O divórcio entre o Céu e o Inferno
Salas escuras e projecionistas.
Luzes fortes e pastores
Uiran Gebara da Silva
utran@klepsidra.net
3º Ano - História/USP

"Foi-lhe dado, também, comunicar espírito à imagem da fera, de modo que essa imagem se pusesse a falar, e fizesse com que se fosse morto todo aquele que não se prostrasse diante dela" Apocalipse 13:15

"Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê nos lugares ocultos, recompensar-te-á." Mateus 6: 6
 

O entretenimento é a arte do século XX. Geralmente associamos arte com o conceito de beleza, e é disso que trata o estudo da estética. Se arte é aquilo que nos faz pensar, aquilo que nos traz os valores pelos quais julgamos o mundo, assim tanto o cinema quanto as histórias em quadrinhos, a literatura de ônibus e as telenovelas fazem isso. O que acontece é que, como em todas as épocas, há boa, grande, excepcional e má arte. Uma produção artística que obedece à lógica do mercado tem grandes chances de ter má arte (mas há exceções, é claro). O valor como arte, isto é, estético, pode ser relacionado à capacidade auto-referencial da obra; isto é, como um suporte de informação, a sua capacidade de inovar em sua forma e chamar atenção antes para o "como" diz, do que "o quê" diz. Arte tem um poder de síntese de um momento, de um lugar. Através dela, somos capazes de apreender o contexto onde foi produzida, não de maneira fiel, mas uma aproximação que nos explicite os conflitos, os valores morais, os conflitos de valores morais, as surpresas e o tédio cotidiano. 

A Catedral de Reims, na França, em
estilo Gótico

O entretenimento seria essa forma de arte necessária ao modo de vista de uma sociedade capitalista. O suprimento de fantasias que requer a vida cotidiana, muito bem articulado com a produção industrial de valores culturais, e claro, influência ideológica. Não se diz aqui que o estudo de um filme de Orson Wells resume toda a época, mas sim que o estudo deste será um dos requisitos necessários para entender o século XX. Não seria possível entender a Idade Média sem ver as igrejas góticas, as igrejas românicas e as figuras bizantinas. Da mesma maneira, se quisermos adentrar em uma faceta do cotidiano de São Paulo no século XX, temos de entender a relação da metrópole com a sétima arte. Nota-se que a partir de um pequeno quadro em um bairro de uma cidade, será possível entender a amplitude do contexto social onde o conflito singular está inserido.
 


A R. 15 de Novembro, no centro de São Paulo,
no começo do Século XX
Particularmente, esse trabalho tenta entender as transformações que aconteceram nas salas de cinema do centro velho da cidade nas últimas duas décadas do século XX, principalmente a de noventa. As salas de cinema do centro de São Paulo sempre foram muito freqüentadas, direcionadas ao grande público, um tipo perfeito de indústria cultural. Dos anos vinte aos anos sessenta, o cinema foi uma arte popular, direcionada àquele tal público médio do qual Adorno e Horkheimer tanto rejeitam. Várias famílias de quase todas as classes sociais freqüentavam os cinemas do centro. Eram comuns salas de cinema com mais de 1000 lugares. E a São Paulo na década de oitenta já possuía uma configuração próxima da que assumiu depois de noventa e cinco: a sobrecarga visual que dilui em um mar de letras e figuras de mulheres seminuas invalidando a função informativa de quase todas propagandas e cartazes de aviso. 

Resta-lhes apenas o papel, não menos importante no mundo capitalista, de reforço àquelas marcas já conhecidas e impressas em nosso subconsciente. As inúmeras lojas de comércio ainda habitam verdadeiros nichos de mercado em ruas específicas: a rua Santa Ifigênia, por exemplo, onde os pais e mães da classe média separavam um sábado para pesquisar preços e passear com os filhos; os vários prédios de escritórios, como o complexo Copam ou o Martineli, que servem aos diversos tipos de serviços necessários ao centro de uma cidade, onde se alojavam os responsáveis pelo capital financeiro. Durante a semana, no fim do expediente, não era incomum que esses habitantes do centro freqüentassem os cinemas. Nos finais de semana, os pais da classe média ainda traziam seus filhos para os cinemas do centro, onde na sua infância se impressionaram com as salas e desejavam repetir a experiência com os filhos.

Para a população mais pobre, o cinema começava a se tornar algo cada vez mais distante do cotidiano. 

O cinema era procurado, e ainda é hoje em dia, talvez por sua capacidade de suprir as fantasias necessárias ao cotidiano maçante da cultura do trabalho na civilização industrial. É o meio onde melhor se encontra o equilíbrio entre realidade e fantasia. O cinema cria a ficção mais crível, mais verossímil. A sala escura chama toda a atenção para a tela grande, colocada numa posição onde temos a dimensão de tamanho proporcional das figuras humanas que participam da história. E o movimento, que dá aos olhos a ilusão de volume e profundidade, só é rompido pela tentativa de tocar aquilo que nossos olhos vêem. O cinema desloca a fantasia para um outro lugar, permite a total absorção do espectador neste novo universo, onde as leis da física podem até serem outras, só devendo ser coerentes em si mesmas. 


O Edifício Martinelli (à dir),
marco do centro de São Paulo

Atualmente há cada vez menos salas de cinema no centro e cada vez menos público. Esvaziadas, estas salas tendem a diminuir de tamanho ou deixar de existir. Dos cinemas de arte, quase todos fecharam, resistindo somente o Cine Bijou, na praça Roosevelt. O "público potencial" que circula pelas ruas do centro de São Paulo não está interessado em cinema, tanto por causa da televisão e do vídeo cassete que substituíram o cinema no cotidiano, ao tornarem o preço do cinema relativamente mais alto e depois reduziram seu público. Conforme a burguesia e as classes médias abandonam o centro, este perde importância econômica.
 
Praça da República
Cada vez mais está se reduzindo àquela economia comercial de nichos e às banquinhas de "camelôs" que cresceram e tomaram o centro, no mesmo tanto em que diminuiu o emprego formal, em particular no setor secundário. Bancos, botecos e bares, casas de "Guaramix" e "Reis do Mate" dão o suporte à essa economia. Os escritórios aos poucos mudaram para o centro novo, assim como os serviços. A impressão que se tem é que uma grande massa de pessoas ainda circulam pelo centro de São Paulo totalmente desvinculadas da base econômica do país, da cidade, isto é, da produção. Qual seria a porcentagem do PIB equivalente ao contrabando Paraguai Praça da República?

É interessante ver como pessoas diretamente ligadas ao cinema, como por exemplo um projecionista, percebem essa transformação. Nelson Soares de Carvalho desempenha essa função desde 1972 no Cine Bijou. Uma pessoa divertida e falante, logo percebe-se que o cinema é a sua vida. Não teve acesso ao ensino superior, porém completou o ginasial. Entretanto, o impressionante é ver como moldou sua vida ao redor daquilo que gostava quando criança (o cinema) e forjou sua identidade quando adulto como projecionista.
 
Um dos últimos sobreviventes de uma tradição de projetores antigos, tem profunda consciência da alienação progressiva que seu ofício vem sofrendo. Conforme novos tipos de aparelhos, mais sofisticados aparecem e diminui o papel do homem no processo. O projecionista assumia antes um papel bem mais ativo na exibição, controlando tanto a luz quanto o som, devendo estar sempre atento, podendo deixar algo de seu no processo. Nelson conta que certa vez, ao exibir Amarcord, de Fellini, durante a cena dos dançarinos, para poder controlar a música na mesa de som, dançou como eles dentro da cabine de projeção. Hoje em dia, os aparelhos digitais não oferecem esse tipo de "recurso".

Fellini, o renomado diretor de Amarcord

Quanto à classe média e a classe média alta, seu emprego se deslocou do centro, e elas deixaram de ver os locais públicos como espaços de lazer, principalmente pela degradação visual desses centros - fruto do descaso do governo municipal - e pela impossibilidade criada pelo eterno conflito que existe com os grupos sociais com menos "oportunidades" (o assaltante também se insere numa espécie de luta de classes). Seu lazer começa a acontecer cada vez mais no substituto do centro da cidade: o Shopping Center. Seu cinema, é claro é o que está nestas estufas de crescimento controlado. Diante desse processo, aquelas imensas salas do centro acabaram tendo outro papel. Além da televisão e do vídeo cassete, há duas outras fontes de fantasia e lazer para o "público potencial" do centro de São Paulo. As imensas salas converteram-se em cines pornô ou em igrejas neopentecostais.

A atração das salas de cinema pornô ocorre sobre a multidão de solteiros migrantes, de famílias pobres e com pouca educação; sem esperança e com emprego incerto, com vida incerta. Trabalhando no centro de São Paulo, sem perspectivas, muitos longe de suas famílias, apenas vivem. O centro da cidade é lugar de homens, em busca de trabalho, para que possa ter condições de sustentar a família um dia. Todo ser humano tem desejo sexual. Com dinheiro insuficiente para prostitutas, ainda dispõem do necessário para uma sessão com dois filmes de pornografia.

Entretanto, a maior parte das salas de cinema aos poucos se converteu em grandes santuários neopentecostais. Esse movimento é parte da redefinição da proposta teológica das igrejas pentecostais que chegaram ao Brasil na década de cinqüenta do século passado. A igreja pentecostal baseia-se numa tradição protestante de dedicação ao trabalho e de negação das tentações, e desta se diferencia ao negar totalmente o mundo; não reconhece como justo o aproveitamento do progresso material pelos seus crentes; dita uma vida frugal. Também diversa do protestantismo, reconhece a possibilidade da graça divina, isto é: do carisma poder ser recebido durante um ritual. Reconhece a intervenção miraculosa no cotidiano dos homens. Os encontros religiosos e as pregações são momentos catárticos onde o espírito santo entra em contato com os fiéis. Pela sua própria natureza tentava criar um espírito de comunidade, de socialização entre os féis. Estes encontram no grupo uma identidade oposta ao resto do mundo; para isso, era forçado a restringir-se à periferia e a bairros afastados do centro metropolitano.

O neopentecostalismo redefine e inverte a polaridade de vários pontos centrais dessa proposta teológica. Em primeiro lugar, não nega mais o mundo: pelo contrário, oferece a prosperidade material para o crente. Deus não exige mais a devoção pela salvação, mas promete recompensa terrena, pelo preço da fé. Deus é fiel. Essa teologia orientada ao mundo material encaixa-se perfeitamente a uma concepção e a uma prática mercantilizada e industrial da religião. As igrejas neopentecostais podem ser igrejas de massa, uma vez que não têm a necessidade de formar uma comunidade. Podem, portanto, utilizar-se dos meios de massa. Os rituais de graça, vistos como espetáculo por um não-crente, aliados à promessa de vida melhor agora, são grandes fontes de fantasia, ou melhor, de ilusão. Assim como o cinema, desviam a atenção do cotidiano maçante; entretanto, ao contrário deste, tentam se situar além da ficção, no mundo real. Procuram o acesso aos meios de comunicação de massa, jornais, revistas e televisão. Aí procedem a construção de um mundo para seus fiéis, a construção de uma ideologia. Com os cinemas a apropriação é diferente. As grandes salas não são aproveitadas para a exibição de filmes ligados à religião, mas transformadas em templos. O seu tamanho e a sua construção são perfeitos para absorver aquela massa de pessoas que vivem no centro da cidade e que acabam simpatizando com a proposta sedutora dos neopentecostais. O mesmo público dos cines pornô também é potencialmente o público dessas igrejas. Não se excluem.

O fechamento das salas de cinema do centro de São Paulo não é um acontecimento com causas diretas, mas uma conjunção circunstancial que se origina das características que a cidade tem, como um centro comercial e financeiro dançante, a progressiva mercantilização da sociedade, a alienação do homem como sujeito de seu futuro, a clivagem social decorrente do capitalismo, e o aparecimento de formas de entretenimento mais adequados às classes mais baixas da sociedade. O cinema aos poucos foi sendo substituído como forma de entretenimento, como fonte de fantasias por outros meios mais sedutores às pessoas que habitam o centro da cidade.
 

Bibliografia

ADORNO, Theodor Wiesengrund. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. São Paulo: Cia das Letras, 1995

CAMPOS, Leonildo Silveira de. Teatro, templo e mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. São Paulo: Unesp, 1997

CERTEAU. Michel de. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994.

ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1998

LAFARGUE, Paul. O direito à preguiça. São Paulo: Unesp, 1999

METZ, Christian. A significação no cinema. São Paulo: Perspectiva, 1977

A trajetória das salas de cinema. In: Revista E no 4 - ano 6. São Paulo: Sesc, 1999