CAMINHOS E DESCAMINHOS

Renato Pignatari Pereira
renato_pignatari@klepsidra.net
3º Ano - História/USP
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RESENHA: BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio, Caminhos e Fronteiras, São Paulo: Companhia das Letras, 1994, 302 p, 3 ed.

Originalmente publicado em 1957, o instigante Caminhos e Fronteiras de Sérgio Buarque de Holanda completa quarenta e dois anos de existência, excelente momento para repensarmos nossa história - ano que vem será comemorado o quinto centenário do descobrimento - nossa historiografia e nossa identidade cultural. Centrado no período colonial de São Paulo, não pelo fato de o autor ser paulista, mas sim, como disse Fernando Novais no excelente prefácio, pelo fato de esta cidade ser o polo modernizador do Brasil, o livro indaga pelas nossas raízes.


Sérgio Buarque de Holanda
Formado por estudos anteriormente publicados em revistas nacionais e estrangeiras, assim como por capítulos presentes em Monções (1945), o trabalho, fundamentado numa grande variedade de documentação - inventários, testamentos, relatos de viagens etc - é dividido em três partes: Índios e Mamalucos, Técnicas Rurais, O Fio e a Teia. A primeira discorre sobre a forte e constante influência dos grupos ameríndios sobre o modo de viver e pensar dos adventícios, os quais, como forma de sobrevivência na insalubridade da capitania de Martim Afonso, além de desprovidos de maiores cuidados por parte da Coroa Portuguesa, amalgamaram a cultura material (armamentos, culinária, coleta do mel etc) dos grupos nativos à sua própria identidade, desenvolvendo a partir dela técnicas e mentalidades que até hoje são observadas; a segunda parte trata das tentativas de introduzir tecnologia e hábitos europeus - p. ex. o arado e o trigo em solo brasileiro- e sua recepção por parte dos indígenas; a terceira fala sobre as técnicas têxteis, tanto ameríndias quanto adventícias. O estudo também apresenta, além de introdução feita pelo próprio autor e do prefácio supracitado, útil índice remissivo, que permite ao leitor não somente achar um ponto específico, mas também possibilita uma leitura não linear.

Objetivando a formação das mentalidades paulistas coloniais, decorrente da dialética colonizador - colonizado, todo o texto é permeado por uma idéia central. O fato de que a colonização não se deu de maneira homogênea no campo das mentalidades, isto é, nem sempre os portugueses foram os colonizadores, mas muitas vezes colonizados pelos hábitos do "negro da terra" (índio). Na dialética colonial, ambos os lados tiveram sua parcela de aculturação, cabendo ao português adaptar-se às técnicas do gentio para garantir sua sobrevivência. Desse constante choque de vivências e mentalidades surge a figura do mamaluco, metáfora de uma mestiçagem não apenas física e biológica, mas sim cultural e intelectual; não é à toa que o autor prefere o vocábulo arcaizante mamaluco em vez do corrente mameluco, porquanto o primeiro designa, na obra, a gênese de nossa cultura. Subvertendo boa parte da historiografia brasileira anterior, o estudo mostra que os indígenas não foram apenas subjugados em sua sociedade e cultura, mas também foram parte estruturalmente imprescindível para o "sucesso" da empresa colonial.

O próprio título da obra não deve ser pensado apenas em seu significado estrito e literal, isto é, os caminhos e fronteiras encontrados pelos bandeirantes, mas sim refletido de acordo com os caminhos que a sociedade brasileira encontrou para si própria e para suas tradições mestiças.

Partindo da civilização material, e acerca dela tecendo comentários, o autor chega ao nível das mentalidades e dos entrecruzamentos culturais que até hoje permanecem, salvo as modificações impostas pelo advento da "modernidade", em algum lugar do interior paulista. O aspecto aparentemente simples e pouco importante do cultivo de abelhas em cabaças, para que destas se extraia o mel, é até hoje encontrado em alguns lugares, não sendo apenas herança do bandeirantismo, mas sim marca presente (no tempo e no espaço) de uma cultura mestiça em suas raízes mais profundas; a própria toponímia brasileira marca essa forte dialética colonial, cuja síntese resultante encontra-se em nossa sociedade hodierna.

Toda grande obra é ponto de partida para outra. Em Caminhos e Fronteiras é visto como os primeiros colonos paulistas receberam a influência indígena e dela fizeram objeto básico para o quotidiano. A obra cumpre impecavelmente a sua proposta, entretanto, seria interessante observar futuros trabalhos que enfoquem de que modo as técnicas, a civilização material e as mentalidades adventícias influenciaram as mentalidades indígenas, ou adicionar mais um elemento à dialética de Fronteiras, isto é, o escravo negro; ou ainda, observar os impactos que a sociedade indígena trouxe às mentalidades religiosas. Não obstante, resta saber, para o bom andamento das futuras pesquisas, assim como para assegurar que as memórias da nossa mentalidade não estejam somente em livros ou em museus, se a tecelã mencionada pelo autor na terceira parte da obra ainda pode ser encontrada tecendo redes em Sorocaba, ou se sucumbiu perante o "progresso".