Cultura no Brás no Início do Século XX:
Teatro Anarquista e Cinema Burguês
 

Gabriel Passetti
passetti@palmeirasonline.com
Depto. de História - USP
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 No processo imigratório para São Paulo, milhares de italianos vieram e um grande número se estabeleceu no bairro do Brás. Chegaram aqui persuadidos pela necessidade de mão de obra na nascente indústria paulistana e nas fazendas de café. Não trouxeram somente sua força de trabalho: junto a ela vieram sua cultura e ideologia. A imigração atingiu seu apogeu ainda na República Velha, período marcado pela indiferença social, repressão e uma economia monocultora voltada para o mercado exterior, além do autoritarismo da elite agrária, que utilizava seu poder institucionalizado para fazer o que bem entendia com o país, aproveitando a máquina estatal para seu benefício próprio.

Com o intuito de conservar-se no poder, essa elite agrária dificultou ao máximo o desenvolvimento da indústria, e deste modo reprimiu a formação de novas classes sociais que viessem a conflituar com ela pelo poder.

No entanto, mesmo com o empecilho à atividade industrial esta desenvolveu-se no país, principalmente nos seus dois principais núcleos urbanos, São Paulo e Rio de Janeiro. No primeiro, a atividade concentrou-se no bairro do Brás, onde instalaram-se as poucas indústrias que contavam com o investimento de cafeicultores e as pequenas indústrias dos imigrantes italianos. Eles viram alguns poucos de seus integrantes conseguir fixar-se como industriais e crescerem economicamente, tendo em Matarazzo seu principal emblema. Esse processo de enriquecimento fez com que alguns trabalhadores voltassem a sua percepção e destinassem a sua força de trabalho para a acumulação de capital tentando seguir o exemplo dos compatriotas enriquecidos. A maioria destes imigrantes organizou-se em sindicatos e sociedades de classe para reivindicar melhorias nas condições de trabalho e de sobrevivência.
 

Parte da enorme quantidade de capital proporcionada aos fazendeiros pela produção de café foi investida em estradas de ferro e indústrias, tendo sido São Paulo o principal palco escolhido para isso. Ao chegarem fugidos da lavoura, os imigrantes viam que sua única possibilidade de sobrevivência estava nos bairros operários, tanto como trabalhadores da indústria quanto como comerciantes, artesãos ou vendedores. Isto, proporcionou um enorme crescimento do bairro do Brás, onde grande parte dos imigrantes, principalmente italianos, veio a acomodar-se.

Neste novo mundo do trabalho, o operário via-se dentro de uma sociedade que se tornava cada vez mais complexa, porém ainda extremamente arcaica, onde o proletariado imigrante vivia numa estrutura fabril parecida com a do início da Revolução Industrial em seus países de origem.


Vista do Brás em 1920, com destaque
à fábrica de Matarazzo

Diversas ideologias apareceram e duas principais conflituavam entre si no meio dos próprios italianos: a primeira delas, de exploração do trabalho submisso nas fábricas para a acumulação de capital e posterior subida na escala social, era encabeçada pela figura do italiano enriquecido Francesco Matarazzo; a outra, de luta contra o sistema capitalista burguês de repressão, via governo e Igreja, era encabeçada pelos anarquistas.

A situação de conflito ideológico levou cada lado a utilizar-se de um meio de comunicação em busca de adesão. Os capitalistas utilizaram-se do cinema europeu e americano de ostentação e os anarquistas do teatro libertário, dos bailes e das escolas alternativas como meio de formação intelectual do operariado para a contestação do sistema.

A fixação pela figura do Conde Matarazzo fez com que estes trabalhadores fechassem os olhos para a exploração a qual estavam submetidos e constatassem que nunca conseguiriam ser como seu ídolo. É neste momento que surge a força e a importância da organização trabalhista anarquista, empenhando-se em denunciar a verdadeira situação do proletariado. Para isso, utilizou-se de meios que agregassem os membros da classe e atraíssem a atenção de todos, desde a panfletagem até a formação de sindicatos, escolas alternativas, organizações de classe, centros de cultura, círculos de palestras, bailes, greves e principalmente a atividade cultural teatral.

O governo mostrava-se omisso quanto à educação da população, possibilitando a instalação de escolas libertárias nos bairros populares pelos anarquistas. Eram as chamadas Escolas Modernas e ensinavam tanto as matérias normais quanto a importância destes filhos de operários dentro do sistema, sensibilizando-os para a causa anarquista e libertária, indo contra qualquer meio de repressão, principalmente as escolas “emburrecedoras” oficiais e as da Igreja.

As escolas libertárias e os centros de cultura eram mantidos financeiramente com doações e as receitas de bailes e de peças teatrais, evidenciando a importância da realização destas atividades tanto na formação da população quanto para a continuidade do processo educacional.

Após grande repressão governamental em 1917, as concentrações voltaram-se principalmente para a atividade teatral. Seus primeiros registros datam de 1902. Estas peças representavam obras européias, no início somente em italiano e algumas em espanhol. A partir de 1914 iniciou-se um processo de tradução das peças, pois o proletariado não era mais somente constituído de italianos e espanhóis. Isso teve um forte impulso a partir do desencadeamento da Primeira Guerra, quando a produção cultural na Europa sofreu uma estagnação e assim começaram a surgir os primeiros textos anarquistas brasileiros.

Em todas as peças representadas o ponto de vista era o do operário, mostrando principalmente o cotidiano desta população: greve, delação, relação empregador-empregado e a condenação de um estado de apatia da classe com relação as desigualdades sociais. As encenações eram precárias, devido à falta de recursos, fazendo com que as mesmas peças, com os mesmos cenários e figurinos fossem representadas repetidamente; no entanto, isso ajudou a melhorar a qualidade do espetáculo e a formar uma consciência de classe. Convém salientar que a mensagem das representações era mais importante do que sua estética.

No início do século, devido à falta de escolas de teatro e de incentivos, não era grande o número de atores profissionais no Brasil, fazendo com que os poucos existentes fossem absorvidos pelo teatro oficial do centro, que também incluía uma programação nacional em rodízio com companhias estrangeiras. Deste modo, aos teatros de subúrbio não havia disponibilidade de atores profissionais, o que dificultava a encenação de mais obras libertárias.

Para suprir esta dificuldade, os centros de cultura, sindicatos e associações uniram suas forças para a formação de atores dentro dos próprios trabalhadores associados, constituindo assim os primeiros grupos amadores de teatro que sempre passavam a representar obras anarquistas européias.

Com o tempo, parte dos grupos manteve o amadorismo, uniformidade e especializou algumas famílias, sendo as mais famosas e atuantes as dos Valverde Dias e dos Cuberos. Foram surgindo também grupos profissionais, que não necessariamente encenavam peças libertárias, mas tinham no repertório peças que tratavam do tema de associações trabalhistas e exploração do proletariado. Todavia, o que mais encenavam eram peças anti-clericais.

O trabalhador do Brás reservava o período entre as 20 horas de sábado e as 16 horas de domingo como seu único período de lazer, e queria retirar o máximo de proveito desta situação. As peças anarquistas passaram a apresentar mais e mais atividades aliadas a elas, como conferências, peças infantis e bailes.

Os encontros anarquistas aconteciam principalmente nos salões dos centros de cultura e sindicatos e nos grandes teatros da região, o Teatro Colombo, o teatro da Sociedade de Beneficência Guglielmo Oberdan e nos salões da Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas.
 

O Teatro Colombo foi o principal do Brás, localizado no Largo da Concórdia. Antes de ser transformado em teatro nele funcionava o Mercado do Brás, construído em 1897, e pouco tempo depois convertido em centro das atividades culturais do bairro. Sua capacidade era para 1.968 pessoas, em diferentes andares e acomodações. Sempre quando aberto estava lotado. No decorrer do século, o Colombo foi transformando-se de teatro em cine-teatro, e em seu final em apenas cinema, quando foi devorado por um grande incêndio.

Teatro Colombo, no Largo da Concórdia

A Sociedade de Beneficência Guglielmo Oberdan localizada à Rua do Gasômetro, próxima do Teatro Colombo, foi um dos principais pontos de encontro no bairro por muito tempo, pois em seus salões realizavam-se os mais famosos bailes, com peças de teatro. A exemplo do Teatro Colombo, mais tarde foi transformada em cinema. O local ficou marcado na história do Brás por uma tragédia que lá ocorreu, quando houve um principio de incêndio com pânico generalizado que resultou na morte de 31 pessoas. Destas, 30 eram crianças. A tragédia revelou uma face da situação dos cinemas na época, que competiam pela maior lotação e não aplicavam recursos suficientes para a prevenção de acidentes.

Em 1891 pedreiros e carpinteiros uniram-se na forma de cooperativa para a formação de convênio médico para os familiares dos profissionais destes ramos. Alugaram um prédio e contrataram médicos e dentistas, fazendo surgir a Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas na Rua do Carmo, local importantíssimo para a representação artística na cidade de São Paulo.

Nos salões da AACL realizavam-se os maiores bailes e as principais peças anarquistas do Brás, sendo este sempre um grande local para convenções políticas, o que acabou sendo desarticulado somente a partir da ditadura varguista do Estado Novo.

A exploração dos trabalhadores e falta de assistência por parte do governo da República Velha fez abrir cada vez mais um vão entre a produção artística e cultural de cada lado do Rio Tamanduateí, que se transformou literalmente num divisor de culturas.

A imprensa burguesa, com seus jornais e corporações informativas, não noticiava as atividades teatrais anarquistas, criando um boicote a esta produção, obstaculizando a divulgação de organizações do proletariado em seus meios de comunicação.

Combatendo a falta de recursos governamentais, os centros de cultura continuaram a educar e ensinar os trabalhadores, não somente com peças anarquistas ou material político mas também com obras de ficção, que correspondiam a um terço de toda a importação e produção editorial destes centros. Pretendia-se, com a distribuição de livros entre os trabalhadores, conscientizá-los em relação à exploração em que viviam.

Mesmo com todo este processo de conscientização da população, houve crescimento das salas de cinema e a transformação de teatros em salas de exibição da nova arte, o cinema.  Isso ocorreu devido à repressão iniciada nos anos 20 (principalmente no governo de Arthur Bernardes)  com a instalação de processos para deportação e exílio de anarquistas. Com o enfraquecimento do movimento anarquista, os antigos teatros deixavam de ser palco para peças libertárias, passando a exibir filmes burgueses tanto europeus quanto americanos. Tal processo reduziu mais ainda a força dos anarquistas, que não conseguiram fazer frente a ele. Acabaram por perder com o tempo os grandes palcos do Teatro Colombo e do Oberdan para o cinema, que veio no início a ocupar os espaços vazios entre as temporadas de grupos teatrais e que passou a ocupar todo o tempo destes espaços.

Portanto, notamos que o movimento artístico anarquista conseguiu manter sua unidade até a repressão oficial atingi-lo frontalmente a partir dos anos 20 e a invasão do cinema. Este novo modo de arte e de representação do mundo, extremamente caro para ser produzido e barato para ser assistido, refletia para a população um ideal de mundo burguês diferente dos ideais pregados nas peças de teatro. Os anarquistas foram traídos pela falta de recursos próprios para a continuidade da educação dos trabalhadores, num momento de repressão oficial e de discriminação pelos comunistas, perdendo seus espectadores para algo se pretendia mais bonito, interessante e relaxante: o cinema. Os teatros e bailes organizados pelos centros de cultura deixaram de ser o único lazer dos trabalhadores, passando a competir e muitas vezes conviver com algo mais novo e tentador.

A mobilização social por parte dos anarquistas importunou a elite política, que mesmo com a repressão às escolas libertárias e às festas não conseguia acabar de vez com o movimento.

A situação mudou drasticamente desde Arthur Bernardes até a chamada Revolução de 30, quando Getúlio Vargas assumiu o governo. Desde a posse, seu governo adotou medidas extremamente populistas. A primeira delas foi um pacote de políticas trabalhistas que era exatamente tudo o que os operários reivindicaram por trinta anos, adicionado de alguns outros pontos.
 

Os pontos adicionais foram o tiro de queda para o movimento comunista, que estava começando após a perseguição aos anarquistas nos anos 20. O principal deles dizia que os sindicatos estariam vinculados ao Estado e dessa forma permitia um grande controle estatal sobre estas instituições, retirando grande parte de seu poder.

Getúlio conseguiu o apoio da maioria da população, pois com suas medidas deu melhores condições de vida e de trabalho para as classes mais baixas que perderam as lideranças anarquistas para o exílio e as prisões. Podemos perceber que o pacote de medidas getulistas era exatamente o que os patrões desejavam para acalmar e animar os trabalhadores que já eram brasileiros, e não mais imigrantes. Estes deixavam de reivindicar melhorias, paravam de fazer greves e ainda trabalhavam contentes, produzindo mais para o patrão. Era exatamente o que a elite precisava para ter os operários nas suas mãos, e Getúlio conseguiu isso.


Getúlio Vargas ao chegar ao Rio de Janeiro
depois da Revolução de 1930

Os anarquistas que restavam logo perceberam o real interesse deste pacote, mas não conseguiam mais o apoio dos trabalhadores, o que dificultava seu trabalho. Mesmo assim continuaram suas peças de teatro, gradativamente perdendo mais público para os filmes americanos, que representavam a sociedade de consumo e um hipotético sonho dos trabalhadores. Sem o devido apoio, o movimento foi perdendo sua força, até ser novamente golpeado em 1937, quando instaurou-se o Estado Novo.

Com um discurso que se dizia salvador da família, tradição e propriedades dos brasileiros, Getúlio instaurou alguns órgãos repressores que foram fundamentais para a destruição do movimento anarquista no Brás e no Brasil.

Com o Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP - , Getúlio controlava de perto a produção cultural do país, impedindo assim a realização de peças teatrais e conferências anarquistas e de teor socialista e anti-capitalista no Brasil.

Impedindo a realização das peças anarquistas, restava ainda para os centros de cultura e ativistas em geral a memória do que havia sido produzido e suas bibliotecas. Foi ai que o governo do Estado Novo atacou para tentar acabar com qualquer vestígio de memória sobre a educação e organização do proletariado no início do século.

Dando amplos poderes à polícia política e à polícia secreta, o governo fez uma limpeza de tudo o que lembrasse ou simplesmente mencionasse a organização operária anarquista no começo do século. Assim, invasões aos centros de cultura e a residências de anarquistas tornaram-se comuns, já que o governo tinha o intuito de prender os antigos organizadores da oposição e queimar as bibliotecas anarquistas. É por isso que até hoje há pouquíssimo material escrito sobre a produção artística nos bairros operários no período de 1900 a 1930.

Devido à “limpeza” produzida pelo Estado Novo, e a partir da educação oficial, omitiu-se da história a organização sindical e anarquista e sua imensa produção cultural no início do nosso século. É por isso que até hoje persiste o pensamento de que neste período não se produzia cultura fora dos centros burgueses; este é o motivo de só termos registros das atividades culturais elitistas, como as do Teatro Municipal de São Paulo e da Semana de Arte Moderna de 1922, por exemplo.

Atualmente, o operariado não apresenta mais a organização que uma vez já teve, que já foi uma grande resistência no passado, gerando acontecimentos como a grande Greve Geral de 1917. Isto foi obra dos governos repressores, o democrático de Arthur Bernardes e o ditatorial e populista de Getúlio Vargas, principalmente no Estado Novo, período que se prolongou de 1937 a 1945.

Um dos fatores utilizados pelo governo varguista para adestrar o operariado foi o cinema norte-americano e suas representações dos sonhos de consumo. A partir dos anos 40, o Brás tornou-se o segundo centro de salas de exibição desta arte, perdendo apenas para a Cinelândia, no centro da cidade.

Ir ao cinema era a principal atividade social da população, que via nisso algo extremamente “chique”. Isso se reflete nos grandes sucessos de público, com a construção no Brás de enormes cinemas, destacando-se o Oberdan, Piratininga, Babylonia, Universo e Roxy, com o cine-teatro Colombo acompanhando o movimento.

Estas salas representavam, em 1945 um terço dos gigantes de São Paulo, cada um com enorme capacidade de público. No Piratininga cabiam 1.034, no Universo eram 998 e no Roxy 751 pessoas. Juntamente a isso, criava-se um novo modo de vida necessário para freqüentar estas salas, onde até os bilheteiros não podiam sentar-se para trabalhar e só eram aceitas pessoas vestindo trajes sóbrios.

Gradativamente observa-se a forte presença da sociedade americana, com sua ideologia inserindo-se no interior da base trabalhadora brasileira, substituindo os ideais socialistas por ideais da sociedade de consumo.

Porém, esta situação logo se modificou, tornando-se insustentável tanto devido às crises no cinema Hollywoodiano quanto à mobilidade da população, que se transferiu do Brás para outros bairros, deixando o espaço vazio para as ondas migratórias nordestinas que chegaram com a promessa de desenvolvimento industrial do governo Juscelino Kubistschek. Esta população que não havia recebido a educação e a cultura dos italianos e não tinha dinheiro para freqüentar os cinemas deixou os gigantes do Brás vazios, levando-os posteriormente à falência.

Portanto, podemos afirmar que Getúlio Vargas concretizou o que se vinha tentando desde o início da República e a conseqüente industrialização brasileira. Seu governo teve a habilidade de transformar o operariado em massa de fácil manobra, ignorante e desinformada tanto sobre o presente quanto sobre seu passado organizado e ativo.

Este processo ocorreu a partir de 1930 quando, após a Revolução, Vargas assumiu a presidência e empenhou-se em aniquilar a organização operária. Para isso, foram utilizados vários meios, sendo eles a degradação de monumentos à cultura antiga, encerramento das atividades de sindicatos e centros de cultura, destruição de arquivos históricos sobre o tema e degradação do bairro do Brás de um modo geral, para impedir a reestruturação da antiga organização.

Dentro destes pontos notamos como se inserem o incêndio do Teatro Colombo durante a Ditadura Militar, abandono de vários pequenos teatros, cinemas e centros de cultura, transformação de cinemas em estacionamentos e igrejas evangélicas, queima de bibliotecas públicas e particulares sobre a organização anarquista e a transformação do bairro do Brás em local de mera passagem, onde ninguém se fixa, apenas passa, exatamente o que ocorreu com os italianos, nordestinos e atualmente com os coreanos.

A produção cultural apresenta dois principais objetivos: o entretenimento e a formação político-intelectual da platéia. Até a Revolução de 30, a cultura produzida no Brás estava destinada a formar indivíduos contestadores dentro da camada baixa da população, ou seja, as organizações anarquistas entretinham e formavam uma ideologia própria para a população.

Esta organização operária não agradou a elite, que estava vendo sua produtividade cair e a instabilidade social. O método encontrado para interromper isso, foi a introdução via ditadura de uma política populista altamente repressora e controladora, que passava um estado de felicidade e tranqüilidade para o operariado, excluindo a problemática social da população.

Deste modo, houve a destruição da memória da organização operária após a chegada da política varguista. Nunca mais esta voltou a ser o que foi, tornando-se atualmente praticamente sindicalista, sem a intenção de ensinar e trazer a cultura para a camada mais baixa da população, esperando que o governo o faça, e não tomando atitudes próprias para a criação de escolas como os anarquistas fizeram no início do século com as Escolas Modernas.

Notamos e concluímos deste trabalho que a organização operária anarquista do início do século sofreu incrível repressão pois a elite não estava interessada em ver a base da população levantando-se contra o sistema, inspirando-se nos ideais anarquistas ou da Revolução Russa que havia ocorrido a pouco.

Os governos esforçaram-se ao máximo para substituir os meios de lazer do operariado. Deste modo, saíram de circulação os centros de cultura libertária. Primeiramente entrou em seu lugar o cinema norte-americano e o rádio, e logo estes deram lugar a algo mais moderno, barato e de fácil acesso a todos: os programas de auditório da televisão.
 

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