A presença dos elementos naturais na construção de indentidades, memória e História dos lugares: o caso da insularidade e sua abordagem pela literatura
Vilma Lurdes da Fonseca
Mestranda em História Social - UEM-PR
vilmafonseca@wnet.com.br
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Literatura como fonte e o sentimento insular

Levando em conta que o espaço e a natureza são fatores importantes para a formação de identidades e memórias coletivas, farei uma abordagem, neste artigo, da temática que envolve a vida insular diferenciando-a da vida continental, procurando contudo evitar cair na análise dicotômica que compara elementos insulares com continentais, que poderiam levar-me a uma pesquisa sem a devida profundidade do tema proposto. (Sahlins,1979:180).

Para esta análise, parto do pressuposto de que a literatura é uma importante fonte documental para a pesquisa histórica e que a sua utilização costuma render trabalhos historiográficos de indubitável valor nos mais diversos âmbitos da pesquisa histórica, sendo que, como exemplo para esse tópico temático jamais poderia deixar de referenciar a obra O Campo e a cidade na história e na literatura, de Raymond Williams, na qual ele analisa as transformações ocorridas no campo e na cidade na Inglaterra do período da Revolução Industrial, utilizando como fonte documental a literatura produzida naquele período, ali na Inglaterra.

As pessoas envolvidas nessas transformações repensam suas formas de vida de acordo com as experiências vivenciadas em sua sociedade e, aquelas que se expressam artisticamente, demonstram, com suas sensibilidades, essas mudanças culturais porque, segundo Husserl, mesmo a experiência mais passiva inclui retenção do passado imediato e a antecipação tácita do futuro (Cardoso, l998:47). Utilizando-se da riqueza de informações que a obra literária oferece ao historiador, Raymond Williams pode desenvolver essa obra tão referenciada. Seguindo essa metodologia que valoriza a fonte literária para a análise histórica, procurarei discutir a insularidade através da obra do escritor José Lezama Lima e o caráter insular da cultura cubana e suas fronteiras aquáticas e imaginárias.

Antes de tudo, é necessário destacar que existe uma variada literatura a respeito das diversas ilhas que existem no mapa mundi e na mente das pessoas. Ou seja, a ilha nem sempre é um lugar no mapa mas, muitas vezes, um lugar na mente. Um lugar onde se imagina encontrar tesouros grandiosos, mulheres sensuais, homens viris, animais exóticos, fontes da juventude, aventuras sem fim ou a paz e o sossego que o ser humano deseja em seus momentos de angústia e cansaço.

Mas os sentimentos de quem vive em uma ilha podem representar diferentes comportamentos, embora característicos. Às vezes as pessoas estão felizes porque ali vivem isoladas e conseguem desfrutar dessa situação e, às vezes, sentem-se sufocadas e desejam ir para o mundo continental, sem as fronteiras de água, onde possam respirar ares de liberdade, referindo-se à situação geográfica, como se estivessem impossibilitadas de romper as fronteiras de barco. Nesse caso percebemos que essa fronteira é muito mais imaginária do que física pois, embora sabedor de que existe a balsa, o barco, o avião, ela sente-se atada, prisioneira das águas que o circundam.

Um exemplo desse sentimento dúbio de alegria de ser ilhéu e de ambição pelo mundo continental, encontramos com o depoimento que abre o livro Ilhas e mares, em que seu autor, Antônio Carlos Diegues, autobiograficamente, narra uma experiência, no mínimo, bastante interessante e poética.

"Experimentei a primeira sensação do que significa viver numa ilha quando, ainda criança, atravessei o canal que separa Iguape do continente, para ir estudar fora. Para mim, a travessia daquelas poucas centenas de metros de mar que parecia durar uma eternidade dava início a uma viagem longa de uma vida inteira. Sentado no primeiro banco da jardineira e segurando a mão de meu pai vi desaparecerem as águas do mar Pequeno e, em meio à poeira da estrada , as torres da Igreja Matriz e, finalmente, os picos dos morros tão familiares da ilha. Entre soluços incontidos, invadiu-me a sensação de uma primeira partida, do abandono do meu lugar, da minha família, dos meus amigos com quem jogava bola... À tristeza da separação se ajuntava uma ponta de contentamento, de uma alegria inexplicável de ir pelo mundo, de conhecer o que para mim significava a vastidão de terra habitada pelos "serracimanos", manos de serra-acima, como chamavam os ilhéus-caiçaras as que habitavam o planalto..." (Diegues, 1998: 12) Esses sentimentos individuais podem dar mostras de como o espaço e a natureza implicam na formação de identidades e memórias coletivas. Talvez esse sentimento específico do autor citado não seja unânime, mas podemos inferir que, ao sair de sua ilha, tanto uma criança quanto um adulto, se põem a pensar o seu espaço geográfico, a natureza e a sua cultura. Por isso mesmo é que muitos insulares quando se ausentam de suas ilhas vivem infelizes e desejam voltar para ela um dia, ainda que esta ilha seja Cuba.

Virgílio Piñera, escritor cubano, assim se expressou, demonstrando o que significava, para ele, ser um insular:

"a horrorosa calçada circular,
o tenebroso jogo dos pés sobre a areia circular,
o envenenado movimento do calcanhar que evita o leque do ouriço,
os sinistros manguezais, como um cinturão canceroso,
dão a volta na ilha,
os manguezais e a fétida areia
apertam os rins dos moradores da ilha.
Só se eleva um flamingo absolutamente.
Ninguém pode sair, ninguém pode sair !
A vida do funil e em cima a nata da raiva.
Ninguém pode sair:
o tubarão mais diminuto recusaria transportar um corpo intato.
Ninguém pode sair:
uma uva aquática cai na testa da nativa
que se abana languidamente em uma cadeira de balanço
e ‘ninguém pode sair’ termina no choque das cifras."
(Barreto, 1996:19)
 

A análise de poemas como este poderá demonstrar os sentimentos dos insulares e este é o caso específico de um homem que se sente sufocado pela ilha e deixa explícito seu sentimento. Não significa que todo escritor insular assim se expressa. Evidentemente, muitos deles exaltam os valores naturais de seu habitat ou, ainda, deixam implícitos seus sentimentos de forma que haveremos de, arqueológicamente, procurar desvendar o que ele ocultou em seus versos ou em sua prosa.

Para analisar o fenômeno insular (Diegues, 1998: 50), é necessário lançar mão de um estudo interdisciplinar pois este não está apenas no âmbito da geografia ou da sociologia, também está na antropologia e na psicologia. Dentre os diversos enfoques teórico-metodológicos possíveis para se analisar as sociedades insulares, destacam-se os pontos de vista histórico e antropológico, que se baseiam em três conceitos básicos: a maritimidade, a insularidade e a ilheidade.

A maritimidade diz respeito às práticas econômicas, sociais e simbólicas, onde a presença física do mar não é o fator essencial mas o conjunto das práticas que envolvem o seu viver e esse conceito não existe em todas as sociedades insulares. Ele está presente mais nas ilhas oceânicas em que o mar media as negociações e as relações com outras sociedades insulares ou continentais que fazem com que desempenhem uma dupla maritimidade. A insularidade refere-se à identidade cultural do ilhéu diferenciada do continental, mas é resultante das práticas econômicas e sociais em um espaço limitado, cercado pelo oceano. A ilheidade é um neologismo de origem francesa utilizado para designar as representações simbólicas e imagens decorrentes da insularidade e que se expressam por mitos fundadores das sociedades insulares e lendas que explicam formas de conduta, comportamento, etc.(Diegues, l998: 5l).

Notamos então, segundo o autor mencionado, que as sociedades insulares são diferenciadas de acordo com o seu grau de envolvimento com o mar, as práticas econômicas nele realizadas e a relação com o mundo exterior. Existem sociedades insulares que estão de costas para o mar, ou seja, vivem para o interior, para a agricultura, pecuária, etc e não basicamente do mar.

Antropólogos conceituados como Malinowisk, Firsth e Radcliffe-Brown, apresentam estudos interessantes a respeito da maritimidade de povos insulares com uma série de trabalhos onde eles aplicavam métodos antropológicos, destinados à sociedade em geral, em grupos insulares por estarem em ambientes fechados, propícios ao estudo. Podemos citar "Os Ilhéus de Andaman", de Radcliffe-Brown; "Os Argonautas do pacífico", de Malinowisk; "The Work of the Gods in Ticopia", de Firsth; e mesmo "The Religion of Java", de Geertz.

O que devemos salientar é que existem discussões mais aprofundadas que envolvem essas obras e a temática insular na antropologia que renderia um bom texto à parte. Também há que se destacar que, antes dos antropólogos, as ciências naturais e a Geografia Física, através da biogeografia, já haviam se interessado em estudar as ilhas. O interesse pelo estudo das ilhas talvez resida no fato de que nelas, mesmo que não sejam muito pequenas, as sociedades são menores do que as continentais e isso as torna específicas. Não somente as sociedades humanas mas as mais diversas origens da fauna e da flora são estudadas em ilhas porque:

"Segundo Doumenge (l987), o isolamento insular tem grande influência sobre os mecanismos biológicos não-humanos, resultando no empobrecimento das espécies e numa maior fragilidade das associações. A repartição das espécies vegetais ou animais, terrestres ou marinhas, é diretamente tributária da distância da ilha em relação ao continente...O isolamento, que diminui fortemente o número de espécies de povoamento, protege os primeiros ocupantes retirando-os das pressões da competição posterior. As espécies antigas, que são eliminadas nas regiões continentais, em benefício de espécies novas, mais adaptadas, podem subsistir nas ilhas" (Diegues,1998: 63). Portanto, a vida insular é bastante específica para todos os seres vivos. Se, por um lado os seres estão reduzidos a uma fronteira limitada pela água, por outro, estão protegidos de certas invasões. Essa situação produz um imaginário específico nos habitantes que são influenciados pela presença da água, seja de rios ou do mar, onde tanto pescadores como pessoas das mais diversas atividades, sentem-se envolvidas por histórias, lendas, mitos, imagens, ruídos, cores, etc, no seu cotidiano.

As diversas ilhas que localizamos no mapa possuem formações físicas bastante variadas onde, dependendo de sua localização e de seu tamanho, podem apresentar especificidades econômicas, políticas e sócio-culturais. Como já afirmamos acima, existem ilhas que possuem uma economia voltada para o seu interior, uma economia agropecuária que retém seus habitantes mais no interior que no litoral. Embora isso não signifique a ausência da pesca e do contato da população com o mar ou com o rio, é o comércio dos produtos da terra que faz o contato da ilha com o mundo continental.

Cuba é um exemplo de ilha cuja economia esteve, desde a sua colonização pelos espanhóis, marcada pela agricultura onde o açúcar e o tabaco colocaram-na em destaque no mundo como grande exportadora. Sua localização privilegiada, na entrada do Golfo do México, no Oceano Atlântico e seu tamanho, 114.524 km2, favoreceram tanto a produção quanto o comércio desses artigos. Nos primeiros tempos coloniais a ilha servia de ponto de partida para diversas expedições espanholas ao continente como podemos perceber nos relatos de Alvar Nuñez Cabeza de Vaca em sua malfadada viagem à Flórida (Nesse sentido podemos concordar com Fernand Braudel quando ele afirma queLa gran historia, en efecto, pasa frecuentemente por las islas; acaso sería mas justo, tal vez, decir que se sierve de ellas (BRAUDEL,1953: 129) . Refere-se aqui às questões econômicas que envolvem a agricultura: Ex: a cana-de-açucar que foi das Índias para o Egito passou por Chipre no século X, depois foi para a Sicilia no século XI, depois para Ilha da Madeira, que foi a primeira ilha açucareira do Atlântico, depois foi para os Açores, as Canárias, Cabo Verde e, por último, às terras da América).

Não resta dúvida que é uma bela ilha e percebemos essa beleza desde os depoimentos de Cristóvão Colombo, que ali aportou pela primeira vez em l492, até aos catálogos das empresas de turismo que, hoje em dia, vendem a ilha como um lugar paradisíaco onde qualquer um de nós gostaria de passar as férias. É essa imagem que produz hoje a terça parte da renda daquele país, pois os dólares deixados pelos turistas representam uma grande parte da economia cubana.
 

A busca de identidade insular e americana
 

Vista aérea da Ilha de Manhattan, em Nova York
Segundo Jorge Rodriguez Padrón (1982:09), a nova narrativa canária surgiu a partir dos anos 70, e não antes, por causa da tradição narrativa naquela ilha e por causa, também, do progresso do modernismo e sua propagação pelas ilhas. O modernismo nas ilhas tendeu a explorar o caráter híbrido e sincrético da cultura ilhena. Dentro desse padrão, desenvolveu-se largamente a poesia deixando para trás o gênero narrativo que ofereceu, desde de então, poucas novelas, raramente com alguma notoriedade. Geralmente foram escritas por poetas que se aventuraram pela prosa ou por escritores peninsulares que tentaram abordar o tema da insularidade mas, devido a sua falta de contato com a realidade, acabaram empobrecendo suas obras.
Rodríguez Padrón, acredita que a narrativa exige uma atitude intelectual mais sagaz. A narrativa pressupõe uma consciência analítica da linguagem (1982:09) Diz ainda que a linguagem do insular é ocultadora e introvertida, por conseqüência, e por isso facilita a linguagem poética e dificulta a narrativa. Desse modo, a carência da linguagem narrativa na literatura insular é o resultado da falta de nível intelectual e de compreensão social de seu próprio meio, por parte dos escritores insulares. Para ele, a novela é produto dessa necessidade de explicação que uma sociedade sente quando alcança um nível suficiente de desenvolvimento intelectual e social. Entretanto se faz uma literatura complacente com a própria imagem que não ultrapassa os domésticos limites da insularidade (1982, 09)

A nova narrativa insular, segundo Padrón, teria nascido com o intuito de uma explicação para uma crise de identidade, característica de um povo com uma responsabilidade híbrida e ambígua, referindo-se às Ilhas Canárias. Mas nos remetemos à Cuba e pensamos que pode-se considerar o povo cubano como portador de caraterísticas parecidas: insularidade, hibridez, busca de identidade literária.

Essa crise de identidade foi evidente em toda a América nas primeiras décadas do século XX. A Semana de Arte Moderna, em 1922, no Brasil, por exemplo, foi um passo para romper com as influências européias na cultura brasileira, ou melhor, uma tentativa de estabelecer nas artes, um parâmetro de brasilidade seja na estrutura literária, na temática ou no estilo da pintura e da escultura, buscando, principalmente uma liberdade estética. Seguidamente, vemos a busca dos intelectuais pela identidade do povo brasileiro quando surgem obras como "Casa Grande & Senzala", de Gilberto Freire; "Raízes do Brasil", de Sergio Buarque de Holanda e "Formação do Brasil contemporâneo", de Caio Prado Júnior.

Diversos países da América Latina se empenharam nessa busca onde podemos destacar obras como "Ariel", de Rodó (1900); "Contrapunto cubano del tabaco y el azúcar", de Fernando Ortiz (1940); "De la conquista de la Independência", de Picon-Salas (1944); "História de la cultura en la América Hispânica e Currientes literárias en la América Hispânica (1947 e 1949)", de Pedro Henríquez Urêna, entre outras.

Tanto quanto Otávio Paz em "O labirinto da solidão" (1950) tentou compreender (ou explicar) o ser mexicano através de uma perspectiva existencial, do ato de observar o horizonte e abrangência hispano-americana, Jose Lezama Lima o fez em "A Expressão Americana" com relação ao seu povo. A série de ensaios que escreveu e as conferências que proferiu sobre o tema, no Centro de Altos Estudos de Havana, apenas dois anos antes da Revolução, vieram acrescentar reflexões acerca do conceito de americanidade que já vinha sendo discutido desde o século XIX.

Um dos pontos que Lezama Lima destaca a respeito da americanidade é a existência de uma geografia única, uma natureza que, anterior à história, a prefigura como unidade espiritual indissociável no Ocidente (Chiampi in L. Lima, 1988:20). E dentro desta geografia incluem-se os Estados Unidos, pois, afinal, para Lezama a história vem depois da geografia e a América é uma só. E voltando-se à questão específica da história de Cuba ele afirma desejar nada mais nada menos que a introdução ao estudo das ilhas sirva para integrar o mito que falta aos cubanos. Porque são obrigados, forçosamente, por fronteiras de água, a uma teleologia da insularidade (Barreto, 1996:17 ).

Em 1934 surge a obra "Insularismo", do portorriquenho Antônio S. Pedreira onde nota-se um pessimismo com relação à questão da insularidade, considerando-a um mal nacional. Lezama Lima discorda desse autor e defende sua opinião, apoiado no alemão Léo Frobenius (1873-1973) que, ao estudar as culturas da costa da África, compara a identidade dos povos do litoral e do interior e considera a cultura como a essência espiritual de cada povo ou paideuma (Cruz-Malavé, 1994: 35).

Cruz-Malavé acredita que este foi o primeiro trabalho otimista com relação à insularidade e que Lezama Lima, desde a época do Colóquio com Juan Ramón Jimenez (l936), consegue afirmar o tema da ilha como uma realidade não só natural ou cultural, mas também indicadora de uma possibilidade menos restritiva que a puramente geográfica. Lezama propõe a insularidade, não como o mal nacional representado no pessimismo insular, mas como uma categoria ontológica do cubano (Cruz-Malavé, 1994,35).
 

José Lezama Lima e a discussão sobre a insularidade.
 

Vista da cidade de Havana, em Cuba
No capítulo entitulado "O centro e o excêntrico", do livro "A Libélula, a pitonisa – Revolução, homossexualismo e literatura em Virgilio Piñera", Teresa Cristófani Barreto refere-se ao encontro entre José Lezama Lima e o poeta espanhol Juan Ramón Jimenez em Cuba e suas opiniões a respeito da noção da insularidade sob o aspecto cultural.

Para Ramón Jimenez, Os que vivem em ilhas devem viver para dentro, e cita os irlandeses como exemplo de povo que vive sufocado. Esse isolamento estaria explícito na obra de James Joyce através da personagem Stephen Dádalus, de Ulisses, para quem seu ideário haveria de ser silêncio, desterro e astúcia.

Quando fala de Cuba o poeta espanhol sugere: "vocês ficaram mais atentos aos barcos que lhes chegaram do que no refluir de ondas que eles provocaram". Em outras palavras, para ele, os cubanos estariam apenas envolvidos com o seu habitat e não com o além de suas praias.

Mas Lezama Lima, contrário à opinião de Ramón Jimenez, afirma que o estar cercado de água por todos os lados é enriquecedor e favorável à formação de uma cultura específica e que, se por um lado o fluir das ondas trouxe doenças para Cuba – "sarampo, resfriado, lepra venérea, câncer de próstata, lepra hereditária e a lepra criadora (A Lepra criadora, para Lezama Lima, é o Barroco.) (...)", por outro lado estas mesmas ondas trouxeram "(...) pedacinhos de nácar milimétricamente lustrados em outras épocas e latitudes, lá nos confins da terra. Lá onde, do oceano profundo, emerge a ilha dos Bem-aventurados, habitada por heróis afortunados de coração tranqüilo" (Barreto, 1996:17).
 

Nesta discussão, percebemos que os dois interlocutores possuíam opiniões divergentes a respeito da insularidade. Enquanto o primeiro reconhece na vida ilhada a claustrofobia e a sufocação, o segundo reconhece transmutação, riqueza imaginativa, fecundidade, criação. Lezama Lima vê em Cuba a possibilidade de transmutar a imaginação européia. A verdadeira expressão americana, para ele, deveria frutificar de uma poesia como via paradisíaca (Barreto, 1996:19).

Lezama Lima

Acreditando na profusão da cultura trazida pelas ondas, fruto do seu pensar poético, e na riqueza que dela emerge, Lezama investe toda a sua vida à tarefa de juntar, da melhor forma possível, todos esses ingredientes com o fim de enriquecer a sua língua e, através dela, trazer aos olhos do leitor uma imagem do ser cubano. Imagem essa que somente conseguiria através do barroco. Heloísa Lezama Lima, sua irmã e crítica literária, assim define esta busca do autor: "No es necessário decantar la caraterística barroca de Lezama de emarcar las relaciones humanas com el reino vegetal, com el paisaje (...)" e cita um trecho de uma entrevista em que Lezama explica como escolhe e define seus personagens:

"(...) un presunto trasunto de mi personalidad aparece com el nombre de José Cemí, que és facil para todos los cubanos o seu deciframiento: ‘Cemí’, um ídolo, una imagem, por eso uno de los personajes, si no el central, por lo menos el impulsador de la novela, se llama Cemí" (Lezama Lima, 1995:64). Dessa forma, em toda a obra de Lezama, existem traços que podem identificar a cultura cubana através de símbolos e analogias que se relacionam com o passado das raízes pré-colombianas de mitos e deuses, a influência da cultura européia e sua língua, a presença da cultura africana e das etnias vindas com a imigração, significando um cadinho em forma de ilha a fervilhar e produzir um ser cubano. Para ele, a situação geográfica de Cuba colabora eficazmente para que esses ingredientes entrem em ebulição nas águas que circundam sua terra.

A natureza, para Lezama, possui espiritualidade e não pode estar desmembrada da poesia, tampouco da História. Acreditava ele que a largueza do espaço americano propiciou o surgimento pleno da cultura nas Américas. Ele propunha uma visão histórica da América através de um devir de uma paisagem e, nesta visão, a natureza está incluída. (Lezama Lima, 1988:23)

Para Irlemar Chiampi, esses pressupostos, mesmo que não se compreenda-os muito bem, levam a uma alusão à novidade geográfica da América, própria à transculturação (Lezama.Lima, 1988:23). Que, embora isso seja uma abstração, uma construção de conceitos, pode identificar na literatura de Lezama o seu projeto de tecer a imagem da História.

"(...) Lezama era um poeta insular: en primer lugar, porque era cubano, habitante de una isla, razón evidente; en segundo momento, porque su obra quedó aislada, solitária, hasta que poco a poco – en ocasiones penosamente - se fue allegando lectores que fueron descubriéndola, explorándola valorándola" (Huerta in Lezama Lima, 1988:24). Parece-nos que Huerta está sugerindo que Lezama Lima é uma ilha a ser explorada e que foi assim que tornou-se conhecido e lido. Sua poesia é bastante enigmática e exige uma certa gama de informações prévias para compreendê-la. Severo Sarduy afirma que Martí foi responsável pelas primeiras raízes imaginárias de Cuba e que Lezama foi o descobridor de uma outra imagem do cubano que, conforme ele, algum dia, alguém fará visível.

No filme "Morango & Chocolate", observa-se uma cena em que o professor, admirador de Lezama Lima e dos grandes mestres da literatura universal, prepara um almoço lezamiano a fim de apresentar o Mestre ao seu novo amigo, um estudante, membro do Partido Comunista, que o vê com olhares suspeitos de quem, a qualquer momento, o entregará aos oficiais do regime castrista.

O almoço lezamiano era, na verdade, a prática de uma cena do romance "Paradiso", onde Lezama mostra a variedade da comida cubana, composta por diversos frutos do mar e temperada pela variedade da cultura de seu povo, como podemos observar:

"Doña Augusta destapó la sopera, donde humeaba una cuajada sopa de plátanos. – Los he querido rejuvenecer a todos – dijo – transportandolos a su primera niez y para eso le he añadido e la sopa un poco de tapioca (...)

Troquemos – dijo doña Augusta para terminar la ociosa discusón –, el cenario centella por longostino remolón -. Hizo su entrada el segundo plato en un pulverizado souffle de mariscos, ornado en la superficie por una cuadrilla de longostinos dispuestos en coro, unidos por parejas, distribuyendo sus pinzas el humo brotante de la masa apresentada como un coral blanco.

Una pasta de camarones gigantonas, aportados por nuestros pescadores, que crei com ingenuidad que toda la plataforma coralina de la isla estava incrustada por camada de camarones (...) Formaba parte también del soufflé, el pescado tambíen llamado emperador (...); langostas que mostraban el asombro cardeno conque sus carapachos habián recibido la interrogación de la linterna al que marles lso ojos saltones.

Despues de este plato de tan lograda apariencia, de colores abiertos, semejante a un flamigero muy cerca de un barroco (...), doña Augusta quiso que el ritmo de la comida se remansase con un ensalada de remolacha que recibia el espataluzo amarillo de la mahonesa, cruzada con espárragos de Lubeck (...)" (Lezama Lima, 1995:320)

A personagem Dona Augusta era avó de José Eugênio Cemí, aquela que conta as histórias que perpassam gerações em qualquer família. Em "Paradiso" não era diferente. Romance autobiográfico, ela representa grande parte da cultura de Lezama Lima pois, na verdade, representa a sua própria avó.

Em Lezama Lima as personagens não surgem do embate ideológico da esquerda marxista nem da desfiguração de carne que podemos observar nos contos frios de Virgílio Piñera. Elas surgem de um paraíso, não perdido mas escondido, que cerca o viver do povo cubano. Os versos de Lezama vão trazendo à tona imagens que o cubano vê mas não analisa no seu dia-a-dia e, muito menos, escreve sobre elas. Como aqui:

"(...) Já não esperava pela próxima onda, e sim a cambiante atração dos botões azulados, iguais, desiguais, surgiam, submergiam. A onda que se espraiava, depois a fixidez de um dos botões, o outro era tão improvável. O olhar umedecido alongava peixes asfaltados. Era como se um grou, ave suave, fosse absorvido pelo asfalto exigente que podia ostentar assim sua nova marca de grou asfaltado" (Lezama Lima, 1993:19). A literatura de Lezama é feita de símbolos e metáforas que, para compreendê-las é necessário um prévio estudo. Por outro lado, para fazer análises mais aprofundadas sobre a sua obra é preciso debruçar-se sobre as teorias literárias, o que seria trabalho para outro momento. Aqui nos coube destacar alguns dos elementos que favorecem a afirmação de que a insularidade é elemento positivo e engrandecedor da obra de Lezama Lima na qual demonstra suas características de homem insular.
 
 

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