A História que trai a História
Ynaê Lopes dos Santos
3º Ano - História/USP
ynae@klepsidra.net
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Esse texto aqui apresentado foi feito especialmente para o primeiro aniversário da Revista Klepsidra; e como os demais, esse texto se propõem a pensar a história. E talvez por essa mesma razão que o seu "parto" tenha sido tão dificultoso: aqui estarão expressas algumas das minhas angústias e divagações sobre a nossa atriz principal. Como já dizia o poeta Fernando Pessoa : "Os deuses são deuses porque não se pensam.", e justamente o ato de pensar que não nos deixa subir ao Olimpo, também faz com que o homem viva um passo do chão.

Mas voltemos à história, que no final das contas é o grande espetáculo ao qual esse texto se refere. Afinal de contas, do que se trata a história? Qual é a sua função?

As aflições e desejos das pessoas que se aventuram no curso de história são os mais diversos possíveis, basta atentarmos para os caminhos conseqüentes deles. No entanto, existe algo em comum entre todas essas pessoas, algo que cria laços e principalmente que identifica. É justamente sobre essa identidade que se colocam algumas das minhas principais angústias; na realidade muito mais do com que a as pessoas se identificam, a questão é o porque que essa identificação acontece.

A identificação, que muitas vezes parece pertencer muito mais ao campo da psicologia do que da história, já foi muito discutida por historiadores de todas as épocas, desde os positivistas que acreditavam ser o historiador apenas mais um cientista, e que deveria cumprir seu papel assim como um químico, como os presentistas que assumem por completo que a forma de fazer, e de se ver a história é definido do começo ao fim pelo presente no qual viveu o historiador veículo por qual a história muitas vezes se expressa. Na verdade o principal problema está no fato de que no estudo de história, o homem é ao mesmo tempo sujeito e objeto de estudo, o que de qualquer jeito desemboca numa identificação imediata com parte da história. Mas será que um historiador pode se dar a tal luxo? Por que uma identificação presume que houve uma determinada escolha entre outras demais. Até que ponto a construção histórica não prejudica a própria história?

São poucos os historiadores que se atrevem a estudar a antiguidade Chinesa ou o mundo Persa, mas em compensação são poucos os historiadores que não sabe como e porque a Revolução Francesa se deu.

A Revolução Francesa: marco da historiografia européia
É claro que o principal responsável disso é a matriz eurocêntrica que embasa todo o Ocidente, e muitas vezes parte do oriente, e que a forma que fazemos história esta vinculada com a nossa formação, que claramente tem não só raízes, como também folhas européias. Mas será que não está na hora de transcendermos essa nossa formação em prol de algo muito maior que poderíamos chamar de história?
Por muito tempo essas questões atordoaram a minha cabeça - principalmente pelo fato de ter chegado ao meio de meu curso e nunca ter ouvido falar sobre qualquer sociedade oriental e saber que dificilmente ouvirei - e me fizeram desacreditar e inclusive desmerecer não só o curso de história, mas a minha própria concepção no ser humano.

Num primeiro momento eu achei que se tratasse de uma espécie de modismo muito comum no mundo historiográfico. No segundo momento supus que a questão fosse antes de tudo política, pois afinal de contas, "que diferença faz para a atual conjuntura brasileira saber como se deu a decadência da civilização Macedônica?". Mas agora eu cheguei ao terceiro e (talvez) último estágio: tudo não passa de uma questão de identidade: o historiador ou estudante de história vai atrás daquilo que se identifica, que faz se sentir parte do mundo, e como já foi dito anteriormente essas escolhas que podemos classificar como tendenciosas nada mais são do que a construção histórica do individuo.Mas também a outra questão: porque o homem "moderno" não consegue transpor as barreiras do Ocidentalizo e mergulhar no que podemos chamar de "verdadeira história" ou "história total?" Muitas vezes me parece muito fácil trabalhar com aquilo que lhe é próximo, pois o de fora, o outro, assustam o homem.

O livro de A.Todorov " A Conquista da América e a questão do outro"trabalha muito com a questão da identidade e do reconhecimento do outro num determinado período histórico que é a descoberta da América e a criação do Novo Mundo. Mas será que o europeu realmente criou um novo mundo ou simplesmente transpôs para a América todo o seu imaginário, a sua utopia claro que devidamente adaptado às realidades locais. A América antes de tudo, se transforma no paraíso terrestre e ao se transformar nisso ela perde o que lhe é caracterítisco, pois assume os desejos de outrem.

A experiência acadêmica tem mostrado que toda a história ocidental não consegue descer do seu ego é reconhecer o outro, não existe a história dos vencidos, e por isso chego a afirmar que a América é o espelho da Europa, ou seja, é a sua imagem invertida. Por mais multifacetadas, multiétnicas que ambas sejam, os paradigmas e modelos utilizados no processo da construção identitária e conseqüentemente histórica é o mesmo, tem o mesmo molde. O que há de diferente nas duas acaba se enquadrando como "exótico", vide a questão indígena na América, que acaba por ser estudada, quando muito pelos antropólogos e não por historiadores.

Outro exemplo que ilustra esse debate é o exemplo da África, e nesse caso a escolha por não estuda-la (ou não como se deveria) se dá por um simples motivo: aparentemente, a África é tudo aquilo que o nosso homem "moderno" não quer ser, então por que entender aquele caos total? No que a África pode contribuir para a economia mundial? E veja que no caso da África a questão que parece ser meramente política tem seu fundo identitário extremamente forte.

Muitos outros exemplos podiam ser citados, mas acho que o texto ficaria um tanto quanto repetitivo, e pedante. O que quero que fique claro é que de forma nenhuma essa texto vem com o intuito de clamar pela história dos esquecidos e das vítimas, não. Esse texto propõe questões que tem que ser pensadas pelos historiadores de hoje, do presente, que não podem desconsiderar a sua identidade na hora da fazer a sua escolha, mas que também não pode deixar que a história traia a própria história, pois, na minha concepção, a história faz mais sentido se for una.