MITOMANIA OU MANIA DE MITO?
Erik Hörner
erikhorner@hotmail.com
Depto. de História/USP
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No momento do nascimento da Klepsidra todos se propuseram a escrever e pensar apenas no que lhes dava prazer. Dispus-me a reservar um espaço para a mitologia, assunto que mesmo aqueles que “não simpatizam com a História” apreciam.
 

Fazendo uma breve pesquisa para que nada de errado fosse dito aqui, me deparei com uma discussão comum a todos os estudiosos da área: “o que é o mito?” e “o que é a mitologia?” Em meio a esse boom de aficionados por mitologia surgem filmes e séries televisivas como “Hércules” e “Xena” que acabam por colaborar (involuntariamente eu suponho) com a atual concepção de mito: idéia falsa, sem correspondente na realidade, coisa irreal, assim como aparece entre outras significações no Dicionário Aurélio. Esses sentidos impregnados de um conteúdo pejorativo levaram ao surgimento da palavra “mitomania”.

Seria mais interessante e prudente definir o mito por sua funções. 

A primeira delas seria a narração, o mito conta; conta sempre o nascimento, a origem de algo, como começou a ser, não importa se algo concreto como a humanidade, o mundo, uma montanha, ou algo abstrato e impalpável como um sentimento, uma instituição, uma tradição. Assim define Mircea Eliade: “O mito conta uma história sagrada, narra um fato importante ocorrido no tempo primordial, no tempo fabuloso dos começos”.

A segunda função seria explicativa. O mito faz parte de um jogo de perguntas e respostas, ele responde aos “porquês” do homem: “Por que o Sol nasce e se põe?”, “Porque há maldade no mundo?”

Apesar do mito apresentar uma explicação atualmente encarada como fantástica e ilusória, não há como negar sua forte carga de imagens, símbolos e alegorias capazes de penetrar na mente humana, justificando sua apropriação pela psicanálise. Segundo Gilbert Durand o mito pode ser entendido como “um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas”.

Finalmente a terceira função, mas não necessariamente a última: o mito revela. Revela o ser, o deus, revela tanto o visível quanto o invisível aos olhos, e por isso pode ser apresentado como “uma história sagrada”.

A partir dessa breve e mesmo superficial definição surge mais uma pergunta: “Então quem é o pai da criança?” Os mitos não têm autor, sequer em mitos com suposta autoria como a “Odisséia” o autor é com certeza aquele que assina. Homero mesmo é considerado uma figura mítica. O mito brota de uma coletividade com a nítida função de saciar a curiosidade desta mesma coletividade, existindo apenas dentro de uma tradição, como escreveu Claude Levi-Strauss em “O cru e o cozido”.
 

No entanto pode-se pensar que esta tradição não é compatível com a atualidade, significando a morte dos mitos. Absolutamente, deve-se pensar que estamos diante de uma tradição mitológica e que esta nunca morrerá, pois representa o alimento, a ambrosia da literatura e agora também do cinema e da televisão.
Antes de prosseguirmos com a discussão sobre o mito seria interessante estabelecermos claramente o significado do termo mitologia. Mitologia em seu sentido etimológico é o discurso sobre o mito. Mas entendida usualmente como o conjunto codificado de mitos e restringido normalmente ao conjunto greco-romano, completamente compreensível se considerarmos a enorme influência greco-romana no mundo ocidental.

Tal influência é singularmente marcante nas artes pois há uma simbiose vital, enquanto a mitologia inspira as artes, as artes imortalizam e projetam os mitos. Tanto os mitos quanto as artes narram, contam, ilustram e revelam o que não é visível a todos, mas totalmente claro para alguns, para aqueles que transmitem, seja através da voz, da escrita ou da pintura.

Novos mitos nascem constantemente, “influenciados” pelos antigos e com sua carga de originalidade. Daí a grande dificuldade em se agrupar os mitos segundo seu tipo, eles podem ser universais ou regionais, naturais ou construídos com uma proposta ideológica. As classificações mais comuns e fáceis de se constatar para os mitos contemporâneos são três: os literários, os político-heróicos e os cinematográficos.
Em seu sentido mais direto e imediato o mito literário seria aquele que nasceu da literatura, como Fausto, Don Juan, Capitu, entre muitos outros. Esta classificação se mostra muito frágil se levarmos em consideração que todos os mitos gregos, por exemplo, de uma forma ou de outra foram imortalizados pela literatura ocidental. No entanto podemos usar o termo de uma forma mais simplificada, remetendo apenas àqueles nascidos da pena dos autores modernos (ou não pertencentes à antigüidade).
 
 

Frases célebres, vitórias brilhantes e personalidades fortes, temos praticamente todos os ingredientes necessários para o surgimento de uma figura mítica político-heróica como Alexandre, César, Luís XIV e Napoleão, entre outros políticos e/ou heróis modernos. Não importando se decorrentes de façanhas ou fiascos pessoas antes comuns se tornaram lendárias e formadoras de ícones para a história, possuindo todas as características do mito: elas contam, explicam e revelam uma época ou o nascimento de uma forma de pensar.

Por sua vez em uma época mobilizada pela indústria da propaganda e do consumo, nada mais natural que o surgimento de uma indústria do mito: o cinema. Todos os anos centenas de candidatos a mitos são lançados aos olhos de um júri totalmente heterogêneo de culturas e pensamentos ímpares. Como em todo concurso alguns são coroados com a “vida eterna”, convidados a adentrar o Olimpo holywoodiano, como aconteceu com os personagens Super-Man e James Bond  ou com pessoas de carne e osso como Marilyn Monroe.

A discussão acerca da conceituação do mito é vastíssima e complexa, não pretendo e nunca pretendi elucidar todos os pontos nestas poucas linhas, mas podemos com certeza admitir que apesar de não existir uma viva alma que creia e cultue os deuses do passado, todos nós respiramos e vivemos o mito, todos nós temos o desejo de fazer parte do mito e entender o mundo como um palco onde não há coadjuvantes, todos são atuantes e estrelas.