"Cidadão Kane", o melhor filme de todos os tempos. Ou não?
Representações da Realidade e História

O que define uma obra de arte? Quais são os os critérios para se decidir qual obra é mais interessante, mais profunda ou melhor do que outra, seja ela cinematográfica, literária, musical? Mesmo a avaliação mais subjetiva de todas, a do "gosto", necessita de uma explicação: o que determina que tantas e tais pessoas apreciem determinada obra e outras não? e como estes "gostos" variam conforme o tempo e por quais motivos? Para um Historiador, cuja essência de trabalho implica o manuseio de "documentos", isto é, fenômenos da realidade que estejam suficientemente expressos, tais questões são ligeiramente modificadas, mas, na prática, o sentido é o mesmo: afinal, o que faz um veículo ser mais válido historicamente do que outro? Ou se, por acaso, qualquer documento for considerado igualmente importante, como lidar então com esta verdadeira floresta infinita de material? Tem que haver uma escolha. Creio que é óbvio, por exemplo, que ninguém discorda da importância de um filme ou do Cinema em geral. Como discernir, portanto, qual o grau de veracidade no meio de tantas cenas?, como relaciona-las com a realidade que as cerca?, como separar essa, vamos dizer assim, "coisa real" das "coisas inventadas" ou "imaginadas"? Quem é o culpado por essa zorra? O quê, afinal de contas, História tem a ver com isso?

Tenho plena consciência de que estou lidando com termos perigosos e escorregadios: Realidade, Fenômenos, Documento Histórico, Zorra. Será necessário explicitar cada um destes conceitos, nem que seja pelo menos para estabelecer uma base comum para a discussão. O meu objetivo final é estabelecer um fundamento para as seguintes afirmações: 1) A Realidade, tal como a concebemos normalmente, existe. O Cinema é, portanto, uma espécie de interlocutor entre a vida real e o imaginário; 2) A Realidade, tal como a concebemos pelo senso comum, não existe. O Cinema, neste sentido, é somente mais um fator de alienação e de desagregação de um imaginário construído e também, ao contrário e ao mesmo tempo, um excelente instrumento de trabalho conceitual; 3) As duas afirmações, apesar de excludentes, são, devem ser necessariamente, complementares. Utilizando estas afirmações, responderíamos à pergunta do título da seguinte forma: 1) "CIDADÃO KANE" é, sem dúvida, o melhor filme de todos os tempos; 2) "CIDADÃO não é o melhor filme (e nem poderia ser); 3) as duas respostas são válidas e uma explica a outra e 4) Isso faz parte integral do universo do Historiador!

Pretendo fazer isso através de três momentos: primeiro, entender os conceitos (principalmente, Realidade, Fenômeno); em seguida, relaciona-los com a questão do Cinema e, finalmente, com a História.

Pois bem, vamos lá!
 

ENTRE ESCRAVIDÃO E ESCRAVIDÃO – REPRESENTAÇÕES DA REALIDADE – II

Destaquemos uma notícia qualquer de jornal. Algo que seja simples mas ao mesmo tempo, essencial para a nossa existência de tal forma que a reconheçamos de imediato como parte integrante da nossa realidade comum e cotidiana. Por exemplo: "Romário Cortado da Seleção". Simples, direta e objetiva (embora, vamos e convenhamos, a importância dessa notícia seja meio relativa), uma afirmação fechada em si e perfeitamente inteligível. O senso comum se sente confortável e tranqüilo. O senso comum, no entanto, é um perigo para o Historiador. Esconde uma série complexa de relações atrás de sua aparente simplicidade, limita o seu entendimento quase até o limite da falsidade. Entendamo-nos: o enunciado pode muito bem ser verdadeiro e o material em si concreto e real mas o enunciado, somente, é limitado e pode levar a erros se for considerado como uma totalidade. Isto é, para compreendermos globalmente o sentido, precisamos realizar um trabalho gigantesco de construção de pensamentos interrelacionados numa seqüência infinita. Precisamos saber o que é Romário, o que é Cortado e o que significa Seleção. Mas isso não basta: precisamos avançar e saber o que é futebol, o que é jogo, bola, campo, movimento, atividade humana, Ser Humano, Existência ... O enunciado não nos fornece nada disso, é impossível.

Apesar de parecer óbvio (ululante, como diria Nelson Rodrigues), agimos na verdade como se não fosse. Quando nos deparamos com a frase: "A escravidão foi abolida com a assinatura da Lei Áurea" e ficamos por isso mesmo, estamos à beira de uma falsa afirmação. Afinal, de qual escravidão está se referindo? À formal (a assinatura e um papel)?, à socio-econômica (já que o trabalho escravo, na época, estava praticamente se esgotando)?, à existencialista (condição do Homem enquanto Ser explorado por outro Homem)? Há uma resposta diferente e coerente para cada pergunta! e partindo do mesmo enunciado. A pergunta, portanto, não é se as respostas são verdadeiras ou falsas; colocada desse jeito, há um equívoco; todas são válidas porque representam lados diferenciados dos mesmos dados apesar de muitas vezes parecerem contraditórios. A questão é: de qual realidade estamos falando?

Haveria? então, várias realidades diferentes, múltiplas e transitórias? Nem tanto. Se uma pedra cair na minha cabeça, certamente vou me machucar. O acontecimento seria único, a pedra seria real, mas o enunciado, não! É essa a especificidade da existência do Historiador: a não-materialidade do nosso trabalho. Não podemos pesar a Revolução Francesa nem cheira-la, amassá-la ou estica-la. Só podemos pensa-la, o que implica trabalhos diferenciados conforme o ângulo de visão com que seja encarada. A Realidade (com maiúscula) é única; o trabalho de compreensão, não.

Como podemos chegar, portanto, a um consenso mínimo que satisfaça, pelo menos um tanto, à várias questões? Ao meu ver, não podemos porque na mesma medida em que estabelecemos este consenso, matamos tudo o que for verídico. A Realidade é viva, inconstante, mutável. Varia conforme o tipo de percepção envolvida, a época em que a pesquisa é realizada, o próprio modo de conduzir a pesquisa.

Poderíamos chegar a uma conclusãozinha: método de entendimento da realidade tem que levar em conta alguns pressupostos, principalmente a relatividade dos fatos e sua eterna transformação.
 

COMO ENTENDER A IDADE MÉDIA.
REPRESENTAÇÕES DA REALIDADE - III

Não se pode, porém, cair em um outro extremo e considerarmos o mundo como simples reflexo da absoluta relatividade geral. É um erro comum de toda a escola de pensamento idealista que está voltando com força total após as múltiplas reviravoltas ocorridas nestes últimos anos. Como disse, a realidade é concreta mas os enunciados, não. Nossos principais instrumentos de trabalho, o pensamento e a razão também não são concretos, por isso, permitem uma extrema elasticidade de tal forma que nós, cientistas-Historiadores, não ficamos muito à vontade. Precisamos nos sentir em terra firme e por causa disso tentamos resgatar o "passado" de todas as maneiras possíveis. Como esse passado não pode ser tocado, utilizamos substitutos que, esperamos, sejam os mais fiéis possíveis daquilo que imaginamos ser, ou tenha sido, a realidade.

São estes substitutos que estou designando como REPRESENTAÇÕES DA REALIDADE. Depoimentos, livros, objetos, imagens, pensamentos, a variedade é imensa, sabemos disso, e tudo é válido para auxiliar nosso serviço. Nesta nossa Era das Imagens, os filmes são uma dessas Representações por excelência.
 

Antes de passarmos para a questão do Cinema propriamente dito, no entanto, é indispensável passarmos a limpo um perigo muito fácil de acontecer: a de confundirmos o signo com o significante, a representação pelo representado. Isso não é exatamente um problema, na medida em que é uma tendência natural do ser humano enquanto ser que se comunica e faz isso através de signos. Esta "acomodação" é necessária, pois caso contrário, seria muito difícil compreendermos as milhares de informações que recebemos a todo instante. O que nós, como pensadores de História, temos que tomar o extremo cuidado é o de não confundir um com o outro.

Essa questão é magistralmente demonstrada no livro "PASSADO IMPERFEITO – A História no Cinema" (Ed. Record, 1997) que cabe à perfeição no que nos interessa. Este livro, através de artigos de vários intelectuais discute a forma como a História é tratada pelo Cinema, principalmente o norte-americano, via Hollywood, e em como filmes "históricos" ou com uma certa pretensão de fundamentação histórica, conseguem construir de tal forma suas obras que acabam por fazer confundir por fim toda a sua construção com a História em si. A formação dos Estados Unidos através da visão de Grifith e John Ford (pioneiros, Lincoln e companhia), a escravidão da Antiguidade pelos olhos de Kubrick, a guerra do Vietnã por Oliver Stone, a 2ª Grande Guerra com a imagem e a cara de George C. Scott, Paul Newman, etc, etc.


David Wark Grifith
Há muitos caminhos de estudos possíveis a partir disso. Gostaria de citar dois que vêm à minha mente de imediato: 1) a questão da manipulação ideológica para os interesses de determinada classe social e 2) a construção dessa imagem no Brasil e como isso se relaciona com o próprio projeto de formação de uma identidade nacional (vide Cinema Novo, Vera Cruz).

Há um artigo particularmente interessante: o de GERDA LERNER discute a imagem de JOANA D'ARC através da comparação de três filmes, dois americanos e um europeu. Os filmes americanos, hollywoodianos, de diretores famosos (Victor Fleming e Oto Preminger), com atrizes consagradas mundialmente (Ingrid Bergman e Jean Seberg), realizados com a preocupação de reproduzir fielmente a época através de detalhes de figurinos, cenários, locações, não seriam, no entanto, mais importantes "historicamente" do que o filme de Carl Dreyer, de 1928, mudo, preto-e-branco, pois este estaria mais preocupado em criar a atmosfera de terror psicológico da tortura medieval nos últimos dias de vida de Joana. Este teria retratado, assim, segundo Lerner, a verdadeira Idade Média. E sem nenhuma necessidade de uma grande produção.


Cia. Vera Cruz de Cinema

Ingrid Bergman
Entre a Realidade e a Representação, entre Welles e KANE, entre a Idade Média "real" e suas conseqüentes "JOANAs DAR’Cs", há um espaço infinito.
 
 

POR FIM, A HISTÓRIA CONSTRUÍDA.
REPRESENTAÇÕES DA REALIDADE – IV

Portanto, o que separa, de verdade, a REALIDADE e suas REPRESENTAÇÕES, ao meu ver, é que estas são "construídas" enquanto que a Realidade, não.

Podemos dizer, tranqüilamente que CIDADÃO KANE é o melhor filme de todos os tempos, porque representa uma das melhores construções realizadas por uma pessoa que abarca e satisfaz, de um modo lúdico, todos os nossos sentidos, constituindo assim uma visão privilegiada de um determinado momento histórico (incluindo, como "momento", não só o narrado pelo filme quanto, e talvez principalmente, o da realização das filmagens). Não estamos relacionando, nesse sentido, nenhuma questão dos aspectos de avanço técnico ou tecnológico (improvisação de máquinas novas, iluminação, etc.); o que nos interessa é o modo como Welles apreende a sua realidade, a pensa e repensa, e, por fim, a formata. Este trabalho ainda é impactante, apesar de ter sido tão copiado.

Ora, por "Construção", entendemos basicamente que esse processo é refeito continuamente, tudo é retrabalhado, tudo é reconstruído, pois como dizemos acima, o entendimento depende, muito mais do que o objeto em estudo, do modo como a pesquisa é realizada. O entendimento muda porque as pessoas mudam, as circunstâncias se modificam, o que era importante num determinado instante não é mais em outros ou para outras classes sociais ou determinados sistema econômicos, sociais, filosóficos, etc. Neste sentido, por mais iluminada que seja a visão de Welles em KANE, ela é somente uma. A verdadeira síntese se realiza, então, quando se contrapõe a tese apresentada por Welles à antítese pessoal de cada um. O trabalho resultante é, como não podia deixar de ser, extremamente diferenciado. Por isso, KANE não é, não poderia ser e é muito bom que não seja, o Melhor Filme pois qualquer absolutismo é, por si mesmo, falso, a não ser que se delimite antes e de forma precisa de qual ponto de vista está sendo analisado.

Enfim, o CINEMA é um instrumento maravilhoso tanto para o simples espectador que busca diversão e lazer, quanto para o estudioso (seja o Historiador ou não), desde que sejam levadas em consideração algumas premissas fundamentais: