15 Dias Ilhados: marinheiros, operários e camponeses na Revolta de Kronstadt

Erik Hörner
erikhorner@klepsidra.net
3º Ano - História/USP
kronstadt.doc - 46KB


 
Depois de ter ouvido o relatório dos representantes enviados a Petrogrado pela Assembléia Geral das Equipagens para examinar a situação, os marinheiros decidem: considerando que os sovietes atuais não exprimem a vontade dos operários e camponeses,

1º) proceder imediatamente a reeleição dos sovietes pelo voto secreto. A campanha eleitoral entre operários e camponeses deverá desenrolar-se com plena liberdade de palavra e ação;

2º) Estabelecer a liberdade de palavra e de imprensa para todos os operários e camponeses, para anarquistas e partidos socialistas de esquerda;

3º) Conceder liberdade de reunião aos sindicatos e às organizações camponesas;

4º) Convocar por fora dos partidos políticos uma Conferência dos operários, soldados vermelhos e marinheiros de Petrogrado, de Kronstadt e da província de Petrogrado para 10 de março de 1921, o mais tardar;

5º) Libertar todos os prisioneiros políticos socialistas e também todos os operários, camponeses, soldados vermelhos e marinheiros presos em conseqüência dos movimentos operários e camponeses;

6º) Eleger uma comissão com o fim de examinar o caso daqueles que se encontram nas prisões e campos de concentração;

7º) Abolir os "oficiais políticos", pois nenhum partido político deve ter privilégios para a propaganda de suas idéias, nem receber do Estado meios pecuniários para esse fim. Deve-se instituir em seu lugar comissões de educação e cultura, eleitas em cada localidade e financiadas pelo governo;

8º) Abolir imediatamente todas as barreiras;

9º) Uniformizar as rações para todos os trabalhadores, exceto para aqueles que exercem profissões perigosas para a saúde;

10º) Abolir os destacamentos comunistas de choque em todas as unidades do exército, assim como a guarda comunista nas fábricas e usinas. Em caso de necessidade, esses corpos de guarda poderão ser designados no exército pelas companhias e nas usinas e fábricas pelos próprios operários;

11º) Conceder aos camponeses plena liberdade de ação no que concerne a suas terras e também o direito de possuir gado, com a condição de que eles mesmos executem suas tarefas, isto é, sem recorrer ao trabalho assalariado;

12º) designar uma comissão ambulante de controle;

13º) Autorizar o livre exercício do artesanato, sem emprego de trabalho assalariado;

14º) Pedimos a todas as unidades do exército e também aos camarada kursanty militares que se juntem à nossa resolução;

15º) Exigimos que todas as nossas resoluções sejam largamente publicadas pela imprensa. (ARVON: 1984, 40-41)
 

A resolução acima foi votada pela equipagem (tripulação) do navio de linha Petropavlosk em 28 de fevereiro de 1921, após ter recebido o relatório da comissão enviada a Petrogrado a fim de informar-se acerca das reivindicações dos proletários desta cidade que se encontravam em greve. Quando apresentada em 1º de março, em uma reunião convocada pelos marinheiros da 1ª e 2ª Esquadras da Frota do Báltico, esta resolução foi responsável pelo comparecimento de dezesseis mil pessoas, entre marinheiros, soldados e civis, à Praça da Âncora, na cidade de Kronstadt. Estava pronta a base da revolta, iniciada efetivamente no dia seguinte.

Para se entender a formação e eclosão da Revolta de Kronstadt, será utilizada como base esta primeira resolução, que contém as diretrizes originais do movimento mas que até o seu fim, em 18 de março, perderá parte de sua importância como retrato fiel. No entanto, manterá sua importância como ferramenta explicativa desse processo revolucionário.
 

Apresentação

A cidade de Kronstadt está localizada na parte oriental da ilha de Kotlin, no golfo da Finlândia, distando 30 quilômetros a oeste de Petrogrado (hoje São Petersburgo), localizada no continente, com a qual sempre manteve estreitas relações. Este relacionamento veio a se fortalecer durante a Revolução de Fevereiro de 1917, quando os marinheiros kronstadinos capturaram o almirante R. Viren, comandante da base, levando-o para a Praça da Âncora, onde junto a outros 40 oficiais da marinha e do exército foi executado, enquanto outros 200 foram presos. Kronstadt era a principal base da frota do Báltico, que durante a Revolução e a Guerra Civil (1918-1920) foi responsável pelo envio de milhares de combatentes ao front de batalha (PANKRÁTOVA: 1947, 370). No entanto, em 1921 a relação com o continente era outra.
 

Este mapa apresenta o Golfo da Finlância, o Lago Oneka,
Kronstadt e São Petersburgo
Finda a Guerra Civil, a recém-nascida URSS se encontrava destruída, com um parque industrial incipiente e uma população massacrada pelo Comunismo de Guerra que ainda se arrastava um ano após o término da guerra que o justificara. Entre 1918 e 1920, o governo soviético instaurou uma série de medidas chamadas de Comunismo de Guerra para assegurar a vitória nos fronts – medidas que, segundo Trotsky "foi, no fundo, a regulamentação do consumo numa fortaleza sitiada" ( TROTSKY: 1980, 19). No entanto, essa fortaleza compreendia o imenso território da Rússia. 

A produção industrial era baixíssima, mesmo após a estatização das indústrias. Em situação tão agonizante, e precisando o Exército Vermelho de víveres, o Conselho de Comissários do Povo decretou, em 24 de janeiro de 1919, o "sistema de contingentes" para os produtos agrícolas. 

Segundo este sistema, o camponês era obrigado a entregar ao Estado, a preços fixos, o excedente de sua produção, a fim de ser distribuído entre o restante da população. Os víveres passaram então a ser distribuídos em cotas racionadas de acordo com a classe. A burguesia recebia rações 4 vezes menores que os proletários, e as crianças recebiam cotas especialmente maiores. Também foi instituído o trabalho obrigatório a todas as classes de acordo com a máxima: "aquele que não trabalha, não come". Nas instâncias administrativas foram nomeados comissários no lugar dos dirigentes eleitos, assim como nas áreas próximas ao front de batalha ou libertas do Exército Branco foram criados Comitês Revolucionários, ao contrário dos antigos sovietes. O Comunismo de Guerra contava ainda com barreiras nas estradas, tropas nas fábricas e limitações ao livre deslocamento (PANKRÁTOVA: 1947, 334-335).

Como conseqüência imediata deste regime de privações, os operários de Petrogrado cruzaram os braços a partir de 24 de fevereiro de 1921, exigindo melhores rações e combustível para o aquecimento de suas casas. A greve se inicia com a paralisação dos moinhos Trubetzkoi, e apesar da repressão bolchevique, o movimento cresce. Param as fábricas Baltisky, Laferme, A. Teiski, G. Bormann e os estaleiros Putilov, agora com novas reivindicações: liberdade de ir e vir, fim da militarização do trabalho, melhores condições de vida e de trabalho. Em vista deste panorama, os marinheiros de Kronstadt se solidarizam com seus companheiros grevistas do continente e "desde 2 de março declaram-se em estado de rebelião" (REIS FILHO: 1983, 19).

Diante deste contexto, pode-se agora entender a resolução apresentada no início do texto. Diferente das demais revoltas e dos movimentos insurrecionais camponeses que totalizavam 118 focos rebeldes (REIS FILHO: 1983, 10) em fevereiro de 1921 por toda a URSS (na bacia do Volga, na Sibéria, no norte do Cáucaso e na Ucrânia), Kronstadt possuía um "programa de insurreição" e um Comitê Revolucionário Provisório instituído a 2 de março. Este programa contava com 8 pontos políticos e 7 econômicos capazes de demonstrar com enorme clareza a insatisfação com o governo bolchevique. Pedia-se liberdade de expressão, partidária e de organização sindical, bem como liberdade aos presos políticos. Todas as reivindicações são conseqüentes da ditadura do Partido Comunista (PCb), responsável pela eliminação dos demais partidos, pela instauração da censura e do enfraquecimento dos sovietes e sindicatos, tornando-os meros instrumentos do Estado.

Imputaram aos kronstadinos o lema "Sovietes sem comunistas!" (ou sem bolcheviques, mais especificamente). No entanto, este grito foi utilizado por um exército camponês composto por 50 mil homens "que ao sul de Moscou, na região de Tambov, massacrou alegremente os comunistas execrados" (ARVON: 1984, 44). Quanto à palavra de ordem, deve-se separá-la da revolta principalmente porque os marinheiros não reivindicavam de fato o fim dos bolcheviques, e sim a liberdade aos anarquistas e socialistas revolucionários de esquerda. Os marinheiros não traíam os ideais da Revolução, na medida que apenas reivindicavam em nome dos partidários da esquerda, permanecendo como seu objetivo maior "restabelecer a soberania dos sovietes, arrancá-los do empecilho dos partidos, quaisquer que fossem" (ARVON: 1984, 43).

Ocorre então, de certa forma, um esvaziamento das exigências kronstadinas à medida que, com o intuito de acabar com as greves em Petrogrado, Zinoviev, presidente do Comitê de Defesa de Petrogrado, autorizou a população a buscar abastecimento diretamente no campo, levantando em 1º de março as barreiras nas estradas. Na mesma data, são retirados das fábricas os destacamentos militares. Kronstadt perde o possível apoio continental com o fim das greves em 3 de março. Junto às medidas de Zinoviev, o X Congresso do Partido Comunista, em Moscou, decidiu o primeiro ponto da Nova Política Econômica (NEP): os camponeses, após pagarem parte da produção em espécie ao Estado, estarão livre para comercializar seu excedente. Posteriormente foi determinado também que os camponeses poderiam assalariar força de trabalho, arrendar terras e receber incentivos morais e materiais para aumentar a produção. Ainda de acordo com o plano, as indústrias foram beneficiadas com medidas que autorizavam a privatização das recém-estatizadas fábricas que empregassem até 20 operários. As indústrias de tecidos, couro, objetos de consumo imediato em geral também receberam estímulos (REIS FILHO: 1983, 14). Nas palavras de Arvon, "o econômico, que na resolução contesta o político, é abandonado: subsiste apenas a palavra de ordem dos sovietes livres.(...) Se se dispusesse apenas desse texto, Kronstadt apareceria como um simples episódio ligado às greves de Petrogrado e à passagem do Comunismo de Guerra à NEP" (ARVON: 1984, 47-48).

Apesar do texto das Resoluções dos Marinheiros ter perdido totalmente o seu valor, os revolucionários persistiram em seus propósitos, e em 2 de março 300 delegados reunidos na Casa de Educação votam, ironicamente, pela supressão do soviete da cidade para substituí-lo por um Comitê Revolucionário Provisório eleito que permaneceria em exercício até a derrocada da revolta. A partir de então passam a tomar decisões de cunho prático. Conscientes de que o movimento só teria chances de sucesso caso pudessem assegurar a defesa da ilha e estender a revolta ao continente, os kronstadinos primeiramente tomam o comando de todos os prédios públicos e fortes que cercavam a ilha, ao mesmo tempo que todas as unidades militares do Exército Vermelho da fortaleza aderiam à insurreição. Como forma de conseguir uma cabeça de ponte no continente, o Comitê Revolucionário encarrega emissários de distribuir os exemplares da resolução dos marinheiros que, devido à vigilância dos comunistas, foram interceptados. Para infelicidade de Kronstadt, apenas parte da guarnição de Oraniembaum declarou-se decidida a juntar-se aos insurretos; uma delegação de três homens vai à ilha para colocar em prática uma ação em conjunto, porém são capturados na volta pela TCHECA – a polícia política bolchevique – responsável pelo fuzilamento de 45 homens, membros do recém-eleito Comitê Revolucionário de Oraniembaum. Dispostos a tudo, 250 homens são enviados para Oraniembaum que, diante do pesado ataque vermelho, regressam a Kronstadt.
 


Uma capa do jornal Izvestia de Kronstadt
No dia seguinte, o Comitê Revolucionário Provisório delibera acerca de um ataque terrestre a Oraniembaum a fim de obter víveres, mas tal proposta é rapidamente retirada. Notavelmente decidem por se defender na ilha e alimentar a esperança de fazer o governo ceder sem a necessidade de pegar em armas. Em 3 de março começa a ser impresso o jornal diário Izvestia de Kronstadt, publicado sem interrupção até o dia 16 do mesmo mês, acompanhando a rápida evolução do movimento e colaborando para sua perpetuação.

No dia 4 de março, o soviete de Petrogrado se reuniu em assembléia extraordinária a fim de discutir a revolta. Como represália às prisões de Kuzmin e Vassiliev (os dois bolcheviques presentes no Soviete de Kronstadt) dois dias antes, o Comitê de Defesa de Petrogrado decide prender os familiares dos marinheiros kronstadinos residentes no continente. Para completar a ameaça, por meio de panfletos lançados de um avião, Kronstadt é informada que caso seja "tocado em um fio de cabelo de seus cabelos [dos camaradas comunistas], esses reféns responderão com suas cabeças" ( ARVON: 1984: 58).

Em cinco de março chega a Petrogrado o comissário da Guerra e presidente do Conselho de Guerra Revolucionário, Leon Trotsky. Junto com M. N. Tukhatchevski – comandante do 7º Exército e de todas as tropas do distrito de Petrogrado – e S. S. Kamenev – comandante-em-chefe do Exército Vermelho –, Trotsky assina um ultimato exigindo a capitulação dos amotinados em 24 horas e sem condições:

O governo operário e camponês ordena a Kronstadt que coloque, sem demora, Kronstadt e os navios amotinados à disposição da República Soviética. Ordeno pois, a todos aqueles que levantaram a mão contra a pátria socialista, que deponham imediatamente as armas, que desarmem os que se obstinam e que entreguem-nos às autoridades soviéticas, que libertem imediatamente os comissários e os representantes do poder. Somente aqueles que se renderem sem condições poderão contar com a clemência da República Soviética. Ao mesmo tempo, dou ordens para a preparação do esmagamento da rebelião e dos amotinados pela força armada. A responsabilidade pela desgraça que se abater sobre a população pacífica repousará inteiramente sobre os ombros dos insurrectos. A presente advertência é a última. (ARVON: 1984, 60)

Além deste ultimato, foi enviado também uma mensagem da autoria de Zinoviev que, ao contrário do escrito de Trotsky, insulta violentamente os revoltosos, dizendo que caso não se rendessem seriam cassados como perdizes. O espanto com tal mensagem seria maior se não fosse da mesma autoria do homem que, para pressionar os marinheiros insurrectos, fez de reféns seus familiares.

Como última tentativa de acabar pacificamente com o incidente, os anarquistas Alexandre Berkman, Emma Goldman, Perkus e Petrovsky, que assistiam impotentes de dentro do Soviete de Petrogrado à evolução dos acontecimentos, enviaram a Zinoviev uma carta pedindo que se tentasse um acordo pacífico, "revolucionário e fraternal" (ARVON: 1984, 62). No entanto, pouco resultado trouxe esta carta, já que mesmo Petrogrado, cedendo à negociação e disposta a mandar uma delegação apartidária, não recebe resposta positiva de Kronstadt. Esta, talvez crente de estar em posição privilegiada, afirma com certa insolência não acreditar no apartidarismo dos delegados e exige que estes sejam escolhidos sob os olhos de observadores kronstadinos. Entendido a resposta como um termo de não-aceitação, os ataques se iniciam em 7 de março, inicialmente como um aviso.
 

A situação militar de Kronstadt é no mínimo triste e a vitória utópica. Os fortes presentes na ilha projetados para atacar um inimigo em alto mar se mostram pouco úteis, assim como o canhão da fortaleza de Kronstadt que, apesar de ser de longo alcance, é incapaz de atingir Petrogrado. Os dois navios de linha, Petropavlovsk e Sebastopol, possuidores de doze peças de calibre 305 cada um, se apresentam inutilizados: presos ao gelo lado a lado, miram um no outro. Não bastando estas limitações, os efetivos da base se encontravam bastante reduzidos, contando apenas com 13000 marinheiros e soldados, somando ainda 2000 civis recrutados entre a população local. 

Com pouca munição e granadas, falta de vestimentas quentes e sapatos de inverno, víveres racionados que rapidamente se esgotariam, a revolta encontra-se condenada em seus primeiros dias.

Na madrugada de 8 de março, sob uma espessa neblina, as tropas comunistas atacaram vestindo roupas brancas que as tornavam quase imperceptíveis. Porém, quando avistados ,foram massacrados através do gelo fendido pelas balas dos rebeldes, que fazem 800 prisioneiros. Junto aos bombardeios que prosseguiam enfraquecendo a fortaleza, colaborou também a abertura do X Congresso do Partido Comunista, que após as falas de Kamenev e Trotsky afirmando o perigo da revolta, perdeu um pouco da sua importância, já que 140 delegados deixaram suas cadeiras e marcharam para a cidade a fim de acabar com o levante, como conta E. H. Carr (CARR: 1974, 294-295; 2o vol.). As palavras de Lênin também tiveram papel fundamental na união do partido contra a revolta: "Temos gasto muito tempo em discussões e tenho que dizer que agora é muitíssimo melhor ‘discutir com fuzis’ que com teses de oposição. Não necessitamos de oposições, camaradas, não é o momento disso. Deste lado ou do outro – com um fuzil, não com oposição." (Lênin, Sochineniya, XXVI, 227 - In, CARR: 1974, 216; 1o vol.)

A partir de 9 de março, todos os sonhos de vitória dos kronstadinos (se algum dia existiu algum!) se dissipam junto com os bombardeios da aviação vermelha e a votação da NEP no dia 15, acabando com o que restava das reivindicações de inspiração econômica dos marinheiros. Uma semana depois, durante o sepultamento dos até então poucos mortos, Kronstadt sofreu um incessante bombardeio anunciador dos futuros ataques. Na madrugada do dia seguinte o Exército Vermelho desferiu o derradeiro ataque. Novamente com roupas brancas, as tropas comunistas tomam o controle de sete fortes no norte da ilha de Kotlin e após duros combates rendem-se também os fortes de Totlebem e Krasnoarnets. Um grupo vindo do sul, da base de Oranienbaum atacou a cidade em três colunas, enquanto uma quarta dirigiu-se para a porta de Petrogrado, por onde mais tarde passariam todos os combatentes vermelhos. Na noite de 17 de março, após alguns combates urbanos, a cidade é tomada. Durante esta mesma noite onze membros do Comitê Revolucionário Provisório fogem para a Finlândia e outros cinco são feitos prisioneiros. Termina a 18 de março de 1921 a Revolta de Kronstadt deixando, segundo Daniel Aarão Reis Filho, 12 mil mortos e feridos de ambos os lados, e mais de 2500 marinheiros presos e posteriormente deportados ou fuzilados (REIS FILHO: 1983, 13).

Após quinze poucos dias acaba, não a maior nem a mais importante, mas talvez a mais manipulada e ilustrativa revolta da jovem República Soviética. Nascida da destruição da Guerra Civil e do Comunismo de Guerra, pedindo por melhores condições de vida que abraçavam tanto a causa dos marinheiros como dos citadinos e camponeses, a sublevação de Kronstadt serve como espelho para a situação russa como um todo e que só viria a se modificar com a NEP. Segundo o historiador Carr, "os primeiros meses de 1921 trouxeram a crise interna mais séria da história soviética desde o verão de 1918. O final da guerra civil revelou a total dimensão das perdas e da destruição conseqüentes, e soltou os freios que normalmente a lealdade impõe na guerra; o descontentamento com o regime se estendeu pela primeira vez fora dos círculos políticos e se expressou em alta voz, atingindo os camponeses e operários. A sublevação de Kronstadt do início de março de 1921 foi expressão e símbolo desta situação." (CARR: 1974, 193) No entanto, o pedido de "democracia", ou melhor, o fim da ditadura do Partido Comunista e a participação de anarquistas e de socialistas revolucionários de esquerda nunca se concretizou; rendeu apenas à revolta o rótulo de "contra-revolução desejosa de instaurar a ditadura da burguesia" (ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA URSS: 1960, 268) e "Kronstadt, a branca", ao contrário dos ideais de "Terceira Revolução".


Bibliografia