Estudos de Arqueologia:
Analisando Ian Morris e "Classical Greece Ancient Histories And Modern Archaeologies"

Paulo de Castro Marcondes Machado
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Introdução

Ian Morris propõe, em seu artigo "Classical Greece, Ancient Histories and Modern Archaeologies" que uma abrangente análise do papel, propósitos e métodos da Arqueologia Clássica se faz necessária. Para Morris essa necessidade existe por uma série de fatores interligados que tiveram por principal consequencia o distanciamento entre a Arqueologia Clássica e os demais campos da Arqueologia. Morris afirma que essa separação não se trata, apenas, de uma separação entre o novo e o tradicional, estando muito mais relacionada com o envolvimento da Arqueologia Clássica com a busca do entendimento da personalidade européia. De um lado os arqueólogos clássicos se mantém isolados das outras "arqueologias" - estando muito mais ligados às demais áreas dos estudos clássicos e à História da Arte - atados a um sentimento de superioridade relacionado tanto a seus métodos e preocupações quanto ao objeto final de estudos da Arqueologia Clássica, a civilização grega clássica e o mundo helênico como um todo.  No outro lado os demais arqueólogos criticam os métodos e enfoques dos arqueólogos clássicos, considerando-os ultrapassados e pouco produtivos. Se faz urgente, para Morris, um maior contato, com uma maior troca de idéias, entre os dois grupos, inclusive para que se possa aproveitar de forma efetiva o vasto trabalho já realizado na Arqueologia Clássica ao mesmo tempo que novos enfoques e métodos entrem na pauta de discussão dos arqueólogos clássicos.

Para o autor esse processo de aproximação já foi iniciado, uma vez que atualmente métodos e preocupações "próprios" da Arqueologia Pré-Histórica e não clássica em geral, como o uso da prospecção de superfície como um fim em si mesma, (sem ser meramente auxiliar de uma posterior escavação), mas existe a necessidade de uma profunda análise das necessidades e objetivos da Arqueologia Clássica para que uma mudança de enfoque e métodos seja realmente possível. Com este propósito em mente, Morris realiza, neste artigo, um estudo da história intelectual da Arqueologia Clássica, buscando entender suas motivações e mudanças com o passar do tempo.


Principais concentrações de sítios arqueológicos no mundo.
Atualmente, além de servirem como objeto de estudos, também são pólos turísticos importantes.
 

A Arqueologia da Arqueologia grega

A idéia central de Morris é que a Arqueologia Clássica surgiu como uma sub-disciplina dos estudos clássicos, formando-se como parte da tradição intelectual do Helenismo, que teve suas raízes nos conflitos políticos e culturais do século dezoito, e que atualmente, com o gradual desaparecimento das condições sociais que sustentaram o Helenismo, a Arqueologia Clássica encontra-se sem uma sustentação intelectual clara, o que provoca a necessidade de reconfigurar a disciplina, o que deve ser feito com duas grandes preocupações em mente: 1) definir para que serve a Arqueologia Clássica e 2) trazer o ser humano para o centro das preocupações da disciplina. Como já foi dito, com base em suas análises iniciais, Morris conclui que um estudo da história intelectual da disciplina é essencial. Para tanto, o autor se utiliza de um enfoque externalista e não cognitivo, ou seja, ele se concentra na interação da disciplina com as forças externas à mesma (forças sociais, econômicas, etc.) e enfatiza aspectos políticos, ideológicos e psicológicos da Arqueologia Clássica.

O conceito de epistemas, desenvolvido por Foucault e de extrema utilidade para o autor, está relacionado com padrões de pensamento, ou visões de mundo, compartilhados pelos integrantes de uma mesma cultura. Dessa forma, uma tradição intelectual, como o Helenismo, e a evolução intelectual de uma disciplina, como a Arqueologia Clássica, podem ser estudadas através da dissecação dos epistemas em que tais tradições ou disciplinas surgiram e nos quais evoluíram. Para Morris a Arqueologia Clássica passa por uma crise de enfoques, métodos e propósitos como conseqüência de uma mudança epistêmica do modernismo para o pós modernismo. Morris apoiará sua análise da Arqueologia Clássica, baseada no estudo dos epistemas, através do estudo comparativo de outros campos de estudo, como o orientalismo e os clássicos.

O Argumento


Ruinas em Atenas, Grécia
O Helenismo nasceu na passagem do epistema clássico para o moderno. Muitas forças políticas foram fundamentais para definir esta tradição, entre elas as disputas entre os estados germânicos e a França e a agressão imperialista européia contra o império Turco. Nesse contexto é útil uma reavaliação das classificações feitas por Trigger das grandes formas de Arqueologia. Além da arqueologia nacionalista, cujo objetivo era a valorização de momentos de glória (reais ou não) passada de uma determinada nação, da arqueologia colonialista, que visava justificar o Domínio de uma região sobre outra através da desvalorização das conquistas da região dominada, e da arqueologia imperialista, que enaltecia a superioridade de um pequeno grupo de nações diminuindo as diferenças internas deste grupo, Morris propõe uma quarta categoria, a arqueologia "continentalista", criada na esteira do Helenismo através da valorização da Grécia clássica - berço teórico do ocidente - e da insistência na singularidade de suas características. 

Desse ponto de vista, ao menos, é uma grande estupidez afirmar que a Arqueologia Clássica tradicional foi ineficiente, uma vez que realizou as tarefas a que se propunha. Atualmente não há suporte ideológico suficiente, ou seja, houve uma mudança de epistema, para fundamentar uma disciplina a partir de tais objetivos, o que provoca a atual crise na Arqueologia Clássica. O mais grave é que esta disciplina esteve alheia as evoluções das outras arqueologias, inclusive daquela que se ocupa da Grécia pré-histórica, por estar muito mais ligada, (e numa posição de subserviência), aos estudos clássicos.


Categorias de análise

Além do conceito de epistemas de Foucault, Morris se utiliza de outros conceitos para realizar suas análises. A idéia de paradigma científico, de Thomas Kuhn, apesar de não poder ser diretamente aplicada nas Ciências Humanas, é de especial interesse: Kuhn afirma que o conhecimento científico cresce de forma descontínua, com grandes e rápidos saltos científicos ocorrendo em momentos de mudança de paradigmas. Um conjunto de crenças, pressupostos e regras tácitas que direcionam os focos de pesquisa de uma determinada época constituiria o paradigma desta época; como todo paradigma, (pelo menos até o momento), possui suas falhas e contradições, aos poucos as pesquisas se concentrariam no estudo de tais contradições, o que invariavelmente ruiria o paradigma regente, levando à formação de um novo paradigma e a uma explosão inicial de produção de conhecimento. Morris utiliza esse conceito mais para descrever posições intelectuais dentro das Ciências Humanas do que como instrumento de explicação. O autor analisa que o paradigma do Helenismo substituiu aquele do Iluminismo, para então ser desafiado a partir da década de 60.


Hegemonia

O processo de imposição de padrões de comportamento ou pensamento não ocorre apenas através do controle de uma elite dominante sobre as classes subordinadas, mas também nos meios acadêmicos. Apesar do uso de propagandas quase explícitas e do controle intencional da verdade serem formas utilizadas para a imposição do poder, o meio mais eficaz de doutrinação ideológica e de formação de padrões de pensamento é a repetição constante dos valores e padrões de um epistema como se fossem características "da natureza", intrínsecas ao ser humano. Essa repetição constante pode ser consciente, como no caso da propaganda clara, como inconsciente (ou tácita), o que acontece nos meios acadêmicos. O estudante que pretende ingressar em certa área será obrigado a construir sua educação formal em instituições acadêmicas oficiais, compostas e dirigidas por profissionais da área. Acontece que tais profissionais invariavelmente irão impor os valores do epistema a que estão integrados nos candidatos a profissionais, perpetuando, dessa forma, os valores, pressupostos e limites cognitivos deste epistema. As pressões a que os novos profissionais estarão sujeitos para obter sucesso acadêmico, bem como os controles dos institutos financiadores e da mídia, se encarregarão de filtrar aqueles profissionais que não absorverem a carga ideológica do epistema vigente, aumentando a inércia e duração do epistema.
 


Divisões

A grande divisão entre a Arqueologia Clássica e as outras já foi vista como conseqüência da Grande Tradição dos estudos clássicos, da qual a Arqueologia Clássica seria herdeira. Entre outras coisas, a preocupação pelo rigor no tratamento de detalhes é vista, (por Renfrew, entre outros), como característica intrínseca e divisória da Arqueologia Clássica. Morris argumenta que todas as arqueologias são marcadas pela preocupação com detalhes, mas que a Arqueologia Clássica seria marcada pela preocupação apenas com os detalhes. A grande tradição é associada, pelo autor, ao Helenismo, que teria se aprofundado, no século dezenove, na preocupação com os detalhes como uma estratégia de defesa e diferenciação das outras arqueologias em emergência. Outra característica singular e de diferenciação da disciplina é sua subordinação completa às fontes escritas, a Arqueologia Clássica servindo apenas como instrumento de "construção de paisagem" para a História. Este aspecto se torna ainda mais interessante quando se constata que a Arqueologia dos períodos pré-históricos da Grécia não esta integrada a Arqueologia Clássica.
 


Helenismo

Até o século dezoito o Império Romano, e não a Grécia Clássica, era considerado o berço do ocidente. A filiação se dava principalmente através do latim e da herança cristã, mas era reforçada e mantida pelo iluminismo, que encontrava eco de seus ideais de poder, razão e sofisticação na Roma antiga. A mudança de foco na busca pela ancestralidade européia, de Roma para a Grécia, aconteceu apenas em meados do século dezoito, sendo motivada por questões políticas e religiosas que culminaram numa mudança de epistema do clássico para o moderno e de paradigma do iluminismo para o Romantismo. O início desta transformação esteve relacionado às disputas políticas entre França e Alemanha, ou melhor, estados germânicos. 

Ruínas do Império Romano. Aquedutos mais bem
conservados de todo o  Império, na atual Espanha

Panteão romano
A França se via, na época, como a nova Roma, o novo poder militar e cultural unificador da Europa nada mais natural, portanto, que os procurassem alemães outros modelos e filiações culturais, no caso rejeitando Roma e apontando na Grécia o berço da cultura ocidental. A preocupação do protestantismo de se utilizar apenas da Bíblia em grego, também levou a um maior sentido de identificação com a Grécia que com Roma. Após as revoluções da França e dos Estados Unidos o republicanismo passou a ser visto com forte desconfiança, e a Grécia Clássica passou a ser valorizada como fonte dos valores de liberdade e da democracia.
A Pedra Rosetta, com suas três inscrições.
Museu Britânico, Londres, Inglaterra
Os valores do Romantismo moldaram a percepção dos gregos clássicos que perdura, parcialmente, até os dias atuais. A liberdade, a vitalidade e criatividade não foram apenas encontradas nos gregos, mas impostas aos mesmos. Foi criada uma imagem da Grécia Clássica, iniciada pelo antiquário papal Johan Joachim Winckelmann, que pouco condiz com a realidade, mas que construiu um povo único e dinâmico, perfeito ancestral da ocidentalidade. Central para a criação desta imagem foi o paradigma de Zeitgeist espírito da época, cada um identificado a um povo e uma região (estão presentes fortes valores de determinismo ambiental). Foi o estudo de um Zeitgeist pouco condizente com a realidade, e não um verdadeiro estudo da civilização clássica, que forjou o Helenismo e a Arqueologia Clássica. Em outros centros ocidentais, como a Inglaterra e os Estados Unidos, o Helenismo só foi completamente absorvido no século passado. Na Inglaterra ele cresceu junto e relacionado a outros valores Românticos, como a valorização do esporte, tendo possuído, também, um caráter de diferenciador social para a aristocracia.

A relação entre o Helenismo e o orientalismo é reveladora dos valores europeus. Em primeiro lugar, supunha-se que os orientalistas estivessem automaticamente em posição subordinada aos helenistas. 

Também se percebia o orientalismo como uma forma de salvar o antigo conhecimento oriental dos próprios orientais, uma vez que o Oriente nada mais era que uma amorfa e estática região, cuja antiga sabedoria se encontrava estagnada apenas a vitalidade e capacidade de inovação dos antigos gregos (e dos europeus posteriores) podia dar sentido e função para aqueles conhecimentos estáticos. Se encontrava garantido, dessa forma, o direito de domínio do Ocidente sobre o Oriente, uma vez que os ocidentais conheciam melhor o oriente que os orientais, e possuíam uma melhor capacidade de uso para tudo que o oriente tivesse produzido.
 


A Invenção da Arqueologia e a Arqueologia na Grécia

Em seu momento inicial, a Arqueologia constituiu uma grande ameaça ao Helenismo. O estudo da vida diária dos gregos antigos, e de suas mudanças ao longo do tempo, colocariam em cheque muito do Zeitgeist atribuído aos gregos. Mas o processo de hegemonia impediu que a Arqueologia Clássica se constituísse dessa forma. Através das já conhecidas pressões acadêmicas e do desejo dos arqueólogos de fazer parte daquela elite dos estudiosos clássicos, a Arqueologia Clássica foi formada como uma parte dos estudos clássicos, recebendo toda sua herança de valores. A integração aos estudos da arte grega também minaram os potenciais de rompimento de epistema que a Arqueologia pudesse ter ao explorar, (como Kuhn afirmava), as contradições do paradigma constituído.
 


Tesouro de Tróia, encontrado em 1870
por arqueolgos alemães
Uma triste conseqüência (ao menos parcial) foi o desvairado saque de antigüidades promovido pelo ocidente em solo grego. Essa prática deixou de ser freqüente apenas com a quebra de práticas provocada por pessoas de fora da área, não sujeitas ao doutrinamento acadêmico, como Schliemann. A fortuna pessoal de Schliemann permitiu que este escavasse Tróia sem apoio externo, por puro interesse pessoal. As escavações de Schliemann mostraram que estas poderiam ir além do puro saque de obras de arte. Outros, como Curtius, levantaram interesses, métodos e questões puramente arqueológicos, o que levou, inclusive, ao surgimento de um distinto jargão próprio à disciplina. Mas a Arqueologia Clássica ficou presa entre o interesse dos arqueólogos de se manterem ligados aos estudos clássicos, que, entre outras coisas, garantiam prestígio social e acadêmico, e o interesse de se utilizar das novas técnicas e formas de comunicação próprias à Arqueologia. Pelo início do século, entretanto, a Arqueologia Clássica já estava completamente integrada ao Helenismo e afastada das outras arqueologias. A hegemonia se manteve, a Arqueologia Clássica assumindo sua típica característica de focos completo na descrição detalhada de artefatos e no domínio erudito dos conhecimentos acerca dos próprios artefatos.
O objeto de análise da disciplina se constituiu como o artefato em si; a criação de categorias de artefatos e a busca pela criação de cronologias baseadas nas mesmas se concretizava como o único objetivo da Arqueologia Clássica. 

O fundamento em relatórios de escavação, obviamente impossíveis de serem escritos de forma narrativa, eliminou a possibilidade da arqueologia escrever uma história que competisse com o conhecimento produzido pelas outras disciplinas clássicas. Os poucos arqueólogos clássicos que criticavam o establishment acadêmico, muitos dos quais com um enfoque mais antropológico, tinham por destino certo o ostracismo e o esquecimento. A constituição na virada do século de disciplinas mais claras e especializadas, com pretensões mais "científicas" minou o costumeiro uso do passado, inclusive do passado grego, com fins políticos não existiam mais lições a serem aprendidas com a democracia ateniense, por exemplo. Infelizmente, isso cortou a única via de inovação acadêmica na Arqueologia Clássica. Nem mesmo os poucos arqueólogos clássicos com maior enfoque antropológico continuaram a existir.


Arqueólogos buscam vestígios
do passado em escavação

Um fato interessante do estudo da Arqueologia Clássica, é analisar como os próprios gregos do presente percebem a Arqueologia Clássica e o passado do qual são herdeiros não muito aceitos.
 

Desde sua gênese, a Arqueologia Clássica foi controlada por estrangeiros, o que criou um fenômeno bastante curioso: cada escavação, cada demonstração de interesse estrangeiro pela História da Grécia, cada nova descoberta, gerava diversos sentimentos divergentes nos gregos. Apesar de, obviamente, o prestígio fosse gerado pelo interesse no passado grego, havia também uma clara visão de que aquele passado dizia respeito mais ao passado de todo o ocidente que ao passado do povo grego que muitas vezes foi visto como completamente desconectado dos gregos clássicos. A presença estrangeira também era vista como sinal de dependência, o que complicava ainda mais os sentimentos gregos em relação ao passado clássico. Os estudiosos gregos concentraram-se, então, em áreas pouco exploradas pelos estrangeiros, como o estudo com enfoque antropológico da Idade do Bronze.

Objetos da Idade do Bronze encontrados em escavações

Além do Helenismo

Após a Segunda Guerra Mundial a Grécia caiu completamente na esfera de influência ocidental, movimentos de caráter comunista ou nacionalista completamente eliminados. Durante os anos da Segunda guerra e de conflitos civis posteriores, a Grécia esteve fechada aos estudos arqueológicos. Neste período nasceu a sensação de que entrava-se em uma fase na qual já era possível, inclusive necessário, se estudar os materiais recolhidos em escavações ao longo de tantos anos e que ainda não haviam sido propriamente analisados. Sir John Beazley foi um precursor na análise de artefatos já escavados seu trabalho, apontado como libertador do limitante enfoque na classificação de artefatos na realidade apenas reforçou tal enfoque, ao criar uma aparência de disciplina humanística no mesmo tipo de trabalho realizado a gerações; apesar dessa pequena mudança de enfoque, a Arqueologia Clássica ainda se encontrava como participante da tradição do Helenismo o enfoque continuou a ser o artefato, não o ser humano por trás do mesmo, e as preocupações com a Grécia enquanto berço da personalidade européia ainda dominavam.

Após anos de enfoque influenciado por Beazley, pergunta-se para onde seguir agora. Um enfoque voltado para a narrativa, a construção de história, parece não encontrar eco entre os arqueólogos clássicos, apesar de ser norma na Arqueologia da Idade do Bronze grega. Outra proposta freqüente é voltar o enfoque para classes de artefatos menos estudadas ou conhecidas, mas ainda com a preocupação voltada apenas para o artefato. Ironicamente, modernas dificuldades financeiras (e uma atitude mais hostil por parte das autoridades gregas), como o encarecimento das escavações, começaram a desestabilizar os métodos e enfoques usuais. Grandes escavações se tornaram quase proibitivas atualmente, o que deixou dois caminhos para os arqueólogos clássicos conseguirem manter o fluxo de artefatos necessário na abordagem clássica: 1) realizar escavações pequenas porém bastante intensivas; 2) prospecção de superfície. Entretanto, os dois métodos revelam artefatos que requerem novas habilidades nos arqueólogos, obrigando a um maior contato dos arqueólogos clássicos com os métodos, jargões, e técnicas das demais arqueologias. Para Morris, o novo precursor na Arqueologia Clássica atual foi Anthony Snodgrass. Snodgrass se debruçou sobre a pouco conhecida Idade do Ferro grega, ou "Idade das Trevas". Tratando de uma época da qual não existem fontes escritas diretas, com artefatos e contextos novos e praticamente desconhecidos, Snodgrass foi obrigado a utilizar um enfoque completamente diverso daquele utilizado pela Arqueologia Clássica. Utilizando-se de conhecimentos técnicos muito mais próximos das outras arqueologias, abandonando os métodos e jargões da história da arte e dos estudos clássicos sem, no entanto, abandonar o rigor próprio a Arqueologia Clássica. Como define Morris em seu artigo, as questões propostas por Snodgrass estavam muito mais próximas das de um historiador que das de um arqueólogo clássico, e seus métodos muito mais próximos dos de um pré-historiador que de um classicista.
 


Mudança Epistêmica

Para Morris os caminhos seguidos pela Arqueologia Clássica atualmente classificar e datar objetos com ainda maior precisão ou, como Snodgrass, analisar os significados sociais dos achados e seus contextos de deposição não resultam, simplesmente, das necessidades impostas pelos novos tipos de escavação impulsionados pelas dificuldades econômicas e políticas para se escavar na Grécia atualmente. A fragmentação também atinge a arqueologia antropológica não clássica. Uma mudança de epistema, do moderno para o pós moderno, está em andamento. Esse novo epistema se reflete nas ciências humanas, pelo menos, pela falta de unidade ou de uma linha teórica e ideológica clara. A falta de consenso entre os pós modernos é total; talvez o único traço realmente característico desse novo momento. A preocupação com questões mais individuais e o rechaço a explicações "completas" parecem ser constantes também.
 


O Futuro da Arqueologia Clássica

Para Morris não há uma resposta simples sobre os rumos que a Arqueologia Clássica irá tomar, ou mesmo sobre que rumos ela deveria tomar. O autor percebe dois rumos "conservadores" possíveis. O primeiro, a tentativa de fingir que nada está acontecendo. Continuar realizando o tipo de trabalho, com o mesmo enfoque que a Arqueologia Clássica utiliza a décadas. Essa alternativa provavelmente levaria a um esvaziamento gradual da disciplina e a uma perda de importância acadêmica. Outra possibilidade conservadora seria tentar revalorizar o Helenismo, os valores por trás da Arqueologia Clássica tradicional. A valorização dos valores Helenistas como valores tradicionais em contraposição ao "caos" esquerdista pós moderno, por exemplo, poderia dar um novo ímpeto, (um ímpeto desagradável, entretanto), para Arqueologia Clássica. Mais produtivo, entretanto, seria perceber e enfrentar o problema, buscando um novo sentido, um novo propósito para a Arqueologia Clássica que se encaixe neste novo epistema. Para Morris, a melhor possibilidade de realizar este feito se encontra na aproximação da Arqueologia Clássica a História antiga. Outras barreiras também deveriam ser cruzadas, como a que separa a arqueologia antropológica da clássica e as barreiras entre a Arqueologia Clássica e a arqueologia dos períodos pré-históricos gregos. Vale lembrar que a enorme quantidade de dados produzida pela Arqueologia Clássica tradicional não é inútil, apenas infértil se retida num enfoque limitador para os tempos atuais.
 


Bibliografia

MORRIS, Ian (ed) New Directions in Archaeology. "Classical Greece, Ancient Histories and Modern Archaeologies" Cambridge, Cambridge University Press, 1994. Pgs. 3-47.