Made in Sec. XX:
Era dos Extremos

Rodrigo da Silva
rodrigo@klepsidra.net
3º Ano - História/USP
extremos.rtf - 10KB


 

Olho pela janela do meu apartamento. A vista, com a qual ainda me acostumo, não é das mais confortáveis. Casas sem acabamento, alguns barracos, bares onde a população local supre sua necessidade de lazer. Crianças correm para cima e para baixo. Com um pouco de atenção pode se observar as escadinhas familiares: oito anos, sete anos, cinco anos, três, alguns meses. Movimentação normal de um bairro humilde, ou carente se preferirem; pessoas trabalhando, conversando na frente de suas casas, carros, entregadores de gás.

Após observar as cenas cotidianas, entro e me pergunto: qual a relação entre o fato, a realidade, e a ciência a que me entrego? Quanto estamos próximos dela, e quanto somos honestos ao tratá-la? Claro que com um mínimo de responsabilidade jamais me atreveria a incorporar o juízo de algo ou de alguém: o ofício de historiador, apesar da impossível imparcialidade, não compreende o mister da sentença. Entretanto, com certo prazer, nos é permitido pequenas críticas ou até maldades. Mas o que pode um homem dizer sobre si mesmo? E sobre seu tempo? Homem e tempo se misturam, se amalgamam e fica difícil saber onde um principia e o outro termina. Se isto é minimamente real, quão honestos seremos em nossa própria avaliação?
 

Ao escrever A Era dos Extremos, o renomado historiador inglês Eric Hobsbawm enfrentou tais desafios, e para nós, leitores, resta a tarefa ainda mais ingrata do que a dele - a de, tendo testemunhado muito menos, avaliar a eficiência do autor na realização e execução do livro. O próprio Hobsbawm afirma no início da obra que durante muito tempo relutou em escrevê-la pois, sendo testemunha e participante dos eventos, sentia sua própria objetividade em xeque. Mesmo assim, chegou a hora em que a serpente histórica o venceu e materializou-se sua interpretação do que ele chamou de o "breve século XX".

A contribuição do autor como um todo é boa, pois por mais que se conteste atrás de cada página ainda está Eric Hobsbawm e todo seu nome e capacidade. A descrição dos eventos e dos fatos econômicos e sociais, a cultura do século XX, o surgimento de novos grupos sociais (como a juventude), o culto à personalidade, o imperialismo, o comunismo, etc.


Eric J. Hobsbawn

Enfim, mais uma vez o autor mostra seu brilhantismo e o incrível fôlego que lhe permite transitar pelas principais atividades humanas no século abordado, nas mais diversas regi›es do planeta. Contudo, não é a repetição do estilo que aqui nos interessa, mas dois frutos do balanço feito do historiador: o extremo e o saldo humano.

A princípio, a tentação pode levar o leitor a imaginar que os "extremos" referidos por Hobsbawm são os dois lados da bipolarização pela qual o mundo passou durante grande parte do século. A divisão do mundo em dois blocos, liderados pelas superpotências (EUA e URSS), entretanto, vale muito menos do que se imagina como metáfora dos extremos. Representa, antes de tudo, mais uma das faces extremadas que se colocaram à mostra no breve século. Acima dessa possibilidade residem diversas máscaras do que o autor chama de "extremo", e talvez a mais potente delas seja a violenta contraposição entre riqueza e miséria, progresso científico e barbárie humana. O mesmo século que produziu riquezas enormes tratou de agrupá-las em estritos campos do globo, e mesmo nestes em poucas mãos. Por exemplo, vê-se a riqueza norte americana contrastando com a pobreza localizada na maioria das vezes ao sul do Equador. É igualmente válida a tentativa do autor em desmistificar o poderio do Tio Sam ao lembrar que nada é eterno, e que a participação dos EUA no total da produção mundial vem sendo gradualmente reduzido. Por outro lado, isto não se reflete em uma visão otimista do futuro por parte do autor.

E é exatamente isto que nos leva ao próximo ponto de interesse neste texto. Repetindo o discurso de Goethe em Fausto, a argumentação do historiador indica que o progresso científico e tecnológico não significou necessariamente a melhoria das relações humanas. O século da corrida espacial, da engenharia genética e de tantas outras maravilhas criadas pelo homem foi também o século da invenção das fórmulas da destruição em massa, do genocídio e da completa intolerância. Mesmo com tantos meios de comunicação para aproximar os homens, nunca estivemos tão distantes e impessoais: o outro se tornou um estranho. Ciência e tecnologia não produzem necessariamente bem-estar e fraternidade. Mais do que nunca vale lembrar McLuhan: "Os homens criam as ferramentas e as ferramentas recriam os homens."

O desenvolvimento destes campos não foi sequer capaz de erradicar a fome e a miséria, mesmo produzindo-se o suficiente para o triplo da população humana. Logo, a constatação do crime, por mais vergonhoso e duro que possa ser, recai sobre as relações entre os homens e não sobre sua capacidade produtiva. Talvez Hobsbawm engrosse o coro do filósofo alemão Schopenhauer ao afirmar que o homem nada tem a se orgulhar, pois sua concepção do mundo é um pecado, sua vida é somente trabalho e a morte é a redenção. O saldo final é irônico: hoje somos muitos mais, vivemos muito mais e em lugares mais inóspitos, controlamos e somos capazes de prever os cataclismas. Mas ninguém responde: para quê vivemos mais? Possivelmente para produzir mais riquezas que obviamente irão parar em mãos alheias às nossas.

E é exatamente neste ponto em que as primeiras questões levantadas passam a ser tornar um problema e não apenas divagações. O quanto um homem pode falar sobre si mesmo? E sobre seu tempo? Qual a dimensão e validade de alguém que avalia sua própria trajetória e a de sua geração?
 


Era dos Extremos, Cia. das Letras
Afinal, o perigo de pender para a auto-indulgência ou para a penalização é grande, para não dizer inevitável. Enquanto o trabalho de Hobsbawn transita pela descrição se torna impecável; contudo, é necessário resistir à tentação de repetir aos quatro ventos a bestialidade do século XX. E então retorno à cena inicial, da janela do meu apartamento. Entre tantas casas sem acabamento, onde a carência se mostra como resultado não só de um século que não soube distribuir suas conquistas, mas também de um país que exacerbou esta mácula, vê-se em um pequeno bar, mais um daqueles em que eventualmente se tem diversão e problema, o letreiro com o nome do estabelecimento: "Bar Nova Esperança".

Longe de uma pieguice fácil e confortável o que há é o que nos salva de nós mesmos, é o que garante que apesar de toda bestialidade, intolerância e destruição, nós temos a incrível capacidade de ainda acreditar. Apesar da força da argumentação de Hobsbawm ainda é possível acreditar que, como sabe todo bom historiador a história não é uma peça que está completa, mas é escrita cena a cena, a cada dia, por cada um e por todos. O final, como diria Walter Benjamin, só se saberá no derradeiro dia da espécie humana e com ele o sentido de nossa trajetória.