, que enchem de alegria e preguiça. Bombas, carros e Brigitte Bardot se misturam, se anulam.


Padre Marcelo Rossi em
uma de suas missas

Triste é saber que isto tem a ver conosco e não com o outro, neste caso não podemos apontar para ninguém e dizer que a culpa é dele. Somos parte do problema, causa, efeito, criminosos e vítimas ao mesmo tempo, tudo isso para complementar e enfatizar a confusão que nos toma.

Ainda em tempo: O referido programa de distribuição de cestas básicas que foi extinto pelo governo não foi substituído por qualquer outro, assistencialista ou não.