Filhos do Romantismo

Rodrigo da Silva
3º Ano - História/USP
rodrigo@klepsidra.net
romantismo.rtf - 24KB

"Nossa sociedade é inquieta. O próprio fato de que ela se volta o tempo todo na direção de sua memória é uma prova disso."

Georges Duby
 
 

Em 1894 H. G. Wells, ficcionista inglês, terminava de escrever o livro "A Máquina do Tempo". O trabalho havia tido uma longa gestação de sete anos: desde o verão de 1887 Wells engendrava a história do viajante do tempo.
 
O livro como literatura é pouco representativo, não constitui um clássico da literatura inglesa nem tampouco universal, é uma história para adolescentes, mesmo com defensores ferrenhos como Jorge Luís Borges. Entretanto, a primeira parte da narrativa se não é brilhante é ao menos inquietante. O Viajante do Tempo ao receber seus convidados em sua confortável casa passa a lhes demonstrar a viabilidade da viagem temporal. Sua teoria é a de que existem quatro dimensões, sendo três visíveis: a largura, a altura e a profundidade. Em um desenho numa folha de papel, no entanto, só podem existir duas: a largura e a altura. Porém com um simples recurso artístico a terceira dimensão se faz visível, ou ao menos nossos olhos assim o pensarão. Sendo assim sempre há uma próxima dimensão, de vislumbre possível e provável a partir da alteração de alguns elementos da realidade.

Para o Viajante o tempo seria a quarta dimensão. A explicação é simples: todo objeto possui uma trajetória ao longo do tempo, ou seja, um corpo existe em função de tempo e espaço. Uma pessoa que à uma hora da tarde está em uma praça e às duas esta em uma igreja escreveu uma trajetória ao longo do tempo decorrido, há um traçado ou uma forma deixada por tal deslocamento, assim como um gráfico perdido no espaço. Portanto, se tal dimensão existe, é perfeitamente possível viajar no tempo.


Jorge Luís Borges

A ficção de Wells mais do que simples entretenimento revela-nos um dos sonhos mais constantes da criatura humana. Viajar no tempo até agora não passa de especulação; científicamente ela transita entre a completa loucura e a viabilidade teórica, contudo o que nos importa não são as discussões físicas sobre o tema, mas a dimensão humana da busca do passado e do vislumbre do futuro.

A essência de nossa história é o desconforto. Absolutamente é impossível que alguém se lance ao passado por simples curiosidade ou distração, como na frase de Duby é certo que nossa sociedade, ou o homem de nossa sociedade, vive em constante desconforto e dúvida. Isso é o alimento da ciência histórica.
 

Então, se nossa ciência é alimentada de elementos inerentes aos humanos tais como o medo, a incerteza e a dúvida, é contraditório ou mesmo mentiroso que nos remetamos à história dos gregos como o germe da mesma. Nos resta identificar nossa filiação, ao menos a mais recente.

Para tal mister, talvez seja interessante analisar e buscar a origem a partir da realidade imediata, seguindo então num sentido inverso ao que se poderia esperar. Assim partamos da seguinte pergunta: Qual é a "boa" história?

Aspectos fundamentais da sociedade grega clássica

Sem dúvida a resposta seria: A história mais fiel e correta dentre todas, esta é a boa história. A história confiável, séria e responsável. Entretanto será que esta é a resposta? Será que isto não são os resultados esperados e não a essência da história? Me arrisco a dizer que estes elementos nada mais são do que o resultado da execução de outro princípio, e este muito mais radical.
 

Alexandre
Herculano
No século dezenove a história se confundia com a literatura ficcional. Autores como Alexandre Herculano escreveram tanto história quanto romances, se formos radicais ainda hoje tais ofícios se misturam, não é raro vermos historiadores romancistas e romancistas historiadores, com resultados variados é verdade, sem no entanto deixar de ser um fato. Isto obviamente nos leva a constatação de que ambos ofícios andam lado à lado, bem como todas as ciências humanas, em maior ou menor grau. Assim sendo temos uma pista: literatura e história se cruzam o tempo todo, e isto a partir de algum momento, "em função de tempo e espaço" criam uma trajetória.

A história que praticamos ainda possuí um sotaque francês, no bom sentido. Significa que ela é filha do romantismo francês do século dezenove, significa que guardamos no íntimo um elemento que nasceu neste momento; este elemento, é claro, está significativamente alterado, porém presente. O elemento essencial do qual falamos é obviamente o romantismo nesta versão mais recente, já que na busca de suas raízes nos lançaríamos à períodos bem anteriores.

O fato de reconhecermos tal filiação não nos faz menos brasileiros, ou aos portugueses menos portugueses, ou aos ingleses menos ingleses, é um fato, não uma questão de nacionalismo. Desconfio que o elemento alterado, alquimizado, constitui em um ponto fundamental, senão primordial, para a "boa história".

A relação do historiador com seu objeto de estudo não pode ser fria, a situação é de fácil entendimento: nos debruçamos sobre a trajetória de seres que existiram em um determinado local durante um determinado período de tempo. "Em função de tempo e espaço". A rigor nos acostumamos a transitar por entre gente morta, morta ao menos físicamente, já que a realidade enquanto construção é feita destes "tijolos humanos". Uma dura constatação à qual todo historiador chega cedo ou tarde é a de que mais dia menos dia ele será mais um tijolo na parede da história; sendo assim como se manter frio, calculista e impassível diante do quadro?

A história se faz de paixão, a "boa história" é feita de paixão, e nisto nos deteremos a explicar.

O que move o historiador é uma espécie de exorcismo pessoal, à medida que o tempo prossegue, aquele que estuda a história passa a compreender suas preferências, suas filiações individuais. O que faz com que determinada pessoa se volte para a história da cultura e não para a história política, para a história econômica e não a social? Estas raízes só podem ser encontradas no universo pessoal do historiador, e repito, com o tempo ele perceberá o quanto disso é exorcismo. Estudar a história é afugentar os fantasmas das dúvidas, é afastar os pesadelos da incompreensão, é passional. Isto, no entanto, não significa de forma alguma que tal trabalho não seja legítimo ou confiável, aposto que um físico ou um químico também se movem pelos mesmos motivos, ou minimamente semelhantes.

Partindo deste princípio podemos reafirmar o aspecto romântico do estudo de história, e aqui vale abrir um parêntese: Romântico e passional não deve ser entendido no senso comum das palavras. Este romantismo nada tem a ver com sensualidade, nem tampouco a paixão com declarações de amor, o sentido das palavras deve atingir outro alvo.

O historiador se apaixona o tempo todo, mas como compreender tal situação se o seu objeto de paixão não existe fisicamente? Como se pode amar e se dedicar à algo que já não existe, que foi corroído pela marcha segura e irreversível do tempo? É a partir deste fato que devemos compreender esta "paixão" pela história. Em certos momentos é este fator que funciona como lastro do historiador "ser humano", sem ele se desistiria à menor frustração diante dos obstáculos.

Outra tarefa preciosa para o entendimento do ofício e do "romantismo" do historiador é se lançar em sua unidade de trabalho. Como em uma brincadeira, sem maiores conseqüências, podemos mergulhar "um dedo" na "unidade de medida" do historiador. Assim como o físico, o químico ou o engenheiro fazem uso de normatizações para dar cabo de seu trabalho, também o historiador se vê na necessidade de sincronizar e normatizar seu ofício. Em outras ciências as forças são medidas em "joules", "watts", "decibéis" e uma infinidade de unidades, variantes de acordo com a "matéria" medida. Pois quais seriam as medidas, ou as unidades, da história?

Primeiramente cabe-nos determinar qual é a "força" que queremos calcular; sendo assim temos que definir qual é a "matéria" estudada, ou melhor dizendo, qual é a matéria sobre a qual se dão os fenômenos estudados. E se esta matéria não existisse como tal? E se esta matéria fosse algo intangível, ou ilusório, a ciência que trabalha sobre ela ou as unidades de trabalho seriam menos verdadeiras?
Kant
Para Kant o homem possuí dois níveis de percepção, ou sensibilidade: um externo e outro interno. O externo seria composto pela nossa noção de espaço, ou seja, de localidade, de deslocamento; o interno por sua vez seria composto pela nossa percepção de tempo, que completaria a primeira dimensão da sensibilidade. Para Norbert Elias o Tempo não seria nada além da sincronização das atividades humanas.
A idéia de Elias é de comprovação empírica: a noção de tempo se altera de "tempos em tempos", ou seja, nossa percepção de tempo, nosso "nível interno de sensibilidade", altera em função de sua própria existência, altera em função das atividades exercidas pelo homem e pela sua mutação ao longo da existência da civilização. O Tempo enquanto "grandeza" ou "força" não existe. O que determinamos como princípio ou fim, na realidade, não são nem princípio nem fim de nada, são apenas "fenômenos" efêmeros, pois o tempo não existe em função deles. Nem a existência da humanidade, nem mesmo a do universo, podem nos dar a dimensão do tempo, ele independe de qualquer destes fatores.

Acontece que o ser humano executa tarefas diárias e, em grande parte, coletivas. Desta forma, teve-se que coordenar os esforços para que não se plantasse de noite e dormisse de dia, para que não houvessem mais desencontros. As "unidades" de medição do Tempo nasceram assim da pura necessidade cotidiana do homem: horas, dias, semanas, anos, séculos, décadas e segundos alterando de acordo com a conveniência de cada povo. Mera convenção para algo que não existe. Com uma simples comparação tudo isto se torna visível e compreensível: cada cultura escolhe seus símbolos para representar o Tempo e a passagem do homem por este.
 
Em certos casos, o Tempo é relacionado às idades do próprio homem. Os Celtas, por exemplo, apresentavam Ceridwen, sua Deusa maior, sob três formas: a jovem, a mulher e a velha. A jovem "geradora" do homem e do mundo, a "noiva"; a mulher adulta que era responsável pela "manutenção" da criação e a velha responsável pelo fim do ciclo, pela morte. Para os gregos Chronos, o "tempo", era o Deus primordial ao lado de Réia, a "terra", e pai de Zeus. No candomblé Oxalá, orixá da criação, também aparece sob duas formas: Oxaguiã, o "jovem", e Oxalufã, o "velho". Nossa sociedade, por sua vez, associou o tempo à um instrumento criado para a sincronização das atividades. O elemento que hoje é invocado, sempre que se faz referência ao Tempo, é o relógio: de pulso, de parede, grandes ou pequenos eles sempre estão lá.
Uma representação do deus grego Zeus

Salvador Dalí, pintor espanhol, empregou exaustivamente a imagem do relógio, brincou com os conceitos de Tempo, história e memória, e nos lembra permanentemente em seus quadros da importância que tais elementos tem em nossa sociedade. Agora, o que pode se extrair destas diferenças? 
 

Talvez o mais representativo seja o fato de que a imagem do Tempo do homem antigo (excetuando-se o caso do candomblé, onde a ligação se dá em outra esfera e não pertence ao mundo antigo, ao menos em sua permanência, possivelmente em sua gênese) para nós evoluiu da sua associação com fenômenos humanos, e/ou naturais, para a sincronização das atividades humanas, sobretudo as produtivas. Não podemos jamais nos esquecer que a vida da maioria dos seres humanos hoje é regida por "horários" fixos "medidos" pelos relógios, e calculando-se em cima disso a lucratividade e a produtividade das tarefas empreendidas. Esta mudança está intimamente relacionada às alterações nos modos de produção do homem e de sua relação com o meio.

Salvador Dalí: A persistência da memória

Contudo, não é esta a nossa discussão, o que nos interessa é ver como é de fácil percepção a alteração na imagem que o homem tem do "Tempo", como isto fica claro quando olhamos e nos comparamos com outras culturas. Enfim, na maioria das vezes, para não dizer todas, em que falamos de "Tempo" não estamos falando além de sincronização de atividades ou da duração de fenômenos.
 
Alexandre, o Grande
Contudo quem pode negar que existiu um homem chamado Alexandre, cuja definição passou a ser "O Grande"? Quem pode negar que houve e há escravidão? Quem pode negar que se guerreou e se fez a paz, e novamente se guerreou? Onde está tudo isto então? Perdido no tempo não é a resposta correta já que este não existe, não se pode perder algo naquilo que não existe. O que se fez então, no que se transformaram os fenômenos, os eventos, os processos?

Independente das unidades de medida as quais empregamos tudo isso se transformou em legado, realidade ou história para os mais conservadores. Não uma história morta e distante, mas uma história que palpita no peito do mundo, uma história que pode ser vista em cada esquina, em cada casa, em cada expressão: é "o muro da história". É uma construção que vem se alterando em direção ao infinito, agora, amanhã, ontem; não importa a medida que empreguemos, a realidade, neste tocante, é imutável! Se admitimos que os fatos, que costumamos dizer que ficaram no passado, não podem ter se perdido no Tempo pelo que já foi dito, então estes fatos, estas "histórias", estes eventos, continuam a existir transmutados em realidade. Se nada se perde, apenas se transforma, a lei é válida igualmente para a história, e sendo assim história não é "o estudo do passado visando compreender o presente" ou vice- versa. 

E o que é a história então? E o que são os historiadores?

A história como ofício é um eterno combate, são "combates pela história". A história é o estudo da trajetória humana, cuja limitação do homem impôs uma necessária normatização, inexistente por natureza.

Em certa medida é como brincar com a noção de tempo e ao mesmo tempo não se prender eternamente a ela. Jorge Luís Borges, escritor argentino, o mesmo que gostava de H. G. Wells, escreveu um conto brilhante que se chamava "Funes, o memorioso". A história é fascinante: Funes possuía uma incrível memória, lembrava-se absolutamente de tudo em seus menores detalhes, das rugas no rosto de uma pessoa, de cada folha de uma árvore, de cada expressão de um homem, de todos os homens que já houvera visto, de cada palavra que se pronunciara. Enfim, Funes vivia de suas memórias. Borges com sua genialidade no entanto refletia: desconfiava que Funes não deveria ser muito inteligente, afinal de contas as idéias, e mesmo a inteligência, passam pela sublimação, abstração, generalização e desconsideração de determinados dados, não se pode viver exclusivamente em função da recordação de fatos. O mesmo pode-se dizer com relação à história.

Obviamente que o ofício impõe toda a seriedade necessária, mas da mesma forma não se pode viver de descrever cada passo dos fiéis em uma procissão, não se pode viver de relembrar e arrolar quantas velas foram empregadas no enterro de determinado rei ou rainha, não se pode ocupar apenas e tão somente em narrar cada conversa de um camponês; não pode ser como um empilhador de supermercado que põe lata sobre lata ou um simples colecionador de objetos que passa todos os dias em seu museu e apenas os contempla, não os questiona. Aí entram as "necessidades" das quais Borges falava, pode-se desconfiar deste tipo de história assim como o escritor argentino desconfiava de Funes. Esquece-se que fazer história em certa medida é "brincar" com esta matéria inexistente que é o tempo, é nela que se revela além da simples contabilidade de um Império, é nela que se revela além da simples retaliação, além da simples intriga, além das quantidades, além, além.....

Não vou dizer qual é a medida do "brincar", cada qual deve saber onde este termina e onde começa a imprudência. Contudo é possível afirmar com segurança que, visto e refletido sobre o que foi anteriormente escrito, nossa história nada tem a ver com os gregos ou mesmo com os cientificistas. Acima das filiações ideológicas de cada escola ou de cada historiador paira a nuvem do romantismo, de um romantismo ligado visceralmente ao ofício da história. Ou pode alguém imaginar a existência e a persistência de uma ciência, sobre tantas incógnitas, se esta não fosse mantida por algo mais do que o simples gosto especulativo?